r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

4 3 2 1, de Paul Auster

4-3-2-1No dia 16 de março de 1947, Archibald Isaac Ferguson nasceu. Filho de Rose Adler, fotógrafa, e Stanley Ferguson, que junto com seus dois irmãos tocava uma loja de móveis em New Jersey. Archie (ou Ferguson, como será chamado de seu nascimento em diante) teve uma infância normal: era amado pelos pais – mais pela mãe, com quem passava a maior parte do tempo –, brincava, praticava esportes, lia muito – por influência de Mildred, sua única tia materna –, tinha bons amigos no colégio, tirava boas notas, ia a cada verão para um acampamento para crianças judias. Ferguson gostava de histórias, gostava de contá-las também, e tinha uma curiosidade grande sobre o mundo. Ferguson perdeu o pai quando ainda criança. Ferguson viu os pais se separarem na sua adolescência. Ferguson foi filho de uma família rica e de uma família à margem da dificuldade financeira. Ferguson adorava beisebol e adorava basquete. Ferguson teve quatro histórias sobre si mesmo para contar.

Em 4 3 2 1 (finalista do Booker Prize de 2017), Paul Auster dá a Archie Ferguson quatro vidas. No primeiro capítulo, conta a história da família do protagonista, como seu avô paterno chegou aos EUA, como seus pais se conheceram e como ele veio ao mundo. A partir de seu nascimento, a linha do tempo da vida de Ferguson se divide em quatro partes. Em cada capítulo, alguma coisa muda na vida do garoto, e assim é até o final do livro. Auster narra o desenvolvimento desse menino comum até o início de sua vida adulta, com todas as suas descobertas e decepções – as literárias, as sexuais, as políticas.

“One of the odds things about being himself, Ferguson had discovered, was that there seemed to be several of him, that he wasn’t just one person but a collection of contradictory selves, and each time he was with a different person, he himself was different as well.”

No começo, a leitura pode soar confusa. As mudanças na história de Ferguson em cada versão de sua vida são tênues. Mas conforme Auster se distancia do ponto de partida, as diferenças entre uma vida e outra vão aumentando mais e mais. 4 3 2 1 é um romance de formação multiplicado por quatro: a cada nova experiência, os quatro Fergusons vão amadurecendo e conhecendo um pouco mais da vida – e definindo quem são. Em uma das timelines, o pai de Ferguson é roubado por um de seus irmãos. Em outra, o pai morre num incêndio na loja de móveis, e ele e sua mãe se mudam para Nova York. Em outra, Ferguson morre na pré-adolescência – e os capítulos correspondentes a essa vida possuem apenas páginas em branco. Em outra, ainda, seus pais se separam depois de anos de casamento. O que acontece no entorno de Ferguson vai alterando as mudanças que ocorrem em sua vida. Mas apesar dessas diferenças, a essência de quem ele é permanece, assim como as pessoas com quem se relaciona são, basicamente, as mesmas.

Por exemplo: Amy Schneiderman. Filha de um amigo de longa data de Rose, em todas as linhas do tempo, basicamente, Ferguson se apaixona por ela. Mesmo quando têm outros interesses românticos, é para Amy que sua atenção sempre se volta. Mas a relação não é simples: se em uma de suas vidas Amy é sua primeira namorada, na seguinte ela é sua “prima”, e, na outra, sua meia-irmã. Até quando Ferguson se vê envolvido tanto com homens quanto com mulheres, é Amy quem domina seus pensamentos românticos. O mesmo acontece com Mildred: morando longe ou perto do sobrinho, casada ou solteira, heterossexual ou bissexual, ela é sua grande referência cultural, quem lhe indica as melhores leituras e os discos que embalarão todos os seus dias. Em todas as timelines, Ferguson tem uma relação próxima com a mãe e complicada com o pai – uma constante ausência na sua vida, seja por trabalhar demais, por não procurar mais o filho depois da separação ou, bem, por estar morto. As personagens, mesmo sendo as mesmas, têm funções diferentes em cada versão da história. Como se, não importa que escolhas Ferguson faça, ou que males atinjam a sua família, o seu destino será sempre o mesmo.

4 3 2 1 parece ser mais mirabolante do que na verdade é. A grande sacada de Auster foi não diferenciar tanto um Ferguson do outro, sem deixar a trama enfadonha ou repetitiva – são mais de mil páginas na edição paperback, veja bem. Ferguson é um personagem que você se encanta logo nas suas primeiras aparições. Pela sua bondade, pela sua imaginação, pela sua curiosidade e inteligência. Ele é um garoto contente, que faz amizade fácil, cuja inclinação pelos esportes não o afasta de seu desejo pela leitura e escrita, como muitos poderiam supor. Ele sente paixão pela vida, e busca sinceramente pelo amor (dos pais, dos amigos, de namoradas). Mesmo quando entra na fase de rebeldia adolescente, você ainda se vê torcendo pela felicidade do garoto, e pega-se avaliando em qual dessas quatro histórias ele têm mais sucesso. Mas, quando você pensa que tudo está indo muito bem em uma de suas vidas, alguma coisa acontece, alguma coisa ruim que, novamente, mudará o curso de tudo. Porém, não importa o que aconteça, você continua vidrado em cada um dos protagonistas.

Conforme Ferguson cresce, sua atenção se volta mais para o lugar onde vive. Através dele, Auster narra também os grandes acontecimentos dos EUA dos anos 1950 e 1960. O assassinato de JFK, os protestos contra a guerra no Vietnã, o próprio receio de Ferguson e seus colegas de serem convocados pelo exército e terem que abandonar seus estudos para lutarem numa guerra que não apoiam e não acreditam. O que acontece nos EUA é recebido de maneiras diferentes por cada versão do protagonista, mas esses momentos históricos, de qualquer forma, estão lá, povoando os pensamentos de todas as personagens. Um Ferguson se engaja nos protestos, seja participando ou cobrindo os acontecimentos como um aspirante a jornalista. Outro Ferguson observa de longe, sem se envolver diretamente. Mas sua opinião sobre o que acontece nunca muda: ele é da geração que preza pelo conhecimento, pelo diálogo, e não pela força física.

Os momentos que mais me agradaram na leitura foram as descobertas literárias de Ferguson, como ele toma consciência do poder que as histórias têm. E isso, conforme vamos nos aproximando no final, é fundamental para a trama. É com a leitura de Crime e castigo, de Dostoiévski, que Ferguson decide que quer ser escritor. Todas as histórias que leu, de fantasias infantis às aventuras que encantam qualquer pré-adolescente, passando pelos grandes romances da história da literatura até os autores contemporâneos, são um combustível para o seu futuro, para quem quer se tornar quando finalmente terminar seus estudos e for tocar a vida sozinho. Cada história lida é uma lição a mais sobre o ser humano que o torna mais empático. Ferguson não se sente envergonhado com temas como o sexo ou seus próprios sentimentos, ele quer experimentar tudo o que tem direito, quer vivenciar as emoções que conheceu primeiramente pelos livros, para depois ele mesmo poder contá-las com suas palavras.

“[…] if this was what a novel could do to a person’s heart and mind and inner most feelings about the world, then writing novels was surely the best thing a person could do in life, for Dostoyevsky had taught him that made up stories could go far beyond mere fun and diversion, they could turn you inside out and take off the top of your head, they could scald you and freeze you and strip you naked and thrust you into the blasting winds of universe […]”

Claro que existe um motivo para que a história de Ferguson tenha quatro versões diferentes, e claro que isso será revelado apenas no final. Logo que terminei a leitura, achei a conclusão óbvia demais, pouco inventiva, talvez até anticlimática. Mas agora, semanas após a leitura, percebo que não poderia haver um final diferente, e começo até a me acostumar mais com ele. A gostar, talvez. Independentemente do que você pense sobre a conclusão de Auster, o que importa é que 4 3 2 1 é uma ótima leitura, daquelas que te deixa com uma boa sensação (pela personagem, pela escrita, por tudo). É a vida, simples e comum, narrada de forma também simples e comum, mas extremamente bonita.

“Thus Ferguson was born, and for several seconds, after he emerge from his mother’s body, he was the youngest human being on the face of the earth.”

Ficou afim de ler? Encontre 4 3 2 1, de Paul Auster, aqui.