um-amor-incomodoLevei um tempo para ler Um amor incômodo (Intrínseca, tradução de Marcello Lino). Na ânsia de ler Elena Ferrante, devorava um livro dela assim que chegava às livrarias brasileiras. Com o fim da tetralogia napolitana, resolvi deixar esse para depois, para quando batesse uma vontade de voltar à autora italiana. Pois bateu. Assim como seus outros romances fora da série – A filha perdida e Dias de abandono –, Um amor incômodo também reflete temas do dramalhão de Lila e Lenu. Neste caso, é a relação entre mãe e filha que fica em evidência.

Delia, uma ilustradora de 45 anos, recebe a notícia de que a mãe foi encontrada morta em uma praia da Itália. A mãe, Amalia, deveria ter ido visitar a filha, mas nunca chegou ao seu destino. As condições com que foi encontrada diferem muito da vida que ela sempre levou: recatada, com roupas velhas e remendadas, foi encontrada seminua, usando um sutiã luxuoso demais para os seus padrões. Delia, então, volta à Nápoles para enterrar a mãe e, por consequência, tentar descobrir o que aconteceu com ela em suas últimas horas de vida. Com isso, a narradora passa a analisar toda a relação conturbada que teve com a mãe esses anos todos, resgatando lembranças dolorosas de sua infância.

Assim como Lenu temia se transformar na sua mãe, um medo que a levava a mancar como a matriarca em momentos de nervosismo, Delia tentava a todo custo fugir da figura materna. No início de Um amor incômodo, já notamos como a protagonista despreza a presença da mãe, tanto pela sua personalidade quanto por fazer reviver a infância infeliz. Enquanto Amalia visitava Delia, a ilustradora se irritava com os menores detalhes envolvendo a mãe: o dialeto, a maneira de limpar e organizar a casa, as cobranças sobre a vida da filha. Assim que a mãe voltava para Nápoles, Delia fazia questão de rearranjar tudo para apagar os vestígios de sua presença.

É impossível não pensar que Delia está sendo injusta com a sua mãe. Sua infância pode ter sido terrível, com a miséria em que caíram após a separação de Amalia e seu marido, que a agredia constantemente. É como se Delia não percebesse que nessa balança de sofrimentos, quem carregava mais peso era a mãe. Por mais que tenha sido dura, o que Amalia buscou fazer na velhice foi recuperar o amor da filha, desfazer o desprezo que Delia alimentou por ela. Com a sua morte, a narradora revive ainda mais o passado, a relação conturbada com as irmãs, o pai, e, lógico, com a própria mãe.

Ferrante é ótima em criar atmosferas claustrofóbicas em suas histórias. Com a tetralogia napolitana isso não acontece tanto, pois é uma narrativa que cobre grandes períodos de tempo e centenas de acontecimentos. Mas seus romances mais curtos focam em momentos específicos – o abandono do marido, uma viagem de férias, a morte da mãe. Esses momentos libertam a memória dos acontecimentos passados, que contextualizam a situação atual e levam suas personagens a reavaliarem quem são, o que querem e como chegaram a esse ponto. E isso passa uma sensação angustiante, pois elas estão tão distantes de suas vidas cotidianas, tão mergulhadas nas lembranças, que parecem presas em uma espiral de remorsos, culpas e arrependimentos que as afetam fisicamente.

No caso de Delia, sua investigação paralela sobre os últimos passos de sua mãe a fazem perambular por Nápoles em busca de respostas, a leva em encontros medonhos, seja com antigos amigos da infância ou com seu pai que continua tão ausente na vida adulta quanto foi no passado. Enquanto tenta refazer esses últimos momentos de Amalia, ela vai aos poucos se confundindo com a própria mãe, se aproximando cada vez mais daquilo que ela mais temia ser.

Pois desde a infância, Delia vivia uma relação ambígua com a mãe. Quando começa a resgatar as lembranças de quando tinha cinco anos de idade, época da separação, ela passa a enxergar a mãe com outros olhos. Da mesma forma que joga luz sobre a condição das mulheres em uma sociedade machista e violenta na tetralogia napolitana, Ferrante transforma um livro sobre a relação entre mãe e filha em mais um retrato dos abusos contra as mulheres. O medo de Delia em se tornar sua mãe está enraizado no cotidiano sufocante em que vivia quando Amelia e seu pai ainda estavam juntos.

Cada sorriso da mãe, cada passeio pela cidade, cada demonstração de alegria eram motivos para que fosse espancada sob a acusação de traição. De mulher alegre e bonita, Amalia passa a ser desleixada e fria, tanto uma consequência da convivência com o marido quanto método de sobrevivência. Delia lembra-se que os únicos momentos em que via sua mãe relaxada e tranquila eram quando estava longe dos olhos, gritos e punhos do pai. Mas as circunstâncias em que se deu a separação – e o próprio envolvimento direto de Delia nesse episódio – nunca trouxeram de volta a personalidade alegre de Amalia. E reverberaram, mesmo sem Delia perceber, em toda a sua relação com a mãe.

Um amor incômodo é um livro doloroso sobre o amor entre mãe e filha. Um amor que durante muito tempo esteve soterrado pelas memórias angustiantes de um passado difícil. Delia quis fugir do destino da mãe, quis se desprender totalmente dessa mulher para não ter que reviver – ou viver – o que ela viveu. Mas mal sabe ela que, para superar o medo, é preciso ir de encontro a ele, se reconciliando com o passado mesmo quando já é tarde demais.

 

Ficou com vontade de ler? Encontre Um amor incômodo, de Elena Ferrante, aqui.