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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Manual da faxineira, de Lucia Berlin

manual-da-faxineiraEu não fazia ideia de quem era Lucia Berlin até o lançamento de Manual da faxineira aqui no Brasil. Por algum motivo – talvez por causa da capa, ou do título –, não dei atenção para o livro quando começou a sair naquelas listas estrangeiras de melhores livros do ano, em 2015. Berlin não era uma autora muito lida nos EUA – sim, ela é americana –, ela era conhecida entre outros escritores, admirada por eles, mas não chegou a atingir o grande público. Não até Manual da faxineira. E não é porque seus contos são difíceis, intelectuais demais ou algo do tipo. Berlin tem uma escrita direta e bem-humorada, não é de se entender mesmo porque só anos depois de sua morte é que seus textos finalmente “estouraram”.

Manual da faxineira (tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras) reúne 43 contos dos 70 e poucos que ela escreveu até morrer, em 2004, aos 68 anos. Não é uma obra gigantesca, infelizmente. Porque é impossível não querer ler mais dela depois de terminar esse livro. Assim como é impossível separar com clareza o que é ficção e o que é sua vida, pois um dos ingredientes principais dos contos são suas próprias experiências. As enfermeiras, atendentes, professoras, faxineiras e assistentes que protagonizam suas histórias são profissões que ela mesma exerceu. Nascida no Alasca, ainda criança voltou para a cidade de sua família materna no Texas, quando o pai foi lutar na Segunda Guerra, e depois de lá viveu em diversas outras cidades dos EUA, do México e do Chile (El Paso, Oakland, Nova York, Cidade do México, Santiago…). Teve três casamentos, quatro filhos, enfrentou o alcoolismo, assim como essas personagens.

A maioria das histórias é contada em primeira pessoa, do ponto de vista das mulheres que protagonizam as histórias: uma faxineira que passa a limpar casas após a morte do marido para sustentar os filhos (no conto título do livro), outra que se especializou na limpeza das casas de pessoas recém-falecidas; professoras do colegial que tem de lidar com alunos problemáticos, ou professoras que se envolvem com seus alunos; mulheres que abandonam maridos, que têm casos, que viajam para botar ordem na vida; assistentes de médicos que acompanham pacientes pobres e desorientados; mulheres alcóolatras que tentam se manter de pé durante o dia, mulheres alcóolatras em clínicas de reabilitação; filhas abusadas pelo avô, desprezadas pelas mães, adolescentes rebeldes; irmãs que se reencontram no final da vida etc. Os nomes podem mudar, mas todas são Lucia Berlin. Como os contos parecem seguir certa ordem, o livro pode ser lido quase como um romance. Poucas histórias são contadas pelos olhos de outras personagens ou na terceira pessoa, e mesmo quando são, há sempre a voz dessa mulher.

“(Faxineira: mostre a eles que você faz um serviço completo. No primeiro dia, ponha todos os móveis de volta no lugar errado… dez a vinte centímetros mais para o lado, ou virados em outra direção. Quando tirar o pó, inverta a posição dos gatos siameses. Ponha a cremeira à esquerda do açucareiro. Troque todas as escovas de dentes de lugar.)”

O que encanta tanto nos contos de Lucia Berlin? Eles têm honestidade. Ela não floreia os acontecimentos, não usa palavras “pomposas”. Mesmo quando fala de traumas de infância – abandono, abuso sexual –, ela o faz de maneira simples. Você sabe que é uma tragédia o que está acontecendo, e fica chocado com tudo aquilo, mas a maneira como ela te apresenta isso não te faz virar a cara. Não choca por chocar, não é sensacionalista. Os sofrimentos de suas personagens estão nas entrelinhas, e não naquilo que está escrito. Porque quando fala do alcoolismo, da solidão, dos fracassos profissionais e amorosos, Lucia Berlin o faz como se contasse uma história qualquer, com um tom despretensioso de alguém que ri do próprio azar.

Em um conto, por exemplo, uma mulher faz amizade com um casal de velhos, lhes fazendo visitas toda semana, jantando e conversando com eles. Ela é ocupada, ela tem trabalho a fazer, mas sempre comparece pois não quer deixá-los sozinhos, ela é sua única amiga. E qual é a surpresa quando, num raro atraso, ela descobre que o casal a convida sempre para esses jantares porque eles consideram ela uma mulher solitária e são sua única companhia? Lucia Berlin não é piadista, porém você dá esses sorrisos por conta da atmosfera que ela cria para as histórias.

Há cenários e situações recorrentes nos textos, muitas com as mesmas personagens, outras elas estão com os nomes trocados. A mãe e o avô alcoólatras, a avô que protege a irmã mais nova da narradora, mas que não é mais capaz de salvá-la. A irmã com câncer, as lembranças da falta de amor da mãe e o rancor que ainda permanece nessas mulheres. Os velhos bêbados que compartilham seus goles com a mulher ainda jovem e esbelta. Mergulhos no México, reencontros amorosos, filhos que devem aprender a se virar sozinhos desde cedo porque a mãe está bêbada demais para cuidar deles – e dela mesma. E há histórias de pessoas que as narradoras encontram em um dia numa lavanderia, num ônibus ou numa viagem, coisas bem cotidianas que se tornam interessantes quando contadas por Berlin.

Manual da faxineira é esse tipo de livro que você quer e precisa ler devagar. São histórias boas demais para se ler com pressa, e que te deixam com vontade de saber ainda mais sobre a autora. No texto de Lydia Davis no fim do livro, ela comenta o que Berlin dizia sobre própria obra: ela exagerava nos detalhes, sim, inventava cenas e diálogos, mas o que viveu está na raiz de cada conto. Porque ela escreve sobre o que ela sabe, e o que ela sabe é o que ela viveu. E não importa se tudo aconteceu daquele jeito que está descrito, “o que importa é a história”. Mas é bom saber também que, como diz Stephen Emerson (que organizou o livro), não é correto pensar que se conhece Lucia Berlin, a pessoa, porque você leu os contos dela. Os contos são só uma parte da vida de Berlin editada por ela mesma. É o jeito que ela conseguiu encontrar para colocar ordem na própria vida.

Sempre que um autor tiver foto com um gato, a imagem estará aqui no blog.

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“Quem diz que sabe exatamente como outra pessoa se sente é um idiota.”