floresta-escuraNunca antes na história (deste país) desta leitora, um livro de Nicole Krauss caiu em suas mãos. Eu conhecia o nome, sabia que deveria estar na minha lista de autoras contemporâneas lidas, mas fora isso, não tinha nenhuma outra informação sobre ela e seus livros – deixemos os dados matrimoniais de lado. No último mês, chegou aqui no Brasil seu romance mais recente, Floresta escura, traduzido por Sara Grünhagen e lançado pela Companhia das Letras. Aí aproveitei.

Floresta escura acompanha duas personagens que têm pouco em comum. Alternando os capítulos, começamos conhecendo Jules Epstein, um rico advogado nova-iorquino de 68 anos que desapareceu misteriosamente em Tel Aviv. Antes de chegar a esse ponto, ele passou meses doando compulsivamente os seus valiosos pertences acumulados em anos de carreira. Todas as obras de arte que tanto cobiçou, os carros, as roupas. Em um surto inexplicável de filantropia, o homem distribuiu aquilo que até então definia a sua existência. A ideia de viajar até Tel Aviv surgiu do mesmo impulso: fazer uma grande doação para alguma instituição em homenagem a seus pais.

Diferente dos capítulos de Epstein, narrado em terceira pessoa, Nicole conta a seguir a sua própria história. Jovem escritora de Nova York, ela está presa entre duas crises: a da criatividade e a do casamento. Debatendo-se para começar um novo livro, e cogitando a separação do marido, uma imagem não sai de sua cabeça: a do hotel Hilton de Tel Aviv, onde passou muitos dias da sua infância nas férias com a família. Ela quer escrever sobre esse hotel, sabe que ele é parte fundamental da história que tenta montar na sua cabeça, mas ainda assim o bloqueio a impede de começar. Com a desculpa de fazer pesquisas para seu novo romance, ela arruma suas malas, vai a Tel Aviv e se hospeda no hotel. Mas por conta de um tio, que lhe põe em contato com um professor universitário aposentado que quer recrutá-la para um projeto misterioso, seus planos mudam drasticamente.

As vidas de Epstein e Nicole, tão diferentes em muitos aspectos, se aproximam nos detalhes. Além da ligação com o hotel Hilton e Tel Aviv, ambos são judeus e têm papel fundamental em sua comunidade judaica. Ele pelo dinheiro e status, ela pela escrita. Krauss não revela com clareza se os dois fazem essa viagem ao mesmo tempo, há apenas pistas de que seus caminhos possam ter se cruzado. Mas os dois estão unidos pela sensação de perda. No caso, a perda de si mesmos.

Epstein não parece saber exatamente o que procura em Tel Aviv. Ele é arrastado para cima e para baixo por um rabino que conheceu em Nova York, que busca reunir os descendentes de Davi – Epstein seria um deles. Já Nicole aceita, relutante, um projeto de escrita que é muito diferente do livro que deseja escrever. Enquanto reflete sobre a vida conjugal e sua própria escrita – um rosto reconhecido pelos judeus pela sua contribuição para a memória judaica –, toma conhecimento de um mistério envolvendo outro escritor judeu proeminente: Franz Kafka.

Com isso, Floresta escura passa praticamente a narrar uma terceira vida e uma terceira fuga. Kafka não teria morrido de complicações da tuberculose em um sanatório em 1924, como a história conta. Ele teria, na verdade, fugido para Israel, onde viveu recluso cuidando de seus jardins, fugindo da própria escrita e da fama que conquistou – sem sucesso, pois continuou a escrever. O papel de Nicole nesse projeto é terminar uma peça inacabada do autor escrita durante seu período “sumido”. Tão sumido quanto Nicole e Epstein estão na trama, desconectados das vidas que deixaram em Nova York e das pessoas que ficaram lá.

Além de toda a reflexão sobre o judaísmo que Krauss faz no livro, principalmente no que diz respeito à importância da literatura, uma das formas de preservar a memória e as histórias do povo judeu – e da importância da própria obra de Kafka –, a autora apresenta personagens que estão em busca de uma transformação. O Hilton de Tel Aviv foi só o pontapé inicial para essa “metamorfose”, o início de uma jornada cujo destino não fazem ideia de qual seja. Talvez um lugar físico, talvez a revelação de algum segredo, talvez até a iluminação tão desejada sobre suas existências.

Pode ter sido o momento em que li, ou pode ter sido desatenção da minha parte, mas não terminei a leitura de Floresta escura com aquela empolgação que se tem quando um livro te surpreende de verdade. Também não li Kafka para ficar assim tão vidrada em toda essa teoria que ela inventa sobre o autor, e por isso algumas passagens focadas nele podem ter perdido muito de seu significado para mim. Mas ainda assim, é um romance contemplativo que merece a leitura, tanto pelas personagens perdidas em suas próprias histórias quanto pela maneira sutil com que Krauss as aproxima.

“Em nossa visão das estrelas, encontramos uma medida de nossa própria incompletude, de nosso estado ainda inacabado, ou seja, de nosso potencial para mudar, ou mesmo de nos transformar. O fato de nossa espécie se distinguir das outras por nossa fome e capacidade de mudança tem tudo a ver com também sermos capazes de reconhecer os limites de nossa compreensão e de contemplar o insondável. Mas, em um multiverso, os conceitos de conhecido e desconhecido se tornam inúteis, pois tudo é igualmente conhecido e desconhecido.”

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