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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Literatura japonesa

Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa

relatos-de-um-gato-viajanteExistem mais filmes sobre cachorros, mas no mundo animal, acho que dá para dizer que os gatos são quem dominam a literatura. Ou, pelo menos, que a literatura ajudou a formar a imagem que temos dos gatos. Confissões do gato Murr, Eu sou um gato, até O mestre e Margarida, para deixar essa lista mais gorda, apresentam felinos que vão além da fofura aparente – muito pelo contrário. Arrogantes, superiores, críticos, desconfiados, orgulhosos, traiçoeiros: esses adjetivos fazem uma imagem não muito lisonjeira dos gatos, mas é disso que a gente gosta. Só que os gatos vão muito além disso, quem tem sabe muito bem disso.

E Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa, é um livro que mostra isso muito bem (tradução de Rita Kehl, pela Alfaguara Brasil). O romance tem duas linhas narrativas: uma tradicional, em terceira pessoa, que dá conta de um passado que o outro narrador não viveu. E esse outro narrador é Nana, um gato de rua que foi adotado por Satoru, um homem de trinta e poucos anos, e que vive com ele há cinco anos. Nana tem todas essas características dos gatos que falei no parágrafo anterior: é orgulhoso, é arrogante, é teimoso. “O ser humano é uma criatura arrogante demais para quem não passa de um macaco gigante que sabe andar ereto”, ele diz. E ainda se considera um gato “excepcionalmente perspicaz”, com toda a humildade. Mas é o gato mais fofo que existe.

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Após o anoitecer, de Haruki Murakami

apos-o-anoitecerQuando tinha 16 anos, comecei a sentir dificuldades para dormir. Preferia passar as noites aproveitando a conexão gratuita da internet discada, conversando com pessoas distantes para passar o tempo, até o momento em que minha mãe, pela terceira vez, com certa indignação na voz, me pedia para desligar de vez o computador e ir dormir porque “você tem aula amanhã cedo, e já passou da hora”. Essa pseudo-insônia durou por mais uns três anos, principalmente no primeiro semestre em que estive dividindo um apartamento com mais duas meninas aqui em São Leopoldo. Sem ter pai ou mãe por perto, e calculando cada movimento para não acordar as gurias, pude passar minhas noites acordada, na internet. Depois que toda a rede mundial de computadores se recolhia para a cama, podia passar o resto da madrugada lendo e vendo vídeo clipes indies na MTV.

Contudo, o que eu realmente tinha vontade de fazer nesses momentos em que o sono não aparecia era sair pela cidade, caminhar para nenhum lugar em particular, entrar em algum bar que ainda estivesse aberto e ler nesses lugares, podendo ao mesmo tempo observar a ficção e a vida real. É isso o que Mari Asai faz em Após o anoitecer, de Haruki Murakami, um romance que acompanha uma noite na vida dessa jovem enquanto ela perambula pelas ruas de Tókio, com certeza menos desertas do que as de São Leopoldo. Durante as cerca de sete horas narradas neste livro, Mari conhece figuras da noite que acabam lhe fazendo pensar sobre sua relação com a família e seu futuro. Pessoas que, assim como ela, estão passando essas horas decidindo que rumo tomar na manhã seguinte. Read more

Norwegian Wood, de Haruki Murakami

norwegian-woodNas últimas semanas, o suicídio tem virado um tema de reportagens e discussões pela mídia. Isso no jornalismo brasileiro, que raramente relata casos em que pessoas tiram a própria vida – uma questão ética da profissão que até hoje ainda não conseguem explicar direito. Houve dois casos recentes que chamaram bastante atenção: o da menina indiana de 17 anos, levada pela polícia a não denunciar o estupro coletivo que sofreu e decidiu se matar; e a de uma jovem estagiária de advocacia paulista, estuprada pelos colegas do trabalho numa festa de fim de ano que se jogou do prédio em que morava. Ambos os casos tem por trás do suicídio um trauma físico e mental enorme, uma violação do corpo e a impunidade dos agressores. Coincidentemente, enquanto esses casos vinham à tona na mídia brasileira, estava lendo Norwegian Wood, livro publicado pelo japonês Haruki Murakami em 1987, em que o suicídio tem uma natureza levemente diferente da que impulsionou essas tragédias reais.

Toru Watanabe está desembarcando em Hamburgo quando ouve, dentro do avião, a canção “Norwegian Wood”, dos Beatles, que reacende sua memória sobre Naoko, uma grande amiga que teve na adolescência. A partir disso, narra a sua vida nos primeiros anos na faculdade de Tóquio, tendo como ponto central o relacionamento conturbado com ela, marcado por perdas e sentimentos confusos e dolorosos. Naoko era namorada de Kizuki, seu melhor amigo, que se matou aos 17 anos sem deixar aviso ou alguma carta explicando seus motivos. Dois anos depois, Toru reencontra Naoko em Tóquio e começam a sair mais vezes juntos, até o ponto em que os dois se envolvem afetivamente. Logo depois, ela se retira para uma clínica a fim de tratar distúrbios que passa a sentir por conta do conflito de estar envolvida com o melhor amigo do namorado morto, e outras questões íntimas que mais tarde revelará ao protagonista. Read more

Jovens de um novo tempo, despertai!, de Kenzaburo Oe

jovens-de-um-novo-tempo-despertaiSe algumas personagens dos contos escritos por Kenzaburo Oe, escritor japonês ganhador do Nobel de Literatura em 1993, são dotados de certa dificuldade de externar seus sentimentos e preocupações – expostas através de uma narrativa cuidadosa –, uma faceta diferente, mas ainda assim semelhante a alguns de seus textos curtos, pode ser vista em Jovens de um novo tempo, despertai!. O narrador/protagonista desse livro não conta com nenhum problema de expressão. Lidar com palavras, aliás, é o que o sustenta. Escritor conhecido e renomado do Japão, o protagonista decide a, finalmente, iniciar uma empreitada que vinha adiando: “Vou escrever o livro de definições do mundo, da sociedade e do ser humano nem tanto para dedicá-lo a meu filho, mas com o objetivo de purgar e de incentivar a mim mesmo.”

Esse filho é Iiyo, seu primogênito, um jovem de 19 anos com deficiência mental. Uma criança excepcional, para utilizar a expressão mais recorrente sobre a condição do garoto. A motivação de escrever esse livro de definições vem daquela preocupação constante dos pais sobre o que acontecerá com o filho depois de sua morte. No caso de Iiyo, uma tarefa mais urgente, especial, pensada para explicar a ele e a outros jovens como ele como o mundo funciona. Deixar para ele um manual prático e compreensível sobre o mundo que substitua o pai quando ele estiver ausente. Read more

14 contos de Kenzaburo Oe

14-contos-de-kenzaburo-oeAo falar da literatura japonesa na introdução de 14 contos de Kenzaburo Oe, Arthur Dapieve destaca o talento desse povo em dizer muito usando poucas palavras. Ou seja, da forma que os japoneses, como sociedade em geral e não só seus escritores, dizem tanto sobre suas dores e problemas quando justamente silenciam. É estranho pensar na literatura como algo que se destaca pelo silêncio, pela ausência de palavras, sejam ditas ou escritas, justamente na abertura de uma coletânea de contos de um dos maiores escritores japoneses, ganhador do Nobel de Literatura em 1994. Ainda mais que Kenzaburo Oe não esconde nenhum desses dramas dentro dele mesmo, mas confere à suas personagens certa dificuldade para falarem de seus problemas – e, por isso, o talento da narrativa se faz indispensável para que o leitor veja o que elas não dizem.

14 contos de Kenzaburo Oe reúne textos do autor escritos entre 1957 e 1990, selecionados e traduzidos por Leiko Gotada nessa edição publicada pela Companhia das Letras. Nesses contos, um pouco da História e questões sociais do Japão estão presentes, passadas para a ficção quase como se fossem fantasia e, mais do que tudo, o próprio autor está dentro desse livro. E assim como Dapieve encerra a introdução da edição dizendo que a obra de Oe trata da “dignidade do ser humano”, o primeiro conto – ou melhor, roteiro – do livro traz essa questão como ponto central. Mas diferente da história absurda marcada por desencontros, comunicação falha e final feliz encontrado nesse primeiro texto, os outros 13 contos do autor se aprofundam mais e mais em retratar o homem e suas tragédias. Read more