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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Companhia das Letras (page 1 of 11)

A descoberta da escrita, de Karl Ove Knausgård

a-descoberta-da-escritaDepois de quatro volumes da série Minha Luta, já era hora de Karl Ove Knausgård falar sobre o principal tema de seus livros: a própria escrita. É claro que ele passou por esse tema nos volumes anteriores, principalmente em Um outro amor e Uma temporada no escuro, segundo e quarto volumes da série. Mas A descoberta da escrita era de certa forma aguardado por compreender os anos de formação do norueguês como escritor.

O livro (tradução de Guilherme da Silva Braga, Companhia das Letras) começa a partir do ponto em que o volume anterior acabou, impondo uma ordem cronológica que antes não existia nos livros. Ao terminar seu ano como professor no norte da Noruega, Knausgård se prepara para se mudar para Bergen, cidade universitária onde seu irmão, Ingve, já está na faculdade e onde começará um curso de escrita criativa na Skrivekansduniet. Entrando nos 20 e poucos anos, Knausgård tem plena certeza de que será escritor e de que tem talento para isso, e o curso, acredita, será importante para desenvolver suas habilidades narrativas.

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Manual da faxineira, de Lucia Berlin

manual-da-faxineiraEu não fazia ideia de quem era Lucia Berlin até o lançamento de Manual da faxineira aqui no Brasil. Por algum motivo – talvez por causa da capa, ou do título –, não dei atenção para o livro quando começou a sair naquelas listas estrangeiras de melhores livros do ano, em 2015. Berlin não era uma autora muito lida nos EUA – sim, ela é americana –, ela era conhecida entre outros escritores, admirada por eles, mas não chegou a atingir o grande público. Não até Manual da faxineira. E não é porque seus contos são difíceis, intelectuais demais ou algo do tipo. Berlin tem uma escrita direta e bem-humorada, não é de se entender mesmo porque só anos depois de sua morte é que seus textos finalmente “estouraram”.

Manual da faxineira (tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras) reúne 43 contos dos 70 e poucos que ela escreveu até morrer, em 2004, aos 68 anos. Não é uma obra gigantesca, infelizmente. Porque é impossível não querer ler mais dela depois de terminar esse livro. Assim como é impossível separar com clareza o que é ficção e o que é sua vida, pois um dos ingredientes principais dos contos são suas próprias experiências. As enfermeiras, atendentes, professoras, faxineiras e assistentes que protagonizam suas histórias são profissões que ela mesma exerceu. Nascida no Alasca, ainda criança voltou para a cidade de sua família materna no Texas, quando o pai foi lutar na Segunda Guerra, e depois de lá viveu em diversas outras cidades dos EUA, do México e do Chile (El Paso, Oakland, Nova York, Cidade do México, Santiago…). Teve três casamentos, quatro filhos, enfrentou o alcoolismo, assim como essas personagens.

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Complô contra a América, de Philip Roth

complo-contra-a-americaSei que é bobagem essa coisa de “currículo literário”, de que certas obras ou autores são obrigatórias. Mas sempre senti que, se tem um autor que eu deveria mesmo ler, esse seria Philip Roth. E demorei para pegar um livro dele. Com todo esse negócio de Donald Trump presidente, Bolsonaros e seus fãs, gente achando que a ditadura deve voltar e tudo o mais, a escolha para começar a ler Roth foi mais do que certeira: Complô contra a América, lançado em 2004 (tradução de Paulo Henriques Britto).

Neste romance com ares autobiográficos, Roth imagina um cenário em que Charles Lindbergh – pioneiro da aviação, um herói americano, porém simpatizante do nazismo – vence as eleições presidenciais americanas em 1940, derrotando Franklin D. Roosevelt. Com isso, o cenário dos EUA, um lugar até então seguro para os judeus em plena Segunda Guerra Mundial, muda totalmente. Tudo isso é visto pelo pequeno Philip Roth, com sete anos de idade. Seu pai tinha fé absoluta de que Lindbergh jamais teria chances de chegar à presidência. Sua simpatia pelo nazismo era evidente demais, e nenhum cidadão americano em plena consciência pensaria que essa seria uma boa escolha. Enquanto isso, Roosevelt havia tirado o país da crise, ajudado os americanos, era visto quase como um herói pelo pai de Roth. Como Lindbergh chegou, então, a vencer as eleições?

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Lincoln in the Bardo, de George Saunders

lincoln-in-the-bardoGeorge Saunders é um dos principais nomes do conto norte-americano. Aqui no Brasil, lançou Dez de dezembro, livro que reúne dez contos que, como escrevi na época, são “de alguma forma ligados a questões como a realidade obscura da vida no subúrbio, conflitos morais, o cotidiano com suas falhas, acertos, dramas e comédias”. Os contos possuem certa dose de fantasia, ou de absurdo, mas são, basicamente, sobre questões existenciais, sobre o comum da vida. Lembro de ter gostado de tudo nesses contos: dos enredos, das personagens, da maneira com que Saunders escreve. Então não foi por puro acaso que li Lincoln in the Bardo, seu primeiro romance que foi lançado no começo desse ano.

Lincoln in the Bardo chegou com grande barulho lá fora (aqui deve ser lançado mais para o fim do ano). Não só por ser a primeira narrativa longa de Saunders, que também dá aulas de escrita criativa, mas por causa da própria inventividade do autor. Outro detalhe chamativo é o seu audiobook, que tem um elenco invejável: Nick Offerman, David Sedaris, Carrie Brownstein, Ben Stiller, Julianne Moore, Miranda July, Susan Sarandon, Jeff Tweedy, Bill Hader, o próprio Saunders e muito mais gente. Só essa lista já dá uma ideia do que é essa história e de como ela é contada, e aumentou todas as minhas expectativas para a leitura. Expectativas que foram muito bem alcançadas.

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“Quem matou Roland Barthes?”, de Laurent Binet

quem-matou-roland-barthesQuem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet (tradução de Rosa Freire D’Aguiar), foi o último livro lido em 2016, e um dos meus preferidos do ano. É daqueles livros que você não sabe exatamente os motivos de ter gostado, ou apenas não consegue descrevê-los bem. Ele é divertido, ele é bem escrito, ele pode até ser considerado inventivo, apesar de ser uma clássica história de investigação policial, um quem matou quem – ou quem mandou alguém matar quem, neste caso –, um romance que usa elementos reais para criar uma absurda história de conspiração que envolve a linguagem. Talvez eu tenha gostado do livro porque finalmente usei o que tive que aprender de semiótica na faculdade. Talvez.

Roland Barthes estava atravessando a rua quando foi atropelado por uma camionete de lavanderia no dia 25 de fevereiro de 1980. Estava voltando para casa após um almoço onde estavam presentes vários políticos e estudiosos, incluindo o candidato socialista à presidência da França, François Mitterrand. Até aí, tudo aconteceu de verdade. O almoço e o atropelamento são o ponto de partida para a trama policial de Laurent Binet. Considerando o atropelamento um acontecimento suspeito, a polícia francesa coloca o delegado Jacques Bayard para investigar as causas do acidente. Suas perguntas para Barthes no hospital não surtem muito efeito: ele apenas descobre que seus documentos foram perdidos, mais um fato suspeito. Um mês depois do atropelamento, Barthes morreria no hospital. Read more

Uma temporada no escuro, de Karl Ove Knausgård

uma-temporada-no-escuroUma temporada no escuro (tradução de Guilherme da Silva Braga) é um dos livros mais divertidos de Karl Ove Knausgård. Quarto volume da série Minha Luta, neste livro o escritor norueguês se concentra no início de sua vida adulta. Formado no colégio e sem planos de ingressar em uma faculdade, o Knausgård de 18 anos consegue um emprego como professor em uma pequena vila no norte da Noruega – lá ele poderia ganhar algum dinheiro e ter tempo para fazer o que realmente quer: escrever. É estranho pensar que um moleque de 18 anos tenha algo a ensinar para alunos pequenos, crianças e adolescentes dois anos mais novos que ele. Mas a localização remota da ilha e sua população minúscula – cerca de 200 e poucas famílias – não torna o lugar muito atrativo para professores formados. A mão de obra desses alunos recém-saídos do forno é bem conveniente para lugares como esse, então era bem comum que jovens como Karl Ove fossem passar um ano dando aulas básicas até arranjarem algo “melhor” para fazer.

É assim que o romance começa: Knausgård está chegando na vila, ansioso para começar a trabalhar, para morar pela primeira vez sozinho, ter seu próprio espaço. O tamanho da vila não o assusta. Na verdade, estar num lugar tão vazio de pessoas e remoto é um atrativo a mais, ele se torna rapidamente uma novidade, as pessoas vêm falar com ele espontaneamente e se mostram muito solícitas. Em sua primeira noite, o sentimento do escritor é puro contentamento. Contentamento por ter 18 anos, por estar se virando sozinho e por estar começando a escrever.

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Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson

paraiso-e-inferno“Pouco de nós se assemelha à luz. Estamos muito mais próximos da escuridão, somos quase escuridão, tudo o que temos são recordações, e a esperança que, seja como for, se desvaneceu, continua a se desvanecer e em breve se assemelha a uma estrela extinta, um rochedo escuro. No entanto, sabemos um pouco sobre a vida e um pouco sobre a morte, e conseguimos falar disso: fazemos todo este percurso para te tocar, e para concretizar o destino.”

A Islândia sempre esteve na minha lista de lugares a visitar. Por causa da neve, das montanhas, dos vulcões, do jeito de lugar inabitado, sem grandes prédios, onde a natureza é o que chama a atenção. O país tem cara de uma cidade de mentira, toda inventada, onde tudo parece de brinquedo ou antigo. Acho isso tudo bonito demais. Parece mágico. Mas a Islândia não é só beleza, ou melhor, justamente aquilo que é bonito pode ser traiçoeiro. E só parei para pensar nisso depois de ler Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson, lançado neste ano no Brasil e traduzido direto do islandês por João Reis.

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Os 10 melhores livros de 2016

Chegou a hora, pessoal. Nunca vamos parar de fazer listas. Precisamos de listas. Precisamos categorizar o que acontece com a gente. Acho que até já perdemos a birra com as listas que reinou no ano passado. Não temos como fugir delas.

Na lista “vida em 2016”, eu colocaria algo como: “começou bom, aí ficou ruim, aí piorou, aí pareceu melhorar um pouco, agora não sei o que tá acontecendo”. Mas uma coisa é certa: 2016 foi um bom ano de leituras. Já começou com um destaque grande para obras escritas por mulheres – e o melhor foi notar que fiz isso inconscientemente, não baseei minhas escolhas em “esse foi escrito por uma mulher e por isso tenho que ler”. E também consegui bater minha meta de leitura no Goodreads (ok, 30 livros, até fácil comparado com aquele ano em que li 92…), pois sabemos como a vida adulta e proletária é difícil, e não é nem uma questão de ter tempo para ler, mas força de vontade mesmo. Considero isso uma vitória.

Depois dessa introdução nada animada, aqui vai a minha listinha de MELHORES LEITURAS DE 2016 (não é melhores lançamentos, é o que li de mais legal nesse ano mesmo).

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Homo Deus, de Yuval Noah Harari

homo-deusFome, pestes e guerra: durante toda a sua existência, o homem teve que superar essas tragédias para se manter vivo. A fome dizimava populações inteiras, metade das pessoas na Terra podiam perecer a uma nova peste que matava rapidamente, durante séculos nações viveram em pé de guerra e os momentos de paz mundial eram apenas pequenos intervalos entre um conflito e outro. No século XXI, esses “problemas” foram minimizados: as pessoas morrem mais de diabetes e obesidade que de fome; novas doenças são rapidamente isoladas e combatidas; conflitos entre nações ainda existem, mas a morte por homicídio e até suicídio superam as mortes em guerras. Vivendo nesse tempo de paz constante, qual será a próximo passo do homo sapiens?

O parágrafo anterior resume a introdução de Homo Deus (tradução de Paulo Geiger), novo livro de Yuval Noah Harari, que em seu livro anterior, Homo sapiens, registrou toda a história do homem em milhares de anos de existência. Sua ideia neste novo livro é mostrar as possibilidades do futuro do homem, qual será a próxima “evolução” do homo sapiens. Uma história que, por conta de todos os avanços científicos que tivemos, é otimista e pessimista ao mesmo tempo, um aviso sobre as questões éticas e morais de nossos avanços tecnológicos.

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A música do universo, de Janna Levin

a-musica-do-universoJanna Levin não sabia que os cientistas do grupo Ligo (sigla em inglês para Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser) haviam detectado ondas gravitacionais quando enviou para alguns deles uma versão quase pronta de seu livro, A música do universo. Durante anos, a física e jornalista entrevistou dezenas de pessoas envolvidas no projeto que tem como objetivo comprovar a teoria das ondas gravitacionais de Albert Einstein. Quando estava finalizando seu manuscrito, o que tinha de material eram as histórias por trás dessa iniciativa: a burocracia para conseguir fundos, as intrigas entre os cientistas, os seus temperamentos difíceis e o trabalho para tirar tudo do papel. Mas meses antes do centenário da teoria de Einstein e do livro de Levin ser lançado, o Ligo detectou ondas causadas pela colisão de dois buracos negros a milhões de anos-luz da Terra. A teoria estava comprovada. As ondas gravitacionais existiam. Einstein estava certo: dois corpos celestes de grandes massas eram capazes de provocar ondas que se propagavam na malha do espaço-tempo do universo como o som que sai de um tambor e chega ao seu ouvido – impossível de ser visto, mas podendo ser sentido.

A música do universo (traduzido por Paulo Geiger) é uma biografia deste projeto que começou a ser concebido há 50 anos. Quando, no começo do ano, foram divulgadas as descobertas destes cientistas, muita gente certamente nem fazia ideia de que existia um trabalho tão enorme para detectar tal fenômeno do universo. Ainda mais imaginar que ele durou tanto tempo para entrar em funcionamento – o grande ápice do livro, não fosse a comprovação da teoria, seria fazer as máquinas do Ligo pelo menos funcionarem, o que não é pouca coisa. O que Janna Levin mostra nesse livro, além das explicações simples sobre a teoria das ondas gravitacionais, o que são os buracos negros, quais seriam as prováveis origens das ondas e como poderíamos (e, de fato, podemos) captá-las, é toda a luta que existe para simplesmente conseguir colocar o plano em prática.

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