O mundo da escrita, de Martin Puchner

Capa de O mundo da escrita

Livros eram coisas que, na minha infância, pareciam inalcançáveis. Lembro de ter visto uma grande quantidade de livros apenas na casa de uma família: os patrões da minha mãe, que tinham uma vida bem mais confortável que a nossa. Apesar de ter passado anos naquela casa, os livros eram inacessíveis para mim, não só porque ficavam dentro de uma estante envidraçada, mas porque eram quase todos em um idioma que eu não compreendia. Eu gostava de ficar olhando para aquela estante, já gostava de ler os poucos livros que chegavam até mim. E eu desejava ter muitos livros quando eu crescesse, como os patrões da minha mãe.   

Demorou alguns anos, ainda, para que os livros e a leitura se tornassem algo corriqueiro na minha vida. Mas mesmo com esse acesso agora garantido, sinto que a leitura ainda é meio elitista, disponível para poucos. Não só pela questão do preço do livro, mas a visão mesmo de que todos podem ler, a cultura da leitura. Trabalhando com o mercado editorial, vi que as coisas eram assim mesmo: quem cresceu rodeado de livros era, geralmente, de uma família com dinheiro. Eu era a intrusa desse mundo.  

Esse preâmbulo todo é só para destacar uma sensação constante durante a leitura de O mundo da escrita, de Martin Puchner (Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares). Desde o seu surgimento, a escrita – e os livros, e a literatura – era acessível para poucos, muito poucos. Ler e escrever não era uma atividade ensinada a todos, ou quase todos, como hoje. A escrita, aliás, não foi nem criada para que contássemos histórias, mas sim para anotar trâmites comerciais. Ou seja: já começou voltada para o dinheiro.  

Em O mundo da escrita, Puchner, que é professor de literatura, quer mostrar como os livros transformaram o mundo. E para chegar nas histórias clássicas que moldaram governos e gerações, ele precisa começar pelo surgimento da escrita em si. A oralidade sempre foi o meio com que histórias foram contadas de geração em geração. Durante muito tempo, e até hoje em algumas culturas, é a principal maneira com que o conhecimento literário é repassado. Mesmo com a escrita já estabelecida, com alfabetos criados e plataformas como o papiro, o pergaminho e tabuletas de argila servindo como depositários dessas letras. Mas como Puchner mostra, em algum momento a tradição oral cruzou com a escrita dos mercadores, e aí surgiu a literatura.  

Puchner faz uma viagem a vários países e épocas para contar a história dessas histórias. Fala da ficção mais antiga do mundo, a Epopeia de Gilgamesh, e como ela influenciou um rei que trabalhou para que essa história fosse registrada e repassada para as próximas gerações. Falou da relação que Alexandre, O Grande, tinha com a Odisseia de Homero, usando as conquistas de Ulisses como inspiração de suas próprias campanhas. Eles eram governantes que viam no conhecimento um imenso poder, e por isso mesmo financiaram bibliotecas, escribas e reuniram o máximo de histórias e registros que puderam encontrar. Uma amostra de como a literatura era poderosa, acessível a poucos e, quem a detinha, detinha também poder.  

Outro ponto importante da história da escrita foram personalidades que nunca escreveram uma linha sequer em vida, mas suas palavras foram a base para a fundação de textos sagrados que até hoje moldam a sociedade. É o caso de Sócrates, Confúcio, Buda e Jesus, que através da oralidade repassaram suas mensagens para os súditos que acabaram por registrá-las através da escrita. Sem eles, não teríamos religiões como o budismo e o catolicismo, e também não teríamos a filosofia da maneira que a conhecemos. A escrita, no caso desses quatro “professores”, foi fundamental para que suas palavras andassem pelo mundo.  

Isso é, aliás, algo muito interessante sobre a história da escrita. O catolicismo e outras religiões, por exemplo, aproveitaram bastante as novas tecnologias de escrita para que seus textos fossem difundidos. Surgiram traduções, versões mais “acessíveis” das escrituras que poderiam ser lidas e compreendidas por um número maior de pessoas. E quanto mais gente lendo, mais gente seguia essas religiões e ensinamentos. A imprensa, mesmo em sua versão mais rudimentar chinesa, foi bem acolhida por religiões, enquanto outras áreas do conhecimento não ficaram assim tão animados com essas novas invenções.  

Martin Puchner deixa claro como a escrita e o conhecimento foi se espalhando pelo mundo por conta de tratados comerciais. Da mesma forma que produtos viajavam para outros países, a cultura desses lugares viajava junto. E assim essas histórias foram se espalhando, inspirando outras e novas histórias. Ele fala, ainda, sobre o romance mais antigo do mundo – nos moldes que o conhecemos hoje –, o Romance de Genji, escrito por uma mulher desconhecida, mas de classe abastada da sociedade japonesa. Conta como Dom Quixote revolucionou o mundo da literatura ao tratar justamente dos “perigos” da leitura, e desencadeou, também, todo um debate sobre autoria. Mostra como Johannes Gutenberg aperfeiçoou a prensa de tipos e transformou isso em um grande negócio. Também fala sobre os livros proibidos, como os autores da União Soviética obrigados a escreverem clandestinamente, sendo publicados em outros países e sob constante risco de prisão e tortura.  

A literatura ajudou a inspirar conquistadores, a fundar religiões e sociedades, a registrar o conhecimento antigo e novo e a difundir esse conhecimento. E ajudou, claro, a denunciar os horrores do mundo, como é o caso dos depoimentos de Primo Levi e outros autores que vivenciaram os horrores da guerra e da opressão.  

“Quando penso na fortuna e na função da literatura no século XX, os autores que testemunharam os horrores do fascismo e do totalitarismo aparecem com destaque. É certo que escritores anteriores não foram tímidos quanto a retratar a violência. Na Ilíada, Homero e seu escriba captam em detalhes terríveis como uma lança pode entrar num corpo humano ou atravessar uma cabeça. Mas descrever o encarceramento sistemático em massa de pessoas comuns era um desafio novo. A literatura estava preparada para enfrentar esse desafio porque aprendera a se preocupar com a vida de gente comum, não apenas com o destino de reis e heróis. No século XX, esses dois acontecimentos – encarceramento em massa e literatura – convergiam na extraordinária literatura de testemunho.” 

Esse trecho acima me fez pensar novamente sobre a capacidade da literatura de transformar o mundo. Diferente do que penso hoje, Martin Puchner deixa claro que essas histórias moldaram, sim, nosso mundo, sociedade e política. Mas hoje, talvez, ela não tenha mais esse poder de transformação que tinha antes. Ou, melhor dizendo, ainda não damos o devido crédito ao que ela está fazendo hoje.

Penso que o legado mais importante das ficções atuais seja justamente nos fazer entender o que é diferente, e respeitá-lo. Não é mais o tempo para romances sobre homens de meia-idade e suas dúvidas existenciais. Mas é o momento de pensar sobre as minorias diariamente atacadas na sociedade. Essa é uma literatura que ainda pode ensinar muito e transformar a sociedade atual. Porém, eu sou pessimista demais de que, a curto prazo, isso irá acontecer.  

O que vemos hoje, infelizmente, é uma grande parte de leitores e do mercado editorial enxergando a diversidade e representatividade na literatura como produto do “politicamente correto” ou de uma perseguição ao cânone. Pessoas que, ao invés de abraçar essa pluralidade, se sentem ameaçadas em seus pedestais, evitando admitir que suas narrativas não são mais o centro do mundo. Como os antigos escribas que abominaram as novas tecnologias de escrita, são pessoas que preferem manter a literatura essa coisa elitista que ela ainda é. Mas posso dizer que vejo, sim, uma mudança acontecendo, e existem muitos leitores e profissionais empenhados em fazer da literatura algo transformador.

O mundo da escrita é uma leitura maravilhosa para qualquer pessoa que goste de livros e de história. É delicioso ler sobre como diversas culturas lidaram com a escrita, o que registravam, como e porquê. Martin Puchner narra como se essa história da literatura fosse, em si, um romance épico. E, de certa forma, ele é.  

“O aspecto mais fascinante da literatura sempre foi permitir aos leitores o acesso à mente dos outros, inclusive daqueles mortos há muito tempo.” 


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui O mundo da escrita, de Martin Puchner.

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