Livros eram coisas que, na minha infância, pareciam inalcançáveis. Lembro de ter visto uma grande quantidade de livros apenas na casa de uma família: os patrões da minha mãe, que tinham uma vida bem mais confortável que a nossa. Apesar de ter passado anos naquela casa, os livros eram inacessíveis para mim, não só porque ficavam dentro de uma estante envidraçada, mas porque eram quase todos em um idioma que eu não compreendia. Eu gostava de ficar olhando para aquela estante, já gostava de ler os poucos livros que chegavam até mim. E eu desejava ter muitos livros quando eu crescesse, como os patrões da minha mãe.   

A orelha do primeiro volume de As Entrevistas da Paris Review, recém publicado pela Companhia das Letras, diz tudo o que o leitor precisa saber sobre uma das maiores revistas literárias em circulação. Criada em 1953, a Paris Review é sinônimo de qualidade, com material rico em informações sobre grandes autores e obras recolhido e editado criteriosamente. Ao abrir o livro, o leitor dá de cara com um simples sumário e logo os maiores escritores se revelam aos seus olhos pelas impressões daqueles que os entrevistaram. Traduzidas por Christian SchwartzSérgio Alcides, as entrevistas englobam todo o período de publicação da revista até os dias atuais, uma leitura que desde as primeiras páginas se mostra deliciosa e muito interessante.

As 14 entrevistas que compõem o volume feitas com W. H. Auden, Billy Wilder, Doris Lessing, Ernest Hemingway, William Faulkner, Javier Marías, Ian McEwan, Amós Oz, Jorge Luis Borges, Louis-Ferdinand Céline, Paul Auster, Primo Levi, Manuel Puig Truman Capote são dispostas em ordem cronológica. São nomes nada desconhecidos da literatura mundial, autores de obras contemporâneas cuja leitura é quase obrigatória. Não há nenhuma informação sobre o critério de seleção dessas entrevistas, mas a sua leitura justifica a presença de cada autor por si só. E o fato de que esse é só o primeiro volume de trabalhos da Paris Review mostra que ainda há muitos bons autores para conhecer melhor.