r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

Tag: Literatura nacional (page 1 of 4)

Roupas sujas, de Leonardo Brasiliense

roupas-sujasHá famílias onde nada é segredo. Pais e filhos conversam abertamente sobre o que estão sentindo, sobre seus problemas mais complicados e íntimos, e tudo se resolve numa boa conversa. Eu não vim de uma família assim, e, ainda hoje, não sinto que posso falar sobre qualquer coisa com meus pais, tios, avós ou primos. Pode ser uma forma de autoproteção, de evitar reprimendas e julgamentos, ou por achar que vivo uma realidade distante da deles e por isso não haveria compreensão. Assim, nem as coisas mais mundanas são ditas.

Minha família é formada por pessoas que dedicaram boa parte da vida ao trabalho duro, daquele que te deixa tão cansado no fim do dia que não sobra tempo ou forças para pensar sobre o que acontece dentro da cabeça – era assim até pouco tempo, pelo menos, até algumas mudanças e perdas derrubarem algumas barreiras sentimentais dos meus tios e avós. Por mais que tenha crescido com muito mais mordomias do que os meus pais, sem as obrigações domésticas que eles tiveram desde pequenos, eu desenvolvi esse silêncio sobre o que acontece comigo e o que estou sentindo. É bem provável que seja por isso que eu tenha gostado tanto da leitura de Roupas sujas, de Leonardo Brasiliense.

Read more

Só faltou o título, de Reginaldo Pujol Filho

so_faltou_o_tituloUma das coisas que mais me surpreendeu depois de começar a trabalhar em uma editora é a quantidade de gente que despreza a literatura contemporânea e os autores novos. Os motivos são vários: não lidam com profundidade em seus livros com os problemas de nosso tempo; não têm o requinte dos clássicos e assassinam a nossa língua; são narrativas feitas para se agradar e agradar aos seus pares etc. Sem falar nas acusações de panelinhas, de favorecimento porque o autor recém lançado é amigo de um amigo de um amigo que conhece um editor e, por algum tipo de favor, conseguiu ser publicado. Mas nenhuma dessas acusações é mais divertida do que aquela que diz algo parecido com: “Não entendo como vocês publicam esse tipo de lixo quando tem um autor muito melhor para ser publicado: eu”. Ter confiança no trabalho e amor próprio é bom, claro, mas devemos baixar um pouco a bola da amargura quando o pobre escritor renegado pelo mercado editorial se acha absurdamente melhor que qualquer coisa que esteja nas livrarias.

Por conta disso, ri muito logo de cara de Edmundo Dornelles, protagonista do primeiro romance de Reginaldo Pujol Filho, Só faltou o título. Entre os 40 e 50 anos, idade que tem durante a história, Edmundo escreve páginas e páginas de rancor dirigidas ao mercado literário pelas constantes recusas a seus romances – tão bem escritos, elaborados, obras-primas da literatura nacional que ninguém lê porque boas histórias não vendem no Brasil e nem interessam aos “leitores”. Além de elaborar impropérios contra autores, leitores, editores e livreiros, ele também reclama da gentinha sem cultura e sem inteligência que o rodeia: a namorada, Babi, com quem passa a morar junto em 2002 e o atormenta por considerar sua escrita um “hobby”; os colegas de bar, que fica logo abaixo de seu apartamento em Porto Alegre e que frequenta assiduamente; Tatiana Fagundes, a assistente editorial da Record que lhe passa as revisões que rendem o único dinheiro que consegue ganhar; o irmão Sérgio, que continuou com o negócio do pai, sua mãe e toda a família que o vê como alguém sem sucesso na vida. Ninguém é tão inteligente, culto e importante como Edmundo, e ninguém é capaz de enxergar a sua grandeza.

Read more

Tempo de espalhar pedras, de Estevão Azevedo

tempo-de-espalhar-pedras-cpaA terra neste lugar já foi próspera, mas não se pode dizer o mesmo nos dias de hoje. Plantação nunca vingou muito, só para o sustento. Criação ninguém nunca teve muita para dela tirar lucro. A riqueza que havia ali vinha das pedras, do garimpo de diamantes que levou até lá homens em busca de riqueza, e que caíram nas mãos controladoras de um coronel capaz de confiscar as próprias ferramentas de trabalho como pagamento de dívidas que ele forçou seus homens a adquirir. Hoje eles continuam a trabalhar com menos afinco que antes, mas com esperança e desespero maior, movidos pela fome em busca da última pedra.

Em Tempo de espalhar pedras, Estevão Azevedo acompanha a vida de quatro personagens nessa terra sem nome: Ximena, filha de um dos garimpeiros mais velhos, se engraça com Rodrigo, este caçula de garimpeiro rival, Diogo. Ainda há Joca, seu irmão, que busca uma forma de mostrar seu valor, se não para a família que seja para Bezerra, amigo que o acolhe na busca pela pedra em local escondido das fuças do coronel. E, por fim, Silvério, o carola que reza enquanto, alucinando de fraqueza e fome, procura convicto a pedra que se esconde quiçá debaixo da própria casa. Read more

Enquanto Deus não está olhando, de Débora Ferraz

enquanto_deus_2z_SAIDAEnquanto Deus não está olhando, o mundo inteiro pode mudar e você nem perceber. É o que o pai de Érica diz, internado no hospital, debilitado pelos anos de alcoolismo. A frase, em si, demora para aparecer no romance de Débora Ferraz, vencedor do Prêmio SESC de Literatura de 2014. Na verdade, a palavra (ou nome) “Deus” é pouco citada durante toda a narrativa de mais de 360 páginas, mas ainda assim é o que dá título ao livro. Enquanto Deus não está olhando é sobre mudanças, e sobre como lidar com elas.

Érica Valentim é a narradora, uma jovem pintora de 20 e poucos anos. Ela está perdida, em busca de um pai que sumiu: um pai alcóolico, que não a compreende e nem aprova sua escolha profissional, mas que mesmo assim é amado e procurado pela filha. Na busca, ela é acompanhada, ou melhor, amparada, por Vinícius, um velho amigo com quem não mantinha contato há cinco anos. No desespero, ela liga para ele, e ele a ajuda. Eles têm uma história mal resolvida, e o retorno do contato é permeado pela tensão desses anos sem se falar. Enquanto procura o pai, Érica evita pisar na garagem recém transformada em ateliê, uma reforma caseira que seu pai com certeza não aprovaria. Mas ela nem teve chance de contar a novidade a ele, pois antes disso ele sumiu de sua vida. Só não da maneira como as primeiras páginas do romance dão a entender.

Leia a resenha completa no Posfácio.

Ritos de passagem, de Fábio Kabral

ritos-de-passagemNumumba, Nolom, Kinemara e Gulungo são quatro adolescentes que vivem em um lugar inspirado na África, em uma época em que o mundo ainda era cheio de criaturas fantásticas e magia. A vida deles não é nada simples, como as provações que estão vindo pela frente vão lhes mostrar.

Numumba e Nolom, dois amigos de uma aldeia aos pés da Munda Central, são enxotados a toda hora pela comunidade. Numumba é filho do soldado mais fraco, seu trabalho é levar comida para os outros soldados, e gasta o resto do tempo sonhando ser um herói que destrói criaturas malignas que assombram a região. Nolom é escravo de um senhor gordo e sonolento, que tem a audácia de desejar ser, um dia, um grande contador de histórias e sábio. Kinemara é uma princesa, a mais mirrada e amedrontada da linhagem Kalumba, filhas da Primeira Mulher, e está temerosa com o seu futuro, em que terá de lutar contra suas próprias irmãs. E Gulungo é um escravo da cidade de Kinemara, um garoto que à princípio não deveria nem ter nome, quanto mais ser notado pelos outros – ou pela princesa.

Leia a resenha completa no Posfácio.

A festa é minha e eu choro se eu quiser, de Maria Clara Drummond

a-festa-e-minha-e-eu-choro-se-eu-quiserFelicidade é ter status, conhecer pessoas, ser convidado para festas. É ter um emprego badalado, que paga bem e te faz conhecer mais pessoas e ir para mais festas. Essas afirmações podem ser verdadeiras para muitos jovens de hoje. Mas para Davi, protagonista e narrador de A festa é minha e eu choro se eu quiser, romance de estreia de Maria Clara Drummond, não há felicidade nisso – nunca houve. Nem todos os amigos do mundo são capazes de fazer você esquecer que está insatisfeito, sem saber com o quê ou por quê. A vida é mais complicada que uma noite de festas e um círculo social da modinha, e felizmente (ou infelizmente), não são todos que possuem uma autoconsciência capaz de lhes dizer que aparentar felicidade não é o mesmo que ser feliz.

Davi é um cineasta do Rio de Janeiro que aceita um emprego para dirigir vídeos publicitários em São Paulo. É um jovem bonito, com um bom salário, que frequenta festas todas as noites e também viaja para Berlim. Mas é a sua autoconsciência a responsável pela narrativa. Ela aponta o que parece falso nas relações que mantêm e nas que observa durante as noitadas com seus supostos amigos. Ela o lembra de seu passado pouco popular, de quando era um menino gordinho que tomava antidepressivos e dormia no palco durante uma apresentação da feira de ciências. Ela repete o tempo todo que ele está perto do fracasso, que seu sucesso não é real e logo ele será desmascarado. Ela o trava, o desanima e o arrasta para um buraco interno do qual ele luta para sair. Read more

Num estalar de dedos, de João Campos Nunes

estalarO tempo é relativo, como Albert Einstein nos provou. Para quem está no espaço, a passagem de tempo é mais lenta do que para quem está na Terra. Mas não precisamos ir até a Lua ou Marte ou Saturno para tirarmos a prova disso. Um dia de tédio sentado na escrivaninha do trabalho olhando para um computador passa muito mais lentamente que um sábado de passeio pelos parques da cidade – é de praxe: os momentos ruins, angustiantes ou modorrentos passam devagar; já os alegres, eufóricos e intensos, vão embora assim, num estalar de dedos.

É num estalar de dedos que a história de Jacó acontece. Primeiro, há a visão da traição, Sara na cama com outro homem, que não sabemos quem – ainda. Depois, o jorro de emoções, pensamentos e injúrias contra a mulher e contra a vida, lembranças de relações passadas e do encontro com Sara que passam pela mente do protagonista rapidamente, num intervalo de cinco segundos. Em Num estalar de dedos, João Campos Nunes dobra os milésimos em posts e tweets que guardam toda a dor da traição e a indignação pelo amor que Jacó sente. Meteorologista de formação, ele parece ser um homem comum: tem seu emprego, tem amigos, é dotado de certa timidez com as mulheres, que mantém desde a juventude, diferente da falta de vergonha de seu melhor amigo, Fernão. Jacó parece ser um homem calmo, quieto, mas guarda dentro de si tudo aquilo que gostaria que explodisse para todos ouvirem.

Leia a resenha completa no Amálgama.

Noites de alface, de Vanessa Barbara

noites-de-alfaceO primeiro parágrafo já tinha me pegado de jeito logo na primeira leitura, lá quandoNoites de alface era só um capítulo solto dentro da Granta dos 20 melhores jovens escritores brasileiros. Não sou de colecionar “inícios marcantes” de romances, novelas ou contos, mas acho que vou começar a fazer isso agora:

 

Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoitos abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.

Em um parágrafo de poucas linhas, Vanessa Barbara passa ao leitor toda a dimensão emocional da história: Ada morre inesperadamente, e deixa uma falta enorme em sua casa. Falta que irá permear todo o romance. No parágrafo seguinte, sabemos quem é que realmente vai sofrer com essa perda: Otto, o homem com quem é casada desde 1958 e que nunca saiu do lado dela por mais de 50 anos. Ada era a única pessoa com quem Otto se importava e falava. Na pequena cidade do interior, na casinha amarela prensada entre outras casas que ocupam o morro em que está localizada, é apenas com ela que ele interage. Não possuem filhos ou parentes próximos, e Otto só nutre amizade com uma pessoa, o Sr. Tanaguchi, um ex-soldado japonês da Segunda Guerra que agora sofre de Alzheimer (e que, por conta disso, Otto não visita mais).

Leia a resenha completa no Posfácio.

Quiçá, de Luisa Geisler

PV Rio de Janeiro (RJ) 09/10/2012 Capas de livroFoto: ReproduçãoEu tenho um celular da moda. Roupas da moda. Talvez pudesse ter um carro da moda, um apartamento decorado por um decorador famoso, livros de design na mesinha de centro, a televisão mais cara, com mais polegadas e mais funções extras além da tradicional função de “ver TV” que provavelmente eu deixaria ligada a tarde inteira sem mal olhar para ela. Poderia ter essas coisas se economizasse, ou se eu me importasse com elas. Mas muita gente se importa, principalmente hoje. Ter é ser. É status. E há quem dê mais valor a isso do que às coisas que realmente são importantes.

Clarissa é uma menina de 11 anos muito mais madura do que sua idade aparenta. Ela é a filha única de Lorena e Augusto, um casal de publicitários donos de uma agência que moram no bairro mais bem localizado da maior cidade do país, tem o melhor carro, os melhores gadgets, os melhores amigos ricos e a melhor TV “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (embora nunca estejam em casa para usufruir das centenas de canais da TV a cabo nesse lindo aparelho). Clarissa é bem solitária, tem poucos amigos na escola, está um pouco acima do peso e usa roupas estranhas, maiores para o seu tamanho, todas presente de uma mãe que não sabe nem qual é a numeração das calças da filha. Ela esquenta sua comida sozinha, brinca com seu gato, Zazzles, e assiste a programas na televisão “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (prefere os documentários, nunca aproveita a tal conexão à internet) até a hora de dormir, e talvez nem veja seus pais no fim do dia. Clarissa é jovem demais para ter a vida medíocre e triste que Luisa Geisler narra em Quiçá, seu primeiro romance. Read more

Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari

digam-a-sata-que-o-recado-foi-entendidoUm escritor que vai para Dublin passar um tempo para escrever um livro ambientado na cidade provavelmente vai falar de James Joyce em algum momento da narrativa, certo? Errado. Nem usar o estilo Ulysses de ser? Talvez. Mas a referência pode não ser assim tão clara, e aí você passa um livro inteiro sobre Dublin sem nem pensar em Orlando Bloom, Molly, Joyce e companhia. Melhor fugir do clichê. Quem esperaria um pouquinho da grande obra joyceana em Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari, pode se decepcionar um pouco, mas apenas nesse aspecto. Só porque se passa em Dublin e as personagens não sabem muito bem o que fazer com a vida e as coisas simplesmente “acontecem” com elas, não quer dizer que Joyce deveria estar ali aparecendo nas entrelinhas de cada página – na verdade ele aparece, quando o protagonista fala de “turistas pretensiosos”. Esse parágrafo só está aqui para dizer que não pensei em Joyce em momento algum da leitura, e isso foi bom.

Digam a Satã… faz parte da coleção Amores expressos, essa que leva escritores para alguma cidade bacana do mundo para que escrevam uma história de amor que se passe nela. Simples assim. Mas o amor não está tão evidente no livro de Pellizzari, e por vários momentos me perguntei quando ele surgiria. Contudo, ele está sim, só que de um jeito diferente. Read more