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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Companhia das Letras (page 1 of 11)

Roupas sujas, de Leonardo Brasiliense

roupas-sujasHá famílias onde nada é segredo. Pais e filhos conversam abertamente sobre o que estão sentindo, sobre seus problemas mais complicados e íntimos, e tudo se resolve numa boa conversa. Eu não vim de uma família assim, e, ainda hoje, não sinto que posso falar sobre qualquer coisa com meus pais, tios, avós ou primos. Pode ser uma forma de autoproteção, de evitar reprimendas e julgamentos, ou por achar que vivo uma realidade distante da deles e por isso não haveria compreensão. Assim, nem as coisas mais mundanas são ditas.

Minha família é formada por pessoas que dedicaram boa parte da vida ao trabalho duro, daquele que te deixa tão cansado no fim do dia que não sobra tempo ou forças para pensar sobre o que acontece dentro da cabeça – era assim até pouco tempo, pelo menos, até algumas mudanças e perdas derrubarem algumas barreiras sentimentais dos meus tios e avós. Por mais que tenha crescido com muito mais mordomias do que os meus pais, sem as obrigações domésticas que eles tiveram desde pequenos, eu desenvolvi esse silêncio sobre o que acontece comigo e o que estou sentindo. É bem provável que seja por isso que eu tenha gostado tanto da leitura de Roupas sujas, de Leonardo Brasiliense.

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As melhores leituras de 2017 – segundo meu nada arbitrário gosto literário

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Estou sentindo cheiro de ceia de Natal, de amigo secreto da família, de tios bêbados e de melancolia de fim de ano. Significa que é hora da: LISTA DE MELHORES LEITURAS DO ANO!

O ano ainda não acabou, eu sei, mas posso declarar que já tenho a lista de livros mais legais de 2017 – se bem que achei o mesmo no ano passado e tive que adicionar um livro extra depois de ter postado a lista. Mas como o ritmo de leitura anda lendo e tudo o mais, acho que já posso encerrar o expediente de 2017 (que foi bem preguiçoso, desculpa).

Então aqui está a lista. Lembrando que ela se refere a livros lidos neste ano, não necessariamente lançados neste ano – tem dois que nem saíram no Brasil ainda e um que saiu há muito tempo. Dessa vez decidi fazer um ranking mesmo, sendo o primeiro colocado o que eu mais gostei. Como gosto de suspense, ele será o último mencionado.

(Pelas fotos vocês vão notar que usei de dois artifícios para mostrar os livros em 2017: meu gato e minhas pernas. Tenho que divulgar a literatura com as armas que eu tenho. ¯\_(ツ)_/¯)

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Cosmos, de Carl Sagan

cosmos sagan“Se ansiamos que nosso planeta seja importante, há algo que podemos fazer quanto a isso. Podemos fazer com que ele seja significativo com a coragem de nossas perguntas e a profundidade de nossas respostas.” – Carl Sagan

Carl Sagan não precisa de apresentações, assim como Cosmos. Quem viveu nos anos 1980 e 1990 lembra bem da série de TV que aproximou ainda mais o público “comum” da ciência, essa coisa tão obscura e complicada. E quem, como eu, não viveu essa descoberta do universo com a série original, acabou impactado com seu reboot dois anos atrás, agora na versão de Neil deGrasse Tyson. É claro que eu já sabia quem era Carl Sagan e qual era a sua importância para a comunidade científica antes dessa nova série, já tinha lido alguns de seus livros – é curioso lembrar que meu primeiro contato com sua obra foi justamente através de sua única ficção, o romance Contato. Depois de ver a série, de ler outros de seus livros – como O mundo assombrado pelos demônios –, foi bom demais ler Cosmos e entender a paixão de Sagan pela ciência.

Cosmos ganhou uma nova edição neste ano, depois de muito tempo esgotado. Há quem tenha ficado com receio por ser um livro de divulgação científica dos anos 1980, quando muitas outras coisas foram descobertas ou desmistificas de lá pra cá. O livro não traz mudanças no texto original, mas contém notas atualizando alguns desses avanços e descobrimentos conforme Sagan os cita. E essa é uma das coisas que gostei na leitura: é incrível pensar que, em poucos anos, muito mudou e descobrimos ainda mais sobre o universo.

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A descoberta da escrita, de Karl Ove Knausgård

a-descoberta-da-escritaDepois de quatro volumes da série Minha Luta, já era hora de Karl Ove Knausgård falar sobre o principal tema de seus livros: a própria escrita. É claro que ele passou por esse tema nos volumes anteriores, principalmente em Um outro amor e Uma temporada no escuro, segundo e quarto volumes da série. Mas A descoberta da escrita era de certa forma aguardado por compreender os anos de formação do norueguês como escritor.

O livro (tradução de Guilherme da Silva Braga, Companhia das Letras) começa a partir do ponto em que o volume anterior acabou, impondo uma ordem cronológica que antes não existia nos livros. Ao terminar seu ano como professor no norte da Noruega, Knausgård se prepara para se mudar para Bergen, cidade universitária onde seu irmão, Ingve, já está na faculdade e onde começará um curso de escrita criativa na Skrivekansduniet. Entrando nos 20 e poucos anos, Knausgård tem plena certeza de que será escritor e de que tem talento para isso, e o curso, acredita, será importante para desenvolver suas habilidades narrativas.

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Manual da faxineira, de Lucia Berlin

manual-da-faxineiraEu não fazia ideia de quem era Lucia Berlin até o lançamento de Manual da faxineira aqui no Brasil. Por algum motivo – talvez por causa da capa, ou do título –, não dei atenção para o livro quando começou a sair naquelas listas estrangeiras de melhores livros do ano, em 2015. Berlin não era uma autora muito lida nos EUA – sim, ela é americana –, ela era conhecida entre outros escritores, admirada por eles, mas não chegou a atingir o grande público. Não até Manual da faxineira. E não é porque seus contos são difíceis, intelectuais demais ou algo do tipo. Berlin tem uma escrita direta e bem-humorada, não é de se entender mesmo porque só anos depois de sua morte é que seus textos finalmente “estouraram”.

Manual da faxineira (tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras) reúne 43 contos dos 70 e poucos que ela escreveu até morrer, em 2004, aos 68 anos. Não é uma obra gigantesca, infelizmente. Porque é impossível não querer ler mais dela depois de terminar esse livro. Assim como é impossível separar com clareza o que é ficção e o que é sua vida, pois um dos ingredientes principais dos contos são suas próprias experiências. As enfermeiras, atendentes, professoras, faxineiras e assistentes que protagonizam suas histórias são profissões que ela mesma exerceu. Nascida no Alasca, ainda criança voltou para a cidade de sua família materna no Texas, quando o pai foi lutar na Segunda Guerra, e depois de lá viveu em diversas outras cidades dos EUA, do México e do Chile (El Paso, Oakland, Nova York, Cidade do México, Santiago…). Teve três casamentos, quatro filhos, enfrentou o alcoolismo, assim como essas personagens.

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Complô contra a América, de Philip Roth

complo-contra-a-americaSei que é bobagem essa coisa de “currículo literário”, de que certas obras ou autores são obrigatórias. Mas sempre senti que, se tem um autor que eu deveria mesmo ler, esse seria Philip Roth. E demorei para pegar um livro dele. Com todo esse negócio de Donald Trump presidente, Bolsonaros e seus fãs, gente achando que a ditadura deve voltar e tudo o mais, a escolha para começar a ler Roth foi mais do que certeira: Complô contra a América, lançado em 2004 (tradução de Paulo Henriques Britto).

Neste romance com ares autobiográficos, Roth imagina um cenário em que Charles Lindbergh – pioneiro da aviação, um herói americano, porém simpatizante do nazismo – vence as eleições presidenciais americanas em 1940, derrotando Franklin D. Roosevelt. Com isso, o cenário dos EUA, um lugar até então seguro para os judeus em plena Segunda Guerra Mundial, muda totalmente. Tudo isso é visto pelo pequeno Philip Roth, com sete anos de idade. Seu pai tinha fé absoluta de que Lindbergh jamais teria chances de chegar à presidência. Sua simpatia pelo nazismo era evidente demais, e nenhum cidadão americano em plena consciência pensaria que essa seria uma boa escolha. Enquanto isso, Roosevelt havia tirado o país da crise, ajudado os americanos, era visto quase como um herói pelo pai de Roth. Como Lindbergh chegou, então, a vencer as eleições?

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Lincoln in the Bardo, de George Saunders

lincoln-in-the-bardoGeorge Saunders é um dos principais nomes do conto norte-americano. Aqui no Brasil, lançou Dez de dezembro, livro que reúne dez contos que, como escrevi na época, são “de alguma forma ligados a questões como a realidade obscura da vida no subúrbio, conflitos morais, o cotidiano com suas falhas, acertos, dramas e comédias”. Os contos possuem certa dose de fantasia, ou de absurdo, mas são, basicamente, sobre questões existenciais, sobre o comum da vida. Lembro de ter gostado de tudo nesses contos: dos enredos, das personagens, da maneira com que Saunders escreve. Então não foi por puro acaso que li Lincoln in the Bardo, seu primeiro romance que foi lançado no começo desse ano.

Lincoln in the Bardo chegou com grande barulho lá fora (aqui deve ser lançado mais para o fim do ano). Não só por ser a primeira narrativa longa de Saunders, que também dá aulas de escrita criativa, mas por causa da própria inventividade do autor. Outro detalhe chamativo é o seu audiobook, que tem um elenco invejável: Nick Offerman, David Sedaris, Carrie Brownstein, Ben Stiller, Julianne Moore, Miranda July, Susan Sarandon, Jeff Tweedy, Bill Hader, o próprio Saunders e muito mais gente. Só essa lista já dá uma ideia do que é essa história e de como ela é contada, e aumentou todas as minhas expectativas para a leitura. Expectativas que foram muito bem alcançadas.

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“Quem matou Roland Barthes?”, de Laurent Binet

quem-matou-roland-barthesQuem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet (tradução de Rosa Freire D’Aguiar), foi o último livro lido em 2016, e um dos meus preferidos do ano. É daqueles livros que você não sabe exatamente os motivos de ter gostado, ou apenas não consegue descrevê-los bem. Ele é divertido, ele é bem escrito, ele pode até ser considerado inventivo, apesar de ser uma clássica história de investigação policial, um quem matou quem – ou quem mandou alguém matar quem, neste caso –, um romance que usa elementos reais para criar uma absurda história de conspiração que envolve a linguagem. Talvez eu tenha gostado do livro porque finalmente usei o que tive que aprender de semiótica na faculdade. Talvez.

Roland Barthes estava atravessando a rua quando foi atropelado por uma camionete de lavanderia no dia 25 de fevereiro de 1980. Estava voltando para casa após um almoço onde estavam presentes vários políticos e estudiosos, incluindo o candidato socialista à presidência da França, François Mitterrand. Até aí, tudo aconteceu de verdade. O almoço e o atropelamento são o ponto de partida para a trama policial de Laurent Binet. Considerando o atropelamento um acontecimento suspeito, a polícia francesa coloca o delegado Jacques Bayard para investigar as causas do acidente. Suas perguntas para Barthes no hospital não surtem muito efeito: ele apenas descobre que seus documentos foram perdidos, mais um fato suspeito. Um mês depois do atropelamento, Barthes morreria no hospital. Read more

Uma temporada no escuro, de Karl Ove Knausgård

uma-temporada-no-escuroUma temporada no escuro (tradução de Guilherme da Silva Braga) é um dos livros mais divertidos de Karl Ove Knausgård. Quarto volume da série Minha Luta, neste livro o escritor norueguês se concentra no início de sua vida adulta. Formado no colégio e sem planos de ingressar em uma faculdade, o Knausgård de 18 anos consegue um emprego como professor em uma pequena vila no norte da Noruega – lá ele poderia ganhar algum dinheiro e ter tempo para fazer o que realmente quer: escrever. É estranho pensar que um moleque de 18 anos tenha algo a ensinar para alunos pequenos, crianças e adolescentes dois anos mais novos que ele. Mas a localização remota da ilha e sua população minúscula – cerca de 200 e poucas famílias – não torna o lugar muito atrativo para professores formados. A mão de obra desses alunos recém-saídos do forno é bem conveniente para lugares como esse, então era bem comum que jovens como Karl Ove fossem passar um ano dando aulas básicas até arranjarem algo “melhor” para fazer.

É assim que o romance começa: Knausgård está chegando na vila, ansioso para começar a trabalhar, para morar pela primeira vez sozinho, ter seu próprio espaço. O tamanho da vila não o assusta. Na verdade, estar num lugar tão vazio de pessoas e remoto é um atrativo a mais, ele se torna rapidamente uma novidade, as pessoas vêm falar com ele espontaneamente e se mostram muito solícitas. Em sua primeira noite, o sentimento do escritor é puro contentamento. Contentamento por ter 18 anos, por estar se virando sozinho e por estar começando a escrever.

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Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson

paraiso-e-inferno“Pouco de nós se assemelha à luz. Estamos muito mais próximos da escuridão, somos quase escuridão, tudo o que temos são recordações, e a esperança que, seja como for, se desvaneceu, continua a se desvanecer e em breve se assemelha a uma estrela extinta, um rochedo escuro. No entanto, sabemos um pouco sobre a vida e um pouco sobre a morte, e conseguimos falar disso: fazemos todo este percurso para te tocar, e para concretizar o destino.”

A Islândia sempre esteve na minha lista de lugares a visitar. Por causa da neve, das montanhas, dos vulcões, do jeito de lugar inabitado, sem grandes prédios, onde a natureza é o que chama a atenção. O país tem cara de uma cidade de mentira, toda inventada, onde tudo parece de brinquedo ou antigo. Acho isso tudo bonito demais. Parece mágico. Mas a Islândia não é só beleza, ou melhor, justamente aquilo que é bonito pode ser traiçoeiro. E só parei para pensar nisso depois de ler Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson, lançado neste ano no Brasil e traduzido direto do islandês por João Reis.

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