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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Rádio Londres

O homem sem doença, de Arnon Grunberg

o-homem-sem-doencaSamarendra Ambani é suíço. Seu nome e aparência podem sugerir que não. Mas ele é suíço, logo ele é neutro e não desperta ameaças. Sam, como é conhecido, é arquiteto, filho de pai indiano e mãe suíça. Nasceu em Zurique. Tem uma namorada que pretende pedir em casamento e mora com a mãe e a irmã mais nova, debilitada por uma rara síndrome. Os pais não quiseram gastar com um tratamento arriscado que poderia dar a ela uma vida quase normal. Não tinham muito dinheiro, não queriam deixar a Suíça. Mas Sam quer algum dia poder pagar para que ela possa se recuperar, para que a irmã possa parar de desejar sua própria morte. Ao contrário da irmã, Sam é saudável. Nunca fica doente, nunca cai de cama.

É pensando na irmã que Sam se inscreve para um concurso: construir um teatro de ópera em Bagdá, no Iraque. Seu sócio não quis entrar na empreitada, então Sam resolve fazer o projeto sozinho. Finalista do concurso, ele é convidado a viajar até Bagdá para conhecer o local onde o teatro será construído. Sam aceita fazer a viagem, apesar das preocupações da namorada e da mãe: Bagdá não é mais perigosa, os ataques foram contidos, ele terá seguranças à disposição e estará em boas mãos. Não é bem isso o que acontece.

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Os 10 melhores livros de 2016

Chegou a hora, pessoal. Nunca vamos parar de fazer listas. Precisamos de listas. Precisamos categorizar o que acontece com a gente. Acho que até já perdemos a birra com as listas que reinou no ano passado. Não temos como fugir delas.

Na lista “vida em 2016”, eu colocaria algo como: “começou bom, aí ficou ruim, aí piorou, aí pareceu melhorar um pouco, agora não sei o que tá acontecendo”. Mas uma coisa é certa: 2016 foi um bom ano de leituras. Já começou com um destaque grande para obras escritas por mulheres – e o melhor foi notar que fiz isso inconscientemente, não baseei minhas escolhas em “esse foi escrito por uma mulher e por isso tenho que ler”. E também consegui bater minha meta de leitura no Goodreads (ok, 30 livros, até fácil comparado com aquele ano em que li 92…), pois sabemos como a vida adulta e proletária é difícil, e não é nem uma questão de ter tempo para ler, mas força de vontade mesmo. Considero isso uma vitória.

Depois dessa introdução nada animada, aqui vai a minha listinha de MELHORES LEITURAS DE 2016 (não é melhores lançamentos, é o que li de mais legal nesse ano mesmo).

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Tirza, de Arnon Grunberg

tirzaJörgen Hofmeester é um homem de bem. Pai zeloso, profissional respeitado, marido dedicado, e mesmo assim foi abandonado pela bela mulher. Se preocupa com o futuro da família, economiza para deixar às duas filhas o necessário para nunca passarem nenhuma necessidade. Um homem de bem naquela concepção clássica de alguém que age pensando no bem-estar da família, para mantê-la unida e abastecida com o que precisar. “De bem”. Hofmeester é o protagonista de Tirza, romance do holandês Arnon Grunberg traduzido no Brasil por Mariângela Guimarães. Um personagem que tem de tudo para despertar a simpatia de qualquer um com seu jeito certinho e regrado de tocar a vida, mas que por algum motivo desconhecido só é pisoteado por ela. Mas essa impressão não passa de um equívoco inicial.

Ambientado em Amsterdã, Tirza é um romance sobre a decadência de um homem prestes a entrar na terceira idade. Perto dos 60 anos, Hofmeester está em sua casa, localizada no endereço mais respeitável da capital holandesa, preparando sushis e sashimis para a festa de formatura de Tirza, sua filha mais nova. Enquanto corta o peixe conforme os ensinamentos do curso que fez com a esposa pouco antes dela o deixar, ele repassa mentalmente tudo o que de mais importante lhe aconteceu até agora. Tirza está com 18 anos e partirá com o namorado em uma viagem pelo continente africano antes de entrar numa faculdade. A atraente esposa, que havia abandonado a família há três anos para viver um amor da juventude, volta para casa seis dias antes da festa, despertando raiva e alívio do marido. Ibi, a filha mais velha, deixou a casa há poucos anos e largou a faculdade para tocar um hotel na França junto com o namorado. Até ali, a vida de Hofmeester se resumia em ir de bicicleta para seu cargo de editor de língua estrangeira numa renomada editora, recolher o aluguel de seus inquilinos, cuidar da casa, do jardim e cozinhar para Tirza.

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Estação Atocha, de Ben Lerner

estacao-atochaAdam Gordon é norte-americano, tem 20 e poucos anos, é poeta e está vivendo em Madri. Ganhou uma bolsa prestigiosa para viver um tempo na capital espanhola para escrever. Mas no lugar de alegria, orgulho ou contentamento ( qualquer sentimento mais eufórico sobre ser um jovem poeta promissor), ele sente bem o contrário. A rotina é medida pelos momentos em que toma seus remédios para controlar a depressão e ansiedade. Mais fuma e passeia do que escreve. Enfim, Adam não se sente digno da bolsa, de ser chamado de poeta, não vê exatamente genialidade naquilo que escreve e pensa que a bolsa seria bem mais aproveitada por outro estudante que soubesse falar espanhol melhor que ele. Ele se considera uma farsa, e para disfarçar o iminente fracasso que vai desmascará-lo a qualquer hora, inventa algumas mentiras aqui e ali só para parecer mais interessante.

Protagonista e narrador de Estação Atocha, de Ben Lerner (tradução de Gianluca Giurlando), Adam pode parecer um personagem intragável, mas não é. Ele é só mais um jovem inseguro que se compara demais com os outros, pensando que não merece nada daquilo de bom que lhe acontece. Estação Atocha acompanha esses meses de bolsa, suas tentativas de interagir com a comunidade artística de Madri, com as mulheres que encontra, com sua compreensão afetada pelo seu espanhol ruim (ruim, pelo menos, em sua auto-avaliação), com sua batalha interna de lidar com as próprias mentiras que dão início a uma culpa instantânea. Ben Lerner acompanha os vaivéns de um poeta sem muita confiança em si mesmo.

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Stoner, de John Williams

stoner-capaDepois de sua morte, o que será que resta de você no mundo? De William Stoner, o que restou foi um manuscrito medieval doado pelos seus colegas à biblioteca da Universidade do Missouri em sua memória, mas a lembrança de quem foi e o que fez não contém a mesma permanência que o livro. Stoner nasceu em 1891, morreu em 1956, e sua vida não foi das mais emocionantes. Mas ele é o protagonista de Stoner, romance de John Williams publicado em 1965 e resgatado da memória literária em 2003, depois de ficar tão esquecido como o seu personagem. Pessoas como Stoner merecem ter sua história contada, pois pessoas como ele são iguais a maioria de nós:  não são nada especiais, passam pelo mundo deixando poucas marcas, vão embora sem fazer muita falta. E a vida segue.

Filho de pequenos agricultores, Stoner foi parar na Universidade do Missouri por ideia de seu pai. Prevendo que a terra seca não traria muito futuro, seguiu a indicação de um amigo de enviar o jovem William à universidade para aprender mais sobre a terra do que ele jamais aprendeu. O garoto, com 19 anos, segue o conselho e vai para Columbia, assim como acontecerá com qualquer decisão que virá a tomar no resto de sua vida. É quase como se ele não fizesse escolhas por conta própria, sempre empurrado pelas ideias dos outros. Mas depois de dois anos na faculdade, ele decide trocar o curso de ciências agrícolas para o de literatura, matéria que desconhecia até então. E aí Stoner troca o trabalho na terra pelo intelectual. Um mundo completamente diferente daquele de onde veio. Read more