cosmos sagan“Se ansiamos que nosso planeta seja importante, há algo que podemos fazer quanto a isso. Podemos fazer com que ele seja significativo com a coragem de nossas perguntas e a profundidade de nossas respostas.” – Carl Sagan

Carl Sagan não precisa de apresentações, assim como Cosmos. Quem viveu nos anos 1980 e 1990 lembra bem da série de TV que aproximou ainda mais o público “comum” da ciência, essa coisa tão obscura e complicada. E quem, como eu, não viveu essa descoberta do universo com a série original, acabou impactado com seu reboot dois anos atrás, agora na versão de Neil deGrasse Tyson. É claro que eu já sabia quem era Carl Sagan e qual era a sua importância para a comunidade científica antes dessa nova série, já tinha lido alguns de seus livros – é curioso lembrar que meu primeiro contato com sua obra foi justamente através de sua única ficção, o romance Contato. Depois de ver a série, de ler outros de seus livros – como O mundo assombrado pelos demônios –, foi bom demais ler Cosmos e entender a paixão de Sagan pela ciência.

Cosmos ganhou uma nova edição neste ano, depois de muito tempo esgotado. Há quem tenha ficado com receio por ser um livro de divulgação científica dos anos 1980, quando muitas outras coisas foram descobertas ou desmistificas de lá pra cá. O livro não traz mudanças no texto original, mas contém notas atualizando alguns desses avanços e descobrimentos conforme Sagan os cita. E essa é uma das coisas que gostei na leitura: é incrível pensar que, em poucos anos, muito mudou e descobrimos ainda mais sobre o universo.

Quando Sagan comenta com entusiasmo o plano de enviar à Marte um veículo que pudesse se mover pelo solo do planeta vermelho e tirar mais fotos, coletar mais amostras, oferecer uma visão mais ampla do lugar, podemos acompanhar no Twitter o movimento da Curiosity. Quando comenta os progressos da Voyager pelos nossos planetas vizinhos, ela está mais longe que qualquer outro objeto enviado por um ser humano, atingindo as bordas do Sistema Solar. Se na época em que o livro foi escrito as imagens que tínhamos de Plutão eram pontinhos trêmulos e desfocados, hoje lembramos de quando a New Horizon se aproximou do planeta-anão enviando fotos nítidas de sua superfície com um “coração”. Enfim, mesmo depois de 30 anos de lançamento, Cosmos permanece fascinante.

“O cosmos é tudo o que existiu, existe ou existirá”, escreve Carl Sagan, e ele busca, da melhor forma, narrar tudo isso. Do Big Bang ao surgimento da vida na Terra, da nossa solidão no espaço às teorias de vida inteligente em algum outro canto do universo. Assim como a série, o livro apresenta o que há de mais fundamental nas descobertas científicas, e assim não fala apenas de sua área de atuação, a astrofísica, mas também de matemática, biologia, geografia, filosofia e muito mais. Sagan conta como o universo se criou – ou, para ser mais específica, que teorias ainda não comprovadas explicam a sua criação –, como nasce e morre uma estrela, como são nossos planetas vizinhos e o que fizemos para alcançá-los, como evoluiu a vida na Terra, que esforços estamos fazendo para observar mais além no Universo, qual será o destino da nossa galáxia… Informação demais pode parecer superficial, claro, mas para o público leigo, que somos a maioria de nós, é mais do que o suficiente para se encantar com o mundo.

Tão importante quanto descrever como o universo funciona, do que somos feitos e como viemos parar aqui, é a defesa que Sagan faz do conhecimento e de sua difusão. Ele destaca nomes de cientistas e pensadores que foram fundamentais para explicar o mundo, que ousaram ser curiosos em épocas onde a “verdade” era composta de lendas e especulações, pessoas que procuraram por explicações práticas para o que viam no cotidiano. Galileu, Newton, Darwin, Kepler, Copérnico e Einstein são algumas dessas figuras exemplares que dedicaram a vida ao descobrimento. Mas Sagan também lamenta que demoramos muito tempo para dar crédito a várias dessas pessoas e suas teorias. Demoramos a admitir que a Terra gira em torno do Sol, que o Sol está num canto de uma galáxia que possui milhões de outros sóis, que a nossa galáxia não está sozinha no universo, mas sim há trilhões delas por aí, cada uma com sua própria contagem de sóis, planetas e outros corpos celestes que nunca seremos capazes de alcançar.

É nesse lamento que encontramos a força principal do livro, e é o que faz dele tão necessário nos tempos atuais. Entre 600 e 400 anos a.C., Tales de Mileto já demonstrava teoremas geométricos que seriam formulados por Euclides três séculos depois, e diz-se que havia previsto um eclipse solar. No século III a.C., Eratóstenes, em Alexandria, havia calculado a circunferência da Terra, e seu resultado chegou bem perto do real, usando apenas bastões, a sombra do Sol na Terra e observação. Mas como, poucos séculos atrás, acreditava-se que a Terra era plana e eram o Sol e os outros astros do céu que giravam em torno dela? Por que demoramos tanto para entender como nosso mundo funciona, se numa época sem a tecnologia que temos hoje já haviam descoberto seus mecanismos? O conhecimento, segundo Sagan, desapareceu no curso da história. Importantes documentos foram destruídos, pessoas foram perseguidas pelas suas ideias, o medo do desconhecido foi mais forte que a curiosidade e o conhecimento, e por isso ficamos na escuridão durante séculos.

Imagino o que Sagan diria se estivesse vivo hoje, com tantas teorias conspiratórias circulando por aí. Com tanta “pseudociência”, desinformação travestida de conhecimento, charlatães e “salvadores” que alegam deter a verdade sobre tudo. E, além dos mitos e equívocos espalhados, há essa sensação de ameaça à ciência, onde pesquisas são descontinuadas por falta de verba, onde governos ignoram a palavra de milhares de cientistas que procuram preservar o mundo e a nossa existência, e muitas pessoas consideram besteira sair voando pelo espaço porque isso “não acrescenta nada” para suas vidas. Porque a maior defesa da carreira de Sagan foi a ciência e o método científico. Observar, testar e descobrir por que o universo é do jeito que é, desenvolver tecnologia que possa nos levar para ainda mais perto desse conhecimento. Porque entender o cosmos é fundamental para entender quem somos.

“Algo em nós reconhece o cosmos como nosso lar. Somos feitos de cinza estelar. Nossa origem e nossa evolução têm sido ligados a eventos cósmicos distantes. A exploração do cosmos é uma jornada de autoconhecimento.”

Fazemos parte desse cosmos. Assim como não podemos agir isoladamente – porque vivemos em sociedade, entre família e amigos, em uma cidade, e precisamos pensar coletivamente e cooperar para que as coisas funcionem de uma forma minimamente justa –, não estamos separados do resto do universo. Apesar de tudo ser tão grande e distante, tão longe que nunca chegaremos a ver o seu limite, vivemos nele nesse tempo, e é neste universo, daqui alguns milhões de anos, que vamos morrer. O que compõe o nosso corpo e nossa mente sempre esteve aí, espalhado pelo cosmos em forma de poeira estelar.

É triste pensar que muitos ignoram o lugar em que vivem, do que fazem parte. Que, por parecer tão difícil, preferem continuar sem entender. Mas não é difícil, e Sagan teve esse talento de conseguir mostrar para uma multidão que não tem jeito para fazer ciência que isso não significa que você não pode ter acesso a ela e se beneficiar dela. Ler esse livro hoje, e recomendar sua leitura para o máximo de pessoas possível, é garantir que não caiamos novamente em uma época de escuridão e perseguição do conhecimento.

Cosmos é desses livros que te deixam com duas sensações contraditórias: a de que somos importantes e únicos, pois não há (ainda) evidências de que há vida orgânica e inteligência igual a nossa em outro planeta. E, ao mesmo tempo, nunca nos sentimos tão pequenos e insignificantes, pois somos apenas moradores de um pontinho azul minúsculo em algum lugar do universo, com uma vida brevíssima, se comparada a tudo o que já aconteceu antes de sequer existirmos.

“O tempo de vida de um ser humano se mede em décadas; o tempo de vida do Sol é de 100 milhões de vezes mais longo. Comparados com as estrelas, somos efeméridas, criaturas transitórias e fugazes que vivem toda a sua vida no decurso de um único dia. Do ponto de vista da efemérida, seres humanos são lerdos, chatos, quase imóveis, sem dar qualquer indicação de que alguma vez façam alguma coisa. Do ponto de vista de uma estrela, o ser humano é um lampejo minúsculo, um dos bilhões de breves vidas que piscam, tênues, na superfície de uma estranhamente fria, anormalmente sólida, exoticamente distante esfera feita de silicato e ferro.”