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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Companhia das Letras (page 2 of 11)

Os 10 melhores livros de 2016

Chegou a hora, pessoal. Nunca vamos parar de fazer listas. Precisamos de listas. Precisamos categorizar o que acontece com a gente. Acho que até já perdemos a birra com as listas que reinou no ano passado. Não temos como fugir delas.

Na lista “vida em 2016”, eu colocaria algo como: “começou bom, aí ficou ruim, aí piorou, aí pareceu melhorar um pouco, agora não sei o que tá acontecendo”. Mas uma coisa é certa: 2016 foi um bom ano de leituras. Já começou com um destaque grande para obras escritas por mulheres – e o melhor foi notar que fiz isso inconscientemente, não baseei minhas escolhas em “esse foi escrito por uma mulher e por isso tenho que ler”. E também consegui bater minha meta de leitura no Goodreads (ok, 30 livros, até fácil comparado com aquele ano em que li 92…), pois sabemos como a vida adulta e proletária é difícil, e não é nem uma questão de ter tempo para ler, mas força de vontade mesmo. Considero isso uma vitória.

Depois dessa introdução nada animada, aqui vai a minha listinha de MELHORES LEITURAS DE 2016 (não é melhores lançamentos, é o que li de mais legal nesse ano mesmo).

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Homo Deus, de Yuval Noah Harari

homo-deusFome, pestes e guerra: durante toda a sua existência, o homem teve que superar essas tragédias para se manter vivo. A fome dizimava populações inteiras, metade das pessoas na Terra podiam perecer a uma nova peste que matava rapidamente, durante séculos nações viveram em pé de guerra e os momentos de paz mundial eram apenas pequenos intervalos entre um conflito e outro. No século XXI, esses “problemas” foram minimizados: as pessoas morrem mais de diabetes e obesidade que de fome; novas doenças são rapidamente isoladas e combatidas; conflitos entre nações ainda existem, mas a morte por homicídio e até suicídio superam as mortes em guerras. Vivendo nesse tempo de paz constante, qual será a próximo passo do homo sapiens?

O parágrafo anterior resume a introdução de Homo Deus (tradução de Paulo Geiger), novo livro de Yuval Noah Harari, que em seu livro anterior, Homo sapiens, registrou toda a história do homem em milhares de anos de existência. Sua ideia neste novo livro é mostrar as possibilidades do futuro do homem, qual será a próxima “evolução” do homo sapiens. Uma história que, por conta de todos os avanços científicos que tivemos, é otimista e pessimista ao mesmo tempo, um aviso sobre as questões éticas e morais de nossos avanços tecnológicos.

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A música do universo, de Janna Levin

a-musica-do-universoJanna Levin não sabia que os cientistas do grupo Ligo (sigla em inglês para Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser) haviam detectado ondas gravitacionais quando enviou para alguns deles uma versão quase pronta de seu livro, A música do universo. Durante anos, a física e jornalista entrevistou dezenas de pessoas envolvidas no projeto que tem como objetivo comprovar a teoria das ondas gravitacionais de Albert Einstein. Quando estava finalizando seu manuscrito, o que tinha de material eram as histórias por trás dessa iniciativa: a burocracia para conseguir fundos, as intrigas entre os cientistas, os seus temperamentos difíceis e o trabalho para tirar tudo do papel. Mas meses antes do centenário da teoria de Einstein e do livro de Levin ser lançado, o Ligo detectou ondas causadas pela colisão de dois buracos negros a milhões de anos-luz da Terra. A teoria estava comprovada. As ondas gravitacionais existiam. Einstein estava certo: dois corpos celestes de grandes massas eram capazes de provocar ondas que se propagavam na malha do espaço-tempo do universo como o som que sai de um tambor e chega ao seu ouvido – impossível de ser visto, mas podendo ser sentido.

A música do universo (traduzido por Paulo Geiger) é uma biografia deste projeto que começou a ser concebido há 50 anos. Quando, no começo do ano, foram divulgadas as descobertas destes cientistas, muita gente certamente nem fazia ideia de que existia um trabalho tão enorme para detectar tal fenômeno do universo. Ainda mais imaginar que ele durou tanto tempo para entrar em funcionamento – o grande ápice do livro, não fosse a comprovação da teoria, seria fazer as máquinas do Ligo pelo menos funcionarem, o que não é pouca coisa. O que Janna Levin mostra nesse livro, além das explicações simples sobre a teoria das ondas gravitacionais, o que são os buracos negros, quais seriam as prováveis origens das ondas e como poderíamos (e, de fato, podemos) captá-las, é toda a luta que existe para simplesmente conseguir colocar o plano em prática.

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Enclausurado, de Ian McEwan

enclausuradoDe dentro do útero da mãe, um feto de quase nove meses escuta os planos horríveis de sua genitora para assassinar seu pai. Ela arquiteta o plano com seu amante, que vem a ser também o tio do feto. O motivo do crime é a casa onde eles se encontram, um imóvel que, apesar de decrépito, vale cerca de seis ou sete milhões de libras. Se a mãe, Trudy, simplesmente se separasse do editor e poeta John, ela não conseguiria um bom acordo que enriquecesse sua conta bancária e a de Claude, o amante/cunhado. A única saída para arrancar dinheiro do decadente poeta é o assassinato. E o feto escuta tudo.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente esperando, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda”, diz o feto na primeira linha de Enclausurado, novo romance de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster). Através da barriga da mãe ele escuta tudo, todas as maquinações e depravações dela e do amante, e isso aterroriza a mente do ser que ainda nem chegou ao mundo. O feto que narra este livro se preocupa com o que será do seu futuro caso o plano seja colocado em prática, mas pouco pode fazer para evitá-lo estando ainda preso ao cordão umbilical. Resta a ele apenas a contemplação e as previsões de como será o seu futuro, sendo criado por dois assassinos ou então abandonado, dado para a adoção. Nenhum dos cenários lhe parece bom.

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A história secreta, de Donna Tartt

a-historia-secretaSe tem uma coisa que eu gostaria de fazer mais é reler os livros que eu gosto. Tem histórias que merecem receber nova atenção, entrar novamente nelas com um pouco mais de experiência e com uma visão diferente. Fora que, com as boas histórias que você já conhece, a chance de se divertir e se encantar com a leitura são grandes. É aquela coisa de reencontrar um amigo antigo que você gostava muito mas que, por algum motivo, não tinha mais muito contato. Nesse ano consegui, finalmente, reler A história secreta, de Donna Tartt. O engraçado é que só percebi que já tinha lido esse livro quando foi lançado no Brasil O pintassilgo, seu romance mais recente. Eu lembrava que, quando eu tinha 15 ou 16 anos, eu li uma história sobre um grupo de estudantes de grego e havia gostado muito dela. Acho que foi um dos primeiros livros mais “densos” que eu tinha lido na vida depois de Harry Potter. O problema é que eu não lembrava do título do livro e nem quem era a autora. E aí reencontrei Donna Tartt.

A história secreta (tradução de Celso Nogueira) é narrado por Richard, um jovem que nasceu e cresceu na Califórnia e, para escapar da mediocridade da sua cidade e de sua família, consegue uma bolsa na universidade de Hampden, em Vermont. Hampden não é das universidades mais exigentes dos EUA, mas cultiva certa fama entre o povo de “humanas” – artistas, beletristas etc. Abandonando o curso de medicina que fazia na Califórnia para entrar no mundo das letras, Richard tenta ao máximo se encaixar no estilo de vida de seus colegas, escondendo sua origem pobre para se integrar aos modos das pessoas que nasceram em famílias abastadas. Nas primeiras semanas de aula, ele topa com um grupo peculiar de estudantes: Henry, Bunny, Francis e os irmãos gêmeos Charles e Camila, que compõem a seleta turma de grego do professor Julian.

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Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

meu-nome-e-lucy-bartonLucy Barton tem complicações durante uma cirurgia e tem que passar alguns dias em observação, internada num hospital em Nova York. Da janela ela observa o edifício Chrysler, imagem constante em suas noites insones e solitárias, em que pensa nas duas filhas pequenas – se sentem sua falta, se seu marido está dando conta de cuidar das duas – e no trabalho deixado de lado momentaneamente por conta da saúde. Lucy Barton é escritora. No momento da cirurgia e da internação, está publicando seus primeiros textos em revistas renomadas. Mas a Lucy Barton que conta esta história já tem uma obra consolidada, e o que ela pretende aqui é relembrar cinco dias específicos de sua internação que acabou durando bem mais do que ela previa: os cinco dias em que recebeu a visita de sua mãe. Este é Meu nome é Lucy Barton, livro de Elizabeth Strout que esteve entre os indicados do Man Booker Prize deste ano (tradução de Sara Grünhagen), mas não chegou a ser finalista do prêmio.

Há anos Lucy não via sua mãe. Sua presença no quarto do hospital foi uma feliz surpresa, mas que também amedrontadora. Ela não fazia ideia do motivo da mãe estar ali (depois soube que seu marido ligou para a sogra e pediu que fosse visitá-la, pois ele tinha pavor de hospitais), e nem o que a mãe pensava do lugar onde estava, da vida que a filha vinha levando tão longe dela. Lucy e sua mãe são bem diferentes, e apesar dela notar algo familiar, uma sensação aconchegante vinda do passado, ela também sente que não está conectada com a mãe, assim como nunca se conectou muito à família após deixar a cidadezinha do interior onde cresceu. E assim a Lucy dos dias atuais explica essa relação não conflituosa, mas complicada, entre mãe e filha, em que constrói um relato sobre identidade, seu lugar no mundo e a importância das pessoas.

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A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulherPense nos relatos de guerra, de que forma eles são feitos. Há a história de quem ganha, cheia de atos heroicos e grandiosidade. Há a de quem perde, essa talvez menos contada, provavelmente porque desperta vergonha, vulnerabilidade. Mas uma coisa que essas histórias têm em comum é a sua fonte: geralmente narradas por homens, construídas por eles. Em filmes, livros, séries, quando a guerra é o tema são os homens os personagens principais. As mulheres têm o papel de cuidar dos homens, ser suas enfermeiras, suas amantes, aquelas que seguram as pontas em casa e esperam pela sua volta. Mas há um papel que as mulheres tiveram na Segunda Guerra Mundial que, perto do tanto de histórias que temos de homens lutando, é praticamente esquecida. A história das mulheres que realmente combateram, pegaram em armas e estiveram no campo de batalha. Essa é a história que Svetlana Aleksiévitch quer contar.

Em A guerra não tem rosto de mulher (tradução de Cecília Rosas), a jornalista bielorrussa entrevista centenas de mulheres que combateram pelo exército soviético ou em grupos civis. São franco-atiradoras, tanquistas, médicas, enfermeiras, lavadeiras, pilotos, enfim, mulheres que lutaram em todas as frentes, que assumiram o posto dos homens e fizeram o trabalho tão bem (ou até melhor) do que eles. A motivação de Aleksiévitch, como ela diz na introdução, é mostrar como o relato das mulheres difere do dos homens. Ela quer mostrar uma guerra que não foi feita de heroísmo, que não teve, no final, vencedores ou perdedores. Ela quer uma guerra com sentimentos, com as dores e as (poucas) alegrias que o conflito guarda. É dar às mulheres a chance de contar o que elas nunca contaram.

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Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg

cidade-em-chamasCidade em chamas é um livro gigante, mas você não precisa ter medo dele pelo tamanho. Essa é a primeira coisa que falo para quem diz que ainda está meio receoso de dedicar tempo (e força, pois pesado) no primeiro romance de Garth Risk Hallberg. Não, Cidade em chamas não é nenhum labirinto literário quase que incompreensível que vai te fazer arrancar os cabelos – tipo Ulysses e Graça infinita, já que estamos falando de catataus e traduções do Caetano Galindo, que também cuidou dessa aqui. Cidade em chamas é, na verdade, uma história bem tranquila de ler. E talvez por isso muitos tenham se decepcionado com o livro, por esperar algo mais desafiador dele. Bem, ele não me decepcionou, mas também não colocaria na mesma categoria desses outros livrões citados.

Os Hamilton-Sweeney são uma família rica e tradicional de Nova York. William Hamilton-Sweeney III é a ovelha negra dessa família. Já saindo da adolescência ele foge de casa, descontente com o novo casamento do pai, que lhe dará uma madrasta e um tio pouco confiáveis (o irmão de Felicia é denominado, até, de Irmão Demoníaco). A irmã, Regan, mais certinha, ficou para trás para “tocar os negócios da família”. Mas isso só saberemos depois. É em volta desses irmãos que todas as outras personagens orbitam em maior ou menor grau. Quando Cidade em chamas começa, estamos em pleno réveillon, quando a cidade está deixando o ano de 1976 para trás. William, já com trinta e poucos anos, é uma lenda na cena underground de NY. Ex-líder da banda punk Ex-Post Facto, vive como pintor e divide o apartamento com o namorado, Mercer Goldman, um jovem professor de inglês negro que dá aulas numa tradicional escola para meninas. Vindo do interior dos EUA, Mercer ainda é um deslumbrado com a cidade que descobriu praticamente ao lado do namorado e sonha em escrever lá o grande romance americano. Já Regan está passando por um divórcio, com dois filhos, e entrando de cabeça ainda mais nos negócios da família.

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O mundo em chamas, de Siri Hustvedt

o-mundo-em-chamasÉ meio incrível pensar que, ainda em 2016, precisamos falar tanto sobre mais espaço para as mulheres. Mais espaço na política, nos negócios, na literatura… É incrível porque é (ou deveria ser) óbvio que mulheres são tão capazes de fazer alguma coisa e terem sucesso nela quanto um homem. Porque é óbvio que elas deveriam receber igual reconhecimento – público e monetário. Porque é óbvio que ser mulher não significa ser fraca, incapaz, ou qualquer outro adjetivo que antigamente davam à gente para justificar menor participação na sociedade. Mas parece que é difícil aceitar essa obviedade. Ou talvez nem nos damos conta de quão óbvio é. E aí as mulheres têm que, toda vez, não só tentar se sair bem num mundo masculino, mas provar que essa falta de reconhecimento existe.

Provar a existência do apagamento da mulher é o objetivo de Harriet Burden, artista com mais de 60 anos que vive em Nova York e protagonista de O mundo em chamas, de Siri Hustvedt (tradução de Ana Ban). Durante anos casada com um famoso marchand e mãe de dois filhos, o mundo artístico sempre foi o seu lugar. O problema é que esse mesmo mundo a ignora. Suas exposições não recebem atenção da imprensa, da crítica e do público. Jovens recém-saídos da faculdade de artes se saem muito melhor do que ela, que está há anos na estrada. É mais conhecida por ser esposa de Felix Lord do que por suas obras, que quase nada venderam. Até ela vir com uma ideia: expor sua arte usando “máscaras”, artistas homens que se apresentariam como autores das peças expostas para provar como a recepção à obra mudava quando se sabia que havia um “pau” por trás dela.

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Assim começa o mal, de Javier Marías

assim-comeca-o-malNo início dos anos 1980, a Espanha vive seus anos de liberdade após o fim da ditadura franquista. Francisco Franco ficou no poder de 1936 até sua morte, em 1975, e o país viveu tempos obscuros durante esse período. O que aconteceu entre opositores e apoiadores de Franco nestes anos raramente era comentado logo após as primeiras eleições livres, e os espanhóis, principalmente os jovens, aproveitavam essa liberdade, enquanto os que viveram os anos de ditadura preferiam não lembrar os detalhes do que aconteceu. Mas esse silêncio é quebrado, em parte, por Juan de Vere, um jovem de 23 anos contratado pelo cineasta Eduardo Muriel para ser seu assistente.

Assim começa o mal, novo romance de Javier Marías, alterna entre a vida privada e as histórias da ditadura franquista que vêm à tona. Muriel, preocupado com os boatos que surgem sobre a índole de Jorge Van Vechten, famoso médico pediatra e seu grande amigo, incumbe De Vere de investigar se as histórias que ouviu são verdadeiras ou não, fatos tão horríveis, na avaliação do cineasta, que podem lhe custar a amizade. Conforme se aproxima da vida de seu patrão, De Vere também vai se inteirando das questões pessoais de sua família, observando a relação de Muriel com sua esposa, Beatriz Noguera, uma mulher de 40 e poucos anos que preserva a beleza de sua juventude, mas que é constantemente rechaçada pelo marido. Beatriz ainda preserva o amor que sempre sentiu por Muriel, mas ele, quando estão sozinhos, trata a esposa com grosserias e xingamentos. Com o divórcio ainda proibido na Espanha, o casal continua a viver junto, para o desgosto de Muriel e satisfação de Beatriz, que tem esperanças de reconquistar o marido.

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