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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: literatura inglesa (page 1 of 2)

White Teeth, de Zadie Smith

white-teethFamília, identidade e cultura: essas três palavras podem definir os livros de Zadie Smith. NW é uma trama que, sob o ponto de vista de quatro personagens que cresceram no mesmo bairro, mostra como eles se tornaram pessoas diferentes, com dramas próprios, mas unidos todos pela mesma geografia. Swing Time, seu livro mais recente, gira em torno do deslocamento de sua narradora, uma mulher com mãe negra e pai branco, que sente não pertencer a lugar nenhum, ligada a uma amiga que tem o mesmo background que o seu, mas que fez escolhas na vida e tem uma visão de mundo diferente do dela. As três palavras estão nessas tramas: o lugar em que cresceram, o lugar em que pertencem – ou querem pertencer –, as culturas de que se alimentam suas personagens. E tudo isso começou com White Teeth.

O primeiro romance de Zadie Smith não poderia começar de maneira mais depressiva: na manhã de Ano Novo, Archie Jones está trancado dentro de seu carro, os vidros fechados quase totalmente, não fosse por uma mangueira presa na janela e ligada ao escapamento do veículo. Após anos de casado, sua esposa o abandonou. Archie não está desconsolado pelo fim do relacionamento, e sim porque gastou todos esses anos da sua vida com uma mulher insossa e um emprego sem ambições. A morte seria preferível a uma vida sem graça. Mas os planos de Archie são frustrados por comerciantes muçulmanos, donos do estabelecimento onde ele estacionou para morrer. Archie toma a interferência como um sinal de que precisa continuar. Levado pelo destino, termina a manhã numa “Festa do Fim do Mundo” onde conhece Clara Bowden, uma jovem negra, filha de jamaicanos, Testemunha de Jeová e que está sem os dentes da frente. Archie tem quase 50 anos, Clara tem 18. E a partir do momento em que se veem, sabem que vão terminar juntos.

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Altos voos e quedas livres, de Julian Barnes

altos-voos-e-quedas-livres“Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial”, diz Julian Barnes em vários momentos de Altos voos e quedas livres (tradução de Léa Viveiros de Castro). As 128 páginas desse livro enganam, assim como o início, Pode parecer uma história leve sobre balonismo, as primeiras pessoas que se aventuraram pelo ar, os pioneiros que pensaram em unir balão com câmera fotográfica e mostrar para quem nunca esteve lá em cima como é ver a cidade de tão alto. Mas Altos voos e quedas livres é um livro sobre amor e perda – amor que nos leva tão para o alto; perda que nos derruba sem aviso.

Até quase metade do livro, Barnes concentra a narrativa no balonismo: seus pioneiros, aqueles que acertaram ou erraram seus voos, os que foram parar em lugares inusitados, levados sem rumo pelo vento. Fred Burnaby, Sarah Bernhartd, Félix Tournachon: pessoas que no final do século XIX despertavam admiração e espanto por suas estripulias aéreas, que são usadas pelo autor como uma metáfora da própria vida. “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”, escreve Barnes, falando de como Tournachon, apelidado de Nadar, passou a fotografar de um balão, ou como pessoas como Burnaby e Sarah, tão diferentes em suas ambições, tiveram um breve affair. Da mesma forma, Barnes junta duas coisas que não imaginaríamos ver no mesmo lugar, o balonismo e o luto.

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Swing Time, de Zadie Smith

swing-timeDuas meninas se conhecem nas aulinhas de dança do bairro. Duas meninas pardas, filhas de pais brancos e negros. Uma delas, Tracey, demonstra um talento singular logo de início. A mãe, branca e espalhafatosa, mima a garota com o que ela quer, e Tracey tem uma liberdade que nenhuma outra criança do bairro tem. O pai, negro, está preso – mas para a pequena Tracey ele está em turnê com Michael Jackson. A outra menina, que vem a ser a narradora de Swing Time, romance mais recente de Zadie Smith, não tem o mesmo talento, mas é apaixonada por musicais – com todas as suas canções e danças. Sua mãe, descendente de jamaicanos, é uma dona de casa mergulhada em leituras que tenta passar à filha um senso de identidade. O pai, branco, trabalha nos correios e, apesar de apaixonado pela esposa, sente que é deixado de lado pelo seu autodidatismo. Tracey e a narradora são duas crianças com muito em comum, mas também guardam diferenças gigantescas.

Swing Time começa com a narradora já em seus trinta e poucos anos, voltando para Londres após ser demitida de seu emprego como assistente pessoal de uma cantora pop australiana mundialmente famosa – algo tipo uma Madonna. Não sabemos o motivo da demissão e nem por que a narradora está recebendo tantas mensagens raivosas em seu celular, trancada num quarto de hotel sem contato com a família ou amigos. Mas ao passear pela cidade ela começa a revelar sua história, e essa amiga de infância, Tracey, tem papel fundamental nela. Read more

Enclausurado, de Ian McEwan

enclausuradoDe dentro do útero da mãe, um feto de quase nove meses escuta os planos horríveis de sua genitora para assassinar seu pai. Ela arquiteta o plano com seu amante, que vem a ser também o tio do feto. O motivo do crime é a casa onde eles se encontram, um imóvel que, apesar de decrépito, vale cerca de seis ou sete milhões de libras. Se a mãe, Trudy, simplesmente se separasse do editor e poeta John, ela não conseguiria um bom acordo que enriquecesse sua conta bancária e a de Claude, o amante/cunhado. A única saída para arrancar dinheiro do decadente poeta é o assassinato. E o feto escuta tudo.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente esperando, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda”, diz o feto na primeira linha de Enclausurado, novo romance de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster). Através da barriga da mãe ele escuta tudo, todas as maquinações e depravações dela e do amante, e isso aterroriza a mente do ser que ainda nem chegou ao mundo. O feto que narra este livro se preocupa com o que será do seu futuro caso o plano seja colocado em prática, mas pouco pode fazer para evitá-lo estando ainda preso ao cordão umbilical. Resta a ele apenas a contemplação e as previsões de como será o seu futuro, sendo criado por dois assassinos ou então abandonado, dado para a adoção. Nenhum dos cenários lhe parece bom.

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Do que é feita uma garota, de Caitlin Moran

do-que-e-feita-uma-garota-capaJohanna Morrigan é uma garota de 14 anos que não vê a hora de experimentar a vida. Em 1990, ela vive em Wolverhampton, uma cidadezinha no condado de West Midlands, Inglaterra, com sua família totalmente decadente: um pai (Pat) sem noção da realidade que sonha em ser um astro do rock milionário, uma mãe em depressão pós-parto depois da chegada dos gêmeos surpresa (que nem nome têm), o irmão mais velho (Krissi), de 15 anos, uma sombra sensata na casa, e outro de seis anos (Lupin), sempre às voltas com a irmã. Ninguém na casa trabalha e a família vive de benefícios do governo – o pai é “meio deficiente”. Mas Johanna é uma adolescente feliz, inteligente, que devora todos os livros da biblioteca, reencena musicais com seus irmãos, se diverte do seu jeito.

O único porém é que ela está louca para perder a virgindade e não tem perspectivas de ver isso acontecer tão cedo – é feia, gordinha, não tem amigos, nenhum atrativo para um homem. Então, para tentar fazer isso acontecer e também arranjar mais dinheiro para sua família – e para se livrar de um episódio humilhante protagonizado por ela na TV –, Johanna decide se reinventar assumindo uma nova personalidade, a de Dolly Wilde. Do que é feita uma garota (tradução de Caroline Chang) é um romance de formação onde a própria protagonista se constrói, costurando hábitos, conhecimentos, experiências para se tornar uma garota cool e “transável”. Caitlin Moran, autora de Como ser mulher, recheia essa história com referências a livros, séries, filmes e, o mais importante, muita música da cena underground dos anos 1990. Pois quando se torna Dolly Wilde, ela escolhe como objetivo, além das transas, claro, ser jornalista e crítica musical numa revista de circulação nacional. Read more

A balada de Adam Henry, de Ian McEwan

a-balada-de-adam-henry-capaDentre o monte de livros que compõem a minha pilha interminável de futuras leituras, escolhi A balada de Adam Henry, o mais recente romance de Ian McEwan, pelo dilema moral e religioso que a história prometia. Fiona Maye é uma juíza do Tribunal Superior especializada em direito de família, em Londres, e está prestes a completar sessenta anos. Com sucesso na carreira e, até então, na vida pessoal, ela vê sua rotina abalada pelo pedido do marido, Jack, de que eles tenham um casamento “aberto”, ou seja: insatisfeito com a vida sexual, ele informa Fiona que está interessado em uma mulher muito mais nova, uma estudante de estatística de 28 anos, e que gostaria de manter um caso com ela, mas com o consentimento da esposa – ela mesma poderia ter suas aventuras fora do casamento.

Inconformada com o pedido de Jack, Fiona não aceita o acordo e exige que ele escolha entre a longa e tranquila união e a jovem. Ao se ver sozinha em casa, ela mergulha ainda mais no trabalho que ocupou sua rotina durante toda a vida, mas que nunca chegou a tirar momentos seus com Jack, apesar de não ter dado espaço para que ela tivesse filhos. Até aí, tudo bem, vemos os detalhes de uma história comum sobre uma mulher ameaçada de abandono que usa o trabalho para esquecer por algumas horas os dramas pessoais. Mas a história de Fiona toma um novo rumo com a chegada de Adam Henry, adolescente de 17 anos com um tipo raro de leucemia que precisa de uma transfusão de sangue urgente para dar continuidade ao tratamento que salvará a sua vida. Porém, o jovem e sua família recusam a transfusão. São Testemunhas de Jeová e, pelas regras da religião, uma pessoa não pode receber em seu corpo o sangue de outra, o sangue dado por Deus não pode ser “profanado” com o de outro ser vivo. Como Adam é menor de idade, o hospital leva a decisão à justiça, e cabe à Fiona decidir qual será o futuro do garoto. Read more

NW, de Zadie Smith

nwTenho uma predileção por livros em que, aparentemente, nada acontece. São só personagens andando para lá ou para cá, às vezes nem isso. Um livro pode se passar inteiramente em uma sala, em um sofá, em uma cama – como a história da literatura já mostrou várias vezes –, só se alimentando do caos da mente humana. Quem fica muito tempo parado reconhece isso. Não é fácil lidar com os próprios pensamentos, às vezes. A sensação de que “nada acontece” é só isso, uma sensação. A verdade é que tudo acontece, de forma desordenada e sem sentido. NW, o último romance de Zadie Smith, passa essa sensação em vários momentos. Suas personagens quase não ultrapassam os limites do bairro de Kilburn, na região North West de Londres (daí o título, NW), e suas vidas se cruzam a todo o instante, mas de uma forma tão corriqueira, usual, que não parece que algo realmente vai acontecer.

Neste livro Zadie Smith concentra a narrativa em quatro personagens: Leah Hanwell, Natalie Blake, Felix Cooper e Nathan Bogle. Mas podemos dizer mesmo que as principais são Leah e Natalie, melhores amigas desde a infância, em quem Zadie concentra a maior parte do livro. Nathan cresceu no mesmo conjunto habitacional e estudou na mesma escola que as duas, e Leah sentia um queda por ele quando tinha 10 anos de idade. E Felix é só mais um morador da região que cruza com os três de maneiras distintas. Apesar de terem crescido no mesmo lugar, os quatro construíram vidas muito diferentes, e é isso o que todo o romance mostra: pessoas destoantes se cruzando em algum momento, passando pelo mesmo desafio de sobreviver em uma cidade que às vezes parece acolhedora, outras vezes estranha, construindo suas identidades ou tentando escapar delas.

Leia a resenha completa no Posfácio.

 

Serena, de Ian McEwan

serenaEra pouco mais de meio-dia do dia 7 de julho de 2012 quando Ian McEwan revelou para uma Tenda dos Autores lotada – e para quem assistia de fora – o final de seu novo romance, lançado mundialmente no Brasil durante a Flip. O segredo de Serena pertencia agora à todos, não só àqueles que já tinham dado conta do livro. Se o próprio autor de uma obra faz isso – entrega de mão beijada, durante um bate-papo, o final de uma história surpreendente –, quem sou eu para reclamar. Mas tudo não poderia passar de mais uma estratégia de manipulação de McEwan com o público, agora podendo ver ele fazer isso ao vivo, cara a cara, e não só através dos livros. Afinal, neste mesmo lugar, ele diria – ou já tinha dito, não lembro direito – que “manipular o leitor é o meu maior prazer”.

Serena é inteiramente um jogo de manipulação. O leitor é levado a pensar uma coisa durante o decorrer da leitura, enquanto o que acontece na verdade é outra. É de se esperar isso de um romance ambientado na Inglaterra do início dos anos 1970, protagonizada por uma funcionária do serviço de inteligência britânico, o MI5. Agentes, espiões, documentos secretos e disfarces, essas coisas todas dos filmes do 007 – mas sem armas, basicamente. Serena Frome é uma jovem de vinte e poucos anos recém formada em matemática pela universidade de Cambridge. Do seu envolvimento com o ex-orientador de um ex-namorado, um professor mais velho, ela acaba conseguindo uma entrevista com o MI5. O professor sumiu da sua vida, mas o emprego foi conquistado, em uma função burocrática e chata que não interessou muito a ela logo no começo. Read more

Na praia, de Ian McEwan

na-praiaHoje é raro um casal chegar na sua lua de mel sem saber o que deve – e como – fazer. O sexo não é mais aquele ato “sagrado”, que deve ser praticado apenas quando as duas almas apaixonadas estão ligadas pelos laços do matrimônio e toda essa lenga-lenga que persistiu a reprimir desejos durante tanto tempo. O homem sempre teve essa liberdade de ter algum tipo de relação sexual antes do casamento, e inclusive fora dele. Já para a mulher, sua virgindade era seu selo de honra, e tratar desse assunto com quem quer que fosse era um ato impensável. Existe ainda certo conservadorismo quando o assunto é a sexualidade da mulher, um conjunto de regras que deve reger o comportamento das “boas moças”, as para casar. Tudo besteira.

Na praia se passa no início dos anos 60, uma época em que os jovens estão experimentando maior liberdade em tudo: sexo, família, estudos, é a década da libertação, da quebra de regras conservadoras já ultrapassadas. Florence e Edward estão recém casados, em um hotelzinho na praia de Chesil, na Inglaterra, comemorando o matrimônio e a enfim entrada na vida adulta. Agora podem fazer o que quiserem, são os donos da própria vida. Porém, a ansiedade e medo resultados da inexperiência de ambos tornam a noite de núpcias em uma sucessão de angústias, e não de prazer. Neste livro, Ian McEwan revela o pensamento retrógrado dos dois jovens presos pela noção de dever que o homem e a mulher possuem no casamento, “educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível.” Read more

O sentido de um fim, de Julian Barnes

o-sentido-de-um-fimA memória nunca é exata, nem na juventude e muito menos na velhice. Estudos da mente constatam que, a cada vez que uma lembrança é resgatada, ela reaparece com pequenas mudanças imperceptíveis. Manipulamos nós mesmos a nossa memória para fazê-la se adequar ao que julgamos ser a maneira exata com que os fatos se sucederam. Ou seja, mentimos para nós mesmos, e o motivo pode ser conforto, orgulho, controle. Julian Barnes utiliza toda essa falta de certeza das lembranças para estruturar seu livro vencedor do Man Booker Prize de 2011, O sentido de um fim. Narrado por um homem idoso, ele evidencia toda a incompletude da história que se conta, causada pelas memórias falhas e a ausência de mais testemunhas ou documentações.

Dividido em duas partes, o romance começa com Tony Webster relembrando seus tempos de escola, em que convivia em um grupo formado por mais dois garotos, Alex e Colin. A história parte do momento em que um quarto membro é adicionado a essa reunião de jovens mentes inteligentes, como eles se consideravam: Adrian, um garoto isolado, sério e que pareceu ser bem mais superior em inteligência e sagacidade que seus colegas. Essa primeira parte narra uma gostosa trama escolar em que a amizade é um forte elo que liga esses garotos inseguros do que encontrarão na vida, que aguardam ansiosos pelas responsabilidades dos adultos, suas aventuras, dilemas e problemas, mal vendo a hora de conseguirem uma namorada, ir para festas, viver a vida como se ela fosse um dos livros que leem.

Mas “o que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu” (p. 9), diz Tony. Da escola para a faculdade, eles nem tinham ideia de que o que faziam naquele tempo já determinaria o que seriam no futuro. Os amigos vão para diferentes universidades, Adrian consegue entrar para Cambridge, Tony arruma uma namorada, Veronica, e esporadicamente os amigos se reencontram, cada vez menos, se tornando mais diferentes e afastados. Até Adrian se suicidar, e o grupo de quatro voltar a ser três, e os três se dispersarem – o namoro com Veronica acaba, a vida segue em frente com o trabalho, uma nova mulher, uma filha e pronto, chega ao ponto em que ele é um velho contando sua história.

A segunda parte concentra-se num reencontro inusitado com esse passado. Uma herança inesperada que envolve a vida de Adrian, Tony e Veronica, e que na verdade é o estopim para esse monólogo do narrador – pois o texto se constrói não como uma narrativa normal, com início, meio e fim, ou não é assim que parece ao leitor. A impressão é estar ouvindo um velho contar sua história a quem quiser ouvir, mas colocando no meio dela suas teorias, sua filosofia, aquelas discutidas por ele e seus amigos na juventude, enquanto tenta desenrolar os fios que ainda o prendem a Veronica, sua família e ao amigo suicida. E, nesse monólogo, evoca a reação do tempo na sua vida, nas suas lembranças, tão desconexas e inexatas, impossíveis de serem confirmadas ou corrigidas pelos outros envolvidos – pois ou todos já se foram, ou estão esquecidos. Sem documentos para comprovar o que conta, nada além de sua própria memória debilitada. E como Adrian sentenciou em uma antiga aula, essa história se torna uma “certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação.”

O que se confirma no fim é que Tony não é um narrador confiável. A única certeza que o leitor tem é do que ele se tornou: um homem confortável com sua solidão, ciente de que não fez da sua vida nem metade do que esperava que ela fosse em sua juventude. Um homem que tem uma ideia de como a vida funciona e o que se faz dela:

Você aposta num relacionamento, ele fracassa; você passa para outro relacionamento, ele fracassa também; e, talvez, o que você perca não sejam duas simples somas de números negativos, mas a multiplicação do que você apostou. Pelo menos, é essa a impressão que dá. A vida não é feita só de adição e subtração. Tem também a acumulação, a multiplicação de perdas, de fracassos.

A conclusão de O sentido de um fim é uma acumulação de dúvidas. De incertezas sobre o que realmente aconteceu a Tony, Adrian e Veronica. Julian Barnes trabalha com essa inexatidão da memória e implanta esses questionamentos na cabeça do leitor, que, como um historiador, fica tentado a reler tudo, a rever os documentos fornecidos pelo narrador para tentar, enfim, dar um sentido ao final do livro. E é assim que ele consegue fazer a história reverberar até que o leitor encontre sua própria teoria sobre o romance.