lacosÉ difícil ler Laços sem pensar em Dias de abandono. Mesmo que você tente ignorar os rumores sobre a real identidade de Elena Ferrante – Domenico Starnone é casado com Anita Raja, que apontam como a pessoa por trás do pseudônimo –, os paralelos entre os dois livros são muitos. Mas calma, cada livro se sustenta muito bem sozinho. Em Dias de abandono, acompanhamos o drama de uma mulher deixada pelo marido, sua amargura por ter sido trocada por alguém bem mais jovem, o sentimento de não ser mais bonita, desejada, e com o peso da responsabilidade pelos filhos todo em cima dela. Em Laços, começamos pelo mesmo lugar: Starnone nos apresenta cartas que Vanda, a esposa abandonada, manda para o marido Aldo, alternando momentos de compreensão com ataques de fúria.

Essa primeira parte de Laços (tradução de Maurício Santana Dias) se assemelha muito à narrativa de Ferrante. Ela quer que o marido volte, mas também procura machucá-lo com as piores palavras que conhece para fazê-lo entender como a situação em que se encontra é humilhante e prejudicial à família. Mas diferente do romance da autora da série napolitana, Starnone apresenta as consequências desses anos ausentes em toda a estrutura familiar – e oferece também o “outro lado da moeda”.

Na segunda parte do pequeno livro, é Aldo quem narra o tempo presente do casal, já velhos e com os filhos adultos, partindo de uma viagem que fazem ao litoral. As férias começam com certos percalços, culpa, segundo no narrador, da ingenuidade que adquiriu com a velhice: ele é enganado duas vezes no mesmo dia por pessoas diferentes. Esses episódios levam o personagem a questionar sua esperteza, imaginando que a idade está afetando o seu julgamento das pessoas. Ele estaria mais “mole”. Mas o problema real acontece quando eles retornam para o apartamento onde viveram a maior parte da vida em Roma.

Ao chegar em casa, Aldo e Vanda encontram salas e quartos completamente revirados. Nada está faltando, exceto o gato, Labes, que fugiu – ou foi sequestrado, pensa Vanda. Móveis arrastados, gavetas reviradas, tudo fora de lugar. Durante a arrumação, pequenos objetos acumulados em anos de matrimônio reaparecem para reavivar as lembranças do passado.

Através das cartas de Vanda que guardou por todo esse tempo, Aldo começa, então, a contar a sua versão desses “dias de abandono”, detalhando os sentimentos por Livia, a mulher por quem trocou Vanda, a culpa e a impotência diante dos filhos pequenos. Aldo justifica seus atos com o discurso do progresso e liberalismo dos anos 1960. Se apoiando nessa linha de pensamento “moderna e livre” que considera o casamento uma instituição falida e hostil, ele tenta aliviar sua responsabilidade quanto o estado em que deixou a mulher e os filhos. Não que ele tenha abandonado totalmente a esposa e as crianças, mas nos primeiros meses de sua partida, ele justifica o afastamento com o argumento de que essa família representa uma sociedade conservadora, a que ele quer deixar para trás. Livia é uma visão do paraíso, é jovem e lidar com ela é fácil, não há cobranças ou convenções que prendam um ao outro. Já Vanda e os filhos representam os laços inquebráveis que o unem a um passado “retrógrado”. Assim, a consciência de que ele é responsável pelo destino de sua família leva o personagem a se distanciar ainda mais – seja pela vergonha ou cansaço.

Pode parecer que o livro faz uma grande defesa do individualismo de Aldo, mas não é o caso. Em nenhum momento você sente pena ou remorso por ele. Infantil e imaturo, o distanciamento que ele cria para evitar conflitos com Vanda só testemunha contra ele. Vanda, claro, não é nenhuma guardiã da moral, suas atitudes muitas vezes constrangem as crianças, amigos e conhecidos, mas o cenário é muito pior para Aldo – ele quase negligencia os filhos, só voltando para eles quando sente o peso da responsabilidade.

Os laços familiares, por fim, são muito mais fortes do que a aventura de Aldo. Ou, pelo menos, são esses laços que levam os personagens a tentarem manter a aparência de uma família convencional para seguirem em frente. Mas as coisas não ditas, omitidas por ambas as partes, perduram, assim como os segredos. As atitudes de ambos no passado refletem, de alguma forma, nos filhos adultos, que conduzem a terceira parte do livro e mostram que eles percebiam muito mais do que os pais deixavam entrever.

A leitura de Laços é muito boa por isso: engloba todos os lados desse drama, não se concentra apenas na mulher abandonada, no homem traidor ou nos filhos deixados de lado. É um romance curto que consegue mostrar muito mais: como as atitudes de cada personagem respingam em todo o núcleo familiar, anos e anos depois de tudo ter acontecido.