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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Contos (page 1 of 6)

Dez de dezembro, de George Saunders

dez-de-dezembroÉ difícil falar sobre contos e blábláblá. A leitura é mais leve, mas ao mesmo tempo profunda e blábláblá. Resenhar um livro de contos é complicado porque ou você fala de cada texto, ou faz um comentário que consiga abranger todos os contos em uma coisa só e blábláblá. Não sei quantas vezes já comecei a falar sobre um livro com essas frases, mas a sensação, terminada a leitura, é essa: como explicar que os textos de tal autor são ótimos e como resumir a sensação da leitura como um todo? Isso só acontece, claro, com os bons livros, como foi o caso de Dez de dezembro, de George Saunders.

Não sei se é uma questão cultural, mas minha experiência com contos (que não é lá muita) diz que autores estrangeiros tendem a escrever narrativas mais longas, que abrangem 10, 20, 30, até mais de 60 páginas para uma única história (levantando a discussão de “mas isso é um conto ou uma novela?”), enquanto os escritores nacionais tendem a rechear seus livros com até 50 contos curtos, de três ou quatro páginas cada um – pelo menos foi assim com várias estreias literárias de autores daqui que caíram nas minhas mãos. (Ok, eu sei que alguns brasileiros mandam muito bem em contos mais longos, como os de Pó de parede, da Carol Bensimon, e alguns textos do Antônio Xerxenesky em A página assombrada por fantasmas.) Bem, tendo a gostar mais dos contos maiores, talvez justamente por terem a extensão necessária para me fazer absorver a história com mais detalhes (o que não é uma regra inquebrável, só para deixar claro). Os textos de Saunders são assim.  Read more

Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, de Alice Munro

odio-amizade-namoro-amor-casamentoEm 2013, aos 82 anos de idade, a canadense Alice Munro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. A autora já tinha alguns livros traduzidos aqui no Brasil, mas, como é regra para mim, geralmente não conheço escritores recém-agraciados com o prêmio da academia sueca, e o Nobel acaba sendo o ponto de partida para lê-los. Felizmente, assim que anunciado, editoras apresentaram novas edições e traduções engatilhadas – como a de seu último livro publicado, Vida querida. Outra delas foi Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, publicado no final do ano passado pelo selo Biblioteca Azul da Globo Livros.

O volume traz nove contos que narram vidas de personagens bem distintas: jovens, idosos, crianças, todas as histórias girando em torno de reencontros, do companheirismo, do amor e de algumas traições. O primeiro conto, que dá nome ao livro, faz referência a uma brincadeira adolescente de duas das personagens, que inventam cálculos matemáticos com os nomes de suas paqueras e, contando em ordem, preveem se suas relações vão terminar em ódio, amizade, namoro, amor ou casamento. Neste primeiro conto Alice Munro joga com a percepção do leitor, fazendo a história mudar de rumo a toda hora.

 Leia a resenha completa no Pósfácio.

Tipos de perturbação, de Lydia Davis

tipos-de-perturbacaoVou começar dizendo o óbvio: é difícil, extremamente difícil, falar sobre um livro de que se gostou muito. A impressão (talvez acertada) é de que é muito mais fácil elencar os motivos para não se ter admirado uma obra: o ser humano é extremamente crítico e facilmente enxerga aquilo que não lhe agrada – e, ao mesmo tempo, é polido demais para sair por aí apontando para tudo aquilo de que não gosta. Quando o livro me conquista, não resta muito a dizer além de: amei. “Amar” algo já engloba toda uma gama de preferências e sentimentos que não precisa ser muito explicada – até porque o amor nem sempre faz sentido. Mas há a obrigação, depois de anos falando sobre livros, de tentar apontar o motivo desse “amor”. O problema é que nenhum desses pontos parece ser justo com a obra, a ponto de resumir com exatidão o que torna algum livro digno desse amor.

Eu amei Tipos de perturbação. Não conhecia a prosa de Lydia Davis, e apenas a descobri recentemente, como a maioria dos leitores brasileiros. A primeira vez que ouvi seu nome foi através da programação da Flip 2013, que a trouxe para compor uma mesa com John Banville – a que eu mais queria ver, e que perdi. A segunda vez foi com o lançamento do livro propriamente dito, semanas antes do evento. E a terceira, com o anúncio da vencedora do Man Booker Prize 2013, que, sim, foi Lydia. Três ingredientes certeiros para fazer um autor até então obscuro virar assunto no meio literário brasileiro e deixar todos curiosos.

Leia a resenha completa no Posfácio.

Monstros fora do armário, de Flávio Torres

monstros-fora-do-armarioDentro de si, o homem guarda impulsos sombrios. Por fora, a imagem é de uma pessoa normal, incapaz de pensar em alguma atrocidade contra outro ser humano, ainda mais de praticá-lo. Mas por mais direito, ético e bem apessoado que alguém possa parecer, a verdade é que todos guardam em seu íntimo algo nebuloso, um desejo maléfico ou vontade de, em alguns momentos, praticar em alguém algo dolorido como castigo ou escape. São momentos assim os narrados nos breves contos de Flavio Torres em seu primeiro livro, lançado pela Não Editora, Monstros fora do armário.

Nascido em Niterói, mas criado em Porto Alegre, o currículo de Flavio como ficcionista é parecido com o de vários outros autores publicados por essas bandas: participação na oficina de Luiz Antonio de Assis Brasil – provavelmente uma das oficinas de criação literária mais famosas do país – e também dos seminários de criação literária de Léa Masina. Ou seja, exercício criativo não faltou. Read more

Ficção de polpa: Aventura!

ficcao-de-polpa-aventuraHá uma predisposição dos adultos, parece, de rechaçar o que é desconhecido e fantasioso. Todos devemos ter o pé no chão, conhecer tudo, e se possível não se maravilhar ou se entreter a algo que não seja ligado aos tormentos da mente e da sua existência no mundo. A fantasia, a ficção científica e a aventura guardam, ainda, aquele estigma de produto planejado unicamente para distrair crianças e adolescentes ociosos durante as férias. Mas quando essa geração de crianças cresce, a visão desse tipo de literatura – ou cinema, ou jogos – passa por mudanças e ganha ares não só de fantasia, mas também de papel fundamental na formação de leitores. O escape da realidade que esse gênero promove na infância e adolescência se mostra válido e necessário na vida adulta.

Aí está mais que um belo motivo para embarcar nas seis aventuras publicadas pela Não Editora no quinto volume do Ficção de Polpa, dessa vez com o subtítulo de Aventura!. Publicação voltada para a literatura de gênero que imita tanto no conteúdo quanto na parte gráfica as antigas revistinhas pulp, o Ficção de polpa já trouxe aos leitores histórias de ficção científica, horror, crimes, e agora o foco está nas aventuras que vêm acompanhadas de mapas e desbravamento de lugares desconhecidos. Com menos textos que os volumes anteriores, o espaço para os autores desenvolverem seus contos é maior, e entre as histórias suas personagens conhecem mundos secretos, desbravam novas terras e tentam sobreviver a ambientes hostis. O livro ainda traz a tradicional “faixa bônus”, o conto “O Aranha: uma aventura amazônica”, do norte-americano Arthur O. Friel. Read more

Breves entrevistas com homens hediondos, de David Foster Wallace

breves-entrevistas-com-homens-hediondosDurante algum tempo, Breves entrevistas com homens hediondos foi o único livro de David Foster Wallace traduzido no Brasil. Felizmente, ano passado a Companhia das Letras lançou Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, que, segundo seu organizador, o escritor Daniel Galera, seria o melhor meio para quem quer começar a ler DFW. Pois diferente de Ficando longe, que reúne ensaios e reportagens do autor, Breves entrevistas é pura ficção. O que o livro trás são parte de seus contos, recheados de notas de rodapé – até quem nunca o leu conhece essa sua fama – e dos mais obscuros desejos e casos que envolvem o pensamento dos homens.

Cada dilema ou tara humana serve para DFW escrever um texto perturbador e provocativo. Seja quando o foco são os homens, como é o caso dos enxertos espalhados em várias partes do livro intitulados “Breves entrevistas com homens hediondos”, em que desvelam para uma interlocutora, cuja fala não temos acesso, todos os seus truques de conquistas baratas ou preferências sexuais; seja quando são as mulheres, como nos contos “A pessoa deprimida” e “Adult world I” e “Adult world II”, os textos exploram questões profundas, interiores, problemas íntimos que tomam várias formas em diferentes pessoas. Read more

Granta em português 9: Os melhores jovens escritores brasileiros

Capa Granta 9.inddToda antologia que pretende reunir o “melhor” de qualquer coisa vem carregada de polêmicas. Como a recepção de um texto é muito baseado na subjetividade – suas preferências e experiências determinam o que será apreciado ou não, mesmo reconhecendo a qualidade literária de um texto que pouco agrada –, a lista dos 20 melhores jovens escritores brasileiros de cada um seria diferente da que os jurados da Granta formaram. Sempre haverá alguém para dizer que aquele outro escritor merecia estar no lugar desse aqui, que gosta dos livros e contos de X mais do que dos de Y. Que reclama que W nem ao menos tem um livro próprio publicado ainda, então o que está fazendo nessa lista? Reclamações à parte, falta dizer que a palavra “melhores” não quer dizer nada. Cada um tem os seus “melhores”, e nesse caso, ela vem para mostrar alguns destaques que, futuramente, podem ser reconhecidos como os “melhores” de nossa literatura.

Fazendo um comentário geral, quando os nomes dessa nona edição da Granta em português foram anunciados, achei as escolhas bem justas e previsíveis. Parte dos escolhidos eu já havia lido, outra parte eu já havia ouvido falar com elogios. O resultado foi o esperado: nomes bem vistos pelos críticos, com uma ou duas surpresas que mostram que não são só os já “famosos” que ganham espaço na revista. A expectativa ao começar a ler, claro, é grande, se espera realmente o “melhor” de cada escritor, pois foi assim que a revista foi vendida. Mas apesar de bons, não é exatamente o melhor que se encontra – novamente, a subjetividade da literatura. Read more

Festa na usina nuclear, de Rafael Sperling

festa-na-usina-nuclearEscatológico seria a palavra mais abrangente para definir o livro Festa na usina nuclear, do estreante autor carioca Rafael Sperling. Lembra aquele momento da adolescência masculina em que, querendo mostrar que cresceu e está maduro, milhares de palavras chulas e referências a sexo são despejadas a cada nova frase. Pode-se fazer um paralelo com os jovens escritores, que querendo parecer mais culto e intelectual, abarrotam seus escritos com palavras mirabolantes em desuso que confundem tanto quanto uma letra de música do Djavan. Mas apesar de tudo isso, tanto sexo, sujeira e um conto com frases de efeitos incompreensíveis, Sperling começou bem.

Publicado pela editora Oito e Meio, Festa na usina nuclear reúne 25 contos do escritor que abusa das situações absurdas. Nele há um mundo onde o trabalho é o ócio, e ganha mais aquele que passa a maior parte do tempo dormindo (“Éz”). Há três textos intitulados “Um homem chamado Homem”, em que o Homem procura, em seu fim, o direito de praticar a Não Atividade. Nesses três contos o autor brinca com as definições das coisas: o Homem se casa com a Mulher e tem o Menino, realiza o Trabalho e também pratica o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja. O clichê dos nomes é utilizado para contar uma história em que a impessoalidade das personagens dá lugar a comportamentos revolucionários. Read more

A página assombrada por fantasmas, de Antônio Xerxenesky

a-pagina-assombrada-por-fantasmasQuando fui ao lançamento do livro A página assombrada por fantasmas, na metade do ano passado, já estava pensando em não resenhar seus contos. Estaria seguindo uma regra do próprio Antônio Xerxenesky publicada no blog do Michel Laub: não resenhar livro de amigos. Não que sejamos lá muito amigos, mas conhecidos sim, com certeza, e levando em conta meu medo/receio/vergonha de saber que um autor leu uma resenha minha, preferi ficar no silêncio mesmo quanto a qualquer crítica. Apenas ler, dizer que gostei – já com a certeza que iria gostar, veja bem – e nada além disso. Pois bem, demorei mais de seis meses para ler o livro, não sei dizer por que. Mesmo com o “polvo leitor” tão elegante desenhado na folha de rosto, fui adiando a leitura até que, em uma viagem para Santa Catarina, dentro do ônibus, resolvi finalmente encarar esses contos. E que arrependimento foi essa demora.

Vamos começar então falando de literatura. A página assombrada por fantasmas é um livro que fala sobre ela. Mas não com pedantismo, daquela maneira que coloca a leitura no mais alto patamar das atividades que um ser humano pode querer usufruir – e Shakespeare o autor mais nobre que poderemos ler. A literatura é abordada, até, de maneira mais cômica, como uma forma de brincar com nossos autores e obras mais estimados. Tchau glamour das letras, olá personagens meio perturbadas, meio engraçadas, às voltas com os livros. Como o leitor/fã nervoso ao ir entrevistar seu autor favorito na capital da Argentina, imaginando diferentes situações – e recusas do entrevistado – antes mesmo de botar os pés nos corredores de seu apartamento. E também Charles Makuviac, “Brasileiro, apesar do nome. Um escritor contemporâneo de grande repercussão mundial, apesar de brasileiro”, frente a uma síntese de sua obra que marca seu futuro na literatura. Read more

De tudo fica um pouco, organizado por Luiz Antonio de Assis Brasil

de-tudo-fica-um-poucoAntes de falar diretamente do livro De tudo fica um pouco, quero comentar duas coisas, ou fazer duas reflexões, o que quer que isso signifique. Primeiro já falando do livro de certa forma, ele é fruto de uma oficina literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC-RS. O professor é nome conhecido e acompanha muitos lançamentos de novos escritores da cena literária porto-alegrense, autores que passaram pela sua oficina de escrita criativa. Uns bons, outros nem tanto. Não sei exatamente o que pensar dessas oficinas, se elas são mais uma máquina de fazer escritores – contribuindo para a tal reclamação que corre por aí que possuímos mais autores do que leitores e por isso estamos em uma área já saturada cheia de “criação não criativa” –, um capricho de quem gosta de rabiscar algumas linhas para aperfeiçoar um pouco a linguagem ou uma ferramenta que realmente contribui para a formação do escritor. Minha opinião sobre isso é inexistente, no final das contas.

Outra coisa é relacionada à orelha do livro assinada pelo editor da Dublinense, Rodrigo Rosp, em que, além de apresentar o resultado da turma 41 da oficina literária, revela outra linha que agrupa todos esses contos neste livro: a inspiração. E é aí que o leitor descobre a origem do nome dessa coletânea: tudo o que vemos, ouvimos, comemos e consumismos deixa seu rastro. De tudo fica um pouco, e disso os alunos de Luiz Antonio de Assis Brasil tiraram a base para construir seus contos. Mas esse comentário é esquecido logo quando a leitura começa, pois nenhuma informação é dada ao leitor sobre essas fontes de inspiração. Isso aparece apenas nas últimas páginas, e aí se percebe a grande gama de referências que existe em seus contos: a própria literatura, a música, as artes em geral com suas pinturas, esculturas e composições. Read more