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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Intrínseca (page 1 of 8)

História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang

HistoriaDaSuaVidaGEsse é um daqueles raros casos em que fiquei com muita vontade de ler o livro depois de ver o filme. Quando saí da sessão de A chegada, queria conhecer tanto a história original quanto os outros contos de Ted Chiang – a ideia toda apresentada no filme me pareceu legal demais para me contentar só com o audiovisual. Claro que as indicações de pessoas cujo gosto literário eu confio também ajudaram na decisão de ler Chiang, assim como algumas entrevistas do próprio autor – ele parece ser um daqueles caras de boas que não quer muita atenção, só fazer seu trabalho e escrever uns textos fictícios vez ou outra, gosto desse pessoal.

Por conta disso, comecei a leitura de História da sua vida e outros contos com as expectativas mais altas (a tradução lançada pela Intrínseca é de Edmundo Barreiros). Quem me conhece sabe que sou contra esse negócio de cultivar expectativas positivas sobre qualquer coisa, porque a decepção é quase certa. Mas não foi assim com Ted Chiang. Os contos são bons. Assim, bem bons.

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A filha perdida, de Elena Ferrante

a-filha-perdidaUma mulher de meia-idade, professora, deixa a cidade para passar as férias no litoral do sul da Itália. Leda está livre das obrigações de mãe. Suas duas filhas, já crescidas, vivem perto do pai em Toronto, no Canadá. As preocupações atuais de Leda são o trabalho e, agora, encontrar um lugar confortável nas areias de uma praia tranquila para ler e revisar seus estudos. Momentos que são interrompidos pelas lembranças da própria maternidade desencadeadas pela presença de uma jovem mulher e sua filha acompanhadas da barulhenta família, pessoas que também transportam a narradora para a sua juventude em Nápoles.

A filha perdida, de Elena Ferrante (tradução de Marcello Lino), apresenta vários elementos que encontramos na tetralogia napolitana – o livro foi lançado anteriormente aos da série. Temos neste livro uma narradora que saiu de um lugar onde reina a violência e a ignorância e conseguiu se estabelecer em um ambiente intelectual, assim como faz Lenu a partir do segundo livro da série, História do novo sobrenome. Conforme Leda desenvolve seu relato sobre os dias naquela praia, suas experiências se encontram com aquelas que Lenu começa a vivenciar no terceiro livro, História de quem foge e de quem fica, principalmente quando fala da maternidade, do cansaço de manter um trabalho e uma casa, dos anseios de uma mulher que quer ser reconhecida pela inteligência e pelo trabalho, e não se resumir ao papel de mãe. É como se o curto romance fosse um pequeno ensaio do que seriam seus livros de maior sucesso.

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Os 10 melhores livros de 2016

Chegou a hora, pessoal. Nunca vamos parar de fazer listas. Precisamos de listas. Precisamos categorizar o que acontece com a gente. Acho que até já perdemos a birra com as listas que reinou no ano passado. Não temos como fugir delas.

Na lista “vida em 2016”, eu colocaria algo como: “começou bom, aí ficou ruim, aí piorou, aí pareceu melhorar um pouco, agora não sei o que tá acontecendo”. Mas uma coisa é certa: 2016 foi um bom ano de leituras. Já começou com um destaque grande para obras escritas por mulheres – e o melhor foi notar que fiz isso inconscientemente, não baseei minhas escolhas em “esse foi escrito por uma mulher e por isso tenho que ler”. E também consegui bater minha meta de leitura no Goodreads (ok, 30 livros, até fácil comparado com aquele ano em que li 92…), pois sabemos como a vida adulta e proletária é difícil, e não é nem uma questão de ter tempo para ler, mas força de vontade mesmo. Considero isso uma vitória.

Depois dessa introdução nada animada, aqui vai a minha listinha de MELHORES LEITURAS DE 2016 (não é melhores lançamentos, é o que li de mais legal nesse ano mesmo).

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Estação Onze, de Emily St. John Mandel

estacao-onze2Alguma coisa acontece no mundo de modo que a sociedade não é mais aquela que conhecemos. Uma catástrofe nuclear, um avanço tecnológico, uma invasão extraterrestre, a própria natureza se vingando do homem… Anos depois, podem ser centenas, podem ser milhares, essa sociedade se reorganiza, seja na própria Terra ou em outros planetas – nem sempre ela continua habitável, né. Há muitas ficções científicas assim, e vale lembrar que um velho livro conhecido da galera (vulgo Bílbia) traz um monte de ideias de como acabar com o mundo. Mas em Estação Onze (tradução de Rubens Figueiredo), o que podemos chamar de sci-fi pós-apocalíptico, a coisa acontece em um tempo mais recente e estamos observando tudo. E é isso o que me fez gostar muito do romance de Emily St. John Mandel.

É noite em Toronto, no Canadá. Jeevan Chaudhary está na plateia de uma montagem nova de Rei Lear, clássico shakespeariano, quando o ator principal, Arthur Leander, tem um ataque cardíaco fulminante. Estudando para ser paramédico após anos de carreira jornalística como paparazzi e repórter, ele logo tenta reanimar o ator, mas já é tarde. No palco, uma atriz-mirim de 8 anos, Kirsten Raymonde, vê tudo sem entender exatamente o que está acontecendo. Pouco depois da morte de Arthur, começam a aparecer na cidade as primeiras vítimas da Gripe da Georgia, até então limitada apenas à Europa, que em questão de horas mata uma multidão de pessoas. E aí o mundo como o conhecemos acaba.

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A segunda pátria, de Miguel Sanches Neto

A_SEGUNDA_PATRIA_1423665868435628SK1423665868BQuando eu era mais nova (ou seja, adolescente), ouvi várias histórias sobre Blumenau. Que a cidade tinha uma série de túneis debaixo dos principais prédios do centro – como os colégios, o Teatro Carlos Gomes, etc. – que serviriam como fuga para soldados alemães na Segunda Guerra Mundial. Que esse teatro, construído durante a guerra, imita o design de um quepe da SS, e teria o propósito de abrigar Hitler durante seus discursos para um público ariano caso precisasse fugir da Alemanha – Blumenau seria um óbvio destino, pelo jeito. Enfim, eram várias as histórias e “teorias da conspiração” postadas em antigas comunidades do falecido Orkut que envolviam uma das mais famosas cidades de Santa Catarina e a Segunda Guerra.

A colonização alemã, que foi bem intensa naquela região, pode ter abrigado, sim, uma certa comunidade nazista (como aconteceu até no interior de São Paulo, vamos lembrar, e também a recente suástica na piscina de um professor de HISTÓRIA de Pomerode, lá do ladinho de Blumenau). Mas, felizmente, o que se viu durante aquele período não foi um anexo menorzinho do nazismo no Sul do país. E aí chega Miguel Sanches Neto com um romance que imagina o contrário do que aconteceu na nossa História: e se o governo brasileiro tivesse ficado do lado dos alemães, e não dos americanos? O que teria acontecido? Read more

Não sou uma dessas, de Lena Dunham

nao-sou-uma-dessas-capaNão sou uma fã de Girls. Vi alguns episódios fora de ordem e de diferentes temporadas. Vi Lena Dunham nua praticando um sexo meio humilhante com aquele ator de voz grossa que vive aparecendo em filmes aleatórios que eu até gosto, mas é impossível para mim lembrar do nome dele – estava em Inside Llewyn Davis, Frances Ha e o último em que o vi era What If?, com o Daniel Radcliffe. Curti o estilo daquela loirinha que usa calças largas com as barras dobradas até as canelas, sapatos masculinos e coque alto. Comparei Hannah com algumas amigas espevitadas que tive no colégio, que se achavam legais demais para compensar uma falta de crença nelas próprias. Não vi episódios o bastante para dizer algo mais concreto sobre a série. Não desgostei do que vi, mas também não gostei a ponto de querer acompanhar ela inteira.

Porém, vivo na internet, o que significa que toda hora pula nas minhas timelines alguma coisa dita por Lena Dunham, sendo polêmica ou não – geralmente há pessoas criticando as tatuagens dela (que não acho horríveis), o cabelo novo ou as roupas que ela usa nas premiações (que também não me incomodam em nada, como não deveriam incomodar ninguém). Sempre tendi a achar que a própria Lena é uma dessas pessoas que causam essas “polêmicas” por causar, mas quando Não sou uma dessas foi publicado, fiquei curiosa para ler o que ela tinha a dizer sobre a vida de uma jovem garota mais perto dos 30 anos do que dos 20 – que é mais ou menos onde estou entrando agora. Read more

Garota exemplar, de Gillian Flynn

garota-exemplarGarota exemplar deve ter sido um dos lançamentos estrangeiros mais comentados do ano passado – e um dos com o maior número de leitores evitando spoilers por aí. Acabei adiando a leitura até saber que estava sendo adaptado para o cinema com direção do David Fincher – com estreia prevista para outubro. Queria ler até lá.

Não vou dizer que os spoilers estragaram a experiência da leitura – nunca estragam, insisto que essa é a maior frescura da internet –, mas quando passei para a segunda parte do livro, percebi que sabia bem pouco sobre ele – quem procura acha. Garota exemplar é uma espécie de thriller de investigação com um romance doentio e a dúvida constante sobre quem é o mocinho e quem é o vilão da história. Amy Elliot Dunne some de casa no dia do aniversário de cinco anos de seu casamento com Nick Dunne. O sumiço da mulher já começa envolto em várias dúvidas: Nick não tem um bom álibi para a hora em que Amy desapareceu, e sua reação ao desaparecimento deixa a polícia desconfiada. É um caso típico em que a culpa sempre recai sobre o marido, e claro que ele é o principal suspeito. Read more

Olhe para mim, de Jennifer Egan

olhe-para-mimFui daquelas leitoras que ficou entusiasmada com A visita cruel do tempo, que tratou de ler o romance premiado de Jennifer Egan assim que ele chegou ao Brasil, e que considerou o livro uma das melhores leituras daquele ano. Sim, ele é ótimo, e aquele capítulo todo em slides de powerpoint foi uma bela sacada. Não consigo lembrar de alguma parte do livro que eu não tenha gostado. Jennifer Egan conseguiu me fazer ficar atenta a cada um de seus inúmeros personagens, e eu esperaria em seus próximos livros encontrar esse mesmo talento. Apesar de ter O torreão autografado aqui do meu lado, ainda não parei para ler seu segundo livro publicado em português. Mas uma das minhas últimas leituras foi o terceiro livro a chegar por aqui, lançado originalmente em 2001, pouco antes dos atentados do 11/9: Olhe para mim.

Neste livro já é possível notar algumas características presentes em A visita cruel do tempo: a narrativa é construída através de vários pontos de vista – mais focado em quatro personagens – com leves mudanças no estilo. A protagonista é Charlotte Swenson, uma modelo de 35 anos (mas diz ter 28) que vê sua carreira decair cada vez mais. Ela conta sua história em primeira pessoa a partir de um acidente de carro que mudou drasticamente a sua vida: ao visitar sua cidade natal, Rockford, ela perde o controle do veículo e o impacto do acidente quebra os ossos de seu rosto. Sua face foi totalmente reconstruída, deixando-a ainda bonita, porém completamente diferente do que era antes. Nem seu agente de Nova York é capaz de reconhecê-la mais, muito menos seus colegas de profissão ou pessoas que antes eram conhecidas, mas não passavam de interesseiros de olho no prestígio de modelo que Charlotte um dia teve. Read more

Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, de Stephen Rebello

alfred-hitchcock-e-os-bastidores-de-psicosePerto do final do livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, o escritor e roteirista Stephen Rebello fala de como o filme é recepcionado pelos jovens telespectadores acostumados com os filmes de terror que vieram depois dos anos 1980: “o filme de Hitchcock pode soar hoje tão incompreensível quanto uma velha série dos primórdios da TV ou um filme mudo. Quem foi criado com Jason e Freddy pode ficar perplexo com o fato de o público de 1960 ter gritado por causa de Norman.” Achei interessante essa percepção ser expressa logo no final do livro que acompanha como foi a produção de um dos mais famosos filmes do aclamado diretor de suspense. Depois de mais de 200 páginas ressaltando a característica inovadora e corajosa do longa, é dito ao leitor que, hoje, o que Hitchcock fez não causa espanto algum.

Claro que isso não significa que o filme perdeu sua importância dentro da história do cinema, muito pelo contrário. O livro, publicado nos anos 1990 e reeditado agora por conta do filme Hitchcock, feito com base no relato de Rebello, é um documento que atesta o caráter transformador do trabalho de Hitchcock no cinema e sua importância na época. Para quem nunca havia visto Psicose antes, como eu, ler essas páginas foi querer ver o filme com toda a atenção do mundo para perceber os detalhes que o autor destacou no livro – o que realmente acabei fazendo. Read more

Paris versus New York, de Vahram Muratyan

paris-versus-new-yorkEm tempos de adoção de novas formas de leitura, esperamos que muitos livros de papel virem e-books. A digitalização dos livros vem de longe, mas só agora podemos desfrutar mais dessas versões digitais do velho conteúdo de papel. Contudo, ainda estou meio relutante em adotar essa nova forma de leitura – mas nada contra os e-books. Ainda tenho uma espécie de conexão com os livros de papel que não me permite trocá-los por suas versões eletrônicas, por mais baratas e cômodas que elas sejam. Tocar o livro, folhá-lo de traz para frente, de frente pra traz, pular páginas, ouvir o ruído que as folhas fazem aos serem viradas, isso tudo ainda é muito caro para a minha experiência de leitura. E é uma coisa que se confirmou ao ler – ou melhor, olhar – o livro Paris versus New York, do deisigner Vahram Muratyan.

Muitos já devem saber do que se trata Paris versus New York, pois antes do livro ser publicado ele era um criativo e curioso blog. As imagens que contrastam as características da capital francesa com a Big Apple foram compartilhadas por muitos dos meus amigos, e quando eu conheci o blog tratei de olhar ele inteirinho de uma vez só. O conteúdo do livro não traz lá muitas novidades – há algumas imagens que não havia visto antes, não tenho certeza agora se são inéditas para o livro ou se eu mesma deixei elas passarem batido no site. Porém, ter essas imagens impressas, em uma edição caprichada que eu posso manusear do jeito que eu quiser é muito mais legal do que ficar baixando a rolagem e avançando as páginas do blog. Meu olhar sobre as ilustrações foi muito mais atento no livro do que no site. Read more