Depois de ler tantos contos que tratam predominantemente de casos cotidianos, é até estranho pegar uma reunião de histórias policiais nas mãos. A impressão que tenho é que o gênero hoje se reserva apenas ao romance, deixando no passado nas mãos de escritores como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie o papel de criar curtas histórias investigativas. Na apresentação de A Prova dos Noves, o autor gaúcho Élcio Conte até faz essa comparação de seus textos publicados pela editora Nova Prova com os dois mestres policiais. Basta ao leitor concordar se os três contos que compõem seu livro merecem ser assim comparados.

O cotidiano é o aspecto abordado pela maioria dos contistas. O dia a dia do cidadão normal, pacato, é material para muitas histórias. Um bom escritor consegue transformar a vida de qualquer um em algo interessante para ser lido. Alessandro Garcia é um desses novos nomes da literatura que pega da vida simples temas para centrar os seus textos, e em A Sordidez das Pequenas Coisas, lançado pela Não Editora, são coisas assim que ele dá ao leitor: o cotidiano puro, pensamentos de pessoas simples e suas histórias que rendem assunto para muitos outros contos.

Entre textos curtos com histórias de duração breve, porém não simples, Saul Melo preenche o livro Entre Sombras, um dos últimos lançamentos da gaúcha Dublinense. Como o título sugere, as tramas criadas pelo autor acontecem entre momentos sombrios, narrados por personagens ocultos em grande parte, falando não justamente de um momento específico de suas vidas, mas principalmente filosofando sobre elas. Saul Melo cria histórias que, não importa o contexto, sempre estarão submetidas à melancolia.

Planejando o livro para ser um romance, Linguagem de Sinais, de Luiz Schwarcz – mais conhecido como editor e dono da Companhia das Letras –, teve que adequar sua trama depois da recusa de seus próprios colegas editores. A solução foi transformar os capítulos em contos, e eis que seu segundo livro (sem contar o infantil) é lançado agora pela sua editora. Mas seu livro não parece ser uma antologia. Ele fica em um meio termo entre conto e romance, onde personagens se repetem e vivem histórias em certa ordem cronológica.

Para celebrar a ficção científica e, ao mesmo tempo, divulgar novos escritores, foi criado o Projeto Portal. Trata-se de uma revista distribuída gratuitamente entre ávidos leitores amantes do gênero sci-fi dividida em seis volumes semestrais que homenageiam grandes escritores e obras. A última edição organizada por Nelson de Oliveira foi a Portal 2001, referindo-se, claro, a 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Entre passado e futuro, monstros e humanos, vemos diversas abordagens da ficção científica que juntas podem compor uma bela viagem pelo espaço.

Desde 1 de janeiro do ano passado, a Língua Portuguesa está unificada. Ou melhor, desde 2009 estão tentando unificá-la. Nesta data, entrou em vigor o Novo Acordo Ortográfico, que visa igualar a escrita do português em países que falam o idioma. Acentos foram removidos, assim como hífens, formando palavras visivelmente estranhas, mas sonoramente as mesmas de sempre. Muitos foram contra, pensando na dificuldade em se adaptar às novas regras – que já eram complicadas de aprender antes. Mas não teve jeito: a escrita mudou, e temos mais algum tempo até o “antigo” modelo ortográfico ser completamente deixado de lado.

Juremir Machado da Silva diz que Gustavo Machado pode entrar na lista dos grandes jovens escritores gaúchos. O que, segundo ele, talvez possa não acontecer, por conta da sorte similar a de Mick Jagger que o jornalista possui. Mas eu digo que sim, Machado pode estar nessa lista. Não que eu tenha alguma autoridade para afirmar isso, mas seu primeiro livro foi um belo começo. Sob o Céu de Agosto, lançado semana passada pela editora Dublinense, é uma daquelas histórias raras capazes de prender o leitor por um dia inteiro, e que o simpatiza com uma personagem que tem mais defeitos do que virtudes.

Podolatria. Dentre tantas as taras que o homem tem, foi essa a escolhida por Carina Luft para compor seu romance policial, Fetiche. Assim como Ana Cristina Klein, Carina integra a oficina literária de Charles Kiefer, em Porto Alegre, e isso já é um ponto que causa certa curiosidade quanto a seu livro. Mas o enredo também chama a atenção: uma série de assassinatos em uma pequena cidade gaúcha onde as vítimas tem seus pés cortados. Um thriller, aquela velha caçada ao assassino, onde uma dupla de investigadores trabalha contra o tempo para solucionar o caso. São várias as expectativas quanto ao primeiro livro de Carina, mas nenhuma delas foi superada.

Na rotina frenética de Tokyo, um submarino percorre os subterrâneos da cidade em busca de imagens de um jovem executivo. Ele está ao lado de uma loira alta de olhos azuis, facilmente reconhecível por ser ocidental. O submarino filma, grava e envia imagens para a Sala do Periscópio, onde um velho poeta vê as relações de seu filho, acompanhado sempre de sua boneca de última geração nomeada Yoshiko. O jovem, chamado Shunsuke, dispensa novas mulheres e toda a sua vida para estar perto de Iulana Romiszowska, a polonesa-romena que trabalha como garçonete em um “inferninho” da capital japonesa.

O crime pode ser opção ou, mais do que pensamos ser verdade, imposição. Viver em um ambiente violento onde a bandidagem impera é o passaporte para uma vida de delitos e prisões. Não importa o quanto essa pessoa sonhe em mudar de vida e trabalhe para isso, o crime não perdoa. Burdão, personagem de Sacolinha, é uma dessas pessoas que sempre agiu da forma mais correta possível, mas andar na linha não impediu que sua família fosse vitimada pela maldade. E a amargura causada por essas perdas não o deixou longe das armas.