relatos-de-um-gato-viajanteExistem mais filmes sobre cachorros, mas no mundo animal, acho que dá para dizer que os gatos são quem dominam a literatura. Ou, pelo menos, que a literatura ajudou a formar a imagem que temos dos gatos. Confissões do gato Murr, Eu sou um gato, até O mestre e Margarida, para deixar essa lista mais gorda, apresentam felinos que vão além da fofura aparente – muito pelo contrário. Arrogantes, superiores, críticos, desconfiados, orgulhosos, traiçoeiros: esses adjetivos fazem uma imagem não muito lisonjeira dos gatos, mas é disso que a gente gosta. Só que os gatos vão muito além disso, quem tem sabe muito bem disso.

E Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa, é um livro que mostra isso muito bem (tradução de Rita Kehl, pela Alfaguara Brasil). O romance tem duas linhas narrativas: uma tradicional, em terceira pessoa, que dá conta de um passado que o outro narrador não viveu. E esse outro narrador é Nana, um gato de rua que foi adotado por Satoru, um homem de trinta e poucos anos, e que vive com ele há cinco anos. Nana tem todas essas características dos gatos que falei no parágrafo anterior: é orgulhoso, é arrogante, é teimoso. “O ser humano é uma criatura arrogante demais para quem não passa de um macaco gigante que sabe andar ereto”, ele diz. E ainda se considera um gato “excepcionalmente perspicaz”, com toda a humildade. Mas é o gato mais fofo que existe.

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