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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Category: Resenhas (page 1 of 36)

Swing Time, de Zadie Smith

swing-timeDuas meninas se conhecem nas aulinhas de dança do bairro. Duas meninas pardas, filhas de pais brancos e negros. Uma delas, Tracey, demonstra um talento singular logo de início. A mãe, branca e espalhafatosa, mima a garota com o que ela quer, e Tracey tem uma liberdade que nenhuma outra criança do bairro tem. O pai, negro, está preso – mas para a pequena Tracey ele está em turnê com Michael Jackson. A outra menina, que vem a ser a narradora de Swing Time, romance mais recente de Zadie Smith, não tem o mesmo talento, mas é apaixonada por musicais – com todas as suas canções e danças. Sua mãe, descendente de jamaicanos, é uma dona de casa mergulhada em leituras que tenta passar à filha um senso de identidade. O pai, branco, trabalha nos correios e, apesar de apaixonado pela esposa, sente que é deixado de lado pelo seu autodidatismo. Tracey e a narradora são duas crianças com muito em comum, mas também guardam diferenças gigantescas.

Swing Time começa com a narradora já em seus trinta e poucos anos, voltando para Londres após ser demitida de seu emprego como assistente pessoal de uma cantora pop australiana mundialmente famosa – algo tipo uma Madonna. Não sabemos o motivo da demissão e nem por que a narradora está recebendo tantas mensagens raivosas em seu celular, trancada num quarto de hotel sem contato com a família ou amigos. Mas ao passear pela cidade ela começa a revelar sua história, e essa amiga de infância, Tracey, tem papel fundamental nela. Read more

“Quem matou Roland Barthes?”, de Laurent Binet

quem-matou-roland-barthesQuem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet (tradução de Rosa Freire D’Aguiar), foi o último livro lido em 2016, e um dos meus preferidos do ano. É daqueles livros que você não sabe exatamente os motivos de ter gostado, ou apenas não consegue descrevê-los bem. Ele é divertido, ele é bem escrito, ele pode até ser considerado inventivo, apesar de ser uma clássica história de investigação policial, um quem matou quem – ou quem mandou alguém matar quem, neste caso –, um romance que usa elementos reais para criar uma absurda história de conspiração que envolve a linguagem. Talvez eu tenha gostado do livro porque finalmente usei o que tive que aprender de semiótica na faculdade. Talvez.

Roland Barthes estava atravessando a rua quando foi atropelado por uma camionete de lavanderia no dia 25 de fevereiro de 1980. Estava voltando para casa após um almoço onde estavam presentes vários políticos e estudiosos, incluindo o candidato socialista à presidência da França, François Mitterrand. Até aí, tudo aconteceu de verdade. O almoço e o atropelamento são o ponto de partida para a trama policial de Laurent Binet. Considerando o atropelamento um acontecimento suspeito, a polícia francesa coloca o delegado Jacques Bayard para investigar as causas do acidente. Suas perguntas para Barthes no hospital não surtem muito efeito: ele apenas descobre que seus documentos foram perdidos, mais um fato suspeito. Um mês depois do atropelamento, Barthes morreria no hospital. Read more

História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang

HistoriaDaSuaVidaGEsse é um daqueles raros casos em que fiquei com muita vontade de ler o livro depois de ver o filme. Quando saí da sessão de A chegada, queria conhecer tanto a história original quanto os outros contos de Ted Chiang – a ideia toda apresentada no filme me pareceu legal demais para me contentar só com o audiovisual. Claro que as indicações de pessoas cujo gosto literário eu confio também ajudaram na decisão de ler Chiang, assim como algumas entrevistas do próprio autor – ele parece ser um daqueles caras de boas que não quer muita atenção, só fazer seu trabalho e escrever uns textos fictícios vez ou outra, gosto desse pessoal.

Por conta disso, comecei a leitura de História da sua vida e outros contos com as expectativas mais altas (a tradução lançada pela Intrínseca é de Edmundo Barreiros). Quem me conhece sabe que sou contra esse negócio de cultivar expectativas positivas sobre qualquer coisa, porque a decepção é quase certa. Mas não foi assim com Ted Chiang. Os contos são bons. Assim, bem bons.

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O homem sem doença, de Arnon Grunberg

o-homem-sem-doencaSamarendra Ambani é suíço. Seu nome e aparência podem sugerir que não. Mas ele é suíço, logo ele é neutro e não desperta ameaças. Sam, como é conhecido, é arquiteto, filho de pai indiano e mãe suíça. Nasceu em Zurique. Tem uma namorada que pretende pedir em casamento e mora com a mãe e a irmã mais nova, debilitada por uma rara síndrome. Os pais não quiseram gastar com um tratamento arriscado que poderia dar a ela uma vida quase normal. Não tinham muito dinheiro, não queriam deixar a Suíça. Mas Sam quer algum dia poder pagar para que ela possa se recuperar, para que a irmã possa parar de desejar sua própria morte. Ao contrário da irmã, Sam é saudável. Nunca fica doente, nunca cai de cama.

É pensando na irmã que Sam se inscreve para um concurso: construir um teatro de ópera em Bagdá, no Iraque. Seu sócio não quis entrar na empreitada, então Sam resolve fazer o projeto sozinho. Finalista do concurso, ele é convidado a viajar até Bagdá para conhecer o local onde o teatro será construído. Sam aceita fazer a viagem, apesar das preocupações da namorada e da mãe: Bagdá não é mais perigosa, os ataques foram contidos, ele terá seguranças à disposição e estará em boas mãos. Não é bem isso o que acontece.

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A filha perdida, de Elena Ferrante

a-filha-perdidaUma mulher de meia-idade, professora, deixa a cidade para passar as férias no litoral do sul da Itália. Leda está livre das obrigações de mãe. Suas duas filhas, já crescidas, vivem perto do pai em Toronto, no Canadá. As preocupações atuais de Leda são o trabalho e, agora, encontrar um lugar confortável nas areias de uma praia tranquila para ler e revisar seus estudos. Momentos que são interrompidos pelas lembranças da própria maternidade desencadeadas pela presença de uma jovem mulher e sua filha acompanhadas da barulhenta família, pessoas que também transportam a narradora para a sua juventude em Nápoles.

A filha perdida, de Elena Ferrante (tradução de Marcello Lino), apresenta vários elementos que encontramos na tetralogia napolitana – o livro foi lançado anteriormente aos da série. Temos neste livro uma narradora que saiu de um lugar onde reina a violência e a ignorância e conseguiu se estabelecer em um ambiente intelectual, assim como faz Lenu a partir do segundo livro da série, História do novo sobrenome. Conforme Leda desenvolve seu relato sobre os dias naquela praia, suas experiências se encontram com aquelas que Lenu começa a vivenciar no terceiro livro, História de quem foge e de quem fica, principalmente quando fala da maternidade, do cansaço de manter um trabalho e uma casa, dos anseios de uma mulher que quer ser reconhecida pela inteligência e pelo trabalho, e não se resumir ao papel de mãe. É como se o curto romance fosse um pequeno ensaio do que seriam seus livros de maior sucesso.

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Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson

paraiso-e-inferno“Pouco de nós se assemelha à luz. Estamos muito mais próximos da escuridão, somos quase escuridão, tudo o que temos são recordações, e a esperança que, seja como for, se desvaneceu, continua a se desvanecer e em breve se assemelha a uma estrela extinta, um rochedo escuro. No entanto, sabemos um pouco sobre a vida e um pouco sobre a morte, e conseguimos falar disso: fazemos todo este percurso para te tocar, e para concretizar o destino.”

A Islândia sempre esteve na minha lista de lugares a visitar. Por causa da neve, das montanhas, dos vulcões, do jeito de lugar inabitado, sem grandes prédios, onde a natureza é o que chama a atenção. O país tem cara de uma cidade de mentira, toda inventada, onde tudo parece de brinquedo ou antigo. Acho isso tudo bonito demais. Parece mágico. Mas a Islândia não é só beleza, ou melhor, justamente aquilo que é bonito pode ser traiçoeiro. E só parei para pensar nisso depois de ler Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson, lançado neste ano no Brasil e traduzido direto do islandês por João Reis.

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Homo Deus, de Yuval Noah Harari

homo-deusFome, pestes e guerra: durante toda a sua existência, o homem teve que superar essas tragédias para se manter vivo. A fome dizimava populações inteiras, metade das pessoas na Terra podiam perecer a uma nova peste que matava rapidamente, durante séculos nações viveram em pé de guerra e os momentos de paz mundial eram apenas pequenos intervalos entre um conflito e outro. No século XXI, esses “problemas” foram minimizados: as pessoas morrem mais de diabetes e obesidade que de fome; novas doenças são rapidamente isoladas e combatidas; conflitos entre nações ainda existem, mas a morte por homicídio e até suicídio superam as mortes em guerras. Vivendo nesse tempo de paz constante, qual será a próximo passo do homo sapiens?

O parágrafo anterior resume a introdução de Homo Deus (tradução de Paulo Geiger), novo livro de Yuval Noah Harari, que em seu livro anterior, Homo sapiens, registrou toda a história do homem em milhares de anos de existência. Sua ideia neste novo livro é mostrar as possibilidades do futuro do homem, qual será a próxima “evolução” do homo sapiens. Uma história que, por conta de todos os avanços científicos que tivemos, é otimista e pessimista ao mesmo tempo, um aviso sobre as questões éticas e morais de nossos avanços tecnológicos.

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História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante

historia-de-quem-foge-e-de-quem-ficaNão teve um autor neste ano que quis tanto ler quanto Elena Ferrante. Os livros da tetralogia napolitana são aquela leitura que eu apenas precisava fazer o mais rápido possível, assim como os outros livros da autora italiana que foram chegando ao Brasil durante 2016. E, felizmente, eles nunca são uma decepção. O terceiro livro da série, História de quem foge e de quem fica (tradução de Maurício Santana Dias), mantém a qualidade dos outros volumes – e o dramalhão, claro. A violência do bairro que Lenu narra no primeiro livro, A amiga genial, ainda existe, agora intensificada pelas lutas da classe operária por melhores condições de trabalho, um embate entre esquerdistas e fascistas e também entre os intelectuais e os trabalhadores. Assim como continua a conturbada relação da narradora com sua melhor amiga, Lila, uma mulher de grande inteligência e sentimentos sempre à flor da pele, que não sabemos ao certo que tipo de amizade nutre por Lenu. E a vida das duas segue se cruzando.

No início do terceiro livro, Lenu narra como foi seu último encontro com a amiga: as duas, já com idade avançada, passeiam pelo bairro de Nápoles. A morte de uma de suas amigas da juventude, Gigliola, pauta a conversa. Como no começo dos livros anteriores, a cena serve para Ferrante relembrar o objetivo de Lenu ao narrar sua história com a Lila: desaparecida sem deixar rastros, Lenu faz justamente o que ela a proibiu de fazer, contar toda a sua história. Registrar sua presença no mundo. A partir disso, o livro continua do ponto em que parou: o lançamento do primeiro livro de Elena Greco e o reaparecimento de Nino, por quem é apaixonada desde pequena e que teve um caso com Lila.

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A música do universo, de Janna Levin

a-musica-do-universoJanna Levin não sabia que os cientistas do grupo Ligo (sigla em inglês para Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser) haviam detectado ondas gravitacionais quando enviou para alguns deles uma versão quase pronta de seu livro, A música do universo. Durante anos, a física e jornalista entrevistou dezenas de pessoas envolvidas no projeto que tem como objetivo comprovar a teoria das ondas gravitacionais de Albert Einstein. Quando estava finalizando seu manuscrito, o que tinha de material eram as histórias por trás dessa iniciativa: a burocracia para conseguir fundos, as intrigas entre os cientistas, os seus temperamentos difíceis e o trabalho para tirar tudo do papel. Mas meses antes do centenário da teoria de Einstein e do livro de Levin ser lançado, o Ligo detectou ondas causadas pela colisão de dois buracos negros a milhões de anos-luz da Terra. A teoria estava comprovada. As ondas gravitacionais existiam. Einstein estava certo: dois corpos celestes de grandes massas eram capazes de provocar ondas que se propagavam na malha do espaço-tempo do universo como o som que sai de um tambor e chega ao seu ouvido – impossível de ser visto, mas podendo ser sentido.

A música do universo (traduzido por Paulo Geiger) é uma biografia deste projeto que começou a ser concebido há 50 anos. Quando, no começo do ano, foram divulgadas as descobertas destes cientistas, muita gente certamente nem fazia ideia de que existia um trabalho tão enorme para detectar tal fenômeno do universo. Ainda mais imaginar que ele durou tanto tempo para entrar em funcionamento – o grande ápice do livro, não fosse a comprovação da teoria, seria fazer as máquinas do Ligo pelo menos funcionarem, o que não é pouca coisa. O que Janna Levin mostra nesse livro, além das explicações simples sobre a teoria das ondas gravitacionais, o que são os buracos negros, quais seriam as prováveis origens das ondas e como poderíamos (e, de fato, podemos) captá-las, é toda a luta que existe para simplesmente conseguir colocar o plano em prática.

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Enclausurado, de Ian McEwan

enclausuradoDe dentro do útero da mãe, um feto de quase nove meses escuta os planos horríveis de sua genitora para assassinar seu pai. Ela arquiteta o plano com seu amante, que vem a ser também o tio do feto. O motivo do crime é a casa onde eles se encontram, um imóvel que, apesar de decrépito, vale cerca de seis ou sete milhões de libras. Se a mãe, Trudy, simplesmente se separasse do editor e poeta John, ela não conseguiria um bom acordo que enriquecesse sua conta bancária e a de Claude, o amante/cunhado. A única saída para arrancar dinheiro do decadente poeta é o assassinato. E o feto escuta tudo.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente esperando, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda”, diz o feto na primeira linha de Enclausurado, novo romance de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster). Através da barriga da mãe ele escuta tudo, todas as maquinações e depravações dela e do amante, e isso aterroriza a mente do ser que ainda nem chegou ao mundo. O feto que narra este livro se preocupa com o que será do seu futuro caso o plano seja colocado em prática, mas pouco pode fazer para evitá-lo estando ainda preso ao cordão umbilical. Resta a ele apenas a contemplação e as previsões de como será o seu futuro, sendo criado por dois assassinos ou então abandonado, dado para a adoção. Nenhum dos cenários lhe parece bom.

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