Ler as crônicas de Humberto Werneck publicadas no livro Esse inferno vai acabar (Arquipélago Editorial) me fizeram pensar em algumas coisas. Primeiro, em quantas pessoas interessantes (e estranhas) o autor eternizou nesses textos, todas resgatadas de sua memória. Depois, em como momentos importantes ganham um ar de simplicidade na sua mão, e por isso marcam mais. E terceiro, me voltou aquela imagem romântica do jornalista que vive e vê momentos inesquecíveis em horários ingratos de trabalho, estressantes, mas invejado ao ter contato com essa rotina através das experiências do autor. Entretanto, não vou me deixar levar pelas palavras bonitas de Werneck e reacender o meu interesse pelo jornalismo, vou me contentar apenas em ter lido ótimas crônicas e falar sobre elas.

Três páginas são espaço o bastante para Werneck relatar seus estranhos casos familiares, os dias de redação no Jornal da Tarde, Jornal do Brasil ou ainda nas revistas Veja, IstoÉ e Playboy. E claro, falar de desconhecidos ilustres com quem topou nas ruas de São Paulo ou Belo Horizonte, de onde vem muito de suas crônicas. Essas três páginas – às vezes com um acréscimo de parágrafos, dependendo da importância do tema do texto, como no caso da juventude da presidente Dilma –, passam rápido e pedem para serem lidas novamente, pois o que o jornalista contou merece uma segunda leitura para apreciação. Se alguma personagem incomum de Werneck passou sem muito alarde, ela pode acabar reaparecendo em outro texto. Que o diga a prima Solange, a que gosta de falar difícil e desenterrar o maior número de palavras possíveis do dicionário. Afinal, se elas estão lá escritas, devem ser usadas, e essa mania rendeu bons textos para Werneck.

Para quem sempre leu crônicas, contos e romances ambientados em Porto Alegre – culpa do grande número de autores gaúchos na minha estante –, o livro Nós passaremos em branco, de Luís Henrique Pellanda, veio para me apresentar um lugar que pouco conheço: Curitiba. A capital paranaense, que eu sempre considerei exemplo de cidade limpa, organizada e com ótima qualidade de vida, é detalhada nesse livro pelas características não tão lisonjeiras. Nos textos do jornalista, figuram as prostitutas, os mendigos, os trambiqueiros, pessoas que toda cidade grande guarda e que, apesar de evitarmos olhar para elas, tem histórias que rendem para a literatura, ou, nesse caso, para uma singela crônica.

O livro faz parte da série Arte da Crônica, publicada pela Arquipélago Editorial, que junto com Pellanda também lançou Esse inferno vai acabar, de Humberto Werneck. No caso de Nós passaremos em branco, a maior parte dos textos foram publicados no site Vida Breve, com quem Pellanda dividia espaço com Eliane Brum e outros autores – o projeto, aliás, foi encerrado na semana passada. Com a objetividade e a literariedade que as crônicas exigem – na minha visão –, Pellanda atua quase como um ladrão de histórias alheias. Os textos surgem de conversas entreouvidas em bancos de praças do centro de Curitiba, onde se passam boa parte dos casos relatados por ele, ou então em mesas de restaurantes vegetarianos, na espera de um vôo em um aeroporto, enfim, lugares por onde o autor passa diariamente e recolhe inspiração para escrever.

Um dia desses, um amigo retuitou uma mensagem que dizia mais ou menos assim: “a necessidade de ser criativo está fazendo mal ao jornalismo”. Discordo. Para mim, o que está fazendo mal ao jornalismo é a falta de profissionalismo, prazos apertados, acomodação e, principalmente, a padronização da informação. O jornalismo consumido hoje – sim, notícias são produtos – é baseado na repetição. Todo portal de notícias traz o mesmo conteúdo com a mesma abordagem, e o jornal impresso só repete a notícia que todo mundo já viu, assistiu e ouviu no dia anterior. Para o jornal impresso isso não é nada bom, pois manter-se informado através do papel atualmente significa receber informação atrasada, embora ele ainda garanta mais legitimidade à notícia.

Christian Carvalho Cruz, jornalista do caderno “Aliás” do Estado de S. Paulo, é um exemplo de como a criatividade – e gosto pela profissão – só tem a contribuir para o jornalismo. O seu trabalho consiste em reavivar no caderno dominical algum assunto que foi pauta no jornal durante a semana e apresentá-lo com um novo olhar: mais original, surpreendente e literário. E ele faz isso muito bem, pois não fala necessariamente daquilo que foi capa do jornal, mas sim de assuntos que não renderam – para outro jornalista e seu editor – nada além de uma notinha em um canto da página. Essas reportagens, que mais parecem crônicas, foram reunidas no livro Entretanto, foi assim que aconteceu: quando a notícia é só o começo de uma boa história, publicado pela Arquipélago Editorial.