r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

O fim da história, de Lydia Davis

81YPy2d4ZVLLydia Davis é um dos principais nomes do conto norte-americano. Tipos de perturbação, seu primeiro livro lançado no Brasil, é uma boa prova disso. Com contos curtíssimos, alguns com apenas um parágrafo ou uma frase, até os contos mais longos, Davis cria histórias como se isso fosse a coisa mais fácil do mundo. São textos que falam de solidão, relacionamentos, arte, abrir embalagens difíceis, tudo com um humor sutil, sem precisar carregar nos enfeites – isso quando tem enfeites. Mas seu primeiro romance que li não me causou o mesmo efeito.

O fim da história (tradução de Julián Fuks) é um romance curto que narra uma história de amor fadada ao fracasso. A narradora, professora e tradutora, resolve colocar no papel o relacionamento conturbado que teve com um homem mais jovem do que ela. A questão do relacionamento não gira só em torno da idade, do desconforto que ela sente em muitos momentos por estar ao lado de alguém que não compartilhou uma mesma época que ela. Há muitas diferenças de personalidade entre os dois, diferenças que eram do conhecimento de ambos desde o início. Então não foi uma surpresa, nem para a narradora nem para seu antigo amante, o fim que sua história teria. A surpresa é a obsessão que veio junto com o término.

A protagonista de Davis, durante meses, nutriu essa obsessão pelo homem, chegando a persegui-lo mesmo quando estava morando em lugares distantes. Ela não procura dar motivos para essa obsessão, seu objetivo com essa história não é fazer uma autoanálise. Apesar disso, escrever tem, sim, um sentido terapêutico. Se o relacionamento entre os dois terminou bruscamente, com a impressão de que muita coisa não foi dita ou discutida, esse livro que ela escreve é a maneira que encontrou de dar fim a uma história que nunca teve um final definitivo.

O fim da história também fala da própria ficção. A narradora quer registrar seu próprio avanço como escritora. As memórias dão lugar ao presente, onde a ela expõe suas escolhas estilísticas – como começar o livro pelo fim, não fazer um relato cronológico, tirar ou trocar a ordem dos parágrafos. E essa falta de ordem que ela se permite dar ao romance acaba contribuindo para um dos aspectos que mais me incomodaram no livro: a repetição incessante de memórias, revisitando frases e diálogos que já haviam aparecido em parágrafos anteriores.

Se os contos de Lydia Davis são bons por serem econômicos, deixando algumas pontas soltas para nossa imaginação dar conta do resto, no romance ela não conseguiu causar o mesmo efeito. Essa ânsia por explicar demais, emular a confusão da memória, onde a narradora não tem certeza do que foi dito ou feito, em que ordem as coisas aconteceram, deixa a narrativa carregada demais. Por mais que o livro seja curto e a prosa da autora seja direta, o texto perde sua força quando, mais uma vez, a protagonista volta às mesmas memórias tentando dar novos sentidos a elas.

E seu “diário criativo”, com os comentários sobre o processo de escrita, não ajudam no desenvolvimento da trama. Não que essas partes do romance sejam inúteis, mas elas não parecem casar bem com o resgate da memória que a protagonista está fazendo. E aí o livro fica morno demais.

Claro, provavelmente criei muitas expectativas por ser obra de uma escritora que eu admiro, e expectativas altas contribuem muito para a decepção. O fim da história não é um livro entediante ou totalmente desinteressante, ele tem boas passagens, bem escritas – principalmente as que falam sobre a decepção do amor e das incoerências da memória. Para um livro que não gostei tanto, ele até foi bem grifado. Mas se for para ler Lydia Davis, recomendo ficar com seus contos, que continuam maravilhosos.