Todo lugar, das grandes metrópoles às pequenas cidades do interior, tem uma rua que reúne nele seus tipos, sua vida social. Avenida Paulista, Quinta Avenida, os calçadões de Ipanema, a Champs Elysées, a Rua dos Andradas… Podemos listar uma rua importante para cada cidade, onde as pessoas se encontram, flanam, trabalham, enfim, onde se cria todo o imaginário que vira retrato daquele lugar. No ano passado, a Cosac Naify publicou uma linda e interessante edição de Avenida Niévski, de Nikolai Gógol, um dos contos de sua série de histórias de Petersburgo escritas entre 1832 e 1842. É o cotidiano dessa avenida – na época, a principal da capital do império russo – que é retratado no conto.

O início da narrativa parece uma declaração de amor à Avenida Niévski, com Gógol exaltando a maneira como ela se transforma no decorrer das horas – mendigos e boêmios pela manhã bem cedo, ao acordarem, funcionários públicos a caminho do trabalho, os almoços, os passeios ociosos dos ricos durante a tarde, a turba barulhenta e ávida por contato social da noite. A avenida é portadora de uma misticidade que atrai para ela todos aqueles que querem ser vistos e querem ver. Uma avenida que é caminho, passagem, vitrine e inspiração.

antónio jorge da silva tem 84 anos de idade quando morre sua mulher, laura. A morte não lhe era esperada, apesar da idade, mas sim porque pensava – ou assim desejava – de não ter que viver um dia sequer sem ela depois de passarem juntos 48 anos, terem dois filhos e viverem tranquilamente os tempos de ditadura em Portugal. A perda foi dolorosa, sentida com muita indignação, e o velho silva é colocado pela filha em um lar de idosos em Portugal chamado “idade feliz”. Coloco-os aqui assim, em minúsculas, como valter hugo mãe o faz em a máquina de fazer espanhóis, romance publicado no Brasil em 2011 pela Cosac Naify.

a-brincadeira-favoritaSe não fosse a dona do apartamento em que Leonard Cohen morava em Londres em 1959, talvez A brincadeira favorita não existisse. Sob a ameaça de despejo, Cohen se viu obrigado a escrever no mínimo três páginas por dia de seu primeiro romance. Nada como trabalhar sob pressão – o bastante para ficar preso à obra e reescrevê-la e melhorá-la por mais tempo. Em 1963, depois de dois livros de poesia publicados – que foram bem recebidos por leitores e críticos –, Leonard Cohen lançaria seu novo romance, que há poucos meses foi traduzido e lançado no Brasil pela Cosac Naify. Mesmo assim, ele é mais conhecido pelo trabalho de compositor e cantor do que pelos seus poemas e livros.

A brincadeira favorita é uma espécie de romance de formação. Conta a vida de Lawrence Breavman da sua infância em Montreal até os primeiros anos de sua vida adulta, quando troca o Canadá por Nova York. O que há em comum em todas as suas fases – o livro é dividido em quatro partes, cada uma delas um momento específico de sua vida – é o seu olhar atento às mulheres. Desde criança, a sexualidade de Breavman se mostrou precoce através das brincadeiras infantis com tons de erotismo que fazia com Lisa, sua vizinha, ao lado de Krantz, seu melhor amigo. Algo que para esse amigo, ainda, não parecia ter muita importância:

“Todos nós conhecemos os bartlebys, seres em que habita uma profunda negação do mundo.” Eu posso me considerar uma bartleby – não estava conseguindo começar esse texto e pensei em desistir. Escrevê-lo agora me torna uma não-bartleby, ou uma não adepta do Não. Mas tenho certos traços dessas pessoas, o que me fez simpatizar com o livro logo nas primeiras páginas. Bartlebys não são preguiçosos, como pode parecer, apenas não fazem, ou não são. O adjetivo vem de Bartleby, o escrivão, de Herman Melville, um homem que a partir de certo momento da vida resolveu negar qualquer atividade com um “preferiria não o fazer”. No caso de Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas, a negação é a da literatura. Seu protagonista é um velho corcunda que já publicou um livro, trabalha em um “escritório pavoroso” e não escreve mais há 25 anos. Mas em 8 de julho de 1999 resolve iniciar um diário, um catálogo de adeptos do Não.

Dizer que ele voltou a escrever não seria o mais certo. O que ele coloca no papel são notas de rodapé para um texto invisível, pois ele é um bartleby, e para continuar sendo, não pode escrever. A função desse seu diário é apresentar a um leitor ocasional outros bartlebys da literatura que dividem com ele o panteão dos não-escritores.

Aos 15 anos e meio de idade Marguerite Duras teve sua iniciação sexual. Foi em um dia em que usava um vestido de seda quase transparente que fora de sua mãe, com um cinto de couro de um de seus irmãos, um chapéu de modelo masculino cor-de-rosa e um sapato de salto alto dourado. Cabelos trançados, maquiagem forte, batom vermelho. Vestida assim, em uma balsa que atravessava o rio Mekong, na antiga Indochina francesa (hoje o Vietnã), ela chamou a atenção de um rico homem chinês. E é com ele que Marguerite engatou um relacionamento que envolve sexo, dinheiro, e um amor que ele, o chinês, sente por ela, mas que ela não corresponde.

“Esta é, então, uma história leve que se torna pesada. Esta é a história de dois estudantes devotados à verdade, a dispersar frases que parecem verdadeiras, a fumar cigarros eternos e a se fechar na violenta complacência dos que se creem melhores, mais puros do que o resto, do que esse imenso e desprezível grupo que chamam de o resto.”

A infância na Elizabeth Street, no Lower East Side em Nova York, diz muito sobre o futuro do pequeno e asmático Marty, embora ele nem fosse pensar isso na época. Ali, entre as décadas de 1940 e 1950, a comunidade italiana como todos conhecemos – alegre, festiva e intensa – convivia ao lado de outra característica que ligamos muito aos ítalo-americanos: a máfia, a violência, o medo. Marty sentia o peso desse ambiente na sua juventude, e mesmo com sua família estando fora das atividades perigosas exercidas por boa parte de seus vizinhos, saber que o pai daquele amigo com quem brincou no dia anterior foi morto por criminosos e que a qualquer hora alguém poderia sumir desse jeito, era um fato amedrontador. Para fugir disso, a igreja e as salas de cinema foram seus esconderijos.

É falando dessa infância atribulada em Little Italy que Richard Schickel dá inicio à conversa com um dos maiores diretores de cinema norte-americano, Martin Scorsese. Na verdade, o diálogo parece ter início bem antes, mas é a partir desse momento que o leitor entra na roda como um expectador invisível para conhecer mais intimamente a história e trabalho do diretor. Em Conversas com Scorsese, com uma edição brasileira mais que caprichada publicada pela editora Cosac Naify, até quem não é lá muito chegado a cinema, ou conhece pouco da filmografia do diretor, se encanta com a visão e dedicação de Scorsese ao seu trabalho.

O leitor de ficção pode pouco saber sobre a sua estrutura, que pontos técnicos um texto contém que fazem dele uma boa história, mas sabe reconhecer quando vê esse bom livro na sua frente. Quando é belamente escrito e traz uma história cativante, o leitor se sente preso ao livro, vive os momentos narrados, confronta novos dilemas e simpatiza, ou não, com personagens. Por trás dessa imersão total à ficção, há detalhes estilísticos, técnicas de escrita que, por mais que se diferem entre um autor e outro, são uma convenção da literatura. É sobre isso que o crítico inglês James Wood fala no livro Como Funciona a Ficção, lançado no Brasil pela Cosac Naify com tradução de Denise Bottmann, um “guia” com os principais pontos de uma ficção de qualidade. Falando de personagens, foco narrativo, verossimilhança e linguagem, Wood traz um livro de extremo interesse para escritores, críticos e, claro, leitores.

Em verbetes em que detalha cada aspecto importante da ficção, Wood apresenta de forma clara a técnica por trás da escrita. Ele utiliza trechos de romancistas reconhecidos, como Vladimir Nabokov, Henry James e Virginia Woolf, para ilustrar como funciona a narração indireta livre, como o detalhe pode ser o diferencial em uma narrativa, como a ficção causa empatia ao leitor. Ele cria seus próprios exemplos ou altera as citações para provar que, diferentemente escritas, mudam a percepção do romance e perdem seu brilho. Por ser escrito nesse formato de verbetes numerados, Como Funciona a Ficção é um livro para ser constantemente consultado.