Lucy Barton tem complicações durante uma cirurgia e tem que passar alguns dias em observação, internada num hospital em Nova York. Da janela ela observa o edifício Chrysler, imagem constante em suas noites insones e solitárias, em que pensa nas duas filhas pequenas – se sentem sua falta, se seu marido está dando conta de cuidar das duas – e no trabalho deixado de lado momentaneamente por conta da saúde. Lucy Barton é escritora. No momento da cirurgia e da internação, está publicando seus primeiros textos em revistas renomadas. Mas a Lucy Barton que conta esta história já tem uma obra consolidada, e o que ela pretende aqui é relembrar cinco dias específicos de sua internação que acabou durando bem mais do que ela previa: os cinco dias em que recebeu a visita de sua mãe. Este é Meu nome é Lucy Barton, livro de Elizabeth Strout que esteve entre os indicados do Man Booker Prize deste ano (tradução de Sara Grünhagen), mas não chegou a ser finalista do prêmio.

Não vai ser fácil falar de Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara (tradução de Roberto Muggiati). Não é aquela velha dificuldade de falar de algo que você gostou muito sem saber direito o motivo de ter gostado. Eu sei bem porque gostei de Uma vida pequena. Mas é que esse romance foi difícil de terminar por conta do quanto Hanya te faz se apegar aos personagens e por todo o sofrimento que o livro contém.

Cidade em chamas é um livro gigante, mas você não precisa ter medo dele pelo tamanho. Essa é a primeira coisa que falo para quem diz que ainda está meio receoso de dedicar tempo (e força, pois pesado) no primeiro romance de Garth Risk Hallberg. Não, Cidade em chamas não é nenhum labirinto literário quase que incompreensível que vai te fazer arrancar os cabelos – tipo Ulysses e Graça infinita, já que estamos falando de catataus e traduções do Caetano Galindo, que também cuidou dessa aqui. Cidade em chamas é, na verdade, uma história bem tranquila de ler. E talvez por isso muitos tenham se decepcionado com o livro, por esperar algo mais desafiador dele. Bem, ele não me decepcionou, mas também não colocaria na mesma categoria desses outros livrões citados.

Sibylla foi ainda jovem para a Inglaterra. Inventou suas próprias habilidades para conseguir estudar em outro continente, não que ela não soubesse de nada, apenas porque não precisava que nenhuma autoridade atestasse o que ela sabe. Sibylla é uma jovem peculiar de uma família peculiar. Filha de uma mulher com talento para música, mas não talento suficiente para viver dela e se tornar a pianista que sonhava – assim como aconteceu com todos os seus tios. O pai, ateu, se desviou de um futuro brilhante nas ciências exatas para satisfazer a vontade de seu pai, um pastor, de pelo menos dar uma chance à religião. Duas pessoas que foram levadas a não fazer aquilo que queriam e nunca mais conseguiram voltar, que construíram juntos uma rede de motéis e cuja vida se resumia a isso – encontrar o próximo lugar à beira da estrada que poderia abrigar mais um empreendimento de sucesso. Sibylla quis sair dessa vida, e conseguiu.

É meio incrível pensar que, ainda em 2016, precisamos falar tanto sobre mais espaço para as mulheres. Mais espaço na política, nos negócios, na literatura… É incrível porque é (ou deveria ser) óbvio que mulheres são tão capazes de fazer alguma coisa e terem sucesso nela quanto um homem. Porque é óbvio que elas deveriam receber igual reconhecimento – público e monetário. Porque é óbvio que ser mulher não significa ser fraca, incapaz, ou qualquer outro adjetivo que antigamente davam à gente para justificar menor participação na sociedade. Mas parece que é difícil aceitar essa obviedade. Ou talvez nem nos damos conta de quão óbvio é. E aí as mulheres têm que, toda vez, não só tentar se sair bem num mundo masculino, mas provar que essa falta de reconhecimento existe.

Adam Gordon é norte-americano, tem 20 e poucos anos, é poeta e está vivendo em Madri. Ganhou uma bolsa prestigiosa para viver um tempo na capital espanhola para escrever. Mas no lugar de alegria, orgulho ou contentamento ( qualquer sentimento mais eufórico sobre ser um jovem poeta promissor), ele sente bem o contrário. A rotina é medida pelos momentos em que toma seus remédios para controlar a depressão e ansiedade. Mais fuma e passeia do que escreve. Enfim, Adam não se sente digno da bolsa, de ser chamado de poeta, não vê exatamente genialidade naquilo que escreve e pensa que a bolsa seria bem mais aproveitada por outro estudante que soubesse falar espanhol melhor que ele. Ele se considera uma farsa, e para disfarçar o iminente fracasso que vai desmascará-lo a qualquer hora, inventa algumas mentiras aqui e ali só para parecer mais interessante.

Tensão política, uma tempestade de neve e um ataque cibernético: uma das maiores cidades do mundo, Nova York, é derrubada e seus moradores se encontram em desespero. A comunicação começa a falhar, comida e mantimentos não chegam mais à cidade, e ainda há o boato de que muitas pessoas estão morrendo de gripe aviária, o que não pode ser confirmado nem desmentido. Às vésperas de um ano novo de frio rigoroso, todos estão presos na cidade e sem contato com o mundo, sem luz elétrica e sem água. Em Cyberstorm (tradução de Carolina Caires Coelho), Matthew Mather cria um cenário apocalíptico com esses ingredientes, e mostra como a paranoia e a falta de informação pode complicar ainda mais a sobrevivência quando o mecanismo de uma cidade começa a falhar.

O primeiro homem mau, novo livro – e primeiro romance – de Miranda July (tradução de Caroline Chang e Christina Baum) causa estranhamento – o que não é ruim. Cheryl é uma mulher de 43 anos obcecada por um homem com mais de 60. Vive de uma forma bem monótona, regrada, fazendo tudo para economizar tempo e esforço. Tudo para não chegar ao extremo de jantar na banheira e fazer xixi em garrafas quando está sem forças para levantar – quando a vida parece miserável demais e não há sentido em manter a casa limpa, o cotidiano em ordem e sair para trabalhar (te entendo, Cheryl).

Sua obsessão por Philipp vem da certeza de que eles, em vidas passadas, eram um casal, assim como a certeza de que há, no mundo, um menino de quem ela é a verdadeira mãe – Kubelko Bondy, uma “entidade”, acho melhor dizer, que ela percebe psiquicamente em crianças com as quais cruza na rua desde pequena, sempre dizendo “dessa vez ainda não sou sua mãe, mas nunca vou te abandonar”, e abandona. É uma rotina bem peculiar que é logo quebrada e virada mais ainda de cabeça para baixo quando Clee, filha de 20 anos de seus patrões, se hospeda em sua casa sem indicativos de sair. E é aqui que a história realmente começa.

Depois de sua morte, o que será que resta de você no mundo? De William Stoner, o que restou foi um manuscrito medieval doado pelos seus colegas à biblioteca da Universidade do Missouri em sua memória, mas a lembrança de quem foi e o que fez não contém a mesma permanência que o livro. Stoner nasceu em 1891, morreu em 1956, e sua vida não foi das mais emocionantes. Mas ele é o protagonista de Stoner, romance de John Williams publicado em 1965 e resgatado da memória literária em 2003, depois de ficar tão esquecido como o seu personagem. Pessoas como Stoner merecem ter sua história contada, pois pessoas como ele são iguais a maioria de nós:  não são nada especiais, passam pelo mundo deixando poucas marcas, vão embora sem fazer muita falta. E a vida segue.

Graça infinita chegou no Brasil com toda aquela pompa de livro genial de autor genial que é lido só por gente genial aqui das nossas literaturas contemporâneas. Certo que parte do motivo de tanta gente decidir ler o livro é poder se sentir meio incluso nesse grupinho. Mas hey, é só um livro, uma ficção, uma história escrita há 20 anos e que agora chegou aqui (e que parece que só vem crescendo mais e mais – tem até filme sobre David Foster Wallace pra sair). Mas aí você começa a ler, tem aquele estranhamento inicial de “o que está acontecendo aqui?” – por mais que você tenha lido e relido a sinopse –, e aos poucos tudo vai fazendo sentido, tudo vai se encaixando. Só que nem ler todas as mais de 1144 páginas será o bastante para entender o livro, tem gente que já está na quarta leitura e ainda acha que precisa de mais.