Garota, mulher, outras, de Bernardine Evaristo

Capa de Garota, mulher, outras

Garota, mulher, outras é aquele tipo de livro que chega em mim sem eu saber nada sobre ele. Não andei muito atenta às premiações internacionais do ano passado, então meio que ignorei que livro ganhou o quê. Ando com ranço de premiações — um beijo, Jabuti. Quando recebi o livro aqui em casa (enviado pela Companhia das Letras), me interessei, primeiramente, por ter sido traduzido pela Camila von Holdefer. E depois por ver um bem destacado “Vencedor do Booker Prize” na capa. Passei o livro na frente de todos quando muitos me falaram que ele era bom, e eu acredito demais na opinião alheia.  

Bernardine Evaristo é britânica e tem oito livros publicados, Garota, mulher, outras é seu romance mais recente. É um livro feito de “retalhos de histórias”: cada capítulo apresenta uma mulher e o que está acontecendo com ela no momento, muitas vezes relembrando as fases mais importantes da sua vida. A maioria delas é negra, várias são lésbicas, outras são hétero. Algumas são combativas, fazem parte de uma militância, lutam por algum ideal. Outras são conservadoras, até homofóbicas. A maioria é imigrante ou filha de imigrantes. Elas possuem ocupações, anseios, visões de mundo diferentes.  

O que deixa o livro gostoso de ler é que todas, de alguma maneira, se conectam. Evaristo trabalha com uma estrutura simples e clara de entender: o livro é dividido em partes, e cada parte tem três capítulos que vão falar de alguma mulher daquele “núcleo” de personagens. Começamos, por exemplo, com Amma, uma conhecida diretora de teatro que na juventude criou com sua melhor amiga uma companhia independente para encenar as peças que as grandes casas londrinas jamais colocariam em cartaz — como histórias com diversidade de personagens em raça, sexualidade, classe social. Ficaram famosas pelos protestos, pelas apresentações fora do cânone teatral. E agora Amma se vê prestes a estrear seu mais novo trabalho em um dos principais teatros da cidade, o National Theater. Ela se vendeu para o establishment? Ela chegou, finalmente, para ocupar o lugar que merece? Relembrando o início da sua carreira e suas relações com as mulheres, ela se questiona isso.  

Depois de Amma, Evaristo apresenta Yaaz, filha da diretora, combativa como ela, mas mais “pra frentex”. Yaaz não vê na mãe a rebeldia que ela tinha na juventude. Rebelde e preocupada com as minorias é ela, universitária, falastrona, respondona. E de Yaaz conhecemos Dominique, a amiga de Amma que deixou Londres há muitos anos para seguir a namorada para os Estados Unidos, onde vivenciou um relacionamento abusivo. E assim Evaristo passa para outra parte, outra mulher, outro núcleo. Há uma jovem vice-presidente do banco que subiu os degraus do dinheiro com sua inteligência e estudo constante — enquanto sua melhor amiga virou, no máximo, gerente de supermercado, e sua mãe continua morando numa casa modesta, mantendo as tradições do país de onde veio.  

Tem uma personagem não-binária, fazendo a autora explorar a linguagem neutra para contar sua história, e sua relação conturbada com a família, mas não com a bisavó, uma nonagenária fazendeira do norte da Inglaterra. Ao falar de Hattie e Grace, Evaristo volta muitos anos na história ao narrar a origem toda da família. Há professoras cansadas, uma diretora de colégio ressentida por ser órfã, uma mãe que teve um caso com o próprio genro, uma homofóbica cuja amiga mais antiga é lésbica. E, de algum jeito, todas essas personagens convergem para um único lugar: a peça de Amma.  

Bernardine Evaristo usa frases simples e curtas, parágrafos suscintos. Uma grande característica da sua escrita é a ausência de ponto final. Mas não de um jeito maçante, com aqueles blocões de textos intermináveis. As falas e pensamentos estão bem marcados, a leitura flui sem nenhum problema. É como se cada história não terminasse nunca, nem no fim de um capítulo e nem no final do livro.  

Evaristo é ótima em explorar os diversos pontos de vista, do discurso “woke” ao militante, do conservador ao indiferente. Talvez apenas no final do livro ela caia um pouco para uma narrativa “professoral”, um diálogo que parece saído de um textão do Facebook. Mas tirando essa impressão, Garota, mulher, outras é uma leitura impactante. Pelas personagens, pela escrita, pela violência que algumas histórias exploram e pelas surpresas que guarda.

“[…] que falta de consideração, não com ela
escolher se jogar na frente de uma besta de ferro mecânica que pesa milhares de toneladas e acelera a uma velocidade máxima de duzentos e vinte e cinco quilômetros por hora?
escolher um fim tão brutal e dramático
Carole sabe o que leva as pessoas a tamanho desespero, sabe como é parecer normal mas se sentir oscilando
só a um salto de distância
das
multidões amontoadas nas plataformas que trazem esperança suficiente no coração para continuar vivendo
oscilando
só a um salto de distância da
paz
eterna”


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui Garota, mulher, outras, de Bernardine Evaristo.

Leituras relacionadas:
Manual da faxineira, de Lucia Berlin
Ritmo louco, de Zadie Smith