white-teethFamília, identidade e cultura: essas três palavras podem definir os livros de Zadie Smith. NW é uma trama que, sob o ponto de vista de quatro personagens que cresceram no mesmo bairro, mostra como eles se tornaram pessoas diferentes, com dramas próprios, mas unidos todos pela mesma geografia. Swing Time, seu livro mais recente, gira em torno do deslocamento de sua narradora, uma mulher com mãe negra e pai branco, que sente não pertencer a lugar nenhum, ligada a uma amiga que tem o mesmo background que o seu, mas que fez escolhas na vida e tem uma visão de mundo diferente do dela. As três palavras estão nessas tramas: o lugar em que cresceram, o lugar em que pertencem – ou querem pertencer –, as culturas de que se alimentam suas personagens. E tudo isso começou com White Teeth.

O primeiro romance de Zadie Smith não poderia começar de maneira mais depressiva: na manhã de Ano Novo, Archie Jones está trancado dentro de seu carro, os vidros fechados quase totalmente, não fosse por uma mangueira presa na janela e ligada ao escapamento do veículo. Após anos de casado, sua esposa o abandonou. Archie não está desconsolado pelo fim do relacionamento, e sim porque gastou todos esses anos da sua vida com uma mulher insossa e um emprego sem ambições. A morte seria preferível a uma vida sem graça. Mas os planos de Archie são frustrados por comerciantes muçulmanos, donos do estabelecimento onde ele estacionou para morrer. Archie toma a interferência como um sinal de que precisa continuar. Levado pelo destino, termina a manhã numa “Festa do Fim do Mundo” onde conhece Clara Bowden, uma jovem negra, filha de jamaicanos, Testemunha de Jeová e que está sem os dentes da frente. Archie tem quase 50 anos, Clara tem 18. E a partir do momento em que se veem, sabem que vão terminar juntos.

“No white knight, then, this Archibald Jones. No aims, no hopes, no ambitions. A man whose greatest pleasures were English breakfast and DIY. A dull man. An old man. And yet… good. He was a good man. And good might not amount to much, good might not light up a life, but it is something.”

White Teeth não é sobre Archie, não totalmente. Este é um romance sobre legados e pertencimento. A história começa com essa cena que se passa em 1974, mas termina com a virada de 1992, uma saga familiar longa e cheia de percalços. Da união de Clara e Archie nasce Irie – praticamente um alterego da própria autora, também filha de pai branco e mãe negra, também nascida em 1975 –, que na adolescência irá lutar contra os cachos nada “ingleses”, tentando se “encaixar” nos padrões de beleza femininos dos anos 1980. Irie sabe das histórias da sua família sobre a Jamaica, mas não é, inicialmente, apegada a elas. Sua maior preocupação é se enturmar, se sentir “normal”.

Além de Archie, Clara e Irie, Zadie Smith também apresenta Samad, Alsana, Magid e Millat: o melhor amigo de Archie – que conheceu quando combateu na Segunda Guerra Mundial –, sua esposa e seus filhos gêmeos. Vizinhos de longa data, Samad e Archie frequentam há anos o mesmo pub, passam mais tempo conversando sobre a guerra que mal lutaram do que com suas esposas e seus filhos. Se Archie é um homem sem crenças – e sem graça –, Samad é um muçulmano fiel, tenta ao máximo seguir suas regras, e luta internamente contra seus desejos carnais. Archie é calmo e solícito, Samad se move nervosamente, tentando legar aos filhos a mesma cultura na qual se criou.

Os gêmeos Magid e Millat são opostos desde a infância: Magid é quieto, estudioso e inteligente; Millat é explosivo, sedutor e desafiador. Ambos têm a mesma esperteza, mas a canalizam de maneiras diferentes. E não só a personalidade separa os dois, mas também a distância: a culpa de Samad por conta de um caso extraconjugal com a professora de seus filhos, e também o receio de que eles cresçam sem o aporte religioso e cultural de seu país de origem, faz com que ele mande um deles para Bangladesh. Tirando o destino literalmente na sorte – cara ou coroa –, ele manda Magid para viver com seus parentes, enquanto “vigia” a educação de Millat de perto. E assim os irmãos crescem separados, mas sempre vivendo um na sombra do outro.

Pode soar confuso, no início, como Zadie Smith pula de uma personagem para outra. De lembranças do fim da Segunda Guerra até os anos 1990, ela vai acrescentando ou abandonando personagens, mas sem perder o fio condutor do romance. White Teeth fala do choque entre culturas, e ele acontece a todo instante: quando Clara abandona a religião da mãe, que até o fim será uma devota Testemunha de Jeová; quando Samad tenta impor a religião aos filhos, mas eles seguem por outros caminhos; quando a prima de Alsana, lésbica e ateia, mostra para ela como as mulheres são oprimidas; quando Irie tenta a todo custo alisar seu cabelo e emagrecer, tudo para parecer mais inglesa e atrair a atenção de Millat. Há a constante preocupação de Samad com o rumo que a vida dos filhos pode seguir, mas como manter a tradição quando Magid e Millat não se enxergam como bengalis, Irie não se vê como jamaicana, mas sim como ingleses como qualquer outro jovem? Como impedir que eles absorvam a cultura do lugar onde nasceram e estão crescendo? Alsana e Clara, por serem muito mais jovens que os seus maridos, não compartilham a mesma preocupação, e até entram em conflito com eles quando o “atraso” dos maridos se veste de “tradição”.

“‘But you can’t beat experience, can you? I mean, you two, you’re young women still, in a way. Whereas we, I mean, we are, like, wells of experience the children can use, you know, when they feel the need. We’re like encyclopedias. You just can’t offer them what we can. In all fairness.’

Alsana put her palm on Archie’s forehead and stroked it lightly. ‘You fool. Don’t you know you’re left behind like carriage and horses, like candlewax? Don’t you know to them you’re old and smelly like yesterday’s fishnchip paper? I’ll be agreeing with your daughter on one matter of importance.’ Alsana stood up, following Clara, who had left at this final insult and marched tearfully into the kitchen. ‘You two gentleman talk a great deal of the youknowwhat.’”

Essa questão se agrava ainda mais quando Marcus e Joyce Chalfen entram na jogada. Marcus é geneticista, Joyce trabalha com botânica, e eles são pais de um dos colegas de Millat e Irie. Uma atividade extracurricular os levam até essa família progressista, que se encanta com o que é “peculiar”, “exótico” – e, para eles, Millat e Irie são mais que peculiares. Eles exaltam a cultura que originou os dois adolescentes com uma animação infantil, desmedida, que quer dar a impressão de acolhimento, mas só acentua a distância que existe entre os garotos do North-West londrino da família branca-classe-média-alta. Irie tenta ao máximo se integrar, demonstrando interesse pelo trabalho de Marcus, ajudando-o no escritório. Millat, no auge de sua rebeldia, tem uma relação ambígua com Joyce, uma mescla de dependência e desprezo por ela. O retorno de Magid para Londres coloca mais explosivos na história conforme a conclusão se aproxima. Ao contrário do esperado, Magid, em Bangladesh, se torna um ateu dedicado à ciência. Já Millat, abandonando as garotas e as drogas, engata numa militância islâmica que protesta contra a visão marginalizada dos ingleses sobre os muçulmanos.

Pois é aí, no final, que todas essas personagens e histórias apresentadas por Smith revelam a sua importância para a trama. É angustiante e curioso ver essa tempestade familiar e cultural se formando, chegando a um fim que só pode ser trágico: religiões entram em conflito, histórias antigas são desenterradas, mágoas passadas retornam com toda a força e respingam em todo mundo. Personagens que, até então, pareciam não ter importância ganham uma nova luz. Zadie Smith tem um talento incrível para apresentar as peças de seu jogo despretensiosamente, para com um só movimento fazer todas elas se juntarem e formarem uma imagem bem clara do que quer contar.

Eu sou branca, eu não sei como é se sentir deslocada em meu próprio país por pensarem que não nasci nele por causa da minha aparência. Mas quem não é branco como eu não tem esse privilégio de ser aceito aonde quer que esteja. Por isso leituras como White Teeth são importantes. As personagens de Zadie Smith querem experimentar esse pertencimento, querem ter as mesmas oportunidades que seus colegas brancos, não querem ser tratadas como diferentes, exóticas, estranhas no lugar onde elas nasceram e cresceram. E elas enfrentam, a seu modo, essas resistências que encontram pelo caminho. A social, que lhes lembra o tempo todo que eles “vieram de outro lugar”, e a familiar, que insiste em preservar neles características de um tempo e de uma cultura na qual eles nunca viveram. Porque independentemente da cor, da etnia, do que diz seu passaporte, todo mundo é igual, todo mundo tem os mesmos dentes brancos na boca.

“They’re not constantly making the same old mistakes. They’re not always hearing the same old shit. They don’t do public performances of angst on public transport. Really, these people exist. I’m telling you. The biggest trauma of their lives are things like recarpeting. Bill-paying. Gate-fixing. They don’t mind what their kids do in life as long as they’re reasonably, you know, healthy. Happy. And every single fucking day is not this huge battle between who they are and who they should be, what they were and what they will be.”