Alguma coisa acontece no mundo de modo que a sociedade não é mais aquela que conhecemos. Uma catástrofe nuclear, um avanço tecnológico, uma invasão extraterrestre, a própria natureza se vingando do homem… Anos depois, podem ser centenas, podem ser milhares, essa sociedade se reorganiza, seja na própria Terra ou em outros planetas – nem sempre ela continua habitável, né. Há muitas ficções científicas assim, e vale lembrar que um velho livro conhecido da galera (vulgo Bílbia) traz um monte de ideias de como acabar com o mundo. Mas em Estação Onze (tradução de Rubens Figueiredo), o que podemos chamar de sci-fi pós-apocalíptico, a coisa acontece em um tempo mais recente e estamos observando tudo. E é isso o que me fez gostar muito do romance de Emily St. John Mandel.

É noite em Toronto, no Canadá. Jeevan Chaudhary está na plateia de uma montagem nova de Rei Lear, clássico shakespeariano, quando o ator principal, Arthur Leander, tem um ataque cardíaco fulminante. Estudando para ser paramédico após anos de carreira jornalística como paparazzi e repórter, ele logo tenta reanimar o ator, mas já é tarde. No palco, uma atriz-mirim de 8 anos, Kirsten Raymonde, vê tudo sem entender exatamente o que está acontecendo. Pouco depois da morte de Arthur, começam a aparecer na cidade as primeiras vítimas da Gripe da Georgia, até então limitada apenas à Europa, que em questão de horas mata uma multidão de pessoas. E aí o mundo como o conhecemos acaba.

Quando eu era mais nova (ou seja, adolescente), ouvi várias histórias sobre Blumenau. Que a cidade tinha uma série de túneis debaixo dos principais prédios do centro – como os colégios, o Teatro Carlos Gomes, etc. – que serviriam como fuga para soldados alemães na Segunda Guerra Mundial. Que esse teatro, construído durante a guerra, imita o design de um quepe da SS, e teria o propósito de abrigar Hitler durante seus discursos para um público ariano caso precisasse fugir da Alemanha – Blumenau seria um óbvio destino, pelo jeito. Enfim, eram várias as histórias e “teorias da conspiração” postadas em antigas comunidades do falecido Orkut que envolviam uma das mais famosas cidades de Santa Catarina e a Segunda Guerra.

A colonização alemã, que foi bem intensa naquela região, pode ter abrigado, sim, uma certa comunidade nazista (como aconteceu até no interior de São Paulo, vamos lembrar, e também a recente suástica na piscina de um professor de HISTÓRIA de Pomerode, lá do ladinho de Blumenau). Mas, felizmente, o que se viu durante aquele período não foi um anexo menorzinho do nazismo no Sul do país. E aí chega Miguel Sanches Neto com um romance que imagina o contrário do que aconteceu na nossa História: e se o governo brasileiro tivesse ficado do lado dos alemães, e não dos americanos? O que teria acontecido?

Não sou uma fã de Girls. Vi alguns episódios fora de ordem e de diferentes temporadas. Vi Lena Dunham nua praticando um sexo meio humilhante com aquele ator de voz grossa que vive aparecendo em filmes aleatórios que eu até gosto, mas é impossível para mim lembrar do nome dele – estava em Inside Llewyn Davis, Frances Ha e o último em que o vi era What If?, com o Daniel Radcliffe. Curti o estilo daquela loirinha que usa calças largas com as barras dobradas até as canelas, sapatos masculinos e coque alto. Comparei Hannah com algumas amigas espevitadas que tive no colégio, que se achavam legais demais para compensar uma falta de crença nelas próprias. Não vi episódios o bastante para dizer algo mais concreto sobre a série. Não desgostei do que vi, mas também não gostei a ponto de querer acompanhar ela inteira.

Porém, vivo na internet, o que significa que toda hora pula nas minhas timelines alguma coisa dita por Lena Dunham, sendo polêmica ou não – geralmente há pessoas criticando as tatuagens dela (que não acho horríveis), o cabelo novo ou as roupas que ela usa nas premiações (que também não me incomodam em nada, como não deveriam incomodar ninguém). Sempre tendi a achar que a própria Lena é uma dessas pessoas que causam essas “polêmicas” por causar, mas quando Não sou uma dessas foi publicado, fiquei curiosa para ler o que ela tinha a dizer sobre a vida de uma jovem garota mais perto dos 30 anos do que dos 20 – que é mais ou menos onde estou entrando agora.

Garota exemplar deve ter sido um dos lançamentos estrangeiros mais comentados do ano passado – e um dos com o maior número de leitores evitando spoilers por aí. Acabei adiando a leitura até saber que estava sendo adaptado para o cinema com direção do David Fincher – com estreia prevista para outubro. Queria ler até lá.

Não vou dizer que os spoilers estragaram a experiência da leitura – nunca estragam, insisto que essa é a maior frescura da internet –, mas quando passei para a segunda parte do livro, percebi que sabia bem pouco sobre ele – quem procura acha. Garota exemplar é uma espécie de thriller de investigação com um romance doentio e a dúvida constante sobre quem é o mocinho e quem é o vilão da história. Amy Elliot Dunne some de casa no dia do aniversário de cinco anos de seu casamento com Nick Dunne. O sumiço da mulher já começa envolto em várias dúvidas: Nick não tem um bom álibi para a hora em que Amy desapareceu, e sua reação ao desaparecimento deixa a polícia desconfiada. É um caso típico em que a culpa sempre recai sobre o marido, e claro que ele é o principal suspeito.

Fui daquelas leitoras que ficou entusiasmada com A visita cruel do tempo, que tratou de ler o romance premiado de Jennifer Egan assim que ele chegou ao Brasil, e que considerou o livro uma das melhores leituras daquele ano. Sim, ele é ótimo, e aquele capítulo todo em slides de powerpoint foi uma bela sacada. Não consigo lembrar de alguma parte do livro que eu não tenha gostado. Jennifer Egan conseguiu me fazer ficar atenta a cada um de seus inúmeros personagens, e eu esperaria em seus próximos livros encontrar esse mesmo talento. Apesar de ter O torreão autografado aqui do meu lado, ainda não parei para ler seu segundo livro publicado em português. Mas uma das minhas últimas leituras foi o terceiro livro a chegar por aqui, lançado originalmente em 2001, pouco antes dos atentados do 11/9: Olhe para mim.

Neste livro já é possível notar algumas características presentes em A visita cruel do tempo: a narrativa é construída através de vários pontos de vista – mais focado em quatro personagens – com leves mudanças no estilo. A protagonista é Charlotte Swenson, uma modelo de 35 anos (mas diz ter 28) que vê sua carreira decair cada vez mais. Ela conta sua história em primeira pessoa a partir de um acidente de carro que mudou drasticamente a sua vida: ao visitar sua cidade natal, Rockford, ela perde o controle do veículo e o impacto do acidente quebra os ossos de seu rosto. Sua face foi totalmente reconstruída, deixando-a ainda bonita, porém completamente diferente do que era antes. Nem seu agente de Nova York é capaz de reconhecê-la mais, muito menos seus colegas de profissão ou pessoas que antes eram conhecidas, mas não passavam de interesseiros de olho no prestígio de modelo que Charlotte um dia teve.

Perto do final do livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, o escritor e roteirista Stephen Rebello fala de como o filme é recepcionado pelos jovens telespectadores acostumados com os filmes de terror que vieram depois dos anos 1980: “o filme de Hitchcock pode soar hoje tão incompreensível quanto uma velha série dos primórdios da TV ou um filme mudo. Quem foi criado com Jason e Freddy pode ficar perplexo com o fato de o público de 1960 ter gritado por causa de Norman.” Achei interessante essa percepção ser expressa logo no final do livro que acompanha como foi a produção de um dos mais famosos filmes do aclamado diretor de suspense. Depois de mais de 200 páginas ressaltando a característica inovadora e corajosa do longa, é dito ao leitor que, hoje, o que Hitchcock fez não causa espanto algum.

Claro que isso não significa que o filme perdeu sua importância dentro da história do cinema, muito pelo contrário. O livro, publicado nos anos 1990 e reeditado agora por conta do filme Hitchcock, feito com base no relato de Rebello, é um documento que atesta o caráter transformador do trabalho de Hitchcock no cinema e sua importância na época. Para quem nunca havia visto Psicose antes, como eu, ler essas páginas foi querer ver o filme com toda a atenção do mundo para perceber os detalhes que o autor destacou no livro – o que realmente acabei fazendo.

Em tempos de adoção de novas formas de leitura, esperamos que muitos livros de papel virem e-books. A digitalização dos livros vem de longe, mas só agora podemos desfrutar mais dessas versões digitais do velho conteúdo de papel. Contudo, ainda estou meio relutante em adotar essa nova forma de leitura – mas nada contra os e-books. Ainda tenho uma espécie de conexão com os livros de papel que não me permite trocá-los por suas versões eletrônicas, por mais baratas e cômodas que elas sejam. Tocar o livro, folhá-lo de traz para frente, de frente pra traz, pular páginas, ouvir o ruído que as folhas fazem aos serem viradas, isso tudo ainda é muito caro para a minha experiência de leitura. E é uma coisa que se confirmou ao ler – ou melhor, olhar – o livro Paris versus New York, do deisigner Vahram Muratyan.

Muitos já devem saber do que se trata Paris versus New York, pois antes do livro ser publicado ele era um criativo e curioso blog. As imagens que contrastam as características da capital francesa com a Big Apple foram compartilhadas por muitos dos meus amigos, e quando eu conheci o blog tratei de olhar ele inteirinho de uma vez só. O conteúdo do livro não traz lá muitas novidades – há algumas imagens que não havia visto antes, não tenho certeza agora se são inéditas para o livro ou se eu mesma deixei elas passarem batido no site. Porém, ter essas imagens impressas, em uma edição caprichada que eu posso manusear do jeito que eu quiser é muito mais legal do que ficar baixando a rolagem e avançando as páginas do blog. Meu olhar sobre as ilustrações foi muito mais atento no livro do que no site.

Existe um grande apelo por trás de histórias de pessoas diferentes, algo que grita que “esse livro vai te fazer chorar”. Por “pessoas diferentes”, me refiro àquelas que possuem algo que as distinguem de todas as outras e afetam a sua convivência social. Pessoas que não são facilmente aceitas entre todos os outros, pois muitas barreiras foram impostas para que isso fosse possível. Pode ser a história mais simples, escrita da maneira mais agradável e acessível a todos, mas que mexe com alguma coisa ligada a emoção, aquele tipo de mensagem de superação que amolece o coração dos mais rabugentos. Só lendo a sinopse, fica bem claro que Extraordinário é uma dessas histórias.

O livro de R.J. Palacio tem todas aquelas características básicas de um young adult: frases curtas, muitos diálogos, tiradas bem-humoradas e personagens cativantes, ingredientes para um livro que entretém o bastante para a leitura ser rápida e prazerosa – o que não abre muito espaço para um desenvolvimento mais aprofundado da trama, mas esse não é o objetivo aqui. No caso de Extraordinário, assim como em A culpa é das estrelas, de John Green, ainda há um drama delicado que desafia a convivência harmoniosa do protagonista com o resto do mundo. August Pullman tem 10 anos, e é um menino normal. Brinca como qualquer garoto da sua idade, gosta de Star Wars e videogames, seu pai, mãe e irmã mais velha o amam, é inteligente e engraçado. Conhecendo apenas o que ele faz e o que gosta, não há quem diga que ele não seja comum. Contudo, o que o seu rosto apresenta é um obstáculo a ser superado não só por ele, mas por todos com quem convive.

Antes de qualquer coisa, um livro onde boa parte das personagens tem câncer não pode ser, de forma alguma, um livro feliz. Mesmo se for voltado para o público jovem, que geralmente espera por uma leitura divertida, romântica, cheia de aventuras e situações maravilhosas que mostrem a eles tudo de bom e incrível que a literatura pode fazer – e os leva, de uma forma equivocada, a pensar que a vida pode ser incrível como a ficção. A culpa é das estrelas está bem longe de ser um desses livros de finais felizes, por mais que sua leitura tenha sido divertida e repleta dessas situações maravilhosas. John Green escreveu momentos que não vemos acontecerem na vida real com muita frequência, que inspiram sim um romantismo meio fora dos padrões, mas as personagens desse autor têm câncer, são pacientes terminais e ele não cria um milagre para confortar o leitor no fim. E o fim é bem doloroso.

Hazel Grace Lancaster tem 16 anos. Aos 13 foi diagnosticada com câncer, e não havia nada que pudesse ser feito: era uma paciente terminal, não viveria até a idade adulta. Mas um remédio – fictício, deve-se ressaltar – conseguiu estender um pouco mais os seus dias na terra, e por conta dele se tornou uma “sobrevivente temporária” do câncer, permanentemente presa a um cilindro de oxigênio, pois seus pulmões não funcionam como deveriam funcionar. Em um encontro de apoio para esses sobreviventes no “coração literal de Jesus”, ela conhece Augustus Waters, um garoto de 17 anos que perdeu uma perna para a doença. Assim como os típicos romances jovens, o interesse entre os dois é rapidamente despertado: no mesmo dia que se conhecem, já partem para uma tarde assistindo V de Vingança, vivenciam a falta de ar da paixão recém descoberta – o que é bem irônico, no caso de Hazel. Enfim, se aproximam rapidamente para algumas semanas depois caírem de amores um pelo outro.