A Coreia do Norte sempre foi um desses países esquisitos que pouco conhecemos. O que todos sabem é que é uma nação fechada, que foi governada por um homem no mínimo incomum – com todas as suas esquisitices – e possui forte educação militar – quem nunca viu as marchas sincronizadas do exército coreano em paradas cívicas no YouTube não deve ter ouvido falar desse país mesmo. A Coreia do Norte foi foco da imprensa depois da morte de Kim Jong Il no final do ano passado, com todas as matérias contestando a veracidade do choro dramático da população pela perda de seu líder. A política norte-coreana, para o senso comum, sempre foi alienante. E se isso já era uma ideia horrível de se conceber, pior ainda é conhecer outra face autoritária e manipuladora do país.

Antes de ler Fuga do Campo 14: a dramática jornada de um prisioneiro da Coreia do Norte ruma à liberdade no ocidente, de Blaine Harden, não havia ouvido falar dos campos de trabalho forçado para prisioneiros políticos mantidos pelo governo norte-coreano. Segundo a Coreia do Sul, o país vizinho mantém seis desses campos que existem há pelo menos 50 anos – e que a Coreia do Norte insiste dizer ser uma invenção das potências ocidentais para tiranizar o país. Pensem nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial: as pessoas são levadas até eles sem saberem o motivo. São obrigadas a trabalhar e viver em situações precárias, sem roupas decentes, sem direito a nada e com escassa comida, sendo repreendidas ao cometerem qualquer erro sequer. Ou, segundo os 10 mandamentos do Campo 14, o mais terrível e controlado de todos os campos, essa repreensão vem em forma de balas: a qualquer transgressão, a pessoa será “fuzilada imediatamente”.

Uma das coisas que mais me incomodam ao falar sobre a mulher é a certeza de que o maior sonho de todas é ser mãe. Como se engravidar uma, duas, dez vezes fosse o grande ápice de sua vida – ou seria ver o filho crescer, se formar, sair de casa etc. Não duvido que isso traga sim imensa alegria – para os homens também –, mas discordo de que toda e qualquer mulher sonha exatamente com isso. Como se ela não fosse um indivíduo, mas sim um ser obrigatoriamente composto por uma extensão chamada filhos. E depois da imagem de mãe concretizada, desvinculá-la disso parece ser ainda mais difícil: a mulher passa a ser aquela pessoa que se dedica apenas à criação, ao cuidado das crianças e do lar, cujas ações visam sempre sua família. Não, uma mulher e uma mãe são mais do que isso, e é difícil enxergar e reconhecer que elas têm desejos que vão além de sua prole. Que elas também pensam – e precisam pensar – em si mesmas.

 

A tarefa de escrever um livro que ilustre a passagem do tempo para uma geração através do ponto de vista de diversas pessoas parece ser difícil de concretizar. Contudo, livros com esse tipo de abordagem, que buscam a pluralidade de vozes para compreender toda uma história, não são necessariamente uma novidade. Maior exemplo disso está em Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, que usa o relato de inúmeras personagens que, ao contarem suas próprias histórias, revelam os passos de seus protagonistas. É mais ou menos isso o que Jennifer Egan faz em A visita cruel do tempo, livro que lhe rendeu o Pulitzer de ficção no ano passado e publicado aqui no Brasil pela editora Intrínseca. Mas diferente da obra do autor chileno, o livro de Egan não trabalha com protagonistas, embora possa usar a interpretação para apontar a passagem de tempo como a principal personagem desse enredo.

Pulando de personagem para personagem, cruzando os anos, montando uma rede de pessoas e se concentrando na vida de cada uma delas para construir uma história sobre as gerações, Egan faz do livro uma verdadeira experiência literária. Cada capítulo compreende um momento dentro do intervalo de 50 anos em que apresenta ao leitor as mais diversas personagens, todas diferentes e com histórias que se interligam através dos anos, que complementam uma a outra. Como se cada capítulo fosse, na verdade, um conto, mas tão relacionados entre si que é impossível limitar a leitura a um texto só, de forma isolada. Eles revelam mais sobre aquilo que já foi lido, ou guardam detalhes que serão cruciais para a história seguinte. Dessa forma Jennifer conduz o leitor a descobrir e recolher esses pequenos detalhes para transformar esse retalho de histórias em uma coisa só.

Em 1978, Gregory David Roberts foi preso por assalto à mão armada na Austrália. Ao se divorciar, o até então escritor se rendeu completamente à heroína, perdeu o contato com sua filha, sua família, e passou a roubar para alimentar seu vício. Capturado, ele foi condenado a passar 19 anos trancafiado dentro de uma prisão de segurança máxima. Contudo, o horror das torturas sofridas dentro da cadeia e o desejo incontrolável pela liberdade levaram Roberts a um ato extremo: fugir. E em 1980, livre da prisão e um dos mais procurados foragidos da Austrália, ele desembarca em Bombaim, a cidade mais populosa do mundo. Muito mais do que uma chance de se esconder, se redimir de seus erros e começar uma nova vida, Gregory David Roberts encontrou na cidade a acolhida que nunca teve em nenhum outro lugar, e se sentiu em casa em meio ao caos da cidade indiana marcada pela pobreza, desigualdade e crimes.

Em Shantaram, a vida do autor serve de base para esse romance que transita entre as camadas mais pobres de Bombaim até o luxo de Bollywood, entre a paz e solidariedade dos moradores de uma favela clandestina até a guerra no Afeganistão e a briga entre as gangues mafiosas da capital de Maharashtra. E entre o amor pela cidade, sua cultura e seu povo e o ódio e medo despertado quando sua liberdade fica novamente ameaçada. Recheado de personagens marcantes, o livro de mais de 900 páginas publicado pela editora Intrínseca aqui no Brasil revela a força desse protagonista para se reerguer nos momentos mais difíceis e encontrar lógica e bondade em meio à violência e a impunidade de Bombaim.

Gatos sempre correram atrás de ratos. Esses seres minúsculos e rápidos são uma brincadeira deliciosa para aqueles animais ágeis, preguiçosos a maior parte do tempo e curiosos. A visão de um rato desperta o gato para infinitas possibilidades de brincadeiras torturantes em que, no final, o brinquedinho estraga. Shelley e sua mãe são como ratos, duas pessoas que não passam de objetos medonhos para seus colegas de escola, seu chefe e seu marido e pai. São fracas e não sabem impor suas vontades, engolem as dores e problemas como se fossem apenas delas e não deveriam ser compartilhados com mais ninguém, dando corda para que os gatos continuem suas brincadeiras malévolas sem consequências. Mas até ratos possuem um limite, e em algum momento uma bomba explode e transforma camundongos amedrontados em terríveis ratazanas.

Gordon Reece trabalha os limites do bullying e da humilhação em Ratos, lançado recentemente aqui pela editora Intrínseca. A história se passa numa pequena cidade inglesa quando Shelley e sua mãe, depois da garota ter sofrido meses com as agressões de suas colegas na escola e da separação de seus pais, se mudam para uma casa afastada de tudo à procura da tranquilidade que nunca tiveram. Shelley está marcada pelas cicatrizes das agressões que sofreu, terminando o ano letivo com aulas particulares em casa depois de entrar em acordo com a diretoria da escola. E sua mãe tenta levar a vida adiante e se sustentar em um emprego que lhe paga pouco e exige demais, colocando culpa nela mesma pela sua decadência profissional – de advogada talentosa que abandonou a carreira a uma simples assistente de um escritório.

A leitura é mais do que um simples entretenimento. Ou pelo menos parece despertar mais sentimentos, ser mais profundo do que qualquer outro tipo de mídia que conte alguma história. A relação entre livro e leitor é íntima: a leitura se dá, geralmente, de forma solitária. Apenas presente o leitor, o livro e a imagem do autor que paira entre esse ambiente – podendo ou não sua vida influenciar na interpretação do texto. Um dia, dois, uma semana ou um mês, um livro pode durar o tempo que o leitor quer que ele dure, se bem que existem aqueles que se impõem e fazem a leitura ocorrer mais rápido do que se espera, ou o contrário. Austin Wright, escritor norte-americano falecido em 2003, retrata muito bem essa relação entre narrativa e leitor em Tony & Susan, livro publicado em 1993 que ganhou nova edição pela editora Intrínseca, uma espécie de “metaleitura” em que se acompanha a experiência de uma personagem com um livro.

Susan é professora e crítica literária, mãe de três filhos e casada com um médico. Arnold é seu segundo marido, o homem com quem ela traiu Edward, seu parceiro na juventude. Edward era um jovem melancólico que sonhava em ser escritor e trabalhou muito para isso, mas seus textos nunca eram bons o bastante para sua maior crítica, sua própria esposa. Depois 25 anos longe de Edward e seus escritos, Susan recebe em casa um manuscrito seu com o pedido de que lesse e desse a ele a sua opinião sobre o romance. A leitura foi adiada durante meses devido à sua apreensão de novamente magoar a veia literária do ex, mas a vinda de Edward para a sua cidade a incentiva a ler. Então, durante uma viagem de Arnold, Susan se envolve com a leitura.

Tênis é um esporte egocêntrico, dizem. Não importa o número de jogos conquistados, os campeonatos vencidos, mas sim um ranking, uma lista seleta e cruel que diz quem é bom e quem é medíocre no esporte, que alavanca ou arruína uma reputação. Desde os cinco anos de idade, tudo o que Willy Novinsky deseja é estar nessa lista. Mas não em uma posição qualquer, ela quer é ser uma das grandes tenistas, daquelas invejadas pela técnica, personalidade e dedicação ao tênis. E desde essa idade, sem nem contar com muito apoio de sua família, é nisso que ela pensa toda vez que entra em quadra com a raquete em mãos. Aos 23 anos de idade, Willy parece bem próxima de seu objetivo, sendo treinada por um dos principais nomes do esporte, com uma bolsa que paga pelas suas competições e nenhuma preocupação além do seu jogo – e de um eventual relacionamento com seu treinador.

Em Dupla falta, último romance traduzido da escritora Lionel Shriver publicado pela editora Intrínseca, a competitividade de Willy sufoca tanto personagens quanto o leitor. Um romance que, apesar de evocar o tênis em cada parágrafo, não se trata exatamente sobre o esporte, mas sim sobre uma competição e ego exagerados de uma mulher. Enquanto se prepara para grandes torneios que colocariam seu nome cada vez mais alto na posição no ranking, Willy poderia esperar por tudo, menos que se apaixonasse por outro tenista, um estranho chamado Eric que em um dia qualquer parou para olhá-la durante um treino, e que daí em diante seria seu parceiro de quadra e de cama. Confiante de seu talento para o esporte e futuro brilhante como tenista, ela se vê diante de alguém tão talentoso quanto: o próprio marido, formado em Princeton e com um jeito despretensioso de jogar que faz com que tudo pareça fácil demais para ele de uma forma irritante.

Helene Hegemann foi recebida como prodígio literário ao publicar Axolotle atropelado com apenas 17 anos de idade. O livro é o diário de Mifti, uma adolescente problemática de 16 anos envolvida com drogas e sexo na Berlim atual, cercada pela riqueza dos artigos luxuosos da moda e amigos “intelectualóides”. Uma garota prodígio como a autora do livro, que assume sua condição de ruína como uma criança em busca de atenção, mas com frases de impacto que soam muito inteligentes. Órfã de mãe, mora com os irmãos mais velhos super descolados enquanto seu pai negligente viaja pelo mundo. Mifti nunca recebeu muito afeto da família, principalmente da mãe esquizofrênica, e sua carência a leva para as mais absurdas relações sexuais, incluindo a obsessão por uma mulher um pouco mais velha, a quem se submete a atividades sádicas.

O axolotle é uma espécie de salamandra mexicana que nunca se desenvolve, e nesse animal Mifti vê um retrato seu. Ela é igualmente parada no seu desenvolvimento, sem perspectiva de que vá fazer algo além de ir em festas, se drogar e passar os dias dormindo sem ir à escola. E também não recebe ajuda ou incentivo algum da família ou dos amigos para que saia dessa rotina desregrada, por mais que demonstrem preocupação. Axolotle atropelado tem ritmo intenso, uma verborragia de sentimentos e diálogos de Mifti, muitos deles fragmentados como suas lembranças danificadas pelo constante estado de embriaguez ou delírio.  E assim o leitor tem contato com a família, amigos ou estranhos com quem Mifti se encontra – e eventualmente transa – enquanto espera que algo dite o seu fim, seja uma overdose, suicídio ou a relação com aquela que a sodomiza e causa sua dependência e depressão, como a própria droga que consome.

Em outubro de 2001, depois dos ataques de 11 de setembro que destruíram o World Trade Center, parte do Pentágono e ainda derrubaram na Pensilvânia um dos aviões seqüestrados por terroristas, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão. O objetivo era encontrar Osama Bin Laden, que se acreditava estar escondido no país, destruir a Al-Quaeda e o talibã. A ocupação do exército norte-americano no Afeganistão permanece, mas já está programada o início da retirada das tropas ainda esse ano. O que diferencia essa guerra das outras travadas pelos EUA está nas pessoas que nela lutaram. Diferente da Segunda Guerra Mundial, os soldados combatentes não eram convocados, mas se voluntariavam querendo lutar por seu país, ou apenas dar um rumo à suas vidas já desgraçadas.

São esses jovens soldados o material do livro Guerra, do jornalista Sebastian Junger. O livro é fruto de cinco viagens do jornalista à região do Vale do Korengal, uma das áreas com mais conflitos entre o exército norte-americano e o talibã. Do material reunido por ele e pelo fotógrafo Tim Hetherington – morto em abril desse ano na Líbia – entre junho de 2007 e 2008 para a revista Vanity Fair, ainda foram produzidos um documentário, Restrepo, e finalmente Guerra. Relendo depoimentos e revendo imagens, vídeos e gravações, Junger divide seu livro em três partes para abarcar todo o ambiente da guerra e os seus efeitos psicológicos sobre os soldados, além de suas motivações para combater: Medo, Matança e Amor.

As vidas de pintores de talento e dedicação ilustram um romance que se alterna entre os tempos atuais e o século XIX. Em Os Ladrões de Cisne, livro de Elizabeth Kostova, o destaque está no Impressionismo, nos detalhes dos quadros que narra transportados para seu texto, num amor que dura séculos e é difícil de explicar. Lançada nova edição pela editora Intrínseca, o romance oscila entre a beleza de um amor atemporal e a monotonia da narração de uma vida perturbada, tentando ser desvendada por pessoas que dela fizeram parte.

O principal narrador dessa trama é o psiquiatra Andrew Marlow, que tem em suas mãos um paciente peculiar: Robert Oliver, um pintor norte-americano renomado que foi preso após tentar atacar um quadro no National Gallery, em Washington. Marlow, também um pintor nas horas vagas, se interessa pelo estranho caso, mas consegue apenas algumas palavras de seu paciente. Robert entra em um estado de profundo silêncio, passando seus dias internado apenas pintando o rosto da mesma mulher e relendo incessantemente um maço de cartas de aparência antiga. Para desvendar o que atormenta seu paciente, Marlow decide usar de um método que pode comprometer sua carreira: falar com as mulheres que fizeram parte da vida do pintor.