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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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As melhores leituras de 2017 – segundo meu nada arbitrário gosto literário

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Estou sentindo cheiro de ceia de Natal, de amigo secreto da família, de tios bêbados e de melancolia de fim de ano. Significa que é hora da: LISTA DE MELHORES LEITURAS DO ANO!

O ano ainda não acabou, eu sei, mas posso declarar que já tenho a lista de livros mais legais de 2017 – se bem que achei o mesmo no ano passado e tive que adicionar um livro extra depois de ter postado a lista. Mas como o ritmo de leitura anda lendo e tudo o mais, acho que já posso encerrar o expediente de 2017 (que foi bem preguiçoso, desculpa).

Então aqui está a lista. Lembrando que ela se refere a livros lidos neste ano, não necessariamente lançados neste ano – tem dois que nem saíram no Brasil ainda e um que saiu há muito tempo. Dessa vez decidi fazer um ranking mesmo, sendo o primeiro colocado o que eu mais gostei. Como gosto de suspense, ele será o último mencionado.

(Pelas fotos vocês vão notar que usei de dois artifícios para mostrar os livros em 2017: meu gato e minhas pernas. Tenho que divulgar a literatura com as armas que eu tenho. ¯\_(ツ)_/¯)

11. O palácio da memória, de Nate DiMeo

Traduzido por Caetano W. Galindo, Todavia

Traduzido por Caetano W. Galindo, Todavia

Começando com o livro que originalmente é um podcast. É muito bom ler livros mais good vibes, apesar de ser uma pessoa que gosta dos finais sofridos e muito dramalhão. As histórias que Nate DiMeo conta em O palácio da memória são muito deliciosas. Algumas mais tristinhas – como as que envolvem animais -, outras mais felizes. Mas as que mais gostei são as de mulheres superando os preconceitos da época (a maior parte das histórias se passam entre o século XIX e início do século XX), e algumas relacionadas a exploração espacial, como as mulheres de Harvard que contaram e descobriram novas estrelas ganhando pouquíssimo. É um livro muito gostoso, daqueles que é só abrir em uma página qualquer e ler sobre famosos ou anônimos que fizeram coisas importantes, mas que de certa forma foram esquecidos pela história.

10. Tudo o que nunca contei, de Celeste Ng

Traduzido por Juliana Sobral Campos, Intrínseca

Traduzido por Juliana Sobral Campos, Intrínseca

No início achei Tudo o que nunca contei um livro ok sobre uma garota desaparecida e você só teria que descobrir o que aconteceu. Mas o romance de Celeste Ng vai bem além disso: é sobre relações familiares e expectativas. Mais especificamente, sobre como essas expectativas são nocivas em um ambiente familiar cheio de cobranças veladas e pouca comunicação. Pais que jogam para cima da filha as frustrações pelas coisas que não conseguiram conquistar quando eram jovens, estereótipos de uma cultura que não condiz com a personalidade real das pessoas, o sofrimento de uma família prestes a desabar e a ansiedade dos filhos que continuam ali, querendo um pouco de atenção. Só digo que terminei o livro aos prantos.

9. Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa

Traduzido por Rita Kehl, Alfaguara

Traduzido por Rita Kehl, Alfaguara

Mais um livro good vibes que merece muito ser lido quando você não aguenta mais ter a podridão humana jogada na sua cara e tudo mais. Relatos de um gato viajante acompanha o gato Nana e seu dono, Satoru, em uma viagem pelo Japão. Satoru procura alguém que possa ficar com Nana, e não sabemos o motivo dele ter que “abandonar” o gatinho. Na verdade, logo no começo do livro você adivinha que algo está prestes a acontecer, e será triste. E realmente é: só que é aquela tristeza bonita, chorei convulsivamente pela fofura toda da coisa. E Hiro Arikawa fez de Nana um gato divertidíssimo: parte do livro é narrado pelo gato, que obviamente é todo arrogante e cheio de julgamentos, mas que tem um coração enorme e sua empatia pelas pessoas e outros animais que encontra pelo caminho aumenta a cada página. Livro mais fofo do ano e leitura recomendadíssima para quem adora gatos – se você não gosta de gatos, sai daqui.

8. Altos voos e quedas livres, de Julian Barnes

Traduzido por Léa Viveiros de Castro, Rocco

Traduzido por Léa Viveiros de Castro, Rocco

Julian Barnes começa esse livro falando de balonismo: os primeiros homens (e uma mulher) que se aventuraram a viajar em um balão, seus erros e acertos. De repente, ele passa a falar da vida amorosa dessas pessoas: um romance ardente entre um balonista e uma atriz francesa, ou um viúvo inconsolável depois da morte da mulher. Mas tudo isso é só uma alegoria para o que Barnes realmente quer dizer em Altos voos e quedas livres: falar da morte de sua mulher, de toda a tristeza que sentiu com sua perda. O amor é o ponto alto da vida, e Barnes descreve de modo brutal o que sentiu com a morte da esposa, como se tivesse caído de um balão e tendo metade do corpo enterrado na terra com o impacto. Ele fala da esposa com um carinho genuíno, e é lindo demais, você fica triste, mas com aquele calorzinho no coração.

7. História da menina perdida, de Elena Ferrante

Traduzido por Maurício Santana Dias, Biblioteca Azul

Traduzido por Maurício Santana Dias, Biblioteca Azul

Claro que tem que ter Ferrante. O último volume da tetralogia napolitana encerrou muito bem toda essa história dramática de Lila e Lenu, e quando terminei História da menina perdida senti saudade imediata das duas – por mais irritantes que possam ser. Mas gostei muito desse encerramento: você pega raiva de muitos outros personagens – o livro que uniu todas as tribos no ódio contra Nino Sarratore -, consegue entender Lila melhor, Lenu finalmente parece se impor mais. Toda a ambientação de Nápoles, da época, os anos que foram passando, é como se você tivesse vivido aquilo e fosse próxima daquela comunidade. Foi uma grande saga, e Ferrante definitivamente é uma das autoras que mais gostei de ler.

6. Complô contra a América, de Philip Roth

Traduzido por Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras

Traduzido por Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras

Demorou, mas li Philip Roth. E curti demais. Comecei por Complô contra a América pelo plot ser bem coerente com a realidade atual, e assustadoramente é mesmo. Poucas vezes fiquei tão apreensiva e nervosa lendo um livro, porque é aquele sentimento constante de que as coisas não estão bem, de que algo muito errado vai acontecer e ninguém está vendo. E tudo isso narrado pela perspectiva de uma criança. É um livro que deveria ser lido hoje para levantar aqueles alertas necessários sobre para onde estamos indo se continuarmos tratando gente louca como “ah, ele só está dando a sua opinião”.

5. Swing Time, de Zadie Smith

Previsão de lançamento para 2018 pela Companhia das Letras

Previsão de lançamento para 2018 pela Companhia das Letras

Antes de ler Swing Time, só tinha lido NWLembro de ter gostado, mas algumas partes ficaram meio confusas na minha cabeça, e pouco lembro do livro. Aí, por algum motivo, resolvi ler Swing Time, e que momento divino foi esse. A história pode lembrar um pouco a tetralogia da Elena Ferrante, mas vai para lados totalmente diferentes. O romance começa com a narradora trancada num quarto de hotel recebendo mensagens de ódio no celular, e você não sabe por quê. Aí começa toda uma volta ao passado, dela relembrando uma amizade de infância baseada na dança e também na dependência: duas garotas filhas de pais negros e brancos, que não sentem pertencer a lugar algum. Apesar do mesmo background familiar, elas seguem caminhos diferentes. Acompanhamos a narradora da infância à vida adulta, quando está trabalhando para uma estrela pop famosa, e o livro todo é sobre esses limites entre culturas, pertencimento, identificação: descobrir quem você é e o que quer fazer da vida. Me apaixonei de verdade pelos livros da Zadie, emendei na leitura de White Teeth, que também gostei bastante e envereda pelo mesmo tema. Apenas bom demais, espere que deve sair aqui no Brasil no ano que vem.

4. História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang

Tradução de Edmundo Barreiros, Intrínseca

Tradução de Edmundo Barreiros, Intrínseca

Quem correu pra ler o livro do Ted Chiang depois de ver Arrival fez certo. É raro eu gostar de todos os contos de um livro como esse, mas foi o caso de História da sua vida e outros contos – tanto que tive que falar de um por um na resenha que fiz. São histórias muito inteligentes, muito bem amarradas, que dão aquele nó na cabeça de um jeito positivo. Os contos de Chiang não são aquela ficção científica de homens vs. alienígenas, de uma guerra para salvar a Terra ou algo do tipo (hey, não estou dizendo que isso é ruim, gosto desses também). As situações em que ele coloca as personagens são muito mais sentimentais, sobre as reações humanas diante do inusitado – ou do divino. Aliás, os contos que misturam ciência e religião são bons demais. E pensar que essas ideias partiram de fórmulas matemáticas ou teorias da física… Pode parecer cabeçudo demais, mas não é. É só boa ficção.

3. Cosmos, de Carl Sagan

Tradução de Paulo Geiger, Companhia das Letras

Tradução de Paulo Geiger, Companhia das Letras

Claro que tem Carl Sagan! Ler Cosmos foi maravilhoso, porque ler sobre o universo nunca é chato. Pelo menos pra mim, claro. E o mais legal de ler Cosmos foi ver como as coisas avançaram desde que o livro foi publicado, coisas que estavam só no campo das ideias quando Sagan o escreveu. E, mais importante, o jeito apaixonado com que ele fala sobre como nosso mundo funciona, dos cientistas, da importância do conhecimento para entendermos o mundo e preservá-lo. É desses livros que te deixam maravilhado por estar vivo – apesar da vida estar uma bosta, de não ter dinheiro na conta etc. Eita mundão bonito.

2. Manual da faxineira, de Lucia Berlin

Tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras

Tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras

Caceta de livro bom! Eu fiquei doida com esses contos da Lucia Berlin. Pelo jeito dela narrar, pelas histórias das personagens, pela própria autora, porque os contos têm como base sua própria vida. São contos densos, pois há muito de emocional neles: perdas, rancores, abusos, vícios… As personagens, majoritariamente mulheres, passaram por vidas difíceis, ou estão em momentos difíceis, e carregam um humor entristecido, aquele contentamento melancólico porque é a única vida que conhecem e se acostumaram com ela. Se algo ruim ou trágico acontece, elas apenas seguem em frente, porque é a única opção que existe: seguir vivendo tentando fazer o melhor que podem. E as histórias, mesmo quando mudam os lugares ou os nomes, podem ser lidas como uma coisa só. Berlin rearranja alguns acontecimentos, resgata algumas personagens, e é como se fosse um grande romance fragmentado. É forte demais, e não vejo a hora de poder reler.

1. Lincoln in the Bardo, de George Saunders

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Quem me acompanha no Twitter (ou assina a newsletter) deve estar cansado de me ouvir falar sobre George Saunders e Lincoln in the Bardo. MAS ESSE LIVRO É BOM DEMAISEle é engraçado, é triste, é bonito, é doido, é tudo o que eu mais gosto numa coisa só. Como não querer ler uma história que se passa num cemitério cheio de fantasmas tentando salvar a alma do filho de Abraham Lincoln? O enredo parece totalmente absurdo, e é, e também maravilhoso demais. É bem estranho no começo, mas quando você se acostuma com as dezenas de narradores de Saunders e pega no tranco você não consegue parar mais. Cada narrador tem sua voz, seu passado, e no meio dessa confusão toda Saunders ainda consegue falar sobre amor, racismo, luto, saudade e história. Lincoln in the Bardo é o grande vencedor do Taize Booker Prize 2017 – mais importante que Man Booker Prize, cof cof. Também sai no Brasil no ano que vem, e não vejo a hora de ler de novo – dessa vez traduzido.

Já pode encerrar 2017. Ano que vem tem Copa. Vamos tentar ser otimistas.

Pelo menos livro bom ainda vai ter.

Obrigada por acompanhar o blog por mais esse ano. <3