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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: literatura norte-americana (page 1 of 6)

Manual da faxineira, de Lucia Berlin

manual-da-faxineiraEu não fazia ideia de quem era Lucia Berlin até o lançamento de Manual da faxineira aqui no Brasil. Por algum motivo – talvez por causa da capa, ou do título –, não dei atenção para o livro quando começou a sair naquelas listas estrangeiras de melhores livros do ano, em 2015. Berlin não era uma autora muito lida nos EUA – sim, ela é americana –, ela era conhecida entre outros escritores, admirada por eles, mas não chegou a atingir o grande público. Não até Manual da faxineira. E não é porque seus contos são difíceis, intelectuais demais ou algo do tipo. Berlin tem uma escrita direta e bem-humorada, não é de se entender mesmo porque só anos depois de sua morte é que seus textos finalmente “estouraram”.

Manual da faxineira (tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras) reúne 43 contos dos 70 e poucos que ela escreveu até morrer, em 2004, aos 68 anos. Não é uma obra gigantesca, infelizmente. Porque é impossível não querer ler mais dela depois de terminar esse livro. Assim como é impossível separar com clareza o que é ficção e o que é sua vida, pois um dos ingredientes principais dos contos são suas próprias experiências. As enfermeiras, atendentes, professoras, faxineiras e assistentes que protagonizam suas histórias são profissões que ela mesma exerceu. Nascida no Alasca, ainda criança voltou para a cidade de sua família materna no Texas, quando o pai foi lutar na Segunda Guerra, e depois de lá viveu em diversas outras cidades dos EUA, do México e do Chile (El Paso, Oakland, Nova York, Cidade do México, Santiago…). Teve três casamentos, quatro filhos, enfrentou o alcoolismo, assim como essas personagens.

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Complô contra a América, de Philip Roth

complo-contra-a-americaSei que é bobagem essa coisa de “currículo literário”, de que certas obras ou autores são obrigatórias. Mas sempre senti que, se tem um autor que eu deveria mesmo ler, esse seria Philip Roth. E demorei para pegar um livro dele. Com todo esse negócio de Donald Trump presidente, Bolsonaros e seus fãs, gente achando que a ditadura deve voltar e tudo o mais, a escolha para começar a ler Roth foi mais do que certeira: Complô contra a América, lançado em 2004 (tradução de Paulo Henriques Britto).

Neste romance com ares autobiográficos, Roth imagina um cenário em que Charles Lindbergh – pioneiro da aviação, um herói americano, porém simpatizante do nazismo – vence as eleições presidenciais americanas em 1940, derrotando Franklin D. Roosevelt. Com isso, o cenário dos EUA, um lugar até então seguro para os judeus em plena Segunda Guerra Mundial, muda totalmente. Tudo isso é visto pelo pequeno Philip Roth, com sete anos de idade. Seu pai tinha fé absoluta de que Lindbergh jamais teria chances de chegar à presidência. Sua simpatia pelo nazismo era evidente demais, e nenhum cidadão americano em plena consciência pensaria que essa seria uma boa escolha. Enquanto isso, Roosevelt havia tirado o país da crise, ajudado os americanos, era visto quase como um herói pelo pai de Roth. Como Lindbergh chegou, então, a vencer as eleições?

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O fim da história, de Lydia Davis

81YPy2d4ZVLLydia Davis é um dos principais nomes do conto norte-americano. Tipos de perturbação, seu primeiro livro lançado no Brasil, é uma boa prova disso. Com contos curtíssimos, alguns com apenas um parágrafo ou uma frase, até os contos mais longos, Davis cria histórias como se isso fosse a coisa mais fácil do mundo. São textos que falam de solidão, relacionamentos, arte, abrir embalagens difíceis, tudo com um humor sutil, sem precisar carregar nos enfeites – isso quando tem enfeites. Mas seu primeiro romance que li não me causou o mesmo efeito.

O fim da história (tradução de Julián Fuks) é um romance curto que narra uma história de amor fadada ao fracasso. A narradora, professora e tradutora, resolve colocar no papel o relacionamento conturbado que teve com um homem mais jovem do que ela. A questão do relacionamento não gira só em torno da idade, do desconforto que ela sente em muitos momentos por estar ao lado de alguém que não compartilhou uma mesma época que ela. Há muitas diferenças de personalidade entre os dois, diferenças que eram do conhecimento de ambos desde o início. Então não foi uma surpresa, nem para a narradora nem para seu antigo amante, o fim que sua história teria. A surpresa é a obsessão que veio junto com o término.

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Lincoln in the Bardo, de George Saunders

lincoln-in-the-bardoGeorge Saunders é um dos principais nomes do conto norte-americano. Aqui no Brasil, lançou Dez de dezembro, livro que reúne dez contos que, como escrevi na época, são “de alguma forma ligados a questões como a realidade obscura da vida no subúrbio, conflitos morais, o cotidiano com suas falhas, acertos, dramas e comédias”. Os contos possuem certa dose de fantasia, ou de absurdo, mas são, basicamente, sobre questões existenciais, sobre o comum da vida. Lembro de ter gostado de tudo nesses contos: dos enredos, das personagens, da maneira com que Saunders escreve. Então não foi por puro acaso que li Lincoln in the Bardo, seu primeiro romance que foi lançado no começo desse ano.

Lincoln in the Bardo chegou com grande barulho lá fora (aqui deve ser lançado mais para o fim do ano). Não só por ser a primeira narrativa longa de Saunders, que também dá aulas de escrita criativa, mas por causa da própria inventividade do autor. Outro detalhe chamativo é o seu audiobook, que tem um elenco invejável: Nick Offerman, David Sedaris, Carrie Brownstein, Ben Stiller, Julianne Moore, Miranda July, Susan Sarandon, Jeff Tweedy, Bill Hader, o próprio Saunders e muito mais gente. Só essa lista já dá uma ideia do que é essa história e de como ela é contada, e aumentou todas as minhas expectativas para a leitura. Expectativas que foram muito bem alcançadas.

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História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang

HistoriaDaSuaVidaGEsse é um daqueles raros casos em que fiquei com muita vontade de ler o livro depois de ver o filme. Quando saí da sessão de A chegada, queria conhecer tanto a história original quanto os outros contos de Ted Chiang – a ideia toda apresentada no filme me pareceu legal demais para me contentar só com o audiovisual. Claro que as indicações de pessoas cujo gosto literário eu confio também ajudaram na decisão de ler Chiang, assim como algumas entrevistas do próprio autor – ele parece ser um daqueles caras de boas que não quer muita atenção, só fazer seu trabalho e escrever uns textos fictícios vez ou outra, gosto desse pessoal.

Por conta disso, comecei a leitura de História da sua vida e outros contos com as expectativas mais altas (a tradução lançada pela Intrínseca é de Edmundo Barreiros). Quem me conhece sabe que sou contra esse negócio de cultivar expectativas positivas sobre qualquer coisa, porque a decepção é quase certa. Mas não foi assim com Ted Chiang. Os contos são bons. Assim, bem bons.

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A história secreta, de Donna Tartt

a-historia-secretaSe tem uma coisa que eu gostaria de fazer mais é reler os livros que eu gosto. Tem histórias que merecem receber nova atenção, entrar novamente nelas com um pouco mais de experiência e com uma visão diferente. Fora que, com as boas histórias que você já conhece, a chance de se divertir e se encantar com a leitura são grandes. É aquela coisa de reencontrar um amigo antigo que você gostava muito mas que, por algum motivo, não tinha mais muito contato. Nesse ano consegui, finalmente, reler A história secreta, de Donna Tartt. O engraçado é que só percebi que já tinha lido esse livro quando foi lançado no Brasil O pintassilgo, seu romance mais recente. Eu lembrava que, quando eu tinha 15 ou 16 anos, eu li uma história sobre um grupo de estudantes de grego e havia gostado muito dela. Acho que foi um dos primeiros livros mais “densos” que eu tinha lido na vida depois de Harry Potter. O problema é que eu não lembrava do título do livro e nem quem era a autora. E aí reencontrei Donna Tartt.

A história secreta (tradução de Celso Nogueira) é narrado por Richard, um jovem que nasceu e cresceu na Califórnia e, para escapar da mediocridade da sua cidade e de sua família, consegue uma bolsa na universidade de Hampden, em Vermont. Hampden não é das universidades mais exigentes dos EUA, mas cultiva certa fama entre o povo de “humanas” – artistas, beletristas etc. Abandonando o curso de medicina que fazia na Califórnia para entrar no mundo das letras, Richard tenta ao máximo se encaixar no estilo de vida de seus colegas, escondendo sua origem pobre para se integrar aos modos das pessoas que nasceram em famílias abastadas. Nas primeiras semanas de aula, ele topa com um grupo peculiar de estudantes: Henry, Bunny, Francis e os irmãos gêmeos Charles e Camila, que compõem a seleta turma de grego do professor Julian.

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Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

meu-nome-e-lucy-bartonLucy Barton tem complicações durante uma cirurgia e tem que passar alguns dias em observação, internada num hospital em Nova York. Da janela ela observa o edifício Chrysler, imagem constante em suas noites insones e solitárias, em que pensa nas duas filhas pequenas – se sentem sua falta, se seu marido está dando conta de cuidar das duas – e no trabalho deixado de lado momentaneamente por conta da saúde. Lucy Barton é escritora. No momento da cirurgia e da internação, está publicando seus primeiros textos em revistas renomadas. Mas a Lucy Barton que conta esta história já tem uma obra consolidada, e o que ela pretende aqui é relembrar cinco dias específicos de sua internação que acabou durando bem mais do que ela previa: os cinco dias em que recebeu a visita de sua mãe. Este é Meu nome é Lucy Barton, livro de Elizabeth Strout que esteve entre os indicados do Man Booker Prize deste ano (tradução de Sara Grünhagen), mas não chegou a ser finalista do prêmio.

Há anos Lucy não via sua mãe. Sua presença no quarto do hospital foi uma feliz surpresa, mas que também amedrontadora. Ela não fazia ideia do motivo da mãe estar ali (depois soube que seu marido ligou para a sogra e pediu que fosse visitá-la, pois ele tinha pavor de hospitais), e nem o que a mãe pensava do lugar onde estava, da vida que a filha vinha levando tão longe dela. Lucy e sua mãe são bem diferentes, e apesar dela notar algo familiar, uma sensação aconchegante vinda do passado, ela também sente que não está conectada com a mãe, assim como nunca se conectou muito à família após deixar a cidadezinha do interior onde cresceu. E assim a Lucy dos dias atuais explica essa relação não conflituosa, mas complicada, entre mãe e filha, em que constrói um relato sobre identidade, seu lugar no mundo e a importância das pessoas.

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Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara

uma-vida-pequena-de-hanya-yanagiharaNão vai ser fácil falar de Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara (tradução de Roberto Muggiati). Não é aquela velha dificuldade de falar de algo que você gostou muito sem saber direito o motivo de ter gostado. Eu sei bem porque gostei de Uma vida pequena. Mas é que esse romance foi difícil de terminar por conta do quanto Hanya te faz se apegar aos personagens e por todo o sofrimento que o livro contém.

Uma vida pequena conta a história de vida de quatro amigos que se conheceram na faculdade. Mas o romance começa depois disso: quando estão com vinte e cinco, vinte seis anos, todos voltam para a cidade de Nova York em busca de emprego ou fama. JB é um pintor e artista plástico, mantém um emprego de recepcionista numa agência porque espera fazer contatos para ser exposto numa galeria. Malcolm é arquiteto, está engatinhando em seus primeiros projetos. Tanto Malcolm quanto JB possuem famílias que os mantém bem financeiramente, e suas preocupações não são tanto com dinheiro, mas querem se destacar no que fazem.

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Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg

cidade-em-chamasCidade em chamas é um livro gigante, mas você não precisa ter medo dele pelo tamanho. Essa é a primeira coisa que falo para quem diz que ainda está meio receoso de dedicar tempo (e força, pois pesado) no primeiro romance de Garth Risk Hallberg. Não, Cidade em chamas não é nenhum labirinto literário quase que incompreensível que vai te fazer arrancar os cabelos – tipo Ulysses e Graça infinita, já que estamos falando de catataus e traduções do Caetano Galindo, que também cuidou dessa aqui. Cidade em chamas é, na verdade, uma história bem tranquila de ler. E talvez por isso muitos tenham se decepcionado com o livro, por esperar algo mais desafiador dele. Bem, ele não me decepcionou, mas também não colocaria na mesma categoria desses outros livrões citados.

Os Hamilton-Sweeney são uma família rica e tradicional de Nova York. William Hamilton-Sweeney III é a ovelha negra dessa família. Já saindo da adolescência ele foge de casa, descontente com o novo casamento do pai, que lhe dará uma madrasta e um tio pouco confiáveis (o irmão de Felicia é denominado, até, de Irmão Demoníaco). A irmã, Regan, mais certinha, ficou para trás para “tocar os negócios da família”. Mas isso só saberemos depois. É em volta desses irmãos que todas as outras personagens orbitam em maior ou menor grau. Quando Cidade em chamas começa, estamos em pleno réveillon, quando a cidade está deixando o ano de 1976 para trás. William, já com trinta e poucos anos, é uma lenda na cena underground de NY. Ex-líder da banda punk Ex-Post Facto, vive como pintor e divide o apartamento com o namorado, Mercer Goldman, um jovem professor de inglês negro que dá aulas numa tradicional escola para meninas. Vindo do interior dos EUA, Mercer ainda é um deslumbrado com a cidade que descobriu praticamente ao lado do namorado e sonha em escrever lá o grande romance americano. Já Regan está passando por um divórcio, com dois filhos, e entrando de cabeça ainda mais nos negócios da família.

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O último samurai, de Helen DeWitt

o-ultimo-samuraiSibylla foi ainda jovem para a Inglaterra. Inventou suas próprias habilidades para conseguir estudar em outro continente, não que ela não soubesse de nada, apenas porque não precisava que nenhuma autoridade atestasse o que ela sabe. Sibylla é uma jovem peculiar de uma família peculiar. Filha de uma mulher com talento para música, mas não talento suficiente para viver dela e se tornar a pianista que sonhava – assim como aconteceu com todos os seus tios. O pai, ateu, se desviou de um futuro brilhante nas ciências exatas para satisfazer a vontade de seu pai, um pastor, de pelo menos dar uma chance à religião. Duas pessoas que foram levadas a não fazer aquilo que queriam e nunca mais conseguiram voltar, que construíram juntos uma rede de motéis e cuja vida se resumia a isso – encontrar o próximo lugar à beira da estrada que poderia abrigar mais um empreendimento de sucesso. Sibylla quis sair dessa vida, e conseguiu.

Voltar para os Estados Unidos seria um fracasso pessoal para Sibylla. Com ajuda de uma amiga, consegue um visto de trabalho na Inglaterra, arruma emprego em uma editora, conhece um escritor famosinho em uma festa com quem passa apenas uma noite, e dessa noite nasce Ludo (ou David, ou Steven ou Stephen). Agora, cuidando de um garoto brilhante de quatro anos de idade, ela ganha a vida como digitadora de revistas cujos temas são os mais absurdos possíveis, e cuida sozinha da educação do filho. Uma criança tão peculiar quanto toda a sua família.

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