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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: resenha (page 1 of 28)

Lightning Rods, de Helen DeWitt

No mundo corporativo, nada é mais importante do que a produtividade. Se alguma coisa irá melhorar a produtividade dos funcionários, ela será implementada. Se alguma coisa influenciar negativamente essa produtividade, ela será proibida – pelo menos seria assim na teoria, mas sabemos que nem sempre é o que acontece. No mundo corporativo, um assunto que certamente é delicado e afeta o desempenho dos funcionários são os seus desejos carnais. O estresse do ambiente de trabalho combinado com a presença de mulheres no escritório – mais ainda se a vida conjugal em casa não estiver aquelas coisas – pode desencadear uma série de comportamentos inaceitáveis que influenciam naquilo que mais importa para uma empresa: a produtividade.  

Antes de surgir com a ideia de proteger empresas dos males do assédio sexual, Joe foi um vendedor fracassado de aspiradores de pó Electrolux. E antes de ser um vendedor fracassado de aspiradores de pó, ele foi um vendedor fracassado da Enciclopédia Britânica. Ninguém mais se interessa em ter tomos e mais tomos de uma enciclopédia em casa. Mas as pessoas precisam de aspiradores de pó. Para o azar de Joe, o local em que foi alocado para vender o eletrodoméstico estava muito bem suprido de aspiradores de pó, todos comprados após um furacão que atingiu a cidade. O sucesso jamais chegaria para Joe desse jeito. Ele tinha a motivação, mas não tinha a sorte. Em Lightning Rods, segundo romance de Helen DeWitt, vamos ver que a sorte de Joe está prestes a mudar.  
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HHhH, de Laurent Binet

hhhhEm 1942, a expansão germânica está no seu auge. O território tchecoslovaco foi anexado ao império nazista de Hitler, sua população dividida entre resistir e perder a vida ou se curvar ao novo líder e sobreviver. Reinhard Heydrich, chefe da Gestapo, é nomeado o “protetor” da agora chamada Boêmia-Morávia, um homem extremamente ambicioso, que rapidamente cresceu aos olhos do führer, e que é tão malévolo quanto ele. Heydrich foi, também, um dos principais arquitetos da “solução final”.

“‘HHhH’, dizem na SS: Himmlers Hirn heiβt Heydrich – o cérebro de Himmler chama-se Heydrich.” O romance de Laurent Binet, apesar do título, não é sobre Heydrich. Ou não é apenas sobre ele. E nem é apenas sobre a Segunda Guerra. Vencedor do Prêmio Goncourt de 2010, HHhH (Companhia das Letras, tradução de Paulo Neves) apresenta um autor aficionado por um específico momento histórico: a operação Antropoide, que matou Heydrich em Praga em 1942. O plano foi arquitetado pelo exército tchecoslovaco exilado em Londres, e posto em prática pelos sargentos Jan Kubiš e Jozef Gabcík. Uma missão suicida.

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Um amor incômodo, de Elena Ferrante

um-amor-incomodoLevei um tempo para ler Um amor incômodo (Intrínseca, tradução de Marcello Lino). Na ânsia de ler Elena Ferrante, devorava um livro dela assim que chegava às livrarias brasileiras. Com o fim da tetralogia napolitana, resolvi deixar esse para depois, para quando batesse uma vontade de voltar à autora italiana. Pois bateu. Assim como seus outros romances fora da série – A filha perdida e Dias de abandono –, Um amor incômodo também reflete temas do dramalhão de Lila e Lenu. Neste caso, é a relação entre mãe e filha que fica em evidência.

Delia, uma ilustradora de 45 anos, recebe a notícia de que a mãe foi encontrada morta em uma praia da Itália. A mãe, Amalia, deveria ter ido visitar a filha, mas nunca chegou ao seu destino. As condições com que foi encontrada diferem muito da vida que ela sempre levou: recatada, com roupas velhas e remendadas, foi encontrada seminua, usando um sutiã luxuoso demais para os seus padrões. Delia, então, volta à Nápoles para enterrar a mãe e, por consequência, tentar descobrir o que aconteceu com ela em suas últimas horas de vida. Com isso, a narradora passa a analisar toda a relação conturbada que teve com a mãe esses anos todos, resgatando lembranças dolorosas de sua infância.

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Floresta escura, de Nicole Krauss

floresta-escuraNunca antes na história (deste país) desta leitora, um livro de Nicole Krauss caiu em suas mãos. Eu conhecia o nome, sabia que deveria estar na minha lista de autoras contemporâneas lidas, mas fora isso, não tinha nenhuma outra informação sobre ela e seus livros – deixemos os dados matrimoniais de lado. No último mês, chegou aqui no Brasil seu romance mais recente, Floresta escura, traduzido por Sara Grünhagen e lançado pela Companhia das Letras. Aí aproveitei.

Floresta escura acompanha duas personagens que têm pouco em comum. Alternando os capítulos, começamos conhecendo Jules Epstein, um rico advogado nova-iorquino de 68 anos que desapareceu misteriosamente em Tel Aviv. Antes de chegar a esse ponto, ele passou meses doando compulsivamente os seus valiosos pertences acumulados em anos de carreira. Todas as obras de arte que tanto cobiçou, os carros, as roupas. Em um surto inexplicável de filantropia, o homem distribuiu aquilo que até então definia a sua existência. A ideia de viajar até Tel Aviv surgiu do mesmo impulso: fazer uma grande doação para alguma instituição em homenagem a seus pais.

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Romances de Patrick Melrose, de Edward St. Aubyn

romanes-de-patrick-melrose-1Edward St. Aubyn começou a publicar os romances de Patrick Melrose em 1992 e terminou a série de cinco livros em 2012. Baseado em fatos de sua própria vida, os livros acompanham Patrick da infância até a idade adulta. Seu pai, David, é um ex-soldado e médico que enriqueceu após o casamento com Eleanor, filha de uma tradicional família inglesa. Patrick é filho único, cresceu em mansões e estudou em boas escolas. Viajou pelo mundo todo e frequentou festas com a presença da família real. Uma vida bem abastada, digamos, para render uma narrativa de cinco livros sobre os podres da elite londrina. Mas a história de Patrick Melrose não é só puro deboche da vida cheia de riquezas de sua família e amigos.

Com tradução de Sara Grünhagem, Romances de Patrick Melrose chegou ao Brasil pela Companhia das Letras em 2016 dividido em dois volumes. O primeiro reúne os livros Não importa, Más notícias e Alguma esperança. O segundo, lançado em 2017, contém O leite da mãe e Enfim. A história de Patrick começa, nos livros, quando tem cinco anos de idade. St. Aubyn já parte estabelecendo o cenário que permeará os demais livros: um círculo social rico, exigente, que demonstra um interesse vago nas artes e no pensamento, e que não vai muito além da futilidade das fofocas sobre quem transou com quem.

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Marlena, de Julie Buntin

marlena2.inddQuando ganhei Marlena, de Julie Buntin, a recomendação é de que o romance se assemelhava à tetralogia napolitana de Elena Ferrante. Aos trinta e poucos anos, Catherine, que trabalha como relações públicas de uma biblioteca em Nova York, recebe uma ligação inesperada: Sal, irmão mais novo de uma amiga de sua adolescência. Ele quer encontrar Cat para conversar sobre sua irmão, os dias que antecedem esse encontro liberam em Cat todas as lembranças dos oito meses que conviveu com Marlena na pequena e fria Silver Lake – ela com 15 anos, a amiga, com 18. Uma amizade tão intensa e reveladora que, mesmo anos depois da morte de Marlena, ainda afeta Cat.

Cat, sua mãe e seu irmão mais velho se mudam para Silver Lake após a separação de seus pais. A traição desmanchou o casamento até então tranquilo, jogando sua mãe em uma espiral de autodestruição. Impulsivamente, ela compra uma casinha na cidade e, contra a vontade de Cat, deixam a vida que tinham. O grande motivo para Cat desaprovar essa mudança é deixar para trás a escola particular onde tinha conseguido uma bolsa de estudos. Ao invés de estar aperfeiçoando seu aprendizado, sua inteligência, ela estava presa a uma cidade pequena e desconhecida com sua mãe bêbada e melancólica e um irmão que desistiu dos planos da faculdade para trabalhar. O futuro brilhante que Cat imaginou para si mesma não existia mais.

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4 3 2 1, de Paul Auster

4-3-2-1No dia 16 de março de 1947, Archibald Isaac Ferguson nasceu. Filho de Rose Adler, fotógrafa, e Stanley Ferguson, que junto com seus dois irmãos tocava uma loja de móveis em New Jersey. Archie (ou Ferguson, como será chamado de seu nascimento em diante) teve uma infância normal: era amado pelos pais – mais pela mãe, com quem passava a maior parte do tempo –, brincava, praticava esportes, lia muito – por influência de Mildred, sua única tia materna –, tinha bons amigos no colégio, tirava boas notas, ia a cada verão para um acampamento para crianças judias. Ferguson gostava de histórias, gostava de contá-las também, e tinha uma curiosidade grande sobre o mundo. Ferguson perdeu o pai quando ainda criança. Ferguson viu os pais se separarem na sua adolescência. Ferguson foi filho de uma família rica e de uma família à margem da dificuldade financeira. Ferguson adorava beisebol e adorava basquete. Ferguson teve quatro histórias sobre si mesmo para contar.

Em 4 3 2 1 (finalista do Booker Prize de 2017), Paul Auster dá a Archie Ferguson quatro vidas. No primeiro capítulo, conta a história da família do protagonista, como seu avô paterno chegou aos EUA, como seus pais se conheceram e como ele veio ao mundo. A partir de seu nascimento, a linha do tempo da vida de Ferguson se divide em quatro partes. Em cada capítulo, alguma coisa muda na vida do garoto, e assim é até o final do livro. Auster narra o desenvolvimento desse menino comum até o início de sua vida adulta, com todas as suas descobertas e decepções – as literárias, as sexuais, as políticas.

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Conversas entre amigos, de Sally Rooney

conversas-entre-amigosConversas entre amigos (tradução de Débora Landsberg) é o romance de estreia de Sally Rooney, uma irlandesa de 26 anos que chamou atenção com sua história sobre os relacionamentos contemporâneos. Frances, de 20 anos, é uma estudante e poeta que se apresenta no círculo intelectual de Dublin com sua melhor amiga e ex-namorada, Bobbi. A atuação das duas no palco chama a atenção de uma jornalista de renome, Melissa, que está fazendo um perfil das jovens novatas da cena cult da cidade. As entrevistas que conduz com as garotas levam a uma aproximação com a vida íntima da própria jornalista, casada com Nick, um ator de cinema relativamente famoso, mais pela beleza do que pela capacidade de atuação.

É através de Frances que este romance confessional se desenrola. Ao entrar na vida de Melissa e de Nick, uma realidade tão distante daquela em que vive, duas coisas se tornam bem claras para ela: que Bobbi e Melissa ficaram rapidamente íntimas, e que ela se sente atraída por Nick, sendo que nunca teve uma relação com um homem antes.

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Roupas sujas, de Leonardo Brasiliense

roupas-sujasHá famílias onde nada é segredo. Pais e filhos conversam abertamente sobre o que estão sentindo, sobre seus problemas mais complicados e íntimos, e tudo se resolve numa boa conversa. Eu não vim de uma família assim, e, ainda hoje, não sinto que posso falar sobre qualquer coisa com meus pais, tios, avós ou primos. Pode ser uma forma de autoproteção, de evitar reprimendas e julgamentos, ou por achar que vivo uma realidade distante da deles e por isso não haveria compreensão. Assim, nem as coisas mais mundanas são ditas.

Minha família é formada por pessoas que dedicaram boa parte da vida ao trabalho duro, daquele que te deixa tão cansado no fim do dia que não sobra tempo ou forças para pensar sobre o que acontece dentro da cabeça – era assim até pouco tempo, pelo menos, até algumas mudanças e perdas derrubarem algumas barreiras sentimentais dos meus tios e avós. Por mais que tenha crescido com muito mais mordomias do que os meus pais, sem as obrigações domésticas que eles tiveram desde pequenos, eu desenvolvi esse silêncio sobre o que acontece comigo e o que estou sentindo. É bem provável que seja por isso que eu tenha gostado tanto da leitura de Roupas sujas, de Leonardo Brasiliense.

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Cosmos, de Carl Sagan

cosmos sagan“Se ansiamos que nosso planeta seja importante, há algo que podemos fazer quanto a isso. Podemos fazer com que ele seja significativo com a coragem de nossas perguntas e a profundidade de nossas respostas.” – Carl Sagan

Carl Sagan não precisa de apresentações, assim como Cosmos. Quem viveu nos anos 1980 e 1990 lembra bem da série de TV que aproximou ainda mais o público “comum” da ciência, essa coisa tão obscura e complicada. E quem, como eu, não viveu essa descoberta do universo com a série original, acabou impactado com seu reboot dois anos atrás, agora na versão de Neil deGrasse Tyson. É claro que eu já sabia quem era Carl Sagan e qual era a sua importância para a comunidade científica antes dessa nova série, já tinha lido alguns de seus livros – é curioso lembrar que meu primeiro contato com sua obra foi justamente através de sua única ficção, o romance Contato. Depois de ver a série, de ler outros de seus livros – como O mundo assombrado pelos demônios –, foi bom demais ler Cosmos e entender a paixão de Sagan pela ciência.

Cosmos ganhou uma nova edição neste ano, depois de muito tempo esgotado. Há quem tenha ficado com receio por ser um livro de divulgação científica dos anos 1980, quando muitas outras coisas foram descobertas ou desmistificas de lá pra cá. O livro não traz mudanças no texto original, mas contém notas atualizando alguns desses avanços e descobrimentos conforme Sagan os cita. E essa é uma das coisas que gostei na leitura: é incrível pensar que, em poucos anos, muito mudou e descobrimos ainda mais sobre o universo.

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