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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Julian Barnes

Altos voos e quedas livres, de Julian Barnes

altos-voos-e-quedas-livres“Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial”, diz Julian Barnes em vários momentos de Altos voos e quedas livres (tradução de Léa Viveiros de Castro). As 128 páginas desse livro enganam, assim como o início, Pode parecer uma história leve sobre balonismo, as primeiras pessoas que se aventuraram pelo ar, os pioneiros que pensaram em unir balão com câmera fotográfica e mostrar para quem nunca esteve lá em cima como é ver a cidade de tão alto. Mas Altos voos e quedas livres é um livro sobre amor e perda – amor que nos leva tão para o alto; perda que nos derruba sem aviso.

Até quase metade do livro, Barnes concentra a narrativa no balonismo: seus pioneiros, aqueles que acertaram ou erraram seus voos, os que foram parar em lugares inusitados, levados sem rumo pelo vento. Fred Burnaby, Sarah Bernhartd, Félix Tournachon: pessoas que no final do século XIX despertavam admiração e espanto por suas estripulias aéreas, que são usadas pelo autor como uma metáfora da própria vida. “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”, escreve Barnes, falando de como Tournachon, apelidado de Nadar, passou a fotografar de um balão, ou como pessoas como Burnaby e Sarah, tão diferentes em suas ambições, tiveram um breve affair. Da mesma forma, Barnes junta duas coisas que não imaginaríamos ver no mesmo lugar, o balonismo e o luto.

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Artigo: Literatura do jovem suicida

Vamos dizer que é compreensível que uma pessoa que tenha passado por um grande trauma se mate. Por grande trauma quero dizer: ter vivido um momento de violação física e psicológica infringido por outros, nela mesma ou vista por ela em algum momento, que seja tão horrível e impraticável que lhe abre uma ferida que não é capaz de cicatrizar. Uma ferida que faz da morte uma opção preferível à superação ou convivência com as marcas e memórias. Não é que se espere que essa pessoa tire sua vida, apenas que é possível entender seus motivos – um abuso físico, um bullying, uma perda inconformada, um sentimento de abandono e solidão. As pessoas guardam em si coisas que lhe são caras, e a sua perda é irreparável ou impossível de se conformar em vida.

Ultimamente, o tema do suicídio tem ocupado bastante espaço entre os meus interesses curiosos. Parece que a cada semana são mais recorrentes as notícias sobre alguma pessoa, geralmente jovem, que opta por essa porta de saída do mundo. Não parece, acontece. Só não vemos isso ser muito alardeado por aí – uma convenção jornalística que até hoje nenhum professor foi capaz de me explicar muito bem. Como exemplo, cito duas garotas estupradas por um grupo de pessoas, uma na Índia e outra no Brasil, que não encontraram apoio e ajuda para lidar com essa brutalidade. Muito menos justiça. Preferiram morrer. E o jovem Aaron Swartz, que estava sendo acusado em milhões de dólares por compartilhar arquivos sob direitos autorais na internet, sem poder, caso a acusação fosse confirmada, pagar pelo “crime” de distribuir esse material livremente e sem cobrar por ele. Também escolheu encurtar sua vida. Segundo o Ministério da Saúde e OMS, estima-se que no Brasil aconteçam 24 suicídios por dia – mas o número de tentativas frustradas é ainda maior.

Leia o artigo completo no Posfácio.

O sentido de um fim, de Julian Barnes

o-sentido-de-um-fimA memória nunca é exata, nem na juventude e muito menos na velhice. Estudos da mente constatam que, a cada vez que uma lembrança é resgatada, ela reaparece com pequenas mudanças imperceptíveis. Manipulamos nós mesmos a nossa memória para fazê-la se adequar ao que julgamos ser a maneira exata com que os fatos se sucederam. Ou seja, mentimos para nós mesmos, e o motivo pode ser conforto, orgulho, controle. Julian Barnes utiliza toda essa falta de certeza das lembranças para estruturar seu livro vencedor do Man Booker Prize de 2011, O sentido de um fim. Narrado por um homem idoso, ele evidencia toda a incompletude da história que se conta, causada pelas memórias falhas e a ausência de mais testemunhas ou documentações.

Dividido em duas partes, o romance começa com Tony Webster relembrando seus tempos de escola, em que convivia em um grupo formado por mais dois garotos, Alex e Colin. A história parte do momento em que um quarto membro é adicionado a essa reunião de jovens mentes inteligentes, como eles se consideravam: Adrian, um garoto isolado, sério e que pareceu ser bem mais superior em inteligência e sagacidade que seus colegas. Essa primeira parte narra uma gostosa trama escolar em que a amizade é um forte elo que liga esses garotos inseguros do que encontrarão na vida, que aguardam ansiosos pelas responsabilidades dos adultos, suas aventuras, dilemas e problemas, mal vendo a hora de conseguirem uma namorada, ir para festas, viver a vida como se ela fosse um dos livros que leem.

Mas “o que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu” (p. 9), diz Tony. Da escola para a faculdade, eles nem tinham ideia de que o que faziam naquele tempo já determinaria o que seriam no futuro. Os amigos vão para diferentes universidades, Adrian consegue entrar para Cambridge, Tony arruma uma namorada, Veronica, e esporadicamente os amigos se reencontram, cada vez menos, se tornando mais diferentes e afastados. Até Adrian se suicidar, e o grupo de quatro voltar a ser três, e os três se dispersarem – o namoro com Veronica acaba, a vida segue em frente com o trabalho, uma nova mulher, uma filha e pronto, chega ao ponto em que ele é um velho contando sua história.

A segunda parte concentra-se num reencontro inusitado com esse passado. Uma herança inesperada que envolve a vida de Adrian, Tony e Veronica, e que na verdade é o estopim para esse monólogo do narrador – pois o texto se constrói não como uma narrativa normal, com início, meio e fim, ou não é assim que parece ao leitor. A impressão é estar ouvindo um velho contar sua história a quem quiser ouvir, mas colocando no meio dela suas teorias, sua filosofia, aquelas discutidas por ele e seus amigos na juventude, enquanto tenta desenrolar os fios que ainda o prendem a Veronica, sua família e ao amigo suicida. E, nesse monólogo, evoca a reação do tempo na sua vida, nas suas lembranças, tão desconexas e inexatas, impossíveis de serem confirmadas ou corrigidas pelos outros envolvidos – pois ou todos já se foram, ou estão esquecidos. Sem documentos para comprovar o que conta, nada além de sua própria memória debilitada. E como Adrian sentenciou em uma antiga aula, essa história se torna uma “certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação.”

O que se confirma no fim é que Tony não é um narrador confiável. A única certeza que o leitor tem é do que ele se tornou: um homem confortável com sua solidão, ciente de que não fez da sua vida nem metade do que esperava que ela fosse em sua juventude. Um homem que tem uma ideia de como a vida funciona e o que se faz dela:

Você aposta num relacionamento, ele fracassa; você passa para outro relacionamento, ele fracassa também; e, talvez, o que você perca não sejam duas simples somas de números negativos, mas a multiplicação do que você apostou. Pelo menos, é essa a impressão que dá. A vida não é feita só de adição e subtração. Tem também a acumulação, a multiplicação de perdas, de fracassos.

A conclusão de O sentido de um fim é uma acumulação de dúvidas. De incertezas sobre o que realmente aconteceu a Tony, Adrian e Veronica. Julian Barnes trabalha com essa inexatidão da memória e implanta esses questionamentos na cabeça do leitor, que, como um historiador, fica tentado a reler tudo, a rever os documentos fornecidos pelo narrador para tentar, enfim, dar um sentido ao final do livro. E é assim que ele consegue fazer a história reverberar até que o leitor encontre sua própria teoria sobre o romance.