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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Os despossuídos, de Ursula K. Le Guin

os-despossuidosGostei de Ursula K. Le Guin logo na primeira vez que li A mão esquerda da escuridão. Não faz muito tempo que reli o romance, e ele ficou ainda melhor. Mas este ainda era o único livro dela que eu havia lido, e já estava na hora de diversificar um pouco. Aí surgiu Os despossuídos, uma ficção que se passa no mesmo universo que A mão esquerda…, mas em um planeta diferente. Ou melhor, em dois.

O físico Shevek nasceu em Anarres, um planeta desértico e anarquista. Cerca de 170 anos antes, Anarres era apenas a lua de Urras, um lugar com natureza vasta, cheio de matas, animais, paisagens bonitas e uma população socialmente dividida. Os menos afortunados de Urras se rebelaram contra as injustiças do planeta, liderados por Odo, uma mulher que acabou presa por suas ideias e nunca viveu na sociedade que idealizou. Mas quem seguiu Odo acabou tendo um destino diferente: foram mandados para Anarres, e lá criaram sua utópica sociedade sem governo, onde tudo é de todos. Quase 200 anos após os colonos chegarem na lua, alguém decide fazer o caminho contrário: pela primeira vez, um anarresti vai deixar o lar. Shevek está partindo para Urras.

Os despossuídos pode ser um tantinho maçante em alguns momentos, mas não deixa de ser extremamente interessante: para entender os dois planetas e o que move a grande rivalidade entre eles, é preciso falar do capitalismo, anarquismo, desigualdade, como uma sociedade anárquica se sustenta e tudo o mais. E Le Guin concentra muito da narrativa nisso. Ela detalha a educação de Shevek quando criança, o cotidiano de um trabalhador anarresti, os seus alojamentos, como se relacionam, como dividem o que produzem e como é sua tecnologia. Ninguém possui nada, nem mesmo seus próprios filhos.

As crianças, depois de poucos anos, são enviadas para os alojamentos comunitários, crescem muitas vezes longe do pai ou da mãe – ou até dos dois. Computadores escolhem os seus nomes (nunca há o mesmo nome para duas pessoas ao mesmo tempo, e por isso os anarrestis não precisam de sobrenomes), e escolhem também onde vão trabalhar – embora a máquina, às vezes, leve em conta as preferências pessoais dos anarrestis, mas os realocam para um serviço urgente assim que necessário.

O relacionamento íntimo também não é como o convencional. Os jovens são incentivados a manterem relações sexuais desde a adolescência, para que experimentem o que querem e se conheçam melhor – e aliviem também toda a carga de hormônios que se manifesta nessa idade. Relações monogâmicas não são muito usuais, mas acontecem, e o casal pode solicitar um alojamento privado caso queiram viver juntos. E se você não quiser fazer parte disso? Se não aguenta as multidões dos refeitórios, dos alojamentos, do trabalho braçal? Tudo bem, você pode viver isolado de todos, mas tendo que se virar sozinho. “Egoizar”, como dizem, é errado. E não há nada mais “egoizante” do que o povo de Urras com seu individualismo, suas riquezas, casas enormes, roupas chiquérrimas e conforto exacerbado. Os anarrestis são ensinados desde criança que possuir é causar um abismo de desigualdade entre as pessoas. Que quem possui vive às custas daqueles que pouco têm. Por isso a ida de Shevek para Urras não é bem vista pela população de Anarres.

Ursula K. Le Guin alterna os capítulos entre o desenvolvimento de Shevek em Anarres, de sua infância até se tornar físico, com o que ele vive e descobre em Urras. O primeiro impacto cultural dessa viagem é o da ausência feminina na ciência praticada em Urras e em seus altos escalões. Ainda na nave que o leva de um planeta a outro, ele nota que não há mulheres entre a tripulação, e ao comentar isso com o médico urrasti que lhe atende, escuta que as mulheres não são tão capazes quanto os homens. Shevek recebe o comentário com choque, pois em Anarres todos são iguais, independente do sexo. A capacidade física e mental de homens e mulheres é a mesma, e a mão de obra de ambos é importante para o desenvolvimento da sociedade. Shevek não aceita que Urras desconsidere metade de sua população por causa do machismo. Mas esse é só um dos aspectos que incomodarão o físico nessa jornada.

Apesar de todas as diferenças entre os planetas e seus sistemas políticos, Anarres não é o paraíso que a autora dá a entender nos primeiros capítulos, e isso é o que faz de Os despossuídos um livro ainda mais interessante. Conforme conta a história de Shevek em seu planeta de origem, percebemos que há, sim, uma centralização de poder em Anarres, que nem todos são tão solidários na prática como são na teoria. O planeta está praticamente fechado para quem vem de fora, e controla com mão de ferro as informações de sua população. Urras mantêm pouco contato com outras civilizações que tentam se aproximar tecnológica e comercialmente. Poucas publicações científicas saem de lá, e poucas entram. O contato que Shevek começa a fazer com os cientistas de Urras é praticamente clandestino. Ele não se sente fisicamente ameaçado, mas sabe que suas ideias, a teoria que tenta formular para melhorar o contato entre planetas distantes, são vistas como perigosas pela população. Em Urras, por conta da abertura econômica e tecnológica, ele imagina que conseguirá completar seu trabalho e divulgá-lo para todos, o que não seria possível realizar em Anarres.

Shevek tem um problema de pertencimento. Ele não se sente bem em Anarres, apesar de considerar que seu modelo social ideal. Ele logo nota isso quando chega em Urras, toda aquela opulência e luxo são exagerados para ele, mas ainda assim se deixa permitir alguns confortos. Ele fica encantado com toda a beleza do lugar, com o verde e os animais que não existem em seu planeta. Mas ele percebe que é mantido afastado das partes pobres de Urras, se vê protegido por um escudo social e acadêmico que o mantém distante do que há de feio no lugar. Mas ele sabe que também não seria capaz de pertencer àquele lugar, e quando começa a perceber que sua estadia lá esconde motivações sombrias, fica mais cauteloso ainda. Pois ele não quer entregar sua teoria para qualquer um, para que seja usada para fins que vão aumentar ainda mais a divisão social que existe em Urras. Ao contrário do que o governo que o acolhe mostra, uma nova revolta está se levantando, e Shevek pode ter uma participação importante nesses acontecimentos.

Os despossuídos não tem o mesmo ritmo de A mão esquerda da escuridão (ainda prefiro o primeiro). É um livro muito mais contemplativo, devagar, e Le Guin vai criando a tensão aos poucos. Sua narrativa está muito mais concentrada em mostrar as diferenças sociais entre os dois planetas, mostrando que nenhuma forma de governo é perfeita. Mas não deixa de ser uma leitura boa por contrastar esses dois extremos: a sociedade onde poucos possuem tudo e aquela onde ninguém tem nada, mas todos são iguais.