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	<description>Resenhas e aleatoriedades literárias</description>
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		<title>As virgens suicidas, de Jeffrey Eugenides</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Jun 2013 15:06:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando Cecilia cortou seus pulsos e se deixou esvair em sangue dentro da banheira da família Lisbon, a preocupação pelo bem-estar das meninas tornou-se alvo da curiosidade de todos os moradores daquela rua de classe média. A tentativa de suicídio &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/06/12/resenha-as-virgens-suicidas-de-jeffrey-eugenides/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/06/as-virgens-suicidas.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-3432" title="as-virgens-suicidas" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/06/as-virgens-suicidas-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a>Quando Cecilia cortou seus pulsos e se deixou esvair em sangue dentro da banheira da família Lisbon, a preocupação pelo bem-estar das meninas tornou-se alvo da curiosidade de todos os moradores daquela rua de classe média. A tentativa de suicídio aos 13 anos de idade confirmou que havia algo de errado com a caçula dos Lisbon. Para tentar recuperá-la, seus pais afrouxaram as regras da casa para ela e suas irmãs Lux, Bonnie, Mary e Therese – de 14, 15, 16 e 17 anos. Porém, a determinação de Cecilia de tirar a própria vida volta durante uma festa para os seus vizinhos e colegas, e a garota atinge seu objetivo ao se jogar da janela do quarto e cair em cima da cerca pontiaguda que rodeava a casa. Em um ano, todas as suas irmãs procurariam semelhante destino.</p>
<p>Quem narra a trágica história das garotas Lisbon em <em>As virgens suicidas </em>são seus próprios vizinhos, encantados pela beleza das meninas que as tornam praticamente intocáveis, alcançadas apenas em sonho. O livro de Jeffrey Eugenides é uma de suas obras mais aclamadas, e foi adaptado para o cinema pela diretora Sofia Coppola. Os garotos contam, já adultos, tudo o que aquela rua vivenciou no ano após a morte de Cecilia, registrando minuciosamente a decadência da casa dos Lisbon e da sanidade de todos os seus moradores. Não temos certeza se é apenas uma voz que narra ou se são os relatos de todos eles que compõem a história. Através de documentos, entrevistas e objetos que resgataram do lugar e guardam anos depois, tentam, de todas as maneiras, entender o que levou aquelas cinco garotas a preferirem deixar de viver em plena juventude.<span id="more-3429"></span></p>
<blockquote><p>“Todo mundo tinha uma teoria para explicar por que ela havia tentado se matar. Para a sra. Buell, a culpa era dos pais. ‘Aquela menina não queria morrer’, disse a nós. ‘Tudo que ela queria era sair daquela casa.’ E a sra. Scheer completou: ‘Queria sair daquele estilo de decoração.’”</p></blockquote>
<p>O rigor da educação religiosa imposta pela sra. Lisbon praticamente aprisiona as filhas dentro de casa. Embora o marido, professor da escola das meninas, seja mais aberto a deixá-las sair e se divertir um pouco, prevalece a palavra final de sua mãe: elas não podem usar roupas “provocantes”, não podem ficar até mais tarde fora de casa, não podem sair sozinhas com garotos. Após o suicídio de Cecilia, Lux, Bonnie, Mary e Therese parecem se afastar ainda mais dos outros adolescentes da escola, andando sempre juntas, sendo observadas a distância como se portassem um vírus que fosse enlouquecer os jovens e os fazer querer morrer também. Para os garotos, as meninas passam a apresentar uma aura ainda mais curiosa e misteriosa, e aos poucos vão juntando pistas das suas vidas dentro da privacidade de sua casa, conhecendo seu cotidiano triste e limitado.</p>
<p>Aos poucos, as Lisbon voltam a conviver normalmente com seus colegas, e a atração que elas exercem nos garotos fica mais intensa. O ápice é quando a sexualidade de Lux aflora, levando-a a quebrar todas as regras de sua mãe para ter encontros com garotos da escola, toda semana se relacionando com algum rapaz diferente. Um deles convence o sr. Lisbon a liberar suas filhas para irem a um baile, mas a desobediência de Lux faz com que todas sejam praticamente trancafiadas dentro de casa novamente. E é aí que ela passa a usar o sexo para se desprender e desafiar os pais: no meio da noite, deixa homens estranhos entrarem em casa e subirem sorrateiramente para o telhado, onde mantém suas relações à vista de todos os vizinhos. A deterioração da casa e dos Lisbon só aumenta conforme a melancolia adentra o espírito das meninas.</p>
<div id="attachment_3433" class="wp-caption aligncenter" style="width: 501px"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/06/virgin-suicides-sofia.jpg"><img class=" wp-image-3433  " title="virgin-suicides-sofia" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/06/virgin-suicides-sofia.jpg" alt="" width="491" height="369" /></a><p class="wp-caption-text">As virgens versão Coppola: apenas parecemos bem</p></div>
<p>Na conversa com o médico que salvou Cecilia de sua primeira tentativa de suicídio, ele diz que ela nem tem idade para saber “o quanto a vida pode se tornar ruim”, ao que a menina retruca: “É óbvio, doutor, você nunca foi uma menina de treze anos.”. Há um grande abismo entre a visão de mundo das meninas, dos garotos e dos adultos que transparece durante a leitura do diário de Cecilia. Eles as enxergam como seres mais maduros, que atingem a maturidade antes de todos os outros, como mulheres em miniatura, que entendem antes de qualquer outra pessoa o que significa o amor e a morte &#8211; e sentem isso com mais intensidade. Ainda hoje, ser uma garota é viver de certa forma sob pressão: elas devem ser bonitas, inteligentes, obedientes, exemplares, e não podem reclamar ou revindicar nada. Devem ser perfeitas e quietas. Para um grupo de garotas em plena adolescência, momento em que fazem descobertas e botam em prática planos para o futuro, viver sob essa pressão materna e conservadora é desestimulante e depressivo. A morte de Cecilia, e a das outras irmãs, não é só uma fuga da rigidez dos pais, mas parece ser também uma maneira de se livrar de tudo aquilo que a sociedade exige de uma mulher.</p>
<blockquote><p>“O sr. Hedlie mencionou que a Viena do <em>fin-de-siècle</em> testemunhou um surto semelhante de suicídios entre jovens e botou a culpa de tudo no infortúnio de se viver em um império moribundo. Tinha algo a ver com o fato de a correspondência não ser entregue no tempo correto, com o modo como os buracos nunca eram consertados na rua, com a roubalheira na prefeitura, os tumultos raciais, ou com os oitocentos e um incêndios criminosos ocorridos na cidade na véspera do Halloween. As meninas Lisbon se tornaram um símbolo do que estava errado com o país (&#8230;)”</p></blockquote>
<p>Em <em>As virgens suicidas</em>, os narradores não fazem um mero resgate do que aconteceu naquele ano em sua rua. Eles montam, ou tentam montar, um dossiê completo do estado de espírito das Lisbon. Objetos pessoais, fotos, diários, bilhetes, cartas, depoimentos de quem viveu com elas ou assistiu a derrocada da família fazem parte de um santuário que guarda a memória das garotas, uma ferramenta para que elas não se apaguem e sumam da história de suas vidas. A solução de Eugenides de transformar essa tragédia em uma narrativa carregada pela paixão dos garotos pelas meninas torna o livro ainda mais impactante. As Lisbon não são desvendadas após a reunião de tantos depoimentos sobre elas e de suas mortes serem interpretadas sob vários pontos de vista. Nada, além delas, é capaz de dizer o que motivou a morte de cada uma. E é esse mistério permanente que faz do livro uma leitura reverberante.</p>
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		<title>Fera d&#8217;alma, de Herta Müller</title>
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		<pubDate>Fri, 31 May 2013 12:18:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Biblioteca Azul]]></category>
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		<description><![CDATA[Marca presente em qualquer governo totalitário e ditatorial, a censura e a perseguição a grupos que pensam o contrário do governante são constantes. No Brasil comandado pelos militares, milhares de pessoas foram perseguidas, presas, torturadas e mortas só por pensarem &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/05/31/resenha-fera-dalma-de-herta-muller/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/fera-dalma.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-3421" title="fera-dalma" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/fera-dalma.jpg" alt="" width="200" height="301" /></a>Marca presente em qualquer governo totalitário e ditatorial, a censura e a perseguição a grupos que pensam o contrário do governante são constantes. No Brasil comandado pelos militares, milhares de pessoas foram perseguidas, presas, torturadas e mortas só por pensarem ou apoiarem a luta por uma democracia verdadeira – muitos casos vindo à tona apenas agora. Para quem nasceu depois desse período, já com liberdade de expressão garantida, chega a ser difícil imaginar que houve um tempo em que ser contrário a algo poderia significar a morte. Mas a literatura sobre esse tema é vasta, e nos faz conhecer os horrores de viver sob o peso da censura.</p>
<p>Infelizmente, não foi só o Brasil que viveu sua ditadura. Tais regimes fazem parte da história política de muitos países, e alguns ainda vivem sob eles. Para a ganhadora do Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller, romena de origem alemã, falar sobre esse tema é parte central de sua obra. Filha de um ex-soldado da SS nazista na Segunda Guerra Mundial, Herta nasceu na Romênia, para onde muitos alemães foram enviados após o fim da guerra. Esquecidos no país, essa minoria composta por milhares de alemães viveram sob o regime comunista de Nicolae Ceausescu, que durou de 1965 a 1989. A violência desse período fez parte da vida de Herta, que no romance <em>Fera d’alma</em> usa parte de sua história real para contar o drama de jovens perseguidos pela Securitate, a polícia romena a serviço do ditador.<span id="more-3420"></span></p>
<p>Publicado em 1994 na Alemanha, <em>Fera d’alma </em>traz o relato de uma jovem estudante que junto com outros três amigos da faculdade são enviados a cidades do interior para trabalhar em fábricas ou fazendas. Leitores de livros proibidos pelo governo, os jovens pensadores vivem escondendo os vestígios de suas atividades aparentemente inofensivas ao regime de Ceausescu. A narrativa é marcada pelo medo das personagens de serem capturados pela polícia e perderem a já limitada liberdade que possuem. A garota, tradutora de manuais técnicos em uma fábrica da Romênia, relembra no romance a amizade com os colegas, a vida familiar, a infância e os tempos da faculdade, todos sempre envoltos por uma sensação de medo, de ser pega pela polícia, de ser torturada até denunciar seus amigos.</p>
<p>Como em seus demais livros, a linguagem do romance é constantemente misturada com a poesia, deixando de lado as palavras diretas que poderiam dar conta dos horrores e preocupações das personagens. A forma com que Herta Müller escreve emprega beleza à história dramática que conta, um fator que, conforme a autora disse em uma <a href="http://oglobo.globo.com/cultura/herta-muller-fala-dos-livros-que-lanca-no-brasil-7570300#ixzz2TaxIzMcQ">entrevista no começo do ano</a>, é imprescindível para a sua literatura:</p>
<blockquote><p>“Acho necessário que a literatura seja poética. Pela formulação poética tento fazer com que o texto seja menos artificial, reflita a vida. Tento fazer com que as frases contenham mais do que as palavras que estão ali. É o que me motiva a escrever. O que quero contar sei de imediato. A questão é como contar.”</p></blockquote>
<p>Os próprios cuidados dos amigos quando se comunicam por cartas é de certa forma belo: colocar junto ao envelope fios de cabelo para detectar se as cartas foram abertas antes ou não, usar palavras-chave para indicar, logo na saudação, se todos estão bem e com o que devem se preocupar. Em um país marcado pela autoridade e submissão de seus moradores, ser resistente é o mesmo que estar isolado de todo o mundo, e as palavras da protagonista denunciam esse isolamento que sente junto de seus amigos.</p>
<p>Tão amedrontador quanto o perigo que se mostra a ela era ver seus amigos, aos poucos, sucumbirem a esse regime, seja com a prisão e a colaboração com a polícia ou pela desistência da própria vida – quando se esconder e não poder fazer o que acha melhor para si mesmo e para seu país se torna pesado demais para aguentar. Ela é uma observadora das dores que cada um traz em seus rostos, as marcas de suas terras e o que viveram nelas. Momentos de medo e fraqueza como esses estão escondidos em cada frase da narradora, sutilmente denunciando desespero e falta de esperança, colocando em cheque a própria sobrevivência:</p>
<blockquote><p>“Um livro da casa de veraneio se chamava: Suicídio. Lá estava escrito que para cada um havia um tipo de morte. Mas eu caminhava num círculo gelado entre a janela e o rio, para lá e para cá. A morte me apitava de longe, eu tinha de tomar impulso até ela. Eu estava quase me suicidando, só uma pequena parte não participava. Talvez fosse a fera d’alma.”</p></blockquote>
<p>A “fera d’alma”, expressão presente em vários momentos da vida da protagonista, é a parte inquieta de seu ser que não se deixa submeter ao medo ou ao comodismo de uma vida tranquila. Ela é um sentimento selvagem de sobrevivência, que deseja a vida do jeito que ela deve ser: livre. É o que mantém a protagonista viva durante seu tedioso trabalho, é o que a faz aguentar a solidão da separação de seus amigos, tanto na Romênia quanto já na Alemanha, onde se exila, e a faz superar o medo e a paranoia.</p>
<p>Este romance de Herta Müller é apenas mais um retrato daquilo que a autora se compromete a fazer com a sua literatura: dar voz a uma minoria de seu tempo e denunciar através da linguagem poética aquilo a que eram submetidos. Independente de serem descendentes de outro povo que matou milhões por conta de sua crença de superioridade, a protagonista de <em>Fera d’alma </em>e seus amigos são de um tempo diferente, de um pensamento diferente, em que a única regra é ser a favor da vida e da liberdade.</p>
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		<title>The bell jar, de Sylvia Plath</title>
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		<pubDate>Wed, 22 May 2013 12:21:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<description><![CDATA[The bell jar é um daqueles livros que de certa forma acompanham sua vida de leitor por um bom tempo, habitando as listas de “quero ler” durante anos e anos, até que você finalmente decide ir atrás e ver com &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/05/22/resenha-the-bell-jar-de-sylvia-plath/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/the-bell-jar.jpeg"><img class="alignleft size-medium wp-image-3408" title="the-bell-jar" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/the-bell-jar-199x300.jpg" alt="" width="199" height="300" /></a>The bell jar</em> é um daqueles livros que de certa forma acompanham sua vida de leitor por um bom tempo, habitando as listas de “quero ler” durante anos e anos, até que você finalmente decide ir atrás e ver com os próprios olhos o que ele tem a oferecer. Acontece comigo, muitas vezes, de esperar o livro cair de paraquedas nas minhas mãos para finalmente iniciar a leitura, e foi assim com o único romance publicado por Sylvia Plath. Poeta de talento com diversas outras publicações, esse romance acaba pesando tanto para o leitor de Plath quanto seus poemas por trazer um caráter autobiográfico e, talvez, ser utilizado para entender a sua morte prematura – Sylvia Plath se matou em 1963, poucos meses após <em>The bell jar </em>ter sido publicado em Londres, quando separada do poeta Ted Hughes e com dois filhos pequenos.</p>
<p>O romance é narrado pela jovem Esther Greenwood e inicia em Nova York, onde está trabalhando por um mês em uma revista feminina junto com outras garotas selecionadas em um concurso. Uma realidade bem diferente daquela em que cresceu com seu irmão mais novo, nas imediações de Boston, onde as coisas não eram tão luxuosas e dadas de mãos beijadas, como acontece com suas colegas. Presentes, jantares caros e com pessoas ilustres, festas, compras, rituais de beleza&#8230; É como se todas aquelas garotas vivessem um dia de princesa por um mês, com o adendo de que estariam ainda trabalhando para a revista – cobrindo estreias, desfiles, peças e o que mais a vida cultural e deslumbrante de NY tinha a oferecer.<span id="more-3406"></span></p>
<blockquote><p>“I told Doreen I would not go to the show or the luncheon or the film première, but that I would not go to Coney Island either, I would stay in bed. After Doreen left, I wondered why I couldn’t go the whole way doing what I should any more. This made me sad and tired. Then I wondered why I couldn’t go the whole way doing what I shouldn’t, the way Doreen did, and this made me even sadder and more tired.”</p></blockquote>
<p>Mas o deslumbramento de Esther logo é eclipsado pela sua recorrente falta de ânimo para participar de tudo isso. “<em>I was supposed to be having the time of my life</em>”, ela escreve, mas todas as oportunidades de sair, se divertir e aproveitar os ares da grande cidade eram deixadas de lado pela vontade de apenas permanecer na cama do hotel sem fazer nada. Durante essa parte do livro, Esther acompanha as saídas com Doreen, uma colega mais liberal que não necessariamente respeita a programação estipulada pela revista, e Betsy, outra garota mais “certinha” e mais próxima de Esther. E enquanto narra o vazio que sente no meio de toda pompa novaiorquina, e sua ansiedade com tudo isso, também relembra os acontecimentos de um passado recente, em que decidiu não ter mais relação alguma com Buddy Willard, o garoto com quem namorava e, segundo todos achavam, iriam se casar.</p>
<p>Ao falar de Buddy, Esther mostra como é diferente das outras garotas de sua época (nos idos dos anos 1950), em que toda moça estudava e se preparava a vida inteira para se dedicar ao marido, à casa, aos filhos, e se sentir segura por não ser responsável pelo sustento de tudo isso, servindo apenas para manter tudo em ordem:</p>
<blockquote><p>“The last thing I wanted was infinite security and to be the place an arrow shoots off from. I wanted change and excitement and to shoot off in all directions myself, like the colored arrows from a Fourth of July rocket.”</p></blockquote>
<p>Esther demonstra esse impulso de dar rumo à própria vida, poder ser a mulher que quer, trabalhar com o que deseja, sem depender de nenhum homem para isso, libertando-se das cordas sociais em que praticamente todas as outras garotas estavam presas. Mas, aos poucos, sua certeza de ser capaz de enfrentar as convenções vai minguando conforme a “redoma” desce sobre sua cabeça e a obriga a respirar o mesmo ar viciado que acaba de expirar: as coisas começam a ficar sem sentido; lavar o cabelo ou trocar de roupa não são mais tarefas dignas de dedicação por terem que ser repetidas de novo e de novo. É dessa forma que Esther se sente ao voltar para casa nas férias, onde não mais se esforça para fazer qualquer coisa que antes lhe dava prazer, como ler e estudar e adiantar as coisas da universidade. É aí que Esther se sente mais sufocada e os males psiquiátricos passam a ser seu interesse.</p>
<blockquote><p>“Then He would lean back in his chair and match the tips of his fingers together in a little steeple and tell me why I couldn’t sleep and why I couldn’t read and why I couldn’t eat and why everything people did seemed so silly, because they only died in the end.</p>
<p>And then, I thought, he would help me, step by step, to be myself again.”</p></blockquote>
<p>O que traga o leitor para dentro do romance de Sylvia Plath é a forma com que ela vai mostrando como a depressão vai tomando conta de todo o corpo de Esther, de uma maneira racional e objetiva. Ela sabe que algo está errado com sua mente, mas não se vê apta a, sozinha, conseguir superar toda a ansiedade e descrédito na vida. A única coisa que consegue fazer é ler livros de psicologia para combinar os sintomas que eles descrevem com aquilo que sente, e depois de um tempo, avaliar e planejar maneiras de tirar a própria vida. É uma narrativa que guarda desespero na maneira simples com que Plath apresenta todos os sintomas da queda mental de Esther.</p>
<div id="attachment_3410" class="wp-caption aligncenter" style="width: 471px"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/sylvia-plath.jpg"><img class=" wp-image-3410  " title="sylvia-plath" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/sylvia-plath-875x1024.jpg" alt="" width="461" height="538" /></a><p class="wp-caption-text">Ela mesma.</p></div>
<p>Frances McCullough, editor da Harper que publicou <em>The bell jar </em>nos EUA, introduz o livro falando da relevância do romance de Sylvia Plath para a literatura feminina ainda hoje, justificando seu selo de clássico moderno. O que Plath escreveu, além de revelar como uma pessoa se deixa cair tão fortemente em pensamentos suicidas e não vê mais graça, sentido e significado no mundo, é tocante às jovens mulheres por mostrar uma garota dos anos 1950 desejando tomar os rumos de sua própria vida – mas se vendo barrada tanto para fazer o que se espera dela quanto para transgredir. Ainda hoje muitas mulheres se veem presas a essas mesmas convenções sociais, embora o cenário em que vivemos seja bem melhor que o daqueles anos. Mesmo assim, nossa sociedade tende a julgar uma mulher como respeitável aquela que se casa, tem filhos e é recatada – pode não parecer, mas trabalho, liberdade e sexo ainda são assuntos tabus para muitas mulheres. Assim como era para a geração de Plath e Esther.</p>
<blockquote><p>“I knew I should be grateful to Mrs. Guinea, only I couldn’t feel a thing. If Mrs. Guinea had given me a ticket to Europe, or a round-the-world cruise, it wouldn’t have made one scrap of difference to me, because wherever I sat – on the deck of a ship or a street café in Paris or Bangkok – I would be sitting under the same glass bell jar, stewing in my own sour air.”</p></blockquote>
<p>Existem esses livros que queremos que todos leiam em certo momento da vida, pois falarão muito mais a esse ou aquele leitor cuja idade ou anseios batem com a das personagens. Se toda recomendação de leitura para um adolescente contém <em>O apanhador no campo de centeio</em>, para as mulheres entrando na vida adulta esse livro seria <em>The bell jar</em>. Não é qualquer romance que leva o leitor tão pra dentro da cabeça do narrador, e traz certa luz sobre aquilo que estamos passando agora – incertezas, medo, bloqueio e insegurança. Ver Esther Greenwood sucumbir à sua redoma asfixiante e depois conseguir sair dela para uma vida nova e cheia de possibilidades tem seu lado positivo – pena que, para Plath, essa sensação não durou muito tempo.</p>
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		<title>Avenida Niévski e Notas de Petersburgo de 1836, de Nikolai Gógol</title>
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		<pubDate>Wed, 15 May 2013 01:55:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todo lugar, das grandes metrópoles às pequenas cidades do interior, tem uma rua que reúne nele seus tipos, sua vida social. Avenida Paulista, Quinta Avenida, os calçadões de Ipanema, a Champs Elysées, a Rua dos Andradas&#8230; Podemos listar uma rua &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/05/14/resenha-avenida-nievski-e-notas-de-petersburgo-de-1836-de-nikolai-gogol/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/avenida-nievski.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-3398" title="avenida-nievski" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/avenida-nievski-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>Todo lugar, das grandes metrópoles às pequenas cidades do interior, tem uma rua que reúne nele seus tipos, sua vida social. Avenida Paulista, Quinta Avenida, os calçadões de Ipanema, a Champs Elysées, a Rua dos Andradas&#8230; Podemos listar uma rua importante para cada cidade, onde as pessoas se encontram, flanam, trabalham, enfim, onde se cria todo o imaginário que vira retrato daquele lugar. No ano passado, a Cosac Naify publicou uma linda e interessante edição de <em>Avenida Niévski, </em>de Nikolai Gógol, um dos contos de sua série de histórias de Petersburgo escritas entre 1832 e 1842. É o cotidiano dessa avenida – na época, a principal da capital do império russo – que é retratado no conto.</p>
<p>O início da narrativa parece uma declaração de amor à Avenida Niévski, com Gógol exaltando a maneira como ela se transforma no decorrer das horas – mendigos e boêmios pela manhã bem cedo, ao acordarem, funcionários públicos a caminho do trabalho, os almoços, os passeios ociosos dos ricos durante a tarde, a turba barulhenta e ávida por contato social da noite. A avenida é portadora de uma misticidade que atrai para ela todos aqueles que querem ser vistos e querem ver. Uma avenida que é caminho, passagem, vitrine e inspiração.<span id="more-3397"></span></p>
<p>Mas conforme o narrador da rotina da Avenida Niévski lembra histórias de personagens que por ali passaram, a percepção real do que é a rua e de como são seus frequentadores muda. O primeiro caso de perdição engatilhado por um encontro na avenida é o do jovem pintor Piskarióv, que ao vislumbrar uma linda mulher andando por ela a segue para ao menos conhecer o lugar em que vive. Conforme percorre as ruas de Petersburgo atrás da moça, percebe que ela nota sua presença e, inacreditavelmente, encoraja sua aproximação. Porém, o final desse caminho não é bem o que ele esperava: a senhora ilustre e fina que julgava ter visto na Avenida Niévski não é assim tão “ilustre” e “fina”, mas sim moradora de uma casa de festas, faladeira e fútil. Mas o encanto de sua beleza não abandona os pensamentos e sonhos de Piskarióv, que sob efeito do ópio imagina que ela se mantém respeitosa, frequentando aquele ambiente por um triste acaso. Só que os sonhos e as aparências sustentadas na avenida não duram para sempre, e podem ser devastadoras.</p>
<p>A segunda história que Gógol desenlaça no conto é a do tenente Pirogóv, um oficial russo também fisgado pela beleza de uma donzela, que descobre ser casada com um artesão alemão. Descaradamente, ele investe contra a loirinha, apesar de suas recusas, e insiste em querer conquistá-la sem temer as represálias do marido. Essa história não possui a tragicidade da primeira, mas é mais um exemplo evocado pelo narrador para chegar a sua real conclusão sobre a Avenida Niévski: nada nela é confiável, tudo deve ser visto com cuidado, pois as aparências daqueles que a frequentam enganam, e muito. <em>Avenida Niévski </em>é, afinal, uma crítica ao culto da imagem praticado àquela época e sustentado pelo imaginário dos que se deixam levar por suas ilusões.</p>
<p>Essa edição da Cosac Naify ainda presenteou o leitor com um artigo de Nikolai Gógol até então inédito no Brasil, <em>Notas de Petersburgo de 1836</em>. Nesse texto, o escritor faz uma avaliação da vida cultural da capital no século XIX, focando a crítica principalmente no teatro – então fortemente influenciado pelo estilo francês. Dividido em duas partes, Gógol inicia o artigo fazendo uma comparação entre Moscou e Petersburgo, em que se poderia resumir com o trecho “<em>Moscou é necessária para a Rússia; para Petersburgo, a Rússia é necessária”.</em> Moscou seria o lugar em que vive a alma da Rússia, seus verdadeiros moradores, enquanto Petersburgo está tomada por influências dos estrangeiros, ostentando imagens enganosas.</p>
<p>Ao falar da cultura, Gógol critica as comédias fáceis, o <em>vaudeville</em>, que arranca risadas do espectador com “caretas caricatas” e não com a comédia “ponderada com rigor, que com a profundidade de sua ironia produz o riso”, o “riso elétrico, vivificante, que se solta sem querer, livremente e de modo inesperado, direto da alma”. Não é mais essa peça ideal aquela que Petersburgo oferece a seus cidadãos, não é mais o <em>ballet</em> feito com alma e paixão, e sim aquele técnico, com coreografias repetidas e desgastadas – embora, ainda assim, perfeitas tecnicamente. Sua visão de Petersburgo apenas melhora com a chegada da primavera, quando a cidade, por alguns dias, parece ser outra. Aquela em que Gógol realmente gostaria de estar.</p>
<div id="attachment_3401" class="wp-caption aligncenter" style="width: 525px"><a href="http://pinterest.com/cosacnaify/"><img class=" wp-image-3401 " title="avenida-nievski-dentro" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/avenida-nievski-dentro.jpg" alt="" width="515" height="343" /></a><p class="wp-caption-text">A Avenida, o jornal, a foto roubada lá do Pinterest da Cosac Naify.</p></div>
<p>Não só os textos de Nikolai Gógol são apreciados em <em>Avenida Niévski e Notas de Petersburgo de 1836</em>, pois a parte gráfica dessa edição se destaca tanto quanto o conteúdo. Trata-se de um conjunto curioso, dividido em dois “cadernos” que são envolvidos pela representação de um jornal da época que circulou por Petersburgo. E a experiência de leitura também é única, que só o livro impresso poderia dar: o texto de <em>Avenida Niévski</em> é dividido ao meio, um trecho oposto ao outro e diferenciado em vermelho e azul. A leitura começa de um lado e, ao chegar ao final do volume, vira-se o livro ao contrário e continua a sua leitura a partir da outra metade das páginas. Como se o leitor estivesse percorrendo toda a avenida pelo lado esquerdo da rua e depois fizesse o caminho inverso pelo lado direito. O livro ainda é ilustrado com gravuras panorâmicas da avenida no século XIX, com seus imensos prédios, igrejas e pontes. O tipo de livro que todo fetichista do impresso deveria ter na estante.</p>
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		<title>Rostos na multidão, de Valeria Luiselli</title>
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		<pubDate>Tue, 14 May 2013 23:45:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não sei se existe alguma regra que define a partir de que ponto você tem certeza que um livro é bom. Ou quantos livros de um determinado autor você precisa ler até ter certeza de que ele realmente é bom. &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/05/14/resenha-rostos-na-multidao-de-valeria-luiselli/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/rostos-na-multidao.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-3391" title="rostos-na-multidao" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/rostos-na-multidao-192x300.jpg" alt="" width="192" height="300" /></a>Não sei se existe alguma regra que define a partir de que ponto você tem certeza que um livro é bom. Ou quantos livros de um determinado autor você precisa ler até ter certeza de que ele realmente é bom. Como quase tudo na literatura, essas relações de gosto são bem relativas. Um parágrafo pode ser o bastante para alguém se apaixonar por uma história, enquanto outros sempre ficarão à procura das qualidades que fazem aquele escritor ser adorado por tantos. Isso tudo só para dizer que para mim as coisas também funcionam de um jeito bem diferente dependendo do livro. O ideal é o básico: ler tudo, e na última página decidir se é bom ou não. Mas às vezes ignoro essa minha própria regra, e já determino bem antes disso o que pensei sobre o livro.</em></p>
<h2><a href="http://www.amalgama.blog.br/05/2013/rostos-na-multidao-valeria-luiselli/">Leia a resenha completa no Amálgama</a></h2>
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		<title>Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, de Stephen Rebello</title>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2013 13:38:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Stephen Rebello]]></category>

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		<description><![CDATA[Perto do final do livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, o escritor e roteirista Stephen Rebello fala de como o filme é recepcionado pelos jovens telespectadores acostumados com os filmes de terror que vieram depois dos anos 1980: &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/05/06/resenha-alfred-hitchcock-e-os-bastidores-de-psicose-de-stephen-rebello/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/alfred-hitchcock-e-os-bastidores-de-psicose.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-3381" title="alfred-hitchcock-e-os-bastidores-de-psicose" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/alfred-hitchcock-e-os-bastidores-de-psicose-208x300.jpg" alt="" width="208" height="300" /></a>Perto do final do livro <em>Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose</em>, o escritor e roteirista Stephen Rebello fala de como o filme é recepcionado pelos jovens telespectadores acostumados com os filmes de terror que vieram depois dos anos 1980: “o filme de Hitchcock pode soar hoje tão incompreensível quanto uma velha série dos primórdios da TV ou um filme mudo. Quem foi criado com Jason e Freddy pode ficar perplexo com o fato de o público de 1960 ter gritado por causa de Norman.” Achei interessante essa percepção ser expressa logo no final do livro que acompanha como foi a produção de um dos mais famosos filmes do aclamado diretor de suspense. Depois de mais de 200 páginas ressaltando a característica inovadora e corajosa do longa, é dito ao leitor que, hoje, o que Hitchcock fez não causa espanto algum.</p>
<p>Claro que isso não significa que o filme perdeu sua importância dentro da história do cinema, muito pelo contrário. O livro, publicado nos anos 1990 e reeditado agora por conta do filme <em>Hitchcock</em>, feito com base no relato de Rebello, é um documento que atesta o caráter transformador do trabalho de Hitchcock no cinema e sua importância na época. Para quem nunca havia visto <em>Psicose</em> antes, como eu, ler essas páginas foi querer ver o filme com toda a atenção do mundo para perceber os detalhes que o autor destacou no livro – o que realmente acabei fazendo.<span id="more-3379"></span></p>
<p>E como Rebello falou no final, realmente <em>Psicose</em> não causa susto ou espanto para quem já viu coisas como <em>Sexta-feira 13, Os outros, O chamado </em>ou <em>Atividade paranormal</em> – que mostram uma carga bem maior de terror psicológico e sobrenatural, sem falar em cenas muito mais ousadas que as feitas por Hitchcock. Mas não vamos fugir do contexto da época: fazer um filme como <em>Psicose</em> em 1960 e conseguir com que uma produção de baixo orçamento se tornasse um dos maiores sucessos do cinema não é coisa de amador.</p>
<p>Stephen Rebello começa sua documentação dos bastidores de <em>Psicose</em> com o caso que inspirou o livro homônimo de Robert Bloch, que por sua vez deu origem ao roteiro do longa: a história de Ed Gein, um homem que vivia sozinho num sítio em Plainfield e matava mulheres, guardando partes de seus corpos como troféus dos assassinatos – a história de Gein foi base também para muitas outras obras cinematográficas e livros, como <em>O silêncio dos inocentes </em>e <em>O massacre da serra elétrica.</em> O livro de Bloch, que envolvia o assassinato de uma mulher no motel que Norman administrava, trazia para a ficção parte dessa realidade temperada com temas chocantes, como incesto e distúrbios psicológicos. Querendo emplacar um novo sucesso logo após de lançar <em>Intriga internacional</em>, Alfred Hitchcock se interessou pelo livro, levou-o aos estúdios da Paramount para apresentar o projeto de <em>Psicose</em>, mas por conta do tema pesado para a época, foi aconselhado a abandonar o projeto, pois não teria apoio para fazê-lo. Hitchcock ignorou os conselhos, e decidiu fazer o filme com um orçamento baixo e por conta própria – tudo para chocar o público.</p>
<p>E assim começa a produção do filme que mudaria os rumos do cinema de suspense e inspiraria diversos outros grandes diretores. <em>Psicose </em>é um filme tão presente na história cultural de cada indivíduo que sua trilha sonora é facilmente reconhecida onde quer que toque – as cordas histéricas do compositor Bernard Herrmann são responsáveis pela dose de tensão que o filme sugere –, e a cena de assassinato no chuveiro, protagonizada pela atriz Janet Leigh, está fixada na bagagem cultural até daqueles que não assistiram ao filme inteiro. Qualquer um consegue reconhecer as referências de Hitchcock.</p>
<p>Stephen Rebello concentra sua narrativa em mostrar que tipo de gênio era o cineasta: como trabalhava com seus colaboradores, como era atento à criação de cada detalhe para as cenas que planejava, como era metódico em seguir exatamente o plano que traçou no roteiro e nos <em>storyboards</em> e, principalmente, como era espontâneo e imprevisível com os atores e demais pessoas da equipe. Rebello divide o livro pela ordem de produção, partindo da história real, passando pelo livro, os acordos do diretor para iniciar a produção do filme, a criação do roteiro, sua aprovação, a escolha de elenco, ensaios, cenários, figurino, maquiagem, gravações, edição e, finalmente, terminando na repercussão do filme na sua estreia e o que ele significou para a história do cinema. É um relato bem objetivo e direto sobre como foi fazer um filme audacioso como <em>Psicose</em>.</p>
<p>Com entrevistas com alguns envolvidos na filmagem, como os atores Anthony Pekins (o perturbado assassino Norman Bates) e Janet Leigh, e também colaboradores como o consultor visual Saul Bass, Bernard Herrmann, a figurinista Rita Riggs e William Russel, Rebello consegue registrar as relações de Hitchcock com todos no filme, comentando também algumas polêmicas que acabaram surgindo sobre o trabalho – como, por exemplo, a história de que Saul Bass, e não Hitchcock, teria criado e dirigido a cena do chuveiro, já presente no livro de Bloch. E, claro, é interessante ver todos os planos do diretor de inserir pegadinhas para os censores, para que o filme não fosse considerado inadequado para ser exibido nos cinemas, além de todas as negociações que teve de fazer com distribuidores e o marketing para transformar <em>Psicose </em>em um sucesso.</p>
<p><em>Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose </em>é um bom livro para os curiosos que querem saber como o filme foi feito e conhecer o que está por trás de uma obra como essa. Ele não é um livro que aborda apenas as divergências entre elenco, diretor, produtores e estúdio, mas também faz um relato técnico e correto dos bastidores de <em>Psicose</em>, preenchidos por dramas pessoais e profissionais Ao final da leitura, você certamente vai querer ver ou rever o filme só para olhar as cenas com um olhar privilegiado, sentindo-se como uma mosquinha presente nos estúdios durante as gravações e agora podendo olhar o resultado final.</p>
<div id="attachment_3384" class="wp-caption aligncenter" style="width: 522px"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/psycho-anthony-perkins-as-norman-bates.jpg"><img class=" wp-image-3384 " title="psycho-anthony-perkins-as-norman-bates" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/05/psycho-anthony-perkins-as-norman-bates-1024x552.jpg" alt="" width="512" height="276" /></a><p class="wp-caption-text">Obrigada pela visita.</p></div>
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		<title>Monstros fora do armário, de Flavio Torres</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Apr 2013 01:23:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dentro de si, o homem guarda impulsos sombrios. Por fora, a imagem é de uma pessoa normal, incapaz de pensar em alguma atrocidade contra outro ser humano, ainda mais de praticá-lo. Mas por mais direito, ético e bem apessoado que &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/04/28/resenha-monstros-fora-do-armario-de-flavio-torres/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/04/monstros-fora-do-armario.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-3373" title="monstros-fora-do-armario" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/04/monstros-fora-do-armario.jpg" alt="" width="182" height="277" /></a>Dentro de si, o homem guarda impulsos sombrios. Por fora, a imagem é de uma pessoa normal, incapaz de pensar em alguma atrocidade contra outro ser humano, ainda mais de praticá-lo. Mas por mais direito, ético e bem apessoado que alguém possa parecer, a verdade é que todos guardam em seu íntimo algo nebuloso, um desejo maléfico ou vontade de, em alguns momentos, praticar em alguém algo dolorido como castigo ou escape. São momentos assim os narrados nos breves contos de Flavio Torres em seu primeiro livro, lançado pela Não Editora, <em>Monstros fora do armário</em>.</p>
<p style="text-align: left;">Nascido em Niterói, mas criado em Porto Alegre, o currículo de Flavio como ficcionista é parecido com o de vários outros autores publicados por essas bandas: participação na oficina de Luiz Antonio de Assis Brasil – provavelmente uma das oficinas de criação literária mais famosas do país – e também dos seminários de criação literária de Léa Masina. Ou seja, exercício criativo não lhe faltou.<span id="more-3372"></span></p>
<p style="text-align: left;">Os contos de Flavio Torres em <em>Monstros fora do armário</em> apresentam aquele básico que se espera da literatura: um formato clássico que mantém o leitor preso às páginas, curioso com o que pode vir a acontecer. O autor vai montando as cenas, descrevendo lugares, coisas, contextos que deixam o final do conto ao gosto do leitor. Ele pode escolher a ilusão de uma conclusão leve ou então aceitar o caráter sombrio dos finais implícitos das tramas e da monstruosidade das personagens.</p>
<p style="text-align: left;">Aquele menino certamente esfaqueou o pai. A criança ouviu os sons da prostituta em meio a um programa enquanto procurava a mãe em um hotel sujo. O pai esperou a filha chegar em casa para fazer com ela o que a viu praticar em um filme pornô caseiro. O vegetariano matou a ex-esposa e deu a carne para o filho comer. Não são conclusões – perdão pelo <em>spoiler</em> – que estão escritas literalmente no livro, estão subentendidas. O leitor, munido daquilo que foi sendo relatado a ele pelo autor, pode supor que foram assim que as histórias terminaram.</p>
<p style="text-align: left;">Esse exercício de oferecer os ingredientes ao leitor e organizá-los de uma maneira que ele chegue até esses desfechos é o que faz de <em>Monstros fora do armário</em> um livro interessante. Não o enquadraria entre as grandes revelações da literatura, mas as histórias cumprem com o objetivo de oferecer um entretenimento que consegue acender uma faísca perturbadora no leitor, pois esses casos certamente não acontecem apenas na ficção.</p>
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		<title>Pulso, de Julian Barnes</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Apr 2013 01:22:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rocco]]></category>

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		<description><![CDATA[A literatura conserva os traços de todas as culturas. No Brasil, temos diferentes tradições que as da Europa – muitas vezes, tradições que se destoam dentro do próprio país. Quem lê os Contos gauchescos de Simões Lopes Neto, por exemplo, nota que &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/04/20/resenha-pulso-de-julian-barnes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/04/pulso.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-3367" title="pulso" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/04/pulso.jpg" alt="" width="200" height="323" /></a>A literatura conserva os traços de todas as culturas. No Brasil, temos diferentes tradições que as da Europa – muitas vezes, tradições que se destoam dentro do próprio país. Quem lê os Contos gauchescos de Simões Lopes Neto, por exemplo, nota que aquele livro, aquelas histórias, pertencem unicamente ao Rio Grande do Sul. Quem lê As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, e A leste do Éden, de John Steinbeck, vê-se inconfundivelmente envolvido numa história do sul dos Estados Unidos em diferentes épocas. Já <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8532527671" target="_blank">Pulso</a>, livro de contos de Julian Barnes recém-publicado no Brasil, é tipicamente inglês.</em></p>
<h2><a href="http://www.amalgama.blog.br/04/2013/pulso-julian-barnes/"> Leia a resenha completa no Amálgama</a></h2>
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		<title>Putas assassinas, de Roberto Bolaño</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Apr 2013 01:18:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Roberto Bolaño]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando uma personagem rende muito mais história do que pode caber em um romance, ou ela se repete em demais livros, continuações de sua trama, ou acaba sendo fragmentada em pequenas doses de ficção transformadas em conto. É o que &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/04/15/resenha-putas-assassinas-de-roberto-bolano/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/04/putas-assassinas.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-3357" title="putas-assassinas" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/04/putas-assassinas-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Quando uma personagem rende muito mais história do que pode caber em um romance, ou ela se repete em demais livros, continuações de sua trama, ou acaba sendo fragmentada em pequenas doses de ficção transformadas em conto. É o que poderia ser dito sobre Arturo Belano, protagonista de <em><a href="http://rizzenhas.com/2011/10/27/resenha-os-detetives-selvagens-de-roberto-bolano/">Os detetives selvagens</a></em>, de Roberto Bolaño – uma das suas personagens mais famosas e também seu alter ego  No romance de Bolaño, conhecemos Arturo através de personagens secundárias, aquelas que viveram perto dele por um bom período ou estiveram lado a lado por um breve momento. Em <em>Putas assassinas</em>, sua presença é constante em alguns dos contos narrados em primeira ou terceira pessoa, mas dessa vez com o ponto de vista centrado nele.</p>
<p>Digo que sua presença é constante, mas ele aparece identificado como Aruturo Belano em apenas um conto, “Fotos”, em que está em uma aldeia abandonada da África e observa um grande livro com poemas publicados em francês nos anos 1970, reunidos em um volume único. Alguns poetas ele conhece, outros não, porém não são os poemas que lhe prendem, e sim as fotografias dos autores que analisa, observa e imagina nas mais diversas situações. Nos demais contos, envoltos em sua maioria pela anonimidade, podemos apenas adivinhar, ou imaginar, que os protagonistas possam ser ele juntando o que se sabe do personagem pelos outros livros em que figura.<span id="more-3355"></span></p>
<p>Acontece que é difícil distinguir a ficção da realidade nesses textos de <em>Putas assassinas</em>: a vida de Arturo é baseada na do próprio autor. Bolaño, como já deve ser de conhecimento da maioria, nasceu no Chile e se mudou com a família ainda adolescente para a Cidade do México. Ainda jovem, voltou a Santiago para lutar pelo país, mas com o golpe de Pinochet, em 1973, se viu obrigado a deixar o Chile depois de ser preso por alguns dias. Bolaño, antes de se estabelecer na Espanha, andou novamente pelo México, pela França e outros países europeus, levando a vida boêmia de poeta e, depois, adotando a ficção – uma maneira, ele dizia, de dar dinheiro aos filhos que teve com sua mulher quando estava morando perto de Barcelona. Mais ou menos o mesmo acontece com Arturo Belano em sua ficção.</p>
<p>Os primeiros contos, “O Olho Silva” e “Gómez Palacio”, já apresentam essas características autobiográficas, mas de maneira mais contida: no primeiro conto, Bolaño desenrola a história de um amigo do narrador conhecido pelo apelido Olho Silva, que fez parte também da luta ao lado de Salvador Allende; no segundo, o protagonista é um poeta enviado a uma cidade no meio do deserto mexicano para ensinar poesia para jovens de um instituto. Os próximos contos são aqueles que aproximam ainda mais de Arturo. O protagonista é B. (ele identifica as personagens por uma inicial), que em “Últimos entardeceres na terra” acompanha o pai a uma viagem à Acapulco. Entre passeios solitários na praia e idas a puteiros com o pai e um homem que conhece no lugar, Bolaño constrói no conto um cenário de mistério, em que leitor e protagonista sentem que algo está para acontecer, mas não conseguem antecipar o quê. Focado nos detalhes, na construção do ambiente e pensamentos de B., a tensão da história vai aumentando até o seu clímax – onde, literalmente, o texto se encerra.</p>
<p>B. reaparece nos dois textos seguintes. “Dias de 1978”, se passa em Paris, e nele está obcecado com a vida de um primo chileno que também vive na cidade e com quem protagonizou uma discussão, e com sua esposa, uma mulher que quase foi assassinada pelo homem e por quem nutre certa atração. O outro é “Vagabundo na França e na Bélgica”, onde B., já identificado como escritor, se vê gastando o adiantamento de um livro andando sem destino pelas ruas parisienses, até que o tédio lhe leva à Bélgica onde se encontra com a filha de um amigo de seu pai. Os três contos protagonizados por B. tem essa cara de “não vamos te levar a lugar nenhum”, são momentos distintos em espaço e tempo, marcados por solidão, leituras e reflexões. A literatura sempre está presente de alguma forma na vida de B. e guia seus pensamentos sobre aquilo que está vivenciando.</p>
<div id="attachment_3358" class="wp-caption aligncenter" style="width: 501px"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/04/bolano.jpg"><img class=" wp-image-3358  " title="bolano" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/04/bolano.jpg" alt="" width="491" height="326" /></a><p class="wp-caption-text">Não era Windows 7.</p></div>
<p>Os contos seguintes, “Prefiguração de Lalo Cura”, “Putas assassinas”, “O retorno”, “Buba” e “Dentista” são os que fogem desse “padrão”. Os personagens não se parecem nem com o escritor nem com o alter ego, sendo histórias que se aproximam mais de uma fantasia: em um o narrador fala dos filmes pornôs protagonizados pela mãe, contando com detalhes as cenas dos principais deles; em outro, uma fã obcecada persegue e prende o ídolo, praticamente um monólogo onde ela despeja explicações e recordações e ele apenas assente, mudo, ou se desespera; em um dos mais estranhos o protagonista, um fantasma, vê seu corpo quase ser sodomizado por um famoso estilista francês. Em “Buba”, por fim, um trio de jogadores de futebol de um time de Barcelona vê a vitória após uma série de rituais estranhos realizados pelo colega africano. Nesses contos o leitor está muito mais seguro para identificar a ficção, sem medo de se enganar entre o que é real e o que não é – ou, quem sabe, desconhece outros detalhes da vida do autor que poderiam ter inspirado os textos. E também vão além dessa questão literária que está presente nos outros textos, os temas e abordagens são mais variados, mas a profundidade das personagens é a mesma: todos refletem sobre algum momento marcante de suas vidas, algo que constitui suas personalidades ou figuram ainda como um constante mistério.</p>
<p>Quando autor e personagem estão assim, tão perto um do outro em biografia, fica difícil não imaginar o escritor como protagonista de suas próprias histórias. O último conto, inclusive, é narrado por Bolaño, ele como personagem, contando um sonho que teve com o poeta Enrique Lihn, já morto. Fiquei imaginando se esse teria sido realmente um sonho que o autor teve e o aproveitou para a sua ficção, ou se foi tudo pura invenção. E esse sentimento perdurou durante a leitura de praticamente todo o livro: sei que o melhor é tentar separar ao máximo o autor da sua criação, mas esse é um pedido complicado quando o escritor usa tanto de sua própria vida para construir suas histórias. Sempre permanece esse jogo de adivinhação entre o que aconteceu e o que foi inventado. <em>Putas assassinas</em> foi meu primeiro contato com a prosa curta de Bolaño, mas assim como ocorreu com <em>Os detetives selvagens</em>, toda hora me vi envolvida por esse dilema: é real ou não é? E quanto disso é inventado? Às vezes chegava a pensar que até a própria biografia de Roberto Bolaño poderia ser uma mentira, uma brincadeira, para frustrar o leitor – e se for assim, melhor pensar que tudo seja mesmo apenas uma boa ficção.</p>
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		<title>Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Mar 2013 02:03:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Companhia das Letras]]></category>
		<category><![CDATA[Festa no covil]]></category>
		<category><![CDATA[Juan Pablo Villalobos]]></category>
		<category><![CDATA[literatura estrangeira]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura mexicana]]></category>
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		<description><![CDATA[Crianças podem ter sacadas geniais sobre algumas coisas da vida. Por conhecerem pouco do mundo e terem uma visão limitada dele, tudo parece mais simples e descomplicado nas suas cabeças. As explicações inocentes que, quando criança, damos para as coisas &#8230; <a href="http://rizzenhas.com/2013/03/26/resenha-festa-no-covil-de-juan-pablo-villalobos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/03/festa-no-covil.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-3347" title="festa-no-covil" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/03/festa-no-covil-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a>Crianças podem ter sacadas geniais sobre algumas coisas da vida. Por conhecerem pouco do mundo e terem uma visão limitada dele, tudo parece mais simples e descomplicado nas suas cabeças. As explicações inocentes que, quando criança, damos para as coisas mais esquisitas e as associações que fazemos são a grande parte da graça da infância. Para uma criança como Tochtli, então, isso é ainda mais visível. Seu desconhecimento do mundo é um tempero a mais na sua imaginação trágica, mas cômica, que alimenta suas vontades em <em>Festa no covil</em>.</p>
<p>Tochtli tem 10 anos de idade e é filho de Yolcault, um chefão do tráfico mexicano. Vive junto com ele em um castelo, como diz, e conhece, no máximo, umas 14 ou 15 pessoas. Porém, mantém contato com um número menor que esse: algumas empregadas, dois ou três capangas de seu pai e Mazatzin, seu tutor que lhe ensina o que ele deveria estar aprendendo numa escola com outras crianças. Ele adora chapéus, tem uma enorme coleção de todos os tipos, três deles de detetive, que usa para fazer pequenas investigações pelo seu palácio. Às vezes é atacado por fortes dores de barriga, e seu desejo consumista mais recente é adquirir um hipopótamo anão da Libéria para seu pequeno zoológico.<span id="more-3345"></span></p>
<p>O primeiro livro de Juan Pablo Villalobos é uma leitura curta e extremamente cativante por aliar o humor e ingenuidade de Tochtli à violência do narcotráfico. O garoto é geralmente deixado de longe dos negócios do pai, mas como vive seus dias inteiros confinado dentro desse ambiente, não deixa de estar exposto a essa violência através das conversas enigmáticas do pai com seus empregados. A narração em primeira pessoa é feita pelo próprio Tochtli. Para ele, o que escuta ou observa é mais um desses “enigmas”, mas para o leitor, que não é alienado como o menino, é fácil entender as coisas a que ele se refere. A preocupação que ele tem é apenas conseguir o seu estimado hipopótamo anão.</p>
<p>O desconhecimento de Tochtli do mundo é um dos grandes pontos de sua personalidade. Seu discurso não é muito elaborado, com constante repetição das palavras difíceis que conhece, listadas logo no começo do livro: pulcro, fulminante, sórdido, patético e nefasto. Porém, com essas poucas palavras, fala com a desenvoltura de um adulto, sentindo ele mesmo ser mais esperto e inteligente, uma criança precoce, como dizem que ele é. A repetição desses termos durante a narrativa é uma lembrança de que ele pouco conhece da vida, menos ainda que as crianças normais. Porém, consegue chegar a algumas conclusões que só uma criança muito inteligente e que conhece mais coisas que os outros poderia ter, como quando diz: “Realmente os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida.”</p>
<p>Nas suas colunas no blog da Companhia das letras, Villalobos conquista pelo bom humor e naturalidade com que escreve. É aquele amigo contando algo interessante num bar para fazer todos rirem, mesmo se a história conter traços trágicos. <em>Festa no covil </em>é mais ou menos isso: por trás da ingenuidade e encantamento de Tochtli, há o mundo do tráfico, a violência, o perigo e as ameaças, o desconhecimento do garoto e sua criação mimada que, agora na infância, parece simpática e engraçadinha, mas que no futuro será devastadora. Mas isso não está na cabeça do leitor enquanto lê. Tochtli é amável quando não deveria ser – afinal, é um menino mandão e mimado. E o é pela sua imaginação, pela ignorância do mundo que resulta em uma narrativa simples, mas carregada de significados que nós, os não ingênuos, captamos com riso certo temor.</p>
<div id="attachment_3351" class="wp-caption aligncenter" style="width: 539px"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/03/juanpablo-hipopotamo.jpg"><img class="size-full wp-image-3351" title="juanpablo-hipopotamo" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/03/juanpablo-hipopotamo.jpg" alt="" width="529" height="353" /></a><p class="wp-caption-text">01 Hipopótamo</p></div>
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