Uma noite, Markovitch, de Ayelet Gundar-Goshen

Capa de Uma noite Markovitch

Sabe aquele livro que te chama a atenção na livraria e você não pensa duas vezes antes de levar? Capa bonita, sinopse interessante, tudo nele grita “me compre!”, e você obedece. Com Uma noite, Markovitch, de Ayelet Gundar-Goshen (Todavia, tradução de Paulo Geiger) foi assim. Faz alguns anos que vi ele na livraria e comprei sem saber muita coisa. E por não saber muito acabei demorando horrores para ler. Nem mesmo quando Gundar-Goshen veio para a Flip, no ano passado, eu tirei ele da estante. Mas nesse ano chegou a sua vez. 

Iaakov Markovitch é um homem sem nenhuma característica marcante. “Suas feições eram espantosamente destituídas de singularidade, a ponto de o olho não conseguir se demorar nelas, seguindo adiante para se fixar em outras coisas”, descreve o narrador. Por isso mesmo Markovitch é um dos melhores contrabandistas de um grupo de resistência judeu em Israel durante a guerra. E por isso, também, é um homem solitário, com poucos amigos e nenhum amor. Seu único amigo, Zeev Feinberg, é totalmente o contrário: tem um bigode vasto que parece ter vida própria, tem olhos claros sedutores, tem uma lábia que conquista todas as mulheres da colônia onde vivem — solteiras e casadas. 

É por causa de um dos casos de Feinberg que os dois amigos deixam a vila para escapar de um marido furioso, e partem em uma missão humanitária na Europa. Os dois irão se casar com mulheres judias para que possam trazê-las em segurança para Israel. Enquanto Feinberg deixa para trás uma apaixonada e raivosa Sônia, que diariamente grita impropérios para o mar em que o amado partiu, Markovitch encontra Bela, a mulher mais linda que já viu. É justamente ela quem vai transformar Markovitch em um homem que, agora, é visto. Ao recusar se separar da mulher quando voltam para sua casa, toda a comunidade passa a acompanhar o cotidiano de um casal sem nada em comum, uma relação marcada pelo desejo e pelo ódio.

Esse é um resumo breve do que Gundar-Goshen guarda neste romance. Podemos pensar que Markovitch é um homem tenebroso ao obrigar que uma mulher mantenha matrimônio com ele — e é o que todo mundo pensa na colônia. Nem os pedidos de Feinberg e Sônia para que deixe Bela ir embora o demovem do sonho de que, em algum dia, ela poderá se apaixonar por ele. Markovitch não força Bela a nada, não a obriga a gostar dele. Ela pode, inclusive, fugir para onde quiser, como acabou fazendo. Mas ao se ver grávida e abandonada, é em Markovitch que ela encontra recursos para criar o filho, e ele aceita de bom grado cuidar da criança concebida fora desse casamento. 

Bela encanta a todos da mesma forma que encantou Markovitch, mas as personagens percebem que muito da beleza que ela emana vem justamente da atenção que o marido dá à ela. É o amor e o desejo de Markovitch que iluminam essa mulher, não que ela seja feia, mas as pessoas notam que a presença de Markovitch e o ódio que ele desperta em Bela são um combustível para essa beleza. O que podem confirmar quando o próprio Iaakov parte para a guerra contra os palestinos, deixando a mulher tranquila e alegre com a criança na colônia. 

Ayelet Gundar-Goshen faz a história se desenrolar durante anos e anos. Do início da aventura de Markovitch e Feinberg ao rumo que suas vidas vai tomando conforme eles e os filhos vão envelhecendo. Há uma beleza no amor entre Sônia e Feinberg, e também entre Sônia e o vice-comandante do Irgum, com quem teve um caso enquanto o “noivo” estava na Europa — um amor que nunca o deixou. Há a melancolia de Raquel, casada com o açougueiro da colônia, que não consegue tirar da cabeça a imagem de um velho judeu sendo assassinado pelos alemães antes de chegar a Israel. E há essa relação conflituosa, mas ainda assim pacífica, entre Markovitch e Bela, uma guerra silenciosa entre o que ama e a que odeia. 

Uma noite, Markovitch tem um quê de fábula. Gundar-Goshen narra de um jeito poético, cada frase a ação remete a alguma paisagem, animal, pintura, música. Por mais triste que algumas passagens possam ser, ou mesmo até violentas, tem essa coisa bonita nas palavras da autora que deixam você vidrado na narrativa. E foi isso o que me fez gostar tanto do livro, porque ele é, realmente, bem denso e lento nos acontecimentos. Mas as coisas vão ganhando um peso e dimensões maiores conforme a história avança, e não se torna só uma história sobre um homem e uma mulher que se casaram por capricho do destino, mas sim a história de todo um povo, de um lugar e de seus decendentes. 

“Iaakov Markovitch continuaria a manter seu amor e seu pecado até o fim dos dias. E o amor e o pecado continuariam a ser novos e frescos como eram no dia em que nasceram. Bela continuaria a ser a mulher mais bonita que vira em sua vida, e seu ódio a Iaakov Markovitch permaneceria forte como sempre. Zeev Feinberg e Sônia continuariam a brigar em altas vozes e a transar em vozes mais altas ainda. E o vice-comandante do Irgum seria para sempre o vice-comandante do Irgum, e jamais o comandante do Irgum, como tampouco seria o vice-comandante do Irgum aposentado. Decididamente, seria de imaginar que nunca envelheceriam. Mesmo assim, foram envelhecendo.” 


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