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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Romances de Patrick Melrose, de Edward St. Aubyn

romanes-de-patrick-melrose-1Edward St. Aubyn começou a publicar os romances de Patrick Melrose em 1992 e terminou a série de cinco livros em 2012. Baseado em fatos de sua própria vida, os livros acompanham Patrick da infância até a idade adulta. Seu pai, David, é um ex-soldado e médico que enriqueceu após o casamento com Eleanor, filha de uma tradicional família inglesa. Patrick é filho único, cresceu em mansões e estudou em boas escolas. Viajou pelo mundo todo e frequentou festas com a presença da família real. Uma vida bem abastada, digamos, para render uma narrativa de cinco livros sobre os podres da elite londrina. Mas a história de Patrick Melrose não é só puro deboche da vida cheia de riquezas de sua família e amigos.

Com tradução de Sara Grünhagem, Romances de Patrick Melrose chegou ao Brasil pela Companhia das Letras em 2016 dividido em dois volumes. O primeiro reúne os livros Não importa, Más notícias e Alguma esperança. O segundo, lançado em 2017, contém O leite da mãe e Enfim. A história de Patrick começa, nos livros, quando tem cinco anos de idade. St. Aubyn já parte estabelecendo o cenário que permeará os demais livros: um círculo social rico, exigente, que demonstra um interesse vago nas artes e no pensamento, e que não vai muito além da futilidade das fofocas sobre quem transou com quem.

No início da narrativa, Eleanor, sua mãe, escapa da mansão onde passam o verão na França por algumas horas para evitar o marido. David é intragável: além de fisicamente asqueroso, seu temperamento é um inferno à parte. Logo no início de seu relacionamento com Eleanor, ele a submete às mais humilhantes tarefas, como comer o jantar no chão, de quatro, sem poder usar as mãos, como se fosse uma cadela. As demonstrações de submissão que ele exige logo escalam para a agressão física, e Eleanor só tolera a vida ao lado do marido com a ajuda dos remédios e da bebida.

É nesse momento que começa o inferno na vida do pequeno Patrick. Sozinho na casa com o pai, ele é alvo de uma fúria sem causa. Brincalhão e solitário, Patrick sofre uma série de castigos de David, que termina em um estupro. O garoto não entende o que aconteceu, mas tem noção de que foi algo errado e humilhante. Negligenciado pela mãe e sem ter onde se amparar, St. Aubyn mostra com poucas cenas como o trauma desse estupro se desenvolve rapidamente na mente de Patrick. Quando a hora do jantar chega – com a presença do filósofo e sua namorada e de um outro amigo bajulador e sua amante –, Patrick se vê abandonado na escada da mansão ansiando pela mãe e temendo pela aparição de David.

Não é só Patrick que sofre nas mãos de David nesse dia específico. Todos os convidados de Melrose se tornam alvos de seus comentários provocativos e tentativas de abuso moral e físico. David quer demonstrar poder, mantendo todos à sua mercê: proíbe Eleanor de ver Patrick e a ofende na frente de todos, atormenta seus convidados com opiniões asquerosas e instala um clima de mal estar pesado, até tenta, por baixo da mesa, tocar a amante de seu amigo enquanto todos sentam à sua volta. Quem David é, e o que ele significará para todos no resto do livre, é bem estabelecido nessa primeira narrativa.

St. Aubyn não narra longos períodos da vida de Patrick. Cada livro se concentra em um momento específico, um acontecimento chave que irá desenrolar toda a trama e o futuro de seu protagonista. Se em Não importa a história termina com o fim da noite do jantar, o segundo, Más notícias, começa com uma viagem de Patrick para Nova York. Aos 20 anos de idade, o protagonista tem a tarefa de buscar o corpo do pai, que morreu alguns dias antes.

É claro que em Patrick não restou nenhum sentimento positivo sobre David. Lutando para se manter sóbrio e não injetar heroína durante a viagem, Patrick se debate com os pensamentos conflitantes que a morte do pai despertou. Ele relembra todos os horrores que passou na mão de David, pois o estupro não se resumiu àquele dia na França – a agressão se estendeu por algum tempo, e se os castigos do pai não eram físicos, eles vinham na forma de assédio moral. Quando morre, David já está separado de Eleanor, viveu durante anos depressivo e à beira da miséria, não sustenta mais o status que tinha antigamente. Mas, para seus conhecidos, ele ainda é um homem fino, divertido, inteligente. Enquanto tenta lidar com as lembranças do pai, Patrick ainda tem que aguentar ouvir de todas as pessoas que encontra que David foi um homem extraordinário.

A narrativa de Más notícias é quase alucinógena. Patrick desiste, claro, de se manter sóbrio em poucas horas, e entre buscar o corpo do pai na funerária e encontrar alguns conhecidos de Nova York, se embrenha na cidade atrás de heroína, cocaína e qualquer outra droga que possa lhe ajudar a bloquear o fluxo narrativo que se desenrola na sua mente. Mas o uso constante dessas drogas só intensifica esse alucinante monólogo interno, onde não só ouve os ecos de David como também se auto-recrimina por ser um rapaz drogado, sem perspectivas de futuro, que no máximo consegue se orgulhar por conseguir gastar 10 mil dólares em uma única noite na cidade. Patrick se entrega aos exageros, vai ao melhor hotel, janta no melhor restaurante, e usa o luxo em que vive como uma forma de dizer que não se importa. Que nada na sua vida importa.

Alguma esperança, como o título sugere, apresenta um Patrick Melrose tentando dar um jeito na sua vida. Com quase 30 anos, está sóbrio há alguns meses, depois de sucessivas internações em clínicas de reabilitação. Seu melhor amigo, com quem dividia as drogas e as seringas, também está limpo e frequenta regularmente as reuniões dos Narcóticos Anônimos. Mas Patrick recusa esse tipo de ajuda “barata”. Ele quer permanecer são por conta própria. Toda a trama do terceiro livro se desenrola em uma festa da alta sociedade em que Patrick tem que sobreviver à noite sem as drogas ou bebidas. O lugar estará abarrotado de gente se drogando e bebendo, claro. Porém, o mais difícil para o protagonista não será resistir à tentação, mas sim ser capaz de aturar todas aquelas pessoas sóbrio.

St. Aubyn fala de Patrick sem que o narrador o acompanhe o tempo todo. No caso de Alguma esperança e o primeiro livro, o ponto de vista do protagonista não é o mais importante. O vemos através de outras personagens que compõem o cenário, e ao pular de uma para a outra, entre os preparativos para a festa e o evento em si, o autor cria toda uma trama de fofocas e traições onde Patrick é apenas um observador. É evidente como nenhuma daquelas pessoas vive uma vida feliz, apesar de toda a riqueza que possuem. Os casamentos são arranjados, feitos por interesse, as pessoas se ofendem pelas costas e se tratam como melhores amigas assim que trocam olhares. Irrita a Patrick o fato de nenhuma delas fazer ideia do que acontece nos bastidores da vida social, dos desejos, dos embaraços, dos traumas. Ou, pior ainda: de saberem o que acontece mas preferirem ignorar as verdades inconvenientes. Ninguém ganha nada na alta sociedade sendo justo ou empático, e Patrick seria tolo se esperasse ajuda de qualquer uma daquelas pessoas.

Neste primeiro volume de Romances de Patrick Melrose, St. Aubyn deixa muitas brechas na história – e isso não é ruim. Com exceção do primeiro livro, Eleanor mal aparece, e claramente os problemas de Patrick não são fruto apenas do abuso do pai. Ainda há muitos traumas a serem superados, e ele não está nem perto de alcançar a paz de espírito que tanto procura.

Romances de Patrick Melrose é um livro recheado de personagens odiáveis. Além do claro sadismo do pai de Patrick, todos parecem se empenhar em praticar pequenas torturas uns com os outros: na busca pela ascensão social ou pela afirmação de superioridade; nas vinganças por ofensas passadas ou apenas para matar o tédio de uma vida vazia onde nada é um desafio, tudo é dado de mão beijada. Patrick é uma vítima, sim, mas também aprendeu muito bem com seus pais e aquelas pessoas a ser igual a eles. Ele coleciona dezenas de amigos ludibriados, namoradas e amantes enganadas, conhecidos que o desprezam. Há muitos motivos para acusá-lo de ser tão fútil quanto aqueles que critica. Mas Patrick, pelo menos, tem consciência de que ele não é melhor do que ninguém. E, convenhamos, às vezes as personagens moralmente duvidosas são aquelas mais interessantes de se acompanhar.

Ps.: Ainda em 2018 vai estrear uma adaptação dos livros de Edward St. Aubyn no Showtime, com Benedcit Cumberbatch no papel de Patrick. E já tem trailer.

 

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