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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Ian McEwan

Os 10 melhores livros de 2016

Chegou a hora, pessoal. Nunca vamos parar de fazer listas. Precisamos de listas. Precisamos categorizar o que acontece com a gente. Acho que até já perdemos a birra com as listas que reinou no ano passado. Não temos como fugir delas.

Na lista “vida em 2016”, eu colocaria algo como: “começou bom, aí ficou ruim, aí piorou, aí pareceu melhorar um pouco, agora não sei o que tá acontecendo”. Mas uma coisa é certa: 2016 foi um bom ano de leituras. Já começou com um destaque grande para obras escritas por mulheres – e o melhor foi notar que fiz isso inconscientemente, não baseei minhas escolhas em “esse foi escrito por uma mulher e por isso tenho que ler”. E também consegui bater minha meta de leitura no Goodreads (ok, 30 livros, até fácil comparado com aquele ano em que li 92…), pois sabemos como a vida adulta e proletária é difícil, e não é nem uma questão de ter tempo para ler, mas força de vontade mesmo. Considero isso uma vitória.

Depois dessa introdução nada animada, aqui vai a minha listinha de MELHORES LEITURAS DE 2016 (não é melhores lançamentos, é o que li de mais legal nesse ano mesmo).

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Enclausurado, de Ian McEwan

enclausuradoDe dentro do útero da mãe, um feto de quase nove meses escuta os planos horríveis de sua genitora para assassinar seu pai. Ela arquiteta o plano com seu amante, que vem a ser também o tio do feto. O motivo do crime é a casa onde eles se encontram, um imóvel que, apesar de decrépito, vale cerca de seis ou sete milhões de libras. Se a mãe, Trudy, simplesmente se separasse do editor e poeta John, ela não conseguiria um bom acordo que enriquecesse sua conta bancária e a de Claude, o amante/cunhado. A única saída para arrancar dinheiro do decadente poeta é o assassinato. E o feto escuta tudo.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente esperando, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda”, diz o feto na primeira linha de Enclausurado, novo romance de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster). Através da barriga da mãe ele escuta tudo, todas as maquinações e depravações dela e do amante, e isso aterroriza a mente do ser que ainda nem chegou ao mundo. O feto que narra este livro se preocupa com o que será do seu futuro caso o plano seja colocado em prática, mas pouco pode fazer para evitá-lo estando ainda preso ao cordão umbilical. Resta a ele apenas a contemplação e as previsões de como será o seu futuro, sendo criado por dois assassinos ou então abandonado, dado para a adoção. Nenhum dos cenários lhe parece bom.

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A balada de Adam Henry, de Ian McEwan

a-balada-de-adam-henry-capaDentre o monte de livros que compõem a minha pilha interminável de futuras leituras, escolhi A balada de Adam Henry, o mais recente romance de Ian McEwan, pelo dilema moral e religioso que a história prometia. Fiona Maye é uma juíza do Tribunal Superior especializada em direito de família, em Londres, e está prestes a completar sessenta anos. Com sucesso na carreira e, até então, na vida pessoal, ela vê sua rotina abalada pelo pedido do marido, Jack, de que eles tenham um casamento “aberto”, ou seja: insatisfeito com a vida sexual, ele informa Fiona que está interessado em uma mulher muito mais nova, uma estudante de estatística de 28 anos, e que gostaria de manter um caso com ela, mas com o consentimento da esposa – ela mesma poderia ter suas aventuras fora do casamento.

Inconformada com o pedido de Jack, Fiona não aceita o acordo e exige que ele escolha entre a longa e tranquila união e a jovem. Ao se ver sozinha em casa, ela mergulha ainda mais no trabalho que ocupou sua rotina durante toda a vida, mas que nunca chegou a tirar momentos seus com Jack, apesar de não ter dado espaço para que ela tivesse filhos. Até aí, tudo bem, vemos os detalhes de uma história comum sobre uma mulher ameaçada de abandono que usa o trabalho para esquecer por algumas horas os dramas pessoais. Mas a história de Fiona toma um novo rumo com a chegada de Adam Henry, adolescente de 17 anos com um tipo raro de leucemia que precisa de uma transfusão de sangue urgente para dar continuidade ao tratamento que salvará a sua vida. Porém, o jovem e sua família recusam a transfusão. São Testemunhas de Jeová e, pelas regras da religião, uma pessoa não pode receber em seu corpo o sangue de outra, o sangue dado por Deus não pode ser “profanado” com o de outro ser vivo. Como Adam é menor de idade, o hospital leva a decisão à justiça, e cabe à Fiona decidir qual será o futuro do garoto. Read more

Serena, de Ian McEwan

serenaEra pouco mais de meio-dia do dia 7 de julho de 2012 quando Ian McEwan revelou para uma Tenda dos Autores lotada – e para quem assistia de fora – o final de seu novo romance, lançado mundialmente no Brasil durante a Flip. O segredo de Serena pertencia agora à todos, não só àqueles que já tinham dado conta do livro. Se o próprio autor de uma obra faz isso – entrega de mão beijada, durante um bate-papo, o final de uma história surpreendente –, quem sou eu para reclamar. Mas tudo não poderia passar de mais uma estratégia de manipulação de McEwan com o público, agora podendo ver ele fazer isso ao vivo, cara a cara, e não só através dos livros. Afinal, neste mesmo lugar, ele diria – ou já tinha dito, não lembro direito – que “manipular o leitor é o meu maior prazer”.

Serena é inteiramente um jogo de manipulação. O leitor é levado a pensar uma coisa durante o decorrer da leitura, enquanto o que acontece na verdade é outra. É de se esperar isso de um romance ambientado na Inglaterra do início dos anos 1970, protagonizada por uma funcionária do serviço de inteligência britânico, o MI5. Agentes, espiões, documentos secretos e disfarces, essas coisas todas dos filmes do 007 – mas sem armas, basicamente. Serena Frome é uma jovem de vinte e poucos anos recém formada em matemática pela universidade de Cambridge. Do seu envolvimento com o ex-orientador de um ex-namorado, um professor mais velho, ela acaba conseguindo uma entrevista com o MI5. O professor sumiu da sua vida, mas o emprego foi conquistado, em uma função burocrática e chata que não interessou muito a ela logo no começo. Read more

Na praia, de Ian McEwan

na-praiaHoje é raro um casal chegar na sua lua de mel sem saber o que deve – e como – fazer. O sexo não é mais aquele ato “sagrado”, que deve ser praticado apenas quando as duas almas apaixonadas estão ligadas pelos laços do matrimônio e toda essa lenga-lenga que persistiu a reprimir desejos durante tanto tempo. O homem sempre teve essa liberdade de ter algum tipo de relação sexual antes do casamento, e inclusive fora dele. Já para a mulher, sua virgindade era seu selo de honra, e tratar desse assunto com quem quer que fosse era um ato impensável. Existe ainda certo conservadorismo quando o assunto é a sexualidade da mulher, um conjunto de regras que deve reger o comportamento das “boas moças”, as para casar. Tudo besteira.

Na praia se passa no início dos anos 60, uma época em que os jovens estão experimentando maior liberdade em tudo: sexo, família, estudos, é a década da libertação, da quebra de regras conservadoras já ultrapassadas. Florence e Edward estão recém casados, em um hotelzinho na praia de Chesil, na Inglaterra, comemorando o matrimônio e a enfim entrada na vida adulta. Agora podem fazer o que quiserem, são os donos da própria vida. Porém, a ansiedade e medo resultados da inexperiência de ambos tornam a noite de núpcias em uma sucessão de angústias, e não de prazer. Neste livro, Ian McEwan revela o pensamento retrógrado dos dois jovens presos pela noção de dever que o homem e a mulher possuem no casamento, “educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível.” Read more

As Entrevistas da Paris Review

A orelha do primeiro volume de As Entrevistas da Paris Review, recém publicado pela Companhia das Letras, diz tudo o que o leitor precisa saber sobre uma das maiores revistas literárias em circulação. Criada em 1953, a Paris Review é sinônimo de qualidade, com material rico em informações sobre grandes autores e obras recolhido e editado criteriosamente. Ao abrir o livro, o leitor dá de cara com um simples sumário e logo os maiores escritores se revelam aos seus olhos pelas impressões daqueles que os entrevistaram. Traduzidas por Christian SchwartzSérgio Alcides, as entrevistas englobam todo o período de publicação da revista até os dias atuais, uma leitura que desde as primeiras páginas se mostra deliciosa e muito interessante.

As 14 entrevistas que compõem o volume feitas com W. H. Auden, Billy Wilder, Doris Lessing, Ernest Hemingway, William Faulkner, Javier Marías, Ian McEwan, Amós Oz, Jorge Luis Borges, Louis-Ferdinand Céline, Paul Auster, Primo Levi, Manuel Puig Truman Capote são dispostas em ordem cronológica. São nomes nada desconhecidos da literatura mundial, autores de obras contemporâneas cuja leitura é quase obrigatória. Não há nenhuma informação sobre o critério de seleção dessas entrevistas, mas a sua leitura justifica a presença de cada autor por si só. E o fato de que esse é só o primeiro volume de trabalhos da Paris Review mostra que ainda há muitos bons autores para conhecer melhor. Read more