A pequena outubrista, de Linda Boström Knausgård

Capa de A pequena outubrista

Não queria começar esse texto logo falando de Karl Ove Knausgård, mas não encontrei outro jeito. Quando comecei a ler sua série, Minha Luta, ficava logo pensando em como as pessoas descritas em seus livros se sentiam. É uma exposição absurda ter a sua relação com alguém escrita para o mundo todo ler, mesmo que a base da narrativa seja o próprio autor. Mas ele não vive sozinho, isolado no mundo, então outras pessoas aparecem. Linda Boström Knausgård foi uma personagem importante em seus romances, principalmente em Um outro amor, segundo livro da série onde ele abordava o casamento com ela e a paternidade. Tudo mundo sabia quem era Linda, como se conheceram, como começaram a se envolver. Mas não eram as palavras de Linda. Era tudo pela visão dele. 

A pequena outubrista (Rua do Sabão, tradução de Luciano Dutra) foi, para mim, a chance de ver o lado dela. Não que os dois livros estejam super conectados ou que um dependa da leitura do outro. Mas no meu imaginário, a autora era aquilo que seu marido descreveu. Seguindo o estilo autobiográfico, o foco não é seu casamento, embora ele apareça bastante. Linda escreve sobre os dias passados em uma clínica psiquiátrica recebendo um tratamento de eletroconvulsoterapia para tratar sua bipolaridade. Um dos efeitos dos choques é uma possível perda da memória, algo que amedronta a autora. Não era a primeira vez que ela era internada, nem a primeira vez que recebia esse tipo de tratamento. Mas o medo está sempre ali, espreitando. 

Do seu quarto na clínica aos corredores, ela descreve os ajudantes que conversam com ela e outros pacientes, narra os efeitos que sente do tratamento, o que faz para se distrair, os momentos em que se vê paralisada, sem vontade de sair da cama, achando que nunca vai melhorar. Duvida de si mesma ao pensar nos quatro filhos; se, após sair da internação, será capaz de cuidar deles. E desse lugar ela explora sua história como filha, escritora, mulher, mãe e esposa convivendo com a bipolaridade. 

As primeiras memórias são da infância, falando sobre sua mãe, pai e irmão. Uma família dividida, com uma mãe não muito maternal e um pai problemático, quando seu desejo era que o namorado de sua mãe assumisse a responsabilidade por ela. Um desejo de ter uma família normal como todas as outras, pois ela sabia que não se encaixava no que diziam ser a normalidade. Daí passa para as primeiras internações, o casamento, os filhos, o divórcio, a carreira de escritora, suas dúvidas quanto ao futuro e o que fazer dali em diante. 

É como se Linda não estivesse apenas presa dentro da clínica, mas também presa dentro dela mesma. Ela repete pensamentos, como as várias vezes em que menciona o divórcio, ou se cobra para se comportar na clínica para que, finalmente, a liberem dos choques. É uma luta interna com ela mesma, com a vontade de agir conforme os outros esperam, mas sem conseguir. 

A memória e a escrita estão muito ligadas aqui. E escrever A pequena outubrista é um exercício de manter essa memória ameaçada viva. Não é um revide ao que Knausgård escreveu sobre ela, bem longe disso. É uma necessidade de mostrar que ela está aqui, ainda está aqui, mesmo quando desacordada na mesa de exame. É para dizer “eu sou isso, não aquilo que você acha que eu deveria ser. Eu sou isso aqui”. Então é uma leitura bem íntima, direta, ela não escreve com vergonha ou apreensão. 

Gostei bastante da leitura de A pequena outubrista e da maneira com que Linda Boström Knausgard escreve livremente, indo de um pensamento a outro, estando ao mesmo tempo tanto em um lago dentro de uma canoa, quanto em seu quarto na clínica psiquiátrica. Não queria fazer comparações, mas achei que Linda é bem mais direta, verdadeira e aberta em seu relato da bipolaridade do que o ex-marido ao falar sobre cada pormenor de sua vida. 


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Leituras relacionadas:
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Manual da faxineira, de Lucia Berlin