o-palacio-da-memoriaÀs vezes personagens extraordinários se perdem na história. Muita gente já passou por esse mundo, poucas foram responsáveis por feitos notáveis, mas mesmo assim é um número considerável de gente que merece ser lembrada pelo que viveu, pelas dificuldades que enfrentou. Pena que esquecemos fácil. Nossa memória é incrível, mas não é das melhores. Seja por silenciamento premeditado ou pela passagem do tempo, nós esquecemos.

O palácio da memória é um projeto bacana por resgatar isso. O podcast The memory palace conta histórias de pessoas que não estão inscritas na grande História. Ex-escravos, mulheres que não se contentavam com o papel de boa esposa, visionários, cientistas, inventores… Nate DiMeo resgata essas pessoas de um passado não tão distante, e cria uma narrativa para aquilo que foi esquecido. Como Caetano W. Galindo, o tradutor, conta no posfácio do livro, ele se encantou com o podcast durante um voo longo. As narrativas de DiMeo, ele pensou, dariam um bom livro. E assim surgiu O palácio da memória, a versão “texto” do podcast lançada exclusivamente no Brasil pela Todavia.

São dezenas de histórias, e não tem como falar de todas. A maioria se passa nos EUA e na Europa do século XIX, tempos conturbados, como diz o subtítulo, que abrigou todas essas pessoas extraordinárias. Mulheres que ousaram usar calças, que casaram com quem queriam, que descobriram novas estrelas ganhando 25 centavos por hora, que ajudaram rebeldes na guerra enquanto eram taxadas de “bruxas” ou “loucas”. Homens que revolucionaram a ciência, a tecnologia, que fingiam ser quem desse na telha, que compraram sua liberdade, foram capturados e fugiram de novo, ou que viram a Terra do espaço. E animais, pois o livro não é feito só de gente: o leão astro de Hollywood, elefantes solitários longe de sua terra natal, pombos extintos, lagostas que de item da ralé viraram artigo de luxo.

Esse é um resumo bem simples do que encontramos em O palácio da memória. Não quero falar de uma história específica, pois várias me interessaram em particular – principalmente as sobre a exploração espacial, claro, e as mulheres que enfrentaram a sociedade. Mas todas, de alguma forma, deixam uma impressão positiva – até as que terminam num clima mais melancólico. Nate DiMeo não cai em sentimentalismo fácil, mas seus pequenos textos (originalmente áudios) deixam uma sensação boa depois da leitura. Porque se consideramos que vivemos em momentos difíceis, onde todas as coisas que conquistamos (direitos, melhores condições de trabalho, etc.) parecem ameaçados – mesmo que, no fundo, nos esforçamos para pensar que não é possível que o mundo volte tão atrás –, as personagens que ele resgata enfrentaram os problemas quando eles eram ainda piores. Nos admiramos com pessoas que fogem do padrão ainda hoje, que defendem as minorias, que lutam para serem aceitas do jeito que são. Então imagina quão revolucionárias elas eram no século XIX e começo do XX. Como as coisas que pensavam e faziam pareciam estranhas a todos os outros, e mesmo assim não se intimidaram, continuaram fazendo o que queriam fazer e abriram um caminho para outras pessoas conquistarem o mesmo espaço.

Certos relatos, claro, são amenizados por DiMeo para que tiremos deles apenas as boas coisas, para ver que, por mais que nem tudo tenha corrido bem, mostrar que aquilo abriu caminhos para um novo futuro, um futuro melhor. O palácio da memória é um desses livros para aquecer o coração, para ler vez ou outra e lembrar que pessoas foram do padrão sempre existiram, e elas foram as mais legais de todas.