A ridícula ideia de nunca mais te ver, de Rosa Montero

Capa de A ridícula ideia de nunca mais te ver

Após onze anos de relacionamento, Marie Curie perdeu seu marido. Piere Curie tinha apenas 46 anos quando foi atropelado por uma charrete na rua, voltando de um almoço. A dor que Marie sentiu foi imensa: Piere era amigo e colega, trabalhavam juntos em suas pesquisas científicas. Tiveram duas filhas, viviam em Paris enfurnados em seu laboratório trabalhando com radioatividade. Dividiu com ele o Nobel de Física em 1903 – Marie ganharia, ainda, o Nobel de Química em 1911, única mulher a ganhar dois prêmios da academia sueca em diferentes categorias. Mas Piere morreu, e Marie ficou sem o marido.  


Rosa Montero estava com Pablo Lizcana há 21 anos quando o perdeu para o câncer. Uma das principais escritoras atuais da Espanha, seus romances sempre tiveram um toque de fantasia, de além da realidade. Montero sofreu com essa perda, viveu esse luto intensamente. Mas talvez não tenha chegado perto do que Marie sentiu. Não que uma tenha sofrido mais que a outra, as pessoas sentem de maneiras diferentes. Mas a história de Marie ajudou, de certa forma, Montero a enfrentar a perda dela. E daí surgiu A ridícula ideia de nunca mais te ver (Todavia, tradução de Mariana Sanchez), livro em que a autora entrelaça sua história com Pablo com a vida de Marie Curie e Pierre.  

Montero começa avisando que este não é um livro sobre a morte, apesar dela ser constante nas páginas. Foi a morte de Piere que levou Marie a escrever o diário que Montero agora lê e reproduz, um diário sobre a saudade, o amor e a perda. Esse diário da cientista faz com que a autora se embrenhe em toda a trejetória de Curie, lendo todas as biografias possíveis, falando da sua infância até a chegada em Paris. Analisando fotos e tentando enxergar no semblante frio de Curie os sentimentos que ela colocou no diário – Montero analisa muito as fotos e as coloca dentro da narrativa. A ridícula ideia de nunca mais te ver é um livro sobre o amor e o pioneirismo que a cientista representa. Amor pelo marido e pela ciência, amor pelo trabalho, amor pelo desafio.  

“A verdadeira dor é indizível. Se você consegue falar a respeito das suas angústias, está com sorte: significa que não é nada tão importante. Porque quando a dor cai sobre você sem paliativos, a primeira coisa que ela lhe arranca é a #palavra.” 

Pensei, no começo, que este livro seria uma espécie de biografia amorosa da vida de Curie e de Montero. Mas não é só a morte dos companheiros que aproxima essas duas mulheres de épocas distintas. Os trechos que mais me marcaram como leitora foram aqueles em que Montero tenta se colocar na pele de Curie, imaginando como deve ter sido difícil para uma mulher do século XIX e início do século XX se destacar em um meio predominantemente masculino. Como Curie teve que trabalhar dez vezes mais para ser levada a sério, como esse próprio trabalho afetou desde sempre a sua saúde – primeiro, as refeições mal feitas pela falta de dinheiro e tempo que a deixaram magérrima, depois os efeitos da própria radiação que pesquisava.  

Montero, também, teve que se adequar ao ambiente que queria habitar. Como ela mesma diz, nos anos 1970, para ser levada a sério, você tinha que se aproximar dos homens. Ser uma figura quase andrógena, não ligar para a beleza, para os atributos sempre tão exaltados nas mulheres. Foram anos de trabalho para desfazer essa imagem. Muito do livro, então, fala sobre um mundo de desafios para as mulheres. Como se uma mulher extremamente talentosa e inteligente não pudesse se preocupar com “sentimentos mundanos” como o amor e a estética. Como se uma mulher que ama não pudesse ser extremamente competente com o trabalho.  

Há, também, um grande sentimento de agradecimento de Rosa Montero para Marie Curie. Ela é um dos principais exemplos de mulheres que saíram do caminho até então traçado para o sexo feminino. Diferente de outras colegas da ciência, que foram ofuscadas por homens ou até roubadas em seus trabalhos, Marie Curie é uma das grandes mentes da ciência. Ela foi, sim, uma pioneira que abriu as portas para que outras mulheres pudessem sonhar em ser mais do que diziam que elas deveriam ser. Rosa Montero é uma dessas mulheres inspiradas pela vida de Curie.  

A ridícula ideia de nunca mais te ver é uma leitura linda e sensível. Rosa Montero não é piegas em nenhum momento ao falar da relação com o marido ou da história de amor de Marie e Piere. E coloca entre essas histórias muitas reflexões sobre a mulher. Anexo ao livro está, também, o diário de Curie, e podemos ver que, por mais fechada e soturna que as imagens dela aparentam ser, havia muito sentimento represado dentro dela. Algo que ela não deixava transparecer na superfície, mas que impulsionava seu trabalho e era descarregado, depois, no papel.  

“Todos precisamos da beleza para que a vida nos seja suportável. Fernando Pessoa expressou isso muito bem: ‘A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta’. Não, não basta. Por isso estou escrevendo este livro. Por isso você o está lendo.” 


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