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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tudo o que nunca contei, de Celeste Ng

tudo-o-que-nunca-conteiNada pior do que desejar algo, não conseguir e jogar suas expectativas para cima de outra pessoa que não tem nada a ver com o assunto. Esse seria um resumo básico do que é Tudo o que nunca contei, romance de Celeste Ng lançado pela Intrínseca (tradução de Julia Sobral Campos). Tudo começa com o desaparecimento – e consequente morte – de Lydia Lee, 16 anos, aluna exemplar e filha mais do que amada pelos seus pais e seus dois irmãos. A polícia trabalha com a hipótese de suicídio, e é isso o que provavelmente aconteceu – Tudo o que nunca contei não é nenhum thriller, se é isso o que você esperava. É sobre a relação entre pais e filhos e tudo o que pode dar errado quando não há diálogo.

O comportamento estranho de Lydia é notado por Hannah, sua irmã mais nova, na noite em que desapareceu. Hannah, sempre quieta, quase invisível, ouviu a irmã sair de casa durante a madrugada. Não falou nada aos pais nem ao irmão mais velho, Nate, prestes a ir para Harvard. Mesmo depois de saber que Lydia estava morta, mesmo com a polícia e seus pais implorando por alguma pista, uma explicação. Nate também percebeu que a irmã andava diferente nos meses anteriores, saindo com um garoto meio problemático da escola, deixando de fazer seus deveres, ainda mais afastada dos colegas e da família. Mas os pais de Lydia nunca notaram isso. Para eles, a filha preferida era popular, tinha muitos amigos, não tinha nenhum problema para se relacionar com as pessoas. Suicídio não era uma explicação lógica para a morte dela.

Aqui é preciso dizer que Lydia, Nate e Hannah não são pessoas que passam desapercebidas na pequena cidade onde vivem. Eles são, praticamente, os únicos descendentes de chineses que há no lugar. E para entender essa história, o quanto isso pesa na vida dos jovens, é preciso voltar atrás, antes mesmo deles nascerem. Celeste Ng alterna presente e passado: ela detalha como os pais de Lydia se conheceram, ele filho de chineses nascido nos EUA, que sonhava em se enturmar, fazer parte de um todo, ser visto como o americano que sempre foi, fugir dos estereótipos em que sempre era colocado. Já a mãe, branca, queria ser diferente de sua mãe, uma professora de economia doméstica que tinha como principal objetivo de vida cuidar bem da casa. Ela queria virar médica, ser independente. Cada um viu no outro aquilo que desejava, mas essa união, por mais que tenha sido feliz na maior parte dos anos, também interrompeu muitos dos sonhos que eles tinham. Logo após engravidar e casar, a mãe desiste dos estudos. Ele vira professor de história – americana –, mas teme que os filhos sofram por não se enquadrarem no mundo e se sentirem deslocados como ele sempre se sentiu.

Logo todas as ambições que os pais tinham caíram em cima dos filhos. Ou melhor, de Lydia. Por ser a mais bonita e dedicada, seu pai colocou nela todos os desejos de ser popular e aceito. Enquanto a mãe viu nela a oportunidade de realizar o antigo sonho de se tornar médica, guiando-a desde pequena nesse caminho, sugerindo um livro de ciências, um curso de verão de física. Nenhum dos dois, em momento algum, pensou em perguntar a Lydia se isso era mesmo o que ela queria fazer. Por mais que dissessem “só se você estiver interessada”, Lydia não entendia dessa forma. Ela queria agradar os pais, e faria de tudo para que eles ficassem orgulhosos dela. Mesmo se ela odiasse o que eles lhe pediam para fazer.

Celeste Ng vai construindo esse cenário familiar claustrofóbico de forma gradual. As motivações e angústias de Lydia podem parecer pequenas, sendo ela uma garota que tem o apoio de todos. Mas há todo um histórico de relacionamento familiar que torna as coisas complicadas. Lydia via um escape dessa vida nas conversas com o irmão mais velho, mas conforme ele vai direcionando seus interesses para a faculdade – e ficando impaciente com as reclamações da irmã por ser “a favorita” –, a garota perde a confiança e vê em sua partida mais um motivo para se sentir presa àquela casa. Hannah, a irmã caçula, era pequena demais para entender o que ser tão cobrada pela família significava – sem saber, infelizmente, que a menininha observava tudo, entendia que a irmã não estava bem, mas não tinha voz alguma para dizer isso. Hannah mal era notada pelos pais, não via abertura para se aproximar deles e nem de seus irmãos.

E assim, aos pouquinhos, esse ambiente se torna ainda mais impossível de aguentar. Não há violência ou algo do tipo, é tudo uma construção psicológica, de expectativas que não condizem com a realidade, de falta de diálogo e de compreensão. Se a mãe de Lydia nega veementemente que ela seria capaz de fazer qualquer coisa “maluca”, ela está mantendo os olhos fechados para não admitir que parte do que Lydia era, da dor que estava sentindo, vinha das suas cobranças. E para uma mãe que acredita estar fazendo de tudo para o futuro da filha, oferecendo a ela aquilo que ela não conseguiu ter, isso não é algo fácil de absorver.

Quando Celeste Ng começa a esclarecer as coisas, a guiar as personagens para um momento de compreensão, é quando o livro ganha força total. Porque Tudo o que nunca contei não tem um final feliz, não exatamente. Hannah é, finalmente, notada, Nate descobre mais coisas sobre a irmã e sobre ele mesmo, mas seus pais não parecem entender exatamente o que aconteceu. Em relação ao casamento, talvez as coisas tenham ficado mais claras. Quanto aos filhos, ainda há muita coisa não dita, e a impressão que fica é de que as suas expectativas frustradas serão direcionadas para outra pessoa. É uma conclusão triste, ainda mais por ser algo tão comum e aparentemente fácil de resolver, que envolve entendimento, conversa, deixar a porta aberta para que as pessoas falem o que sentem e o que querem da vida.

Tudo o que nunca contei segue um ritmo constante, calmo, em quase toda a narrativa, mas nas páginas finais ganha uma grande carga de emoção. Ainda tenho dúvidas sobre o que realmente aconteceu com Lydia, se o mergulho que deu no lago perto de sua casa tinha como objetivo o desfecho que acabou tendo ou se foi uma tentativa de escape que deu errado. Mas não é menos trágico o fim que a sua vida teve e o que levou a esse fim, como todos os acontecimentos do presente e do passado dessa família, juntos, fizeram a realidade de Lydia algo difícil de suportar. Celeste Ng mostra como até as melhores intenções, pela falta de compreensão e empatia, levam a finais trágicos.