a-descoberta-da-escritaDepois de quatro volumes da série Minha Luta, já era hora de Karl Ove Knausgård falar sobre o principal tema de seus livros: a própria escrita. É claro que ele passou por esse tema nos volumes anteriores, principalmente em Um outro amor e Uma temporada no escuro, segundo e quarto volumes da série. Mas A descoberta da escrita era de certa forma aguardado por compreender os anos de formação do norueguês como escritor.

O livro (tradução de Guilherme da Silva Braga, Companhia das Letras) começa a partir do ponto em que o volume anterior acabou, impondo uma ordem cronológica que antes não existia nos livros. Ao terminar seu ano como professor no norte da Noruega, Knausgård se prepara para se mudar para Bergen, cidade universitária onde seu irmão, Ingve, já está na faculdade e onde começará um curso de escrita criativa na Skrivekansduniet. Entrando nos 20 e poucos anos, Knausgård tem plena certeza de que será escritor e de que tem talento para isso, e o curso, acredita, será importante para desenvolver suas habilidades narrativas.

Este volume engloba o período em que Knausgård viveu em Bergen, quase até os 30 anos, e o que fica mais evidente em todo o livro é a insegurança e vergonha do autor. Ele se compara aos colegas do curso, aos autores que admira, aos amigos que também escrevem e que, na avaliação, estão muito à frente dele. A escrita é tudo para o jovem autor, mas também é o que lhe traz mais amargura: os bloqueios, as frases não bem lapidadas, as críticas que tenta, a todo custo, receber como construtivas, e não como ataques pessoais. Meio tímido e sempre envergonhado do próprio corpo – digamos que a ejaculação precoce ainda o preocupa –, ele sente que falta experiência para escrever – e não só narrativa, mas de vida.

Se em Uma temporada no escuro ele estava mais preocupado com perder a virgindade do que com a escrita que se propôs a fazer no ano como professor, aqui as preocupações se voltam mais para a carreira – embora as mulheres ainda sejam seu grande temor. Knausgård se vê à sombra do irmão, que construiu uma rede de amigos interessantes em Bergen e no qual o jovem se infiltra, sempre concluindo que não deveria estar ali, que deveria procurar seus próprios amigos e não ser um carrapato do irmão. Sua paixonite por Ingvild, iniciada no final do livro anterior, enche o garoto com ainda mais angústia, sua falta de trejeitos sociais e para o flerte não contribuem em nada para engatar um relacionamento com ela – que virá a ser, também, sua primeira grande desilusão amorosa. Knausgård se joga nas bebedeiras solitárias ou com amigos, se torna insolente e violento em diversas ocasiões, e o livro é recheado de cenas de ressaca física e moral.

Pois Knausgård pensa e avalia cada frase dita, cada atitude. Seu sentimento de deslocamento social e artístico o coloca numa montanha-russa de autoestima, com muito mais baixos do que altos, e isso acontece basicamente porque ele se leva a sério demais. Quando um amigo inocentemente troça de sua decisão de se tornar escritor, Knausgård chega a ficar violento e extremamente ofendido. Porque a escrita é sua vida, é a única coisa que ele quer e sabe fazer. Mas, ao mesmo tempo, a escrita não lhe proporciona a satisfação que ele busca: seus primeiros anos em Bergen são pura frustração, com críticas mornas no curso de escrita e constantes recusas de editoras. Seu único triunfo são resenhas publicadas em alguns jornais e os trabalhos da faculdade de letras que inicia logo após o fim do curso, e ele chega a ponto de se contentar com um futuro acadêmico.

O livro tem muitos momentos de desilusão de Knausgård com a escrita, momentos em que ele descarrega sua energia para trabalhos mecânicos e braçais. Mas mesmo assim a escrita está lá no fundo, adormecida, emergindo vez ou outra para deixá-lo mais culpado por ignorar aquilo que ele se sente destinado a fazer. Quando amigos e conhecidos começam a ser publicados, a inveja e remorso só aumentam. Você chega a pegar asco do autor por tanta insegurança, por tanta coisa idiota que ele diz e faz porque está mordido por não ser reconhecido como pensa que deveria. Mas essa é uma coisa bem previsível do livro – e serve para vida em geral: se esforçar demais pode ser bem desapontador, as coisas tomam um rumo certo quando você deixa de se preocupar, de se importar demais, de se levar a sério demais.

O Knausgård de A descoberta da escrita é uma boa descrição do que se passa pela cabeça de um cara jovem e cheio de ambição, mas com total falta de fé nele mesmo. E aí você vê refletido todos aqueles “traumas” de sua infância que foram construídas nos outros livros: a sombra do pai violento, a timidez que sente desde garoto que o deixa ainda mais desengonçado, a idolatria ao irmão mais velho, a sensação de estar sendo constantemente julgado pelas pessoas… Mas por mais que você se irrite com esse overthinking do autor, Knausgård ainda te mantém preso nessas suas paranoias, você não consegue deixar o livro de lado. Você sabe que ele vai se tornar um dos principais escritores da Noruega, afinal você está aqui, no Brasil, lendo esse autor super-hypado, mas a curiosidade de ver como ele chegou lá, esse voyeurismo que ele desperta, não te deixa quieto até o final do livro.

“Cheguei em frente à biblioteca, a força do hábito me levou até lá, porque um pouco do sentimento de pânico que eu tinha quando frequentava o lugar na minha época de colegial havia tomado conta de mim, um sentimento de que eu não tinha para onde ir, e de que todo mundo estava percebendo e eu sempre tinha resolvido esse problema indo para lá, para o lugar onde era possível estar sozinho sem que ninguém começasse a fazer perguntas.”