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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Record (page 1 of 3)

Os 10 melhores livros de 2016

Chegou a hora, pessoal. Nunca vamos parar de fazer listas. Precisamos de listas. Precisamos categorizar o que acontece com a gente. Acho que até já perdemos a birra com as listas que reinou no ano passado. Não temos como fugir delas.

Na lista “vida em 2016”, eu colocaria algo como: “começou bom, aí ficou ruim, aí piorou, aí pareceu melhorar um pouco, agora não sei o que tá acontecendo”. Mas uma coisa é certa: 2016 foi um bom ano de leituras. Já começou com um destaque grande para obras escritas por mulheres – e o melhor foi notar que fiz isso inconscientemente, não baseei minhas escolhas em “esse foi escrito por uma mulher e por isso tenho que ler”. E também consegui bater minha meta de leitura no Goodreads (ok, 30 livros, até fácil comparado com aquele ano em que li 92…), pois sabemos como a vida adulta e proletária é difícil, e não é nem uma questão de ter tempo para ler, mas força de vontade mesmo. Considero isso uma vitória.

Depois dessa introdução nada animada, aqui vai a minha listinha de MELHORES LEITURAS DE 2016 (não é melhores lançamentos, é o que li de mais legal nesse ano mesmo).

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Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara

uma-vida-pequena-de-hanya-yanagiharaNão vai ser fácil falar de Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara (tradução de Roberto Muggiati). Não é aquela velha dificuldade de falar de algo que você gostou muito sem saber direito o motivo de ter gostado. Eu sei bem porque gostei de Uma vida pequena. Mas é que esse romance foi difícil de terminar por conta do quanto Hanya te faz se apegar aos personagens e por todo o sofrimento que o livro contém.

Uma vida pequena conta a história de vida de quatro amigos que se conheceram na faculdade. Mas o romance começa depois disso: quando estão com vinte e cinco, vinte seis anos, todos voltam para a cidade de Nova York em busca de emprego ou fama. JB é um pintor e artista plástico, mantém um emprego de recepcionista numa agência porque espera fazer contatos para ser exposto numa galeria. Malcolm é arquiteto, está engatinhando em seus primeiros projetos. Tanto Malcolm quanto JB possuem famílias que os mantém bem financeiramente, e suas preocupações não são tanto com dinheiro, mas querem se destacar no que fazem.

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Só faltou o título, de Reginaldo Pujol Filho

so_faltou_o_tituloUma das coisas que mais me surpreendeu depois de começar a trabalhar em uma editora é a quantidade de gente que despreza a literatura contemporânea e os autores novos. Os motivos são vários: não lidam com profundidade em seus livros com os problemas de nosso tempo; não têm o requinte dos clássicos e assassinam a nossa língua; são narrativas feitas para se agradar e agradar aos seus pares etc. Sem falar nas acusações de panelinhas, de favorecimento porque o autor recém lançado é amigo de um amigo de um amigo que conhece um editor e, por algum tipo de favor, conseguiu ser publicado. Mas nenhuma dessas acusações é mais divertida do que aquela que diz algo parecido com: “Não entendo como vocês publicam esse tipo de lixo quando tem um autor muito melhor para ser publicado: eu”. Ter confiança no trabalho e amor próprio é bom, claro, mas devemos baixar um pouco a bola da amargura quando o pobre escritor renegado pelo mercado editorial se acha absurdamente melhor que qualquer coisa que esteja nas livrarias.

Por conta disso, ri muito logo de cara de Edmundo Dornelles, protagonista do primeiro romance de Reginaldo Pujol Filho, Só faltou o título. Entre os 40 e 50 anos, idade que tem durante a história, Edmundo escreve páginas e páginas de rancor dirigidas ao mercado literário pelas constantes recusas a seus romances – tão bem escritos, elaborados, obras-primas da literatura nacional que ninguém lê porque boas histórias não vendem no Brasil e nem interessam aos “leitores”. Além de elaborar impropérios contra autores, leitores, editores e livreiros, ele também reclama da gentinha sem cultura e sem inteligência que o rodeia: a namorada, Babi, com quem passa a morar junto em 2002 e o atormenta por considerar sua escrita um “hobby”; os colegas de bar, que fica logo abaixo de seu apartamento em Porto Alegre e que frequenta assiduamente; Tatiana Fagundes, a assistente editorial da Record que lhe passa as revisões que rendem o único dinheiro que consegue ganhar; o irmão Sérgio, que continuou com o negócio do pai, sua mãe e toda a família que o vê como alguém sem sucesso na vida. Ninguém é tão inteligente, culto e importante como Edmundo, e ninguém é capaz de enxergar a sua grandeza.

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As melhores leituras de 2014 (por mim mesma)

Faltam poucos dias para 2014 acabar (poderia colocar o número de dias aqui, mas sou tão ruim com números que poderia errar esse cálculo fácil, então vamos usar o “poucos dias” mesmo), e esse foi um ano bom profissionalmente, pessoalmente, mas fraquíssimo na minha intensidade de leitura – provavelmente por estar tão ocupada com as coisas fora dos livros, né – e também por usar o tempo no ônibus para dormir mais.

Mas vamos lá: foram 27 livros lidos ao todo (sim, só isso), e há ainda quatro em processo de leitura – Graça infinitaque está maravilhoso, O demônio do meio-dia, que interrompi justamente por causa do Graça, mas que também estava ótimo, A balada de Adam Henry, a atual leitura de ônibus (pois né, difícil carregar DFW por aí), e Oblómovque já vou até considerar aqui como “abandonado” porque sei que vou levar eras até pegar ele de novo – tiro da conta o Dom Quixote marcado como “lendo” no Goodreads porque li o primeiro volume no ano retrasado e falta só o segundo, hehe. Read more

Enquanto Deus não está olhando, de Débora Ferraz

enquanto_deus_2z_SAIDAEnquanto Deus não está olhando, o mundo inteiro pode mudar e você nem perceber. É o que o pai de Érica diz, internado no hospital, debilitado pelos anos de alcoolismo. A frase, em si, demora para aparecer no romance de Débora Ferraz, vencedor do Prêmio SESC de Literatura de 2014. Na verdade, a palavra (ou nome) “Deus” é pouco citada durante toda a narrativa de mais de 360 páginas, mas ainda assim é o que dá título ao livro. Enquanto Deus não está olhando é sobre mudanças, e sobre como lidar com elas.

Érica Valentim é a narradora, uma jovem pintora de 20 e poucos anos. Ela está perdida, em busca de um pai que sumiu: um pai alcóolico, que não a compreende e nem aprova sua escolha profissional, mas que mesmo assim é amado e procurado pela filha. Na busca, ela é acompanhada, ou melhor, amparada, por Vinícius, um velho amigo com quem não mantinha contato há cinco anos. No desespero, ela liga para ele, e ele a ajuda. Eles têm uma história mal resolvida, e o retorno do contato é permeado pela tensão desses anos sem se falar. Enquanto procura o pai, Érica evita pisar na garagem recém transformada em ateliê, uma reforma caseira que seu pai com certeza não aprovaria. Mas ela nem teve chance de contar a novidade a ele, pois antes disso ele sumiu de sua vida. Só não da maneira como as primeiras páginas do romance dão a entender.

Leia a resenha completa no Posfácio.

A felicidade é fácil, de Edney Silvestre

a-felicidade-e-facilMuito mais que uma estrutura policial, Edney Silvestre usa a sensibilidade para narrar a história de um sequestro em São Paulo no ano de 1991, em pleno governo de Fernando Collor. O Brasil passava pela crise do congelamento de poupanças em bancos, pela instabilidade dos preços dos itens mais básicos, pelo caos que levou ricos à pobreza, pobres ao desespero, quando pessoas se viram com pouco ou quase nada. Em uma época como essa, o título do novo romance do jornalista, A felicidade é fácil, vai totalmente contra ao que os brasileiros viviam. Não, a felicidade não é nada fácil.

Na tarde de 20 de agosto, uma criança é levada de um carro de luxo em um bairro nobre da capital paulista. O motorista que a transportava, empregado do famoso publicitário Olavo, que atuava principalmente em campanhas eleitorais, é baleado e morto, e, mudo e dócil, um garoto louro de olhos azuis some. Na casa do publicitário, Irene, uma catarinense que trabalha junto com o marido como caseira, segue tranquilamente com sua rotina pouco alterada por mudanças no horário do patrão e sua esposa Mara, uma gaúcha ex-modelo/acompanhante, mãe do filho de Olavo, um garoto negro, gordo e seboso como o pai. O leitor nem precisa pensar muito para ligar os pontos: os sequestradores levaram a criança errada, que nada tem a ver com Olavo e seus negócios sigilosos e corruptos com o governo brasileiro.

Leia a resenha completa no Amálgama.

Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez

cronica-de-uma-morte-anunciadaDentro de uma sociedade pequena, onde as notícias correm rápidas em questão de minutos, o boato de que uma morte está prestes a acontecer deveria mobilizar a todos para que ela fosse impedida. Mas alguma coisa nas personagens de Crônica de uma morte anunciada, romance de Gabriel García Márquez, publicado no ano em que recebeu o Nobel, leva a todos dessa cidade a não fazerem nada além de espalhar mais ainda a notícia e esperar para ver se essa morte realmente aconteceria, transformando todos em cúmplices de um assassinato considerado improvável.

Um narrador quase desconhecido – não fossem as menções à sua mãe e irmãos, também personagens – reconstitui anos depois da tragédia as últimas horas de vida de Santiago Nasar, um jovem de boa vida de uma pequena cidade do litoral colombiano. Não só seus últimos momentos, o narrador procura desvendar o que motivou sua morte e mostrar porque esse assassinato tão anunciado não foi impedido por ninguém. Com um texto curto e direto como um relato jornalístico que explora a fala de diversas personagens, García Márquez constrói essa crônica absurda sobre a fatalidade que abarcou o protagonista e a reação de toda essa sociedade à notícia antecipada. Read more

O inocente, de Scott Turow

o-inocenteRusty Sabich pode ser chamado de figurão dos tribunais de Kindle County. Absolvido de uma acusação de assassinato há 20 anos, hoje ele é um renomado juiz disputando as eleições para presidir a Suprema Corte. Essa é a situação de Sabich em sua volta no livro O inocente, último lançamento de Scott Turow pela editora Record. O autor dá um salto no tempo para colocar seu protagonista novamente em um caso que abala sua carreira e, principalmente, a ele mesmo. Mas diferente do que Turow fez no primeiro livro com a personagem, dessa vez o leitor não fica sabendo dos detalhes desse novo caso apenas através de Rusty, todas as outras pessoas com ações importantes dentro dessa trama emprestam seu ponto de vista para que as peças de um novo crime sejam reunidas.

O conflito de O inocente surge quando Rusty acorda ao lado de sua mulher, Barbara, e nota que ela está morta. Ao invés de tomar as medidas normais – chamar uma ambulância e a polícia –, o juiz fica paralisado durante 24 horas ao lado do corpo da mulher, sem nem mesmo avisar Nat, filho único do casal. Aparentemente morta por causas naturais, a história poderia ter acabado aí: a inatividade de Rusty é facilmente explicada como choque pela perda. Porém, não é isso o que pensam Jimmy Brand e o velho “inimigo” de Rusty, Tommy Molto, promotor que o havia acusado de ter matado uma ex-colega de trabalho. Além dessa morte, Turow coloca outros elementos na trama que abalam a vida de Sabich, como um novo caso extraconjugal com Anna, sua ex-assistente, a bipolaridade de Barbara e a sensibilidade de seu filho. Alternando o capítulo entre vários narradores, Nat, Rusty, Anna e Tommy vão aos poucos fornecendo as pistas que ora pendem para o lado da acusação, ora para a defesa. Read more

Acima de qualquer suspeita, de Scott Turow

acima-de-qualquer-suspeitaUm promotor público do Condado de Kindle conta como inicia as sessões nos julgamentos em que representa o estado. Ele se dirige aos jurados, apresentando o réu e dizendo a eles o que espera que façam no tribunal: deliberar sobre a culpa ou a inocência do acusado. Este promotor é Rusty Sabich, e não há forma mais pertinente de abrir um thriller jurídico do que mostrando a principal atividade de um promotor: reunir provas e acusar. Porém, em Acima de qualquer suspeita – livro que alçou a carreira literária de Scott Turow, traduzido no Brasil pela editora Record – esse homem não vai exercer seu trabalho, mas sim ser confrontado pela própria atividade com que ganha a vida, invertendo o papel de promotor para réu.

Sabich teve uma infância conturbada por conta do comportamento violento do pai, e depois de passar pela polícia alcança o patamar de segundo-homem da promotoria do condado. Acima dele está apenas Raymond Horgan, disputando a reeleição como chefe da promotoria contra Nico Della Guardia, um rival aos olhos de Rusty. Ele, então, praticamente chefia a promotoria enquanto seu chefe busca a reeleição, e não bastassem as funções acumuladas, deve tratar de um caso ainda mais delicado: o assassinato de Carolyn Polhemus, uma colega advogada com quem mantinha um relacionamento extraconjugal. Encontrada morta em sua casa com sinais de estupro, Horgan e Rusty vêem a solução desse caso como fundamental não apenas por se tratar de uma conhecida de ambos, mas por garantir a reeleição do promotor-chefe. Read more

A estrela do diabo, de Jo Nesbo

a-estrela-do-diaboAlcoólatra, abandonado pela namorada e prestes a perder o emprego, Harry Hole vive vários dramas ao mesmo tempo no calor do verão norueguês, uma vida prestes a se perder definitivamente. Abalado pela morte de uma colega da polícia, o detetive ainda tenta acusar Tom Waaler, seu inimigo, pela morte dela, mas sua instabilidade psicológica só vai contra as suas verdadeiras intenções. Quando uma jovem é assassinada em seu próprio apartamento no centro de Oslo, a embriaguez do detetive só agrava seu estado delicado, o que leva à demissão. Porém, o período de férias coletivas obriga a polícia da cidade a chamá-lo de volta para solucionar um caso que tem de tudo para ser mais do que um simples assassinato.

A trama do norueguês Jo Nesbo em A estrela do diabo, com tradução para o português publicada pela editora Record, traz de volta o protagonista de A casa da dor e Garganta vermelha. Mais que um romance policial, Nesbo dá destaque para os dramas do protagonista e outras personagens que fazem parte da rede de segredos e crimes que corrói Oslo. O autor caracteriza Harry Hole como uma pessoa descontrolada, incapaz de se manter sóbrio enquanto os problemas se multiplicam à sua volta. Não é só o abandono e o álcool que lhe tiram o sono, mas também os sonhos com e um trauma de infância e a ameaça do inspetor Waaler que tenta colocá-lo dentro de seu esquema de corrupção na polícia. O caso do serial killer, então, parece ser apenas uma oportunidade para o autor confrontar os problemas de cada personagem. Read more