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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Literatura irlandesa

Conversas entre amigos, de Sally Rooney

conversas-entre-amigosConversas entre amigos (tradução de Débora Landsberg) é o romance de estreia de Sally Rooney, uma irlandesa de 26 anos que chamou atenção com sua história sobre os relacionamentos contemporâneos. Frances, de 20 anos, é uma estudante e poeta que se apresenta no círculo intelectual de Dublin com sua melhor amiga e ex-namorada, Bobbi. A atuação das duas no palco chama a atenção de uma jornalista de renome, Melissa, que está fazendo um perfil das jovens novatas da cena cult da cidade. As entrevistas que conduz com as garotas levam a uma aproximação com a vida íntima da própria jornalista, casada com Nick, um ator de cinema relativamente famoso, mais pela beleza do que pela capacidade de atuação.

É através de Frances que este romance confessional se desenrola. Ao entrar na vida de Melissa e de Nick, uma realidade tão distante daquela em que vive, duas coisas se tornam bem claras para ela: que Bobbi e Melissa ficaram rapidamente íntimas, e que ela se sente atraída por Nick, sendo que nunca teve uma relação com um homem antes.

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Nora Webster, de Colm Tóibín

nora-webster-2Uma mulher com mais de quarenta anos perde seu marido. Com duas filhas jovens já fora de casa, às voltas com a faculdade, e dois garotos (pré) adolescentes para cuidar, ela não tem muito dinheiro, não tem emprego, e as coisas não são exatamente fáceis para uma mulher no final dos anos 1960 na Irlanda, ainda mais uma viúva. Nora Webster, romance mais recente de Colm Tóibín – que veio para a Flip de 2015 – é a história dessa mulher. Um livro, segundo o autor, que levou anos para ser escrito e que traz ecos da história de sua própria mãe e de como ela, Tóibín e seu irmão lidaram com a perda do pai.

Nora Webster (tradução de Rubens Figueiredo) não é apenas um livro sobre o luto, embora ele esteja sempre presente. Quando começa a narrativa, seis meses após a morte de Maurice, um respeitado professor da cidade, Nora ainda está fragilizada, triste e inconformada com a perda do amor de sua vida. A toda hora ela pensa o que Maurice faria, relembra suas opiniões, conversas que tiveram sobre conhecidos da cidade, sobre suas famílias, sobre os filhos. O sofrimento dela é palpável, transmitido ao leitor pela escrita simples e tocante de Tóibín. Ele não precisa de muito para mostrar como Nora está emocionalmente desgastada, apavorada com o futuro dela e de sua família. E, ainda maior que isso, sua irritação com a maneira que passa a ser tratada por todos.

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Ulysses, de James Joyce

ulysses“O mais belo livro publicado em nossa terra durante a minha vida. Faz pensar em Homero”. Essa não foi uma frase de um crítico literário ou um escritor elogiando seu par. Está dentro de Ulysses, falando sobre o próprio livro, uma bela brincadeirinha de seu autor, ou assim me pareceu. Começar a ler o “clássico dos clássicos” vem acompanhado de certo nervosismo. Ulysses foi o livro do século XX, o grande romance, a obra que “tem-que-ser-lida-ou-você-não-conhece-literatura-de-verdade”, e que você “tem-que-entender-ou-é-um-analfabeto-funcional” – ou então que “é-difícil-pra-caramba-só-finge-que-entendeu-e-fala-que-leu-para-não-pegar-mal”. Não deve ser o livro com a melhor fama entre os leitores, mas é o mais admirado – algo meio tirânico de se pensar. Quando saiu a notícia de que uma nova tradução da obra-prima de James Joyce seria lançada no Brasil, o contrário tomou conta dos discursos na internet. Ulysses não é difícil, disseram. É só se deixar levar e aceitar o que o labiríntico dia 16 de junho de 1904 tem a oferecer. Foi com isso que decidi enfrentar o catatau de James Joyce, sem medo e sem me preocupar com o que ganharia com essa leitura.

A nota do tradutor Caetano W. Galindo que abre a edição lançada pela Penguin-Companhia e a introdução de Declan Kiberd me deixaram ainda mais animada a começar Ulysses. O livro, aliás, parecia ser tratado como uma entidade: é sempre referido como “O Ulysses”, como se o grandioso volume de mais de 1000 páginas que tinha em mãos fosse um ser tomado de alma. Não era simplesmente “um livro”. Mas apesar disso, o que Galindo e Kiberd tinham a dizer sobre ele – o primeiro sobre o traduzir, o segundo sobre o que ele aborda – tornaram o começo da leitura ainda mais tranquila. Por mais que tenha me tomado um tempo precioso de leitura, Ulysses foi sim prazeroso de ler, e cada minuto gasto me valeu à pena. Read more

O fantasma de Canterville, de Oscar Wilde

o-fantasma-de-cantervilleNo fim do século XIX, na Inglaterra, a família de um diplomata norte-americano, os Otis, ignora todos os avisos da região e decidem comprar a Reserva de Caça Canterville, uma propriedade assombrada há 300 anos por um misterioso fantasma. O diplomata, sua esposa, seu filho mais velho, a filha do meio e seus dois gêmeos, educados no estilo prático dos republicados dos Estados Unidos, não deram a mínima para as antigas lendas inglesas que, para eles, não passavam de invencionices. Mas O fantasma de Canterville (1891) é real, como bem mostra Oscar Wilde nesse conto que, por trás da fantasia, esconde ácidas alfinetadas nas mudanças do fim de século pelas quais a sociedade norte-americana e inglesa passaram.

O conto ganhou recentemente uma nova edição no Brasil pelo selo Eternamente Clássicos da editora Leya/Barba Negra, claramente buscando atingir um público mais jovem através da arte que lembra os filmes de Tim Burton e das cores chamativas na sua capa. A edição ainda é complementada com ilustrações de Wesley Rodrigues que lembram mais rascunhos que desenhos, e encaixam perfeitamente na proposta gráfica do livro. Após a compra da mansão dos Canterville, na primeira noite o fantasma se revela aos Otis, mas ao contrário do que qualquer pessoa que teme pela morte faria, nenhum membro da família se sente abalado pela aparição de Sir Simon Canterville. Read more

Brooklyn, de Colm Tóibín

brooklynCom algumas pessoas, acontece que a vida as leva para caminhos diversos como se houvesse alguma coisa oculta agindo sobre elas, obrigando-as a tomar decisões que não esperariam ter que enfrentar, que parecem ir contra sua real vontade. São pessoas que aceitam o que essa vida lhes proporciona, que baixam a cabeça e seguem com a rotina que lhes fora imposta, felizes por estarem bem, com saúde, trabalho e pessoas com quem conversar. Pessoas assim parecem monótonas, pouco interessantes, sem verdadeiras histórias para contar, mas pro trás delas pode existir uma boa narrativa que lhe faz pensar sobre como as mudanças e escolhas impostas por si mesmo podem alterar o curso da vida.

Colm Tóibín pega uma dessas pessoas para protagonizar seu romance, Brooklyn, com edição brasileira publicada pela Companhia das Letras. Eilis Lacey era apenas uma garota comum do início dos anos 1950, recém saída da escola, filha mais nova de uma família com três irmãos e uma irmã mais velha, vivendo em uma cidadezinha da Irlanda. Sem conseguir um emprego em sua cidade e sem nenhuma perspectiva de crescimento profissional, aceita a proposta de um padre irlandês que vive nos EUA para se mudar para o Brooklyn, trabalhar em uma loja e morar em uma pensão com outras garotas. Lá, ela se dedica ao trabalho e aos estudos de contabilidade, sonhando com um emprego em algum escritório, mas sem muitas outras ambições. Read more