relatos-de-um-gato-viajanteExistem mais filmes sobre cachorros, mas no mundo animal, acho que dá para dizer que os gatos são quem dominam a literatura. Ou, pelo menos, que a literatura ajudou a formar a imagem que temos dos gatos. Confissões do gato Murr, Eu sou um gato, até O mestre e Margarida, para deixar essa lista mais gorda, apresentam felinos que vão além da fofura aparente – muito pelo contrário. Arrogantes, superiores, críticos, desconfiados, orgulhosos, traiçoeiros: esses adjetivos fazem uma imagem não muito lisonjeira dos gatos, mas é disso que a gente gosta. Só que os gatos vão muito além disso, quem tem sabe muito bem disso.

E Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa, é um livro que mostra isso muito bem (tradução de Rita Kehl, pela Alfaguara Brasil). O romance tem duas linhas narrativas: uma tradicional, em terceira pessoa, que dá conta de um passado que o outro narrador não viveu. E esse outro narrador é Nana, um gato de rua que foi adotado por Satoru, um homem de trinta e poucos anos, e que vive com ele há cinco anos. Nana tem todas essas características dos gatos que falei no parágrafo anterior: é orgulhoso, é arrogante, é teimoso. “O ser humano é uma criatura arrogante demais para quem não passa de um macaco gigante que sabe andar ereto”, ele diz. E ainda se considera um gato “excepcionalmente perspicaz”, com toda a humildade. Mas é o gato mais fofo que existe.

Quando o livro começa, Nana avisa que ele irá contar a jornada que fez com Satoru pelo Japão. Ele conta como o conheceu, como viraram amigos e, logo depois, companheiros. Mas são as viagens que interessam, porque o objetivo delas não é dos mais felizes: Satoru não pode mais ficar com Nana, e por isso procura um novo lar para o bichinho. Nana, com a cabeça de um gato vadio que tem, não está particularmente mal com isso. Desde que foi acolhido pelo homem, sabia que em algum momento essa hora iria chegar. Mas pelo menos ele não será simplesmente jogado na rua, um gateiro como Satoru não faria isso. Então partem na sua van prata para vários destinos, esperando encontrar um novo lar para Nana.

Por que Satoru não pode ficar com o gato? Esse é o mistério do livro que não é tão mistério assim. Quem está habituado com histórias de animais já sabe que alguma tragédia vai acontecer, então você já meio que se prepara para esse baque. Porque logo na primeira visita que eles fazem, a um antigo colega de escola de Satoru, detalhes do passado do humano já dão a dica de que ele não teve uma vida fácil. Mas enquanto a verdade não é dita, você se diverte com as peripécias de Nana e suas conclusões sobre as pessoas e os outros animais que encontra pelo caminho.

E aí está algo muito bonitinho do livro. Não é uma história só sobre um homem e seu gato, mas sobre como eles vão ajudando as pessoas que se ofereceram para adotar Nana. São gestos singelos, mas que de alguma forma aliviam os problemas que eles estão enfrentando quando os visitantes chegam. Nana, com todo seu jeitão de gato corajoso, bruto, que sabe das durezas da vida, cria uma afeição rápida com as pessoas, por mais que ele tente disfarçar isso. Outra coisa encantadora do livro é a admiração do gato pelas coisas que ele só tinha visto na TV, ou que nem sabia que existiam. Ele se espicha todo para ver os cavalos enquanto a van passa por um pasto, para ver o mar (e logo depois se assustar com o som das ondas assim que se aproxima, apavorado), para ver as flores no campo e até admirar um arco-íris. Para um gato, mesmo que de rua, o mundo é muito grande e ainda há muito a ser visto, e Nana é assim curioso – como se espera que um gato seja. Mas o que mais o encanta é uma televisão de tubo, quentinha e com espaço o bastante para deitar e dormir em cima dela. Como não amar um bichinho desses?

Nenhuma das tentativas de adoção dão certo, e Nana e Satoru seguem viajando. A cada parada um novo amigo que tem muito a dizer sobre o passado de Satoru, e contar, de forma simples, porque ele é uma pessoa tão especial. Nana vai descobrindo essas histórias e, toda vez, dá um jeito de voltar para a van com Satoru. Porque por mais que ele sabe que a separação vai chegar, e logo, ele não quer que ela aconteça antes da hora.

As últimas 30 páginas de Relatos de um gato viajante foram lidas em choro compulsivo. Não sei quanto foi mérito da autora ou quanto foi minha fraqueza por gatos. O final do livro é tudo o que você pode esperar sobre uma história emocionante com animais. É bonito, é fofo, é bem-humorado e é triste, tudo ao mesmo tempo. É um livro perfeito para quem ama gatos, porque você se identifica com Satoru e imagina a voz de Nana te julgando por você estar tão abalado com o livro. Na viagem que faz, Nana aprende muita coisa sobre o lugar onde vive, as pessoas que encontra e a natureza do amor de um humano por seu animal de estimação. O romance de Hiro Arikawa é singelo, pode até parecer bobinho em alguns momentos, mas é uma das histórias mais fofas que já li. E às vezes tudo o que precisamos é de uma boa história fofa.