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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: literatura norte-americana (page 1 of 6)

História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang

HistoriaDaSuaVidaGEsse é um daqueles raros casos em que fiquei com muita vontade de ler o livro depois de ver o filme. Quando saí da sessão de A chegada, queria conhecer tanto a história original quanto os outros contos de Ted Chiang – a ideia toda apresentada no filme me pareceu legal demais para me contentar só com o audiovisual. Claro que as indicações de pessoas cujo gosto literário eu confio também ajudaram na decisão de ler Chiang, assim como algumas entrevistas do próprio autor – ele parece ser um daqueles caras de boas que não quer muita atenção, só fazer seu trabalho e escrever uns textos fictícios vez ou outra, gosto desse pessoal.

Por conta disso, comecei a leitura de História da sua vida e outros contos com as expectativas mais altas (a tradução lançada pela Intrínseca é de Edmundo Barreiros). Quem me conhece sabe que sou contra esse negócio de cultivar expectativas positivas sobre qualquer coisa, porque a decepção é quase certa. Mas não foi assim com Ted Chiang. Os contos são bons. Assim, bem bons.

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A história secreta, de Donna Tartt

a-historia-secretaSe tem uma coisa que eu gostaria de fazer mais é reler os livros que eu gosto. Tem histórias que merecem receber nova atenção, entrar novamente nelas com um pouco mais de experiência e com uma visão diferente. Fora que, com as boas histórias que você já conhece, a chance de se divertir e se encantar com a leitura são grandes. É aquela coisa de reencontrar um amigo antigo que você gostava muito mas que, por algum motivo, não tinha mais muito contato. Nesse ano consegui, finalmente, reler A história secreta, de Donna Tartt. O engraçado é que só percebi que já tinha lido esse livro quando foi lançado no Brasil O pintassilgo, seu romance mais recente. Eu lembrava que, quando eu tinha 15 ou 16 anos, eu li uma história sobre um grupo de estudantes de grego e havia gostado muito dela. Acho que foi um dos primeiros livros mais “densos” que eu tinha lido na vida depois de Harry Potter. O problema é que eu não lembrava do título do livro e nem quem era a autora. E aí reencontrei Donna Tartt.

A história secreta (tradução de Celso Nogueira) é narrado por Richard, um jovem que nasceu e cresceu na Califórnia e, para escapar da mediocridade da sua cidade e de sua família, consegue uma bolsa na universidade de Hampden, em Vermont. Hampden não é das universidades mais exigentes dos EUA, mas cultiva certa fama entre o povo de “humanas” – artistas, beletristas etc. Abandonando o curso de medicina que fazia na Califórnia para entrar no mundo das letras, Richard tenta ao máximo se encaixar no estilo de vida de seus colegas, escondendo sua origem pobre para se integrar aos modos das pessoas que nasceram em famílias abastadas. Nas primeiras semanas de aula, ele topa com um grupo peculiar de estudantes: Henry, Bunny, Francis e os irmãos gêmeos Charles e Camila, que compõem a seleta turma de grego do professor Julian.

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Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

meu-nome-e-lucy-bartonLucy Barton tem complicações durante uma cirurgia e tem que passar alguns dias em observação, internada num hospital em Nova York. Da janela ela observa o edifício Chrysler, imagem constante em suas noites insones e solitárias, em que pensa nas duas filhas pequenas – se sentem sua falta, se seu marido está dando conta de cuidar das duas – e no trabalho deixado de lado momentaneamente por conta da saúde. Lucy Barton é escritora. No momento da cirurgia e da internação, está publicando seus primeiros textos em revistas renomadas. Mas a Lucy Barton que conta esta história já tem uma obra consolidada, e o que ela pretende aqui é relembrar cinco dias específicos de sua internação que acabou durando bem mais do que ela previa: os cinco dias em que recebeu a visita de sua mãe. Este é Meu nome é Lucy Barton, livro de Elizabeth Strout que esteve entre os indicados do Man Booker Prize deste ano (tradução de Sara Grünhagen), mas não chegou a ser finalista do prêmio.

Há anos Lucy não via sua mãe. Sua presença no quarto do hospital foi uma feliz surpresa, mas que também amedrontadora. Ela não fazia ideia do motivo da mãe estar ali (depois soube que seu marido ligou para a sogra e pediu que fosse visitá-la, pois ele tinha pavor de hospitais), e nem o que a mãe pensava do lugar onde estava, da vida que a filha vinha levando tão longe dela. Lucy e sua mãe são bem diferentes, e apesar dela notar algo familiar, uma sensação aconchegante vinda do passado, ela também sente que não está conectada com a mãe, assim como nunca se conectou muito à família após deixar a cidadezinha do interior onde cresceu. E assim a Lucy dos dias atuais explica essa relação não conflituosa, mas complicada, entre mãe e filha, em que constrói um relato sobre identidade, seu lugar no mundo e a importância das pessoas.

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Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara

uma-vida-pequena-de-hanya-yanagiharaNão vai ser fácil falar de Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara (tradução de Roberto Muggiati). Não é aquela velha dificuldade de falar de algo que você gostou muito sem saber direito o motivo de ter gostado. Eu sei bem porque gostei de Uma vida pequena. Mas é que esse romance foi difícil de terminar por conta do quanto Hanya te faz se apegar aos personagens e por todo o sofrimento que o livro contém.

Uma vida pequena conta a história de vida de quatro amigos que se conheceram na faculdade. Mas o romance começa depois disso: quando estão com vinte e cinco, vinte seis anos, todos voltam para a cidade de Nova York em busca de emprego ou fama. JB é um pintor e artista plástico, mantém um emprego de recepcionista numa agência porque espera fazer contatos para ser exposto numa galeria. Malcolm é arquiteto, está engatinhando em seus primeiros projetos. Tanto Malcolm quanto JB possuem famílias que os mantém bem financeiramente, e suas preocupações não são tanto com dinheiro, mas querem se destacar no que fazem.

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Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg

cidade-em-chamasCidade em chamas é um livro gigante, mas você não precisa ter medo dele pelo tamanho. Essa é a primeira coisa que falo para quem diz que ainda está meio receoso de dedicar tempo (e força, pois pesado) no primeiro romance de Garth Risk Hallberg. Não, Cidade em chamas não é nenhum labirinto literário quase que incompreensível que vai te fazer arrancar os cabelos – tipo Ulysses e Graça infinita, já que estamos falando de catataus e traduções do Caetano Galindo, que também cuidou dessa aqui. Cidade em chamas é, na verdade, uma história bem tranquila de ler. E talvez por isso muitos tenham se decepcionado com o livro, por esperar algo mais desafiador dele. Bem, ele não me decepcionou, mas também não colocaria na mesma categoria desses outros livrões citados.

Os Hamilton-Sweeney são uma família rica e tradicional de Nova York. William Hamilton-Sweeney III é a ovelha negra dessa família. Já saindo da adolescência ele foge de casa, descontente com o novo casamento do pai, que lhe dará uma madrasta e um tio pouco confiáveis (o irmão de Felicia é denominado, até, de Irmão Demoníaco). A irmã, Regan, mais certinha, ficou para trás para “tocar os negócios da família”. Mas isso só saberemos depois. É em volta desses irmãos que todas as outras personagens orbitam em maior ou menor grau. Quando Cidade em chamas começa, estamos em pleno réveillon, quando a cidade está deixando o ano de 1976 para trás. William, já com trinta e poucos anos, é uma lenda na cena underground de NY. Ex-líder da banda punk Ex-Post Facto, vive como pintor e divide o apartamento com o namorado, Mercer Goldman, um jovem professor de inglês negro que dá aulas numa tradicional escola para meninas. Vindo do interior dos EUA, Mercer ainda é um deslumbrado com a cidade que descobriu praticamente ao lado do namorado e sonha em escrever lá o grande romance americano. Já Regan está passando por um divórcio, com dois filhos, e entrando de cabeça ainda mais nos negócios da família.

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O último samurai, de Helen DeWitt

o-ultimo-samuraiSibylla foi ainda jovem para a Inglaterra. Inventou suas próprias habilidades para conseguir estudar em outro continente, não que ela não soubesse de nada, apenas porque não precisava que nenhuma autoridade atestasse o que ela sabe. Sibylla é uma jovem peculiar de uma família peculiar. Filha de uma mulher com talento para música, mas não talento suficiente para viver dela e se tornar a pianista que sonhava – assim como aconteceu com todos os seus tios. O pai, ateu, se desviou de um futuro brilhante nas ciências exatas para satisfazer a vontade de seu pai, um pastor, de pelo menos dar uma chance à religião. Duas pessoas que foram levadas a não fazer aquilo que queriam e nunca mais conseguiram voltar, que construíram juntos uma rede de motéis e cuja vida se resumia a isso – encontrar o próximo lugar à beira da estrada que poderia abrigar mais um empreendimento de sucesso. Sibylla quis sair dessa vida, e conseguiu.

Voltar para os Estados Unidos seria um fracasso pessoal para Sibylla. Com ajuda de uma amiga, consegue um visto de trabalho na Inglaterra, arruma emprego em uma editora, conhece um escritor famosinho em uma festa com quem passa apenas uma noite, e dessa noite nasce Ludo (ou David, ou Steven ou Stephen). Agora, cuidando de um garoto brilhante de quatro anos de idade, ela ganha a vida como digitadora de revistas cujos temas são os mais absurdos possíveis, e cuida sozinha da educação do filho. Uma criança tão peculiar quanto toda a sua família.

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O mundo em chamas, de Siri Hustvedt

o-mundo-em-chamasÉ meio incrível pensar que, ainda em 2016, precisamos falar tanto sobre mais espaço para as mulheres. Mais espaço na política, nos negócios, na literatura… É incrível porque é (ou deveria ser) óbvio que mulheres são tão capazes de fazer alguma coisa e terem sucesso nela quanto um homem. Porque é óbvio que elas deveriam receber igual reconhecimento – público e monetário. Porque é óbvio que ser mulher não significa ser fraca, incapaz, ou qualquer outro adjetivo que antigamente davam à gente para justificar menor participação na sociedade. Mas parece que é difícil aceitar essa obviedade. Ou talvez nem nos damos conta de quão óbvio é. E aí as mulheres têm que, toda vez, não só tentar se sair bem num mundo masculino, mas provar que essa falta de reconhecimento existe.

Provar a existência do apagamento da mulher é o objetivo de Harriet Burden, artista com mais de 60 anos que vive em Nova York e protagonista de O mundo em chamas, de Siri Hustvedt (tradução de Ana Ban). Durante anos casada com um famoso marchand e mãe de dois filhos, o mundo artístico sempre foi o seu lugar. O problema é que esse mesmo mundo a ignora. Suas exposições não recebem atenção da imprensa, da crítica e do público. Jovens recém-saídos da faculdade de artes se saem muito melhor do que ela, que está há anos na estrada. É mais conhecida por ser esposa de Felix Lord do que por suas obras, que quase nada venderam. Até ela vir com uma ideia: expor sua arte usando “máscaras”, artistas homens que se apresentariam como autores das peças expostas para provar como a recepção à obra mudava quando se sabia que havia um “pau” por trás dela.

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Estação Atocha, de Ben Lerner

estacao-atochaAdam Gordon é norte-americano, tem 20 e poucos anos, é poeta e está vivendo em Madri. Ganhou uma bolsa prestigiosa para viver um tempo na capital espanhola para escrever. Mas no lugar de alegria, orgulho ou contentamento ( qualquer sentimento mais eufórico sobre ser um jovem poeta promissor), ele sente bem o contrário. A rotina é medida pelos momentos em que toma seus remédios para controlar a depressão e ansiedade. Mais fuma e passeia do que escreve. Enfim, Adam não se sente digno da bolsa, de ser chamado de poeta, não vê exatamente genialidade naquilo que escreve e pensa que a bolsa seria bem mais aproveitada por outro estudante que soubesse falar espanhol melhor que ele. Ele se considera uma farsa, e para disfarçar o iminente fracasso que vai desmascará-lo a qualquer hora, inventa algumas mentiras aqui e ali só para parecer mais interessante.

Protagonista e narrador de Estação Atocha, de Ben Lerner (tradução de Gianluca Giurlando), Adam pode parecer um personagem intragável, mas não é. Ele é só mais um jovem inseguro que se compara demais com os outros, pensando que não merece nada daquilo de bom que lhe acontece. Estação Atocha acompanha esses meses de bolsa, suas tentativas de interagir com a comunidade artística de Madri, com as mulheres que encontra, com sua compreensão afetada pelo seu espanhol ruim (ruim, pelo menos, em sua auto-avaliação), com sua batalha interna de lidar com as próprias mentiras que dão início a uma culpa instantânea. Ben Lerner acompanha os vaivéns de um poeta sem muita confiança em si mesmo.

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Cyberstorm, de Matthew Mather

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Tensão política, uma tempestade de neve e um ataque cibernético: uma das maiores cidades do mundo, Nova York, é derrubada e seus moradores se encontram em desespero. A comunicação começa a falhar, comida e mantimentos não chegam mais à cidade, e ainda há o boato de que muitas pessoas estão morrendo de gripe aviária, o que não pode ser confirmado nem desmentido. Às vésperas de um ano novo de frio rigoroso, todos estão presos na cidade e sem contato com o mundo, sem luz elétrica e sem água. Em Cyberstorm (tradução de Carolina Caires Coelho), Matthew Mather cria um cenário apocalíptico com esses ingredientes, e mostra como a paranoia e a falta de informação pode complicar ainda mais a sobrevivência quando o mecanismo de uma cidade começa a falhar.

Essa história é contada pelo ponto de vista de Mike, um homem de uns 30 e poucos anos que trabalha com internet e vive uma pequena crise em seu casamento: com um filho de dois anos, ele e sua mulher, filha de uma família tradicional e rica, estão se afastando aos poucos quando ela cogita voltar para a carreira de advogada. A proximidade com um vizinho que pouco o agrada levanta suspeitas de traição, que logo são eclipsadas quando Nova York começa a enfrentar o ataque cibernético. Com ajuda de Chuck, amigo e vizinho paranoico que mantém um abrigo e estoque de mantimentos em caso de ataques ou desastres, eles montam no prédio em que vivem um acampamento, ajudando mais pessoas que moram no seu andar e mantendo a mínima ordem. Algo que logo começa a chamar a atenção de gente de fora que, claro, não estão preparadas para enfrentar a neve, a fome e a falta das coisas básicas para a sobrevivência.

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O primeiro homem mau, de Miranda July

o-primeiro-homem-mau-capaO primeiro homem mau, novo livro – e primeiro romance – de Miranda July (tradução de Caroline Chang e Christina Baum) causa estranhamento – o que não é ruim. Cheryl é uma mulher de 43 anos obcecada por um homem com mais de 60. Vive de uma forma bem monótona, regrada, fazendo tudo para economizar tempo e esforço. Tudo para não chegar ao extremo de jantar na banheira e fazer xixi em garrafas quando está sem forças para levantar – quando a vida parece miserável demais e não há sentido em manter a casa limpa, o cotidiano em ordem e sair para trabalhar (te entendo, Cheryl).

Sua obsessão por Philipp vem da certeza de que eles, em vidas passadas, eram um casal, assim como a certeza de que há, no mundo, um menino de quem ela é a verdadeira mãe – Kubelko Bondy, uma “entidade”, acho melhor dizer, que ela percebe psiquicamente em crianças com as quais cruza na rua desde pequena, sempre dizendo “dessa vez ainda não sou sua mãe, mas nunca vou te abandonar”, e abandona. É uma rotina bem peculiar que é logo quebrada e virada mais ainda de cabeça para baixo quando Clee, filha de 20 anos de seus patrões, se hospeda em sua casa sem indicativos de sair. E é aqui que a história realmente começa.

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