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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Uma temporada no escuro, de Karl Ove Knausgård

uma-temporada-no-escuroUma temporada no escuro (tradução de Guilherme da Silva Braga) é um dos livros mais divertidos de Karl Ove Knausgård. Quarto volume da série Minha Luta, neste livro o escritor norueguês se concentra no início de sua vida adulta. Formado no colégio e sem planos de ingressar em uma faculdade, o Knausgård de 18 anos consegue um emprego como professor em uma pequena vila no norte da Noruega – lá ele poderia ganhar algum dinheiro e ter tempo para fazer o que realmente quer: escrever. É estranho pensar que um moleque de 18 anos tenha algo a ensinar para alunos pequenos, crianças e adolescentes dois anos mais novos que ele. Mas a localização remota da ilha e sua população minúscula – cerca de 200 e poucas famílias – não torna o lugar muito atrativo para professores formados. A mão de obra desses alunos recém-saídos do forno é bem conveniente para lugares como esse, então era bem comum que jovens como Karl Ove fossem passar um ano dando aulas básicas até arranjarem algo “melhor” para fazer.

É assim que o romance começa: Knausgård está chegando na vila, ansioso para começar a trabalhar, para morar pela primeira vez sozinho, ter seu próprio espaço. O tamanho da vila não o assusta. Na verdade, estar num lugar tão vazio de pessoas e remoto é um atrativo a mais, ele se torna rapidamente uma novidade, as pessoas vêm falar com ele espontaneamente e se mostram muito solícitas. Em sua primeira noite, o sentimento do escritor é puro contentamento. Contentamento por ter 18 anos, por estar se virando sozinho e por estar começando a escrever.

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Como ficar podre de rico na Ásia emergente, de Mohsin Hamid

como-ficar-podre-de-rico-na-asia-emergentePara Mohsin Hamid, a literatura é um tipo de autoajuda. Nas entrevistas que concedeu aqui no Brasil e durante sua mesa na Flip 2014, era isso o que ele dizia quando perguntado sobre o motivo de ter escrito um romance com a linguagem dos livros de autoajuda. Tudo começou com uma brincadeira, disse ele, até que pensou: peraí, mas por que lemos? Não é para nos encontrarmos dentro dos livros, ou então escaparmos da nossa realidade? É uma boa maneira de enxergar a literatura e os livros. Que, mesmo que não estejamos lendo pequenas pílulas de inspiração e conselhos provindos da sabedoria popular, filosófica ou macrobiótica (vai saber), nosso impulso inicial ao escolher uma leitura é o entretenimento e o conhecimento que podemos adquirir através dela. Logo, a literatura tem um papel, sim, de nos ajudar – mas não em todos os casos, claro.

Tudo isso só para dizer que Como ficar podre de rico na Ásia emergente é um livro de “autoajuda”. Escrito como um desses livrinhos famosos que enumeram passos para uma vida plena e de riquezas, ele conta a sua história. Você é o filho caçula de uma família que vive numa aldeia de algum grande país da Ásia. Você está tremendo de febre no chão, na sua cabana, e sua mãe e seu pai não podem fazer muito para te ajudar. Você já perdeu irmãos para a doença. Mas você sobreviverá, sua família vai sair do interior e fixar residência em uma das cidades mais populosas do mundo, você vai trabalhar numa locadora de DVD como entregador e vai conhecer a menina bonita, uma garota que mora próximo à sua casa e com quem você sonha um dia ter coragem para puxar papo. Mas seu maior desejo é ficar rico. E você vai começar do nada o seu “império”, primeiro vendendo comida vencida barata, e depois água engarrafada. Read more

Dez de dezembro, de George Saunders

dez-de-dezembroÉ difícil falar sobre contos e blábláblá. A leitura é mais leve, mas ao mesmo tempo profunda e blábláblá. Resenhar um livro de contos é complicado porque ou você fala de cada texto, ou faz um comentário que consiga abranger todos os contos em uma coisa só e blábláblá. Não sei quantas vezes já comecei a falar sobre um livro com essas frases, mas a sensação, terminada a leitura, é essa: como explicar que os textos de tal autor são ótimos e como resumir a sensação da leitura como um todo? Isso só acontece, claro, com os bons livros, como foi o caso de Dez de dezembro, de George Saunders.

Não sei se é uma questão cultural, mas minha experiência com contos (que não é lá muita) diz que autores estrangeiros tendem a escrever narrativas mais longas, que abrangem 10, 20, 30, até mais de 60 páginas para uma única história (levantando a discussão de “mas isso é um conto ou uma novela?”), enquanto os escritores nacionais tendem a rechear seus livros com até 50 contos curtos, de três ou quatro páginas cada um – pelo menos foi assim com várias estreias literárias de autores daqui que caíram nas minhas mãos. (Ok, eu sei que alguns brasileiros mandam muito bem em contos mais longos, como os de Pó de parede, da Carol Bensimon, e alguns textos do Antônio Xerxenesky em A página assombrada por fantasmas.) Bem, tendo a gostar mais dos contos maiores, talvez justamente por terem a extensão necessária para me fazer absorver a história com mais detalhes (o que não é uma regra inquebrável, só para deixar claro). Os textos de Saunders são assim.  Read more

Garota exemplar, de Gillian Flynn

garota-exemplarGarota exemplar deve ter sido um dos lançamentos estrangeiros mais comentados do ano passado – e um dos com o maior número de leitores evitando spoilers por aí. Acabei adiando a leitura até saber que estava sendo adaptado para o cinema com direção do David Fincher – com estreia prevista para outubro. Queria ler até lá.

Não vou dizer que os spoilers estragaram a experiência da leitura – nunca estragam, insisto que essa é a maior frescura da internet –, mas quando passei para a segunda parte do livro, percebi que sabia bem pouco sobre ele – quem procura acha. Garota exemplar é uma espécie de thriller de investigação com um romance doentio e a dúvida constante sobre quem é o mocinho e quem é o vilão da história. Amy Elliot Dunne some de casa no dia do aniversário de cinco anos de seu casamento com Nick Dunne. O sumiço da mulher já começa envolto em várias dúvidas: Nick não tem um bom álibi para a hora em que Amy desapareceu, e sua reação ao desaparecimento deixa a polícia desconfiada. É um caso típico em que a culpa sempre recai sobre o marido, e claro que ele é o principal suspeito. Read more

Algumas mudanças e outras notas

Como dá para notar, o blog está diferente. Bem, aconteceu algo muito chato essa semana. Vou chamar esse evento de Taize-praticamente-apagou-todo-o-blog-sem-querer. Evento que foi seguido de O-UolHost-não-conseguiu-me-ajudar (ou não quis). A parte boa é que, YAY, o blog voltou. A ruim é que ele não voltou completo, apenas com os posts mais antigos, do início de tudo (2009) até o começo de 2011, e  por enquanto consegui cadastrar todas as resenhas publicadas em 2013. A parte ruim é que esse conteúdo que estou recadastrando virá incompleto, sem os comentários e todas as imagens, e provavelmente com alguns errinhos nos textos.

Aos poucos vou colocar tudo o que eu lembrar que havia no blog aqui e deixar ele bonitinho de novo.

Na praia, de Ian McEwan

na-praiaHoje é raro um casal chegar na sua lua de mel sem saber o que deve – e como – fazer. O sexo não é mais aquele ato “sagrado”, que deve ser praticado apenas quando as duas almas apaixonadas estão ligadas pelos laços do matrimônio e toda essa lenga-lenga que persistiu a reprimir desejos durante tanto tempo. O homem sempre teve essa liberdade de ter algum tipo de relação sexual antes do casamento, e inclusive fora dele. Já para a mulher, sua virgindade era seu selo de honra, e tratar desse assunto com quem quer que fosse era um ato impensável. Existe ainda certo conservadorismo quando o assunto é a sexualidade da mulher, um conjunto de regras que deve reger o comportamento das “boas moças”, as para casar. Tudo besteira.

Na praia se passa no início dos anos 60, uma época em que os jovens estão experimentando maior liberdade em tudo: sexo, família, estudos, é a década da libertação, da quebra de regras conservadoras já ultrapassadas. Florence e Edward estão recém casados, em um hotelzinho na praia de Chesil, na Inglaterra, comemorando o matrimônio e a enfim entrada na vida adulta. Agora podem fazer o que quiserem, são os donos da própria vida. Porém, a ansiedade e medo resultados da inexperiência de ambos tornam a noite de núpcias em uma sucessão de angústias, e não de prazer. Neste livro, Ian McEwan revela o pensamento retrógrado dos dois jovens presos pela noção de dever que o homem e a mulher possuem no casamento, “educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível.” Read more

Shantaram, de Gregory David Roberts

shantaramEm 1978, Gregory David Roberts foi preso por assalto à mão armada na Austrália. Ao se divorciar, o até então escritor se rendeu completamente à heroína, perdeu o contato com sua filha, sua família, e passou a roubar para alimentar seu vício. Capturado, ele foi condenado a passar 19 anos trancafiado dentro de uma prisão de segurança máxima. Contudo, o horror das torturas sofridas dentro da cadeia e o desejo incontrolável pela liberdade levaram Roberts a um ato extremo: fugir. E em 1980, livre da prisão e um dos mais procurados foragidos da Austrália, ele desembarca em Bombaim, a cidade mais populosa do mundo. Muito mais do que uma chance de se esconder, se redimir de seus erros e começar uma nova vida, Gregory David Roberts encontrou na cidade a acolhida que nunca teve em nenhum outro lugar, e se sentiu em casa em meio ao caos da cidade indiana marcada pela pobreza, desigualdade e crimes.

Em Shantaram, a vida do autor serve de base para esse romance que transita entre as camadas mais pobres de Bombaim até o luxo de Bollywood, entre a paz e solidariedade dos moradores de uma favela clandestina até a guerra no Afeganistão e a briga entre as gangues mafiosas da capital de Maharashtra. E entre o amor pela cidade, sua cultura e seu povo e o ódio e medo despertado quando sua liberdade fica novamente ameaçada. Recheado de personagens marcantes, o livro de mais de 900 páginas publicado pela editora Intrínseca aqui no Brasil revela a força desse protagonista para se reerguer nos momentos mais difíceis e encontrar lógica e bondade em meio à violência e a impunidade de Bombaim. Read more

Asterios Polyp, de David Mazzucchelli

asterios-polypJá falaram muito sobre a forma, os traços, as linhas, o desenho, a composição, as referências à arquitetura, à Grécia e sua mitologia e tudo o mais que podemos encontrar de bom em Asterios Polyp. A nova e surpreendente obra de David Mazzucchelli, vencedora dos prêmios Eisner e Harvey (e aqui publicada pela Quadrinhos na Cia.), chegou até mim carregada de elogios à sua beleza gráfica, ao uso incomum das cores, aos traços ousados e ao cuidado do quadrinista ao utilizar tudo o que o gênero permite para contar uma história – cada elemento de suas páginas é fundamental e faz parte da narrativa. Mas o que nenhuma indicação ou resenha me disseram sobre Asterios Polyp – ou o que eu não vi, procurando apenas por comentários sobre a forma – é que ele narra uma história de amor e perdas.

Asterios é um arquiteto “de papel”, um profissional renomado que nunca teve um de seus projetos construídos, mas é muito reconhecido pelas suas teorias e pela carreira acadêmica como professor em Ithaca. Ele é um homem que pode ser descrito como possuidor de linhas retas, bem planejadas e duras, tudo em sua vida segue à risca a regra da utilidade. O mundo, para ele, é dividido em dois: o útil e o inútil, o bonito e o feio, o vencedor e o perdedor. Ele é o vencedor – o gêmeo que viveu, que prosperou. Mas isso vemos apenas no transcorrer da história. No início da HQ, Asterios é só um homem desgraçado, deitado na cama enquanto tudo à sua volta está de pernas para o ar, até que um raio atinge seu apartamento. Na pressa de sair para escapar do fogo, leva consigo apenas três objetos: um relógio, um isqueiro sem fluido e um canivete suíço. O resto do apartamento e toda a sua vida ele deixa ser consumido pelas chamas. Read more

O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

o-grande-gatsbyNos últimos meses, a tal Era do Jazz parece ter voltado a ser interesse de editores e leitores. Um filme de Woody Allen que trouxe um ambiente mágico com grandes figuras dos anos 1920 se divertindo por Paris – filme que, aliás, fez os livros desses escritores esgotarem nas livrarias –, e o anúncio de novas adaptações por vir certamente contribuíram para que os holofotes se voltassem para a literatura dessa época. Que o diga F. Scott Fitzgerald, que em um mesmo mês teve sua mais famosa obra reeditada por duas editoras brasileiras, L&PM e Companhia das Letras. Para ler O grande Gatsby, que figurava há muito tempo na lista de livros que eu queria encarar, acabei escolhendo a tradução de Vanessa Barbara da editora paulista.

O livro é narrado por Nick Carraway, um homem em seus quase 30 anos que relata a trágica história de amor entre Daisy e Jay Gatsby em Long Island do início do século XX. Gatsby é um homem rodeado por mistérios, ninguém sabe exatamente o que ele faz, de onde veio e, principalmente, de onde vem a fortuna que usa para manter a casa e as festas que promove em West Egg. Carraway, seu vizinho e primo de Daisy, é quem conquista a confiança de Gatsby, e aquele a quem ele recorre para reencontrar quem amou no passado, agora casada com Tom Buchanan e morando em uma mansão no outro lado da baía, em East Egg. O romance é curto, porém com uma densidade que arrebata o leitor para a tragédia iminente que se anuncia conforme Daisy e Gatsby se reaproximam. Read more

Memórias do sobrinho de meu tio, de Joaquim Manuel de Macedo

memorias-do-sobrinho-de-meu-tioParece que é só de hoje, mas política e corrupção são duas coisas que andam juntas há muito tempo. Quando uns reclamam que governo tal é corrupto, outros respondem com a frase: “mas isso sempre foi assim”. Ou dizem então que essa sensação de que a roubalheira do governo só parece ser maior agora porque é mais noticiada. Isso até pode fazer sentido, embora considere que tendemos a achar os problemas atuais muito maiores do que os de uma época que já passou – sensação acentuada pelo hábito de não pesquisar por conta própria para nos informarmos mais sobre. Mas o fato é que, aqui no Brasil – e outros lugares do mundo também –, a corrupção não é um mal dos dias contemporâneos ou só dos prédios em Brasília, mas vem de longe, de quando a nossa capital não existia nem em sonho.

As críticas a um governo mergulhado em roubo e exploração do dinheiro púbico já eram feitas antes mesmo da Proclamação da República, como em 1868, quando foi publicado o romance Memórias do sobrinho de meu tio, de Joaquim Manuel de Macedo, que ganhou nova edição pelo selo Penguin – Companhia das Letras. Continuação de outro livro do autor, A carteira de meu tio, esse romance dá sequência às aspirações políticas de um certo jovem sem estudos, sem vergonha na cara e sem escrúpulos. Seu objetivo é ser eleito deputado da província do Rio de Janeiro – cargo que o próprio autor ocupou em 1854 – e para isso vai contar com uma herança deixada por seu tio, que falece logo no início dessa história. Com linguagem sarcástica que explicita as ideias pouco lisonjeiras do protagonista, Macedo introduz o leitor à situação política do Brasil nesses anos sem esconder dele o que realmente interessava aos “representantes do povo”: enriquecer e viver à custa do governo. Read more