r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

Tag: Literatura norueguesa

Uma temporada no escuro, de Karl Ove Knausgård

uma-temporada-no-escuroUma temporada no escuro (tradução de Guilherme da Silva Braga) é um dos livros mais divertidos de Karl Ove Knausgård. Quarto volume da série Minha Luta, neste livro o escritor norueguês se concentra no início de sua vida adulta. Formado no colégio e sem planos de ingressar em uma faculdade, o Knausgård de 18 anos consegue um emprego como professor em uma pequena vila no norte da Noruega – lá ele poderia ganhar algum dinheiro e ter tempo para fazer o que realmente quer: escrever. É estranho pensar que um moleque de 18 anos tenha algo a ensinar para alunos pequenos, crianças e adolescentes dois anos mais novos que ele. Mas a localização remota da ilha e sua população minúscula – cerca de 200 e poucas famílias – não torna o lugar muito atrativo para professores formados. A mão de obra desses alunos recém-saídos do forno é bem conveniente para lugares como esse, então era bem comum que jovens como Karl Ove fossem passar um ano dando aulas básicas até arranjarem algo “melhor” para fazer.

É assim que o romance começa: Knausgård está chegando na vila, ansioso para começar a trabalhar, para morar pela primeira vez sozinho, ter seu próprio espaço. O tamanho da vila não o assusta. Na verdade, estar num lugar tão vazio de pessoas e remoto é um atrativo a mais, ele se torna rapidamente uma novidade, as pessoas vêm falar com ele espontaneamente e se mostram muito solícitas. Em sua primeira noite, o sentimento do escritor é puro contentamento. Contentamento por ter 18 anos, por estar se virando sozinho e por estar começando a escrever.

Read more

A ilha da infância, de Karl Ove Knausgård

a-ilha-da-infancia-capaUma das memórias mais antigas que tenho, acho, é de quando ainda morava em Witmarsum. Estava na cozinha da casa de madeira onde eu e meus pais morávamos, fazendo sei lá o que, e aí resolvi ir para perto do fogão. Fiquei mexendo nele até apertar o botão do acendedor automático. Não esperava pelo barulho de choque que ele fez, e isso me assustou tanto que saí correndo para meu quarto e me joguei na cama. Só que bem onde caí tinha uma vaquinha vermelha de plástico que deu uma pontada na minha costela. E aí comecei a chorar mesmo. O “acho” foi porque eu não tenho certeza se isso realmente foi uma lembrança ou se foi um sonho infantil. Eu deveria ter uns dois anos de idade na época, e não acho possível que tenha uma memória capaz de lembrar dessas coisas com esses detalhes. Acontece que é bem difícil para nós lembrarmos das nossas primeiras memórias, porque as células do nosso cérebro são “trocadas” e aí os arranjos que elas formariam para resgatar essas lembranças não são mais possíveis de serem refeitos. Por isso lembramos tão pouco (e mal) dos nossos primeiros anos de vida.

Enfim, Karl Ove Knausgård ignora essa questão em A ilha da infância, terceiro livro da série Minha luta (tradução de Guilherme Braga). Mas pelo bem da literatura, claro. O escritor norueguês começa a história justamente quando tem oito meses de idade – e, como diz logo depois, é claro que ele não se lembra de nada do que acabou de escrever. Seu pai, sua mãe e Yngve, seu irmão mais velho, estão chegando na casa nova localizada em uma ilha de Sørlandet. E a partir daí ele segue uma narrativa linear sobre o tempo em que viveu lá, até os 13 anos de idade. E essa é uma característica diferente dos outros dois romances anteriores, que apresentavam longos flashbacks fora de ordem enquanto outra cena mais mundana acontecia na vida de Karl Ove. Que eram, de uma forma mais simples, lembranças que iam surgindo. Mas aqui elas estão mais “organizadas”, e não temos ideia do que o autor estava fazendo enquanto escrevia sobre sua infância. Read more

Minha luta, de Karl Ove Knausgård

minha-luta

Já faz um tempo que Karl Ove Knausgård é bastante falado por aí. Quando o primeiro livro da série Minha luta saiu em inglês, foram resenhas atrás de resenhas elogiosas – fora o sucesso na Noruega, claro. Porém, mesmo com todo esse espaço na imprensa, a impressão é que muita gente não leu os livros dele – como escreveu Tim Parks nesse artigo do New York Review of Books, em que fala do argumento das vendas do livro para vender mais livros que não necessariamente serão lidos. Seria mais uma pura modinha? Acho que não. Já havia lido o primeiro livro no ano passado, mas queria escrever sobre os dois já lançados no Brasil ao mesmo tempo, então finalmente estou aqui levantando a mãozinha e dizendo “sim, eu li!”.

Minha luta é a série em que Knausgård narra toda a sua vida, ou pelo menos as partes mais importantes dela – eu sei, você pensou em Hitler com esse nome, mas esquece isso. Não é uma autobiografia, pelo menos eu não vejo como uma, mas sim uma história romantizada, cheia de memórias, “causos”, pensamentos e reflexões do autor sobre a literatura e a escrita. Não é um “eu sou essa pessoa e essa foi a minha vida”. Acho que vai bem mais além disso. Mas é só um cara escrevendo sobre coisas cotidianas? Sim, é, e é muito bom. Read more

A estrela do diabo, de Jo Nesbo

a-estrela-do-diaboAlcoólatra, abandonado pela namorada e prestes a perder o emprego, Harry Hole vive vários dramas ao mesmo tempo no calor do verão norueguês, uma vida prestes a se perder definitivamente. Abalado pela morte de uma colega da polícia, o detetive ainda tenta acusar Tom Waaler, seu inimigo, pela morte dela, mas sua instabilidade psicológica só vai contra as suas verdadeiras intenções. Quando uma jovem é assassinada em seu próprio apartamento no centro de Oslo, a embriaguez do detetive só agrava seu estado delicado, o que leva à demissão. Porém, o período de férias coletivas obriga a polícia da cidade a chamá-lo de volta para solucionar um caso que tem de tudo para ser mais do que um simples assassinato.

A trama do norueguês Jo Nesbo em A estrela do diabo, com tradução para o português publicada pela editora Record, traz de volta o protagonista de A casa da dor e Garganta vermelha. Mais que um romance policial, Nesbo dá destaque para os dramas do protagonista e outras personagens que fazem parte da rede de segredos e crimes que corrói Oslo. O autor caracteriza Harry Hole como uma pessoa descontrolada, incapaz de se manter sóbrio enquanto os problemas se multiplicam à sua volta. Não é só o abandono e o álcool que lhe tiram o sono, mas também os sonhos com e um trauma de infância e a ameaça do inspetor Waaler que tenta colocá-lo dentro de seu esquema de corrupção na polícia. O caso do serial killer, então, parece ser apenas uma oportunidade para o autor confrontar os problemas de cada personagem. Read more