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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Altos voos e quedas livres, de Julian Barnes

altos-voos-e-quedas-livres“Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial”, diz Julian Barnes em vários momentos de Altos voos e quedas livres (tradução de Léa Viveiros de Castro). As 128 páginas desse livro enganam, assim como o início, Pode parecer uma história leve sobre balonismo, as primeiras pessoas que se aventuraram pelo ar, os pioneiros que pensaram em unir balão com câmera fotográfica e mostrar para quem nunca esteve lá em cima como é ver a cidade de tão alto. Mas Altos voos e quedas livres é um livro sobre amor e perda – amor que nos leva tão para o alto; perda que nos derruba sem aviso.

Até quase metade do livro, Barnes concentra a narrativa no balonismo: seus pioneiros, aqueles que acertaram ou erraram seus voos, os que foram parar em lugares inusitados, levados sem rumo pelo vento. Fred Burnaby, Sarah Bernhartd, Félix Tournachon: pessoas que no final do século XIX despertavam admiração e espanto por suas estripulias aéreas, que são usadas pelo autor como uma metáfora da própria vida. “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”, escreve Barnes, falando de como Tournachon, apelidado de Nadar, passou a fotografar de um balão, ou como pessoas como Burnaby e Sarah, tão diferentes em suas ambições, tiveram um breve affair. Da mesma forma, Barnes junta duas coisas que não imaginaríamos ver no mesmo lugar, o balonismo e o luto.

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O último samurai, de Helen DeWitt

o-ultimo-samuraiSibylla foi ainda jovem para a Inglaterra. Inventou suas próprias habilidades para conseguir estudar em outro continente, não que ela não soubesse de nada, apenas porque não precisava que nenhuma autoridade atestasse o que ela sabe. Sibylla é uma jovem peculiar de uma família peculiar. Filha de uma mulher com talento para música, mas não talento suficiente para viver dela e se tornar a pianista que sonhava – assim como aconteceu com todos os seus tios. O pai, ateu, se desviou de um futuro brilhante nas ciências exatas para satisfazer a vontade de seu pai, um pastor, de pelo menos dar uma chance à religião. Duas pessoas que foram levadas a não fazer aquilo que queriam e nunca mais conseguiram voltar, que construíram juntos uma rede de motéis e cuja vida se resumia a isso – encontrar o próximo lugar à beira da estrada que poderia abrigar mais um empreendimento de sucesso. Sibylla quis sair dessa vida, e conseguiu.

Voltar para os Estados Unidos seria um fracasso pessoal para Sibylla. Com ajuda de uma amiga, consegue um visto de trabalho na Inglaterra, arruma emprego em uma editora, conhece um escritor famosinho em uma festa com quem passa apenas uma noite, e dessa noite nasce Ludo (ou David, ou Steven ou Stephen). Agora, cuidando de um garoto brilhante de quatro anos de idade, ela ganha a vida como digitadora de revistas cujos temas são os mais absurdos possíveis, e cuida sozinha da educação do filho. Uma criança tão peculiar quanto toda a sua família.

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O sentido de um fim, de Julian Barnes

o-sentido-de-um-fimA memória nunca é exata, nem na juventude e muito menos na velhice. Estudos da mente constatam que, a cada vez que uma lembrança é resgatada, ela reaparece com pequenas mudanças imperceptíveis. Manipulamos nós mesmos a nossa memória para fazê-la se adequar ao que julgamos ser a maneira exata com que os fatos se sucederam. Ou seja, mentimos para nós mesmos, e o motivo pode ser conforto, orgulho, controle. Julian Barnes utiliza toda essa falta de certeza das lembranças para estruturar seu livro vencedor do Man Booker Prize de 2011, O sentido de um fim. Narrado por um homem idoso, ele evidencia toda a incompletude da história que se conta, causada pelas memórias falhas e a ausência de mais testemunhas ou documentações.

Dividido em duas partes, o romance começa com Tony Webster relembrando seus tempos de escola, em que convivia em um grupo formado por mais dois garotos, Alex e Colin. A história parte do momento em que um quarto membro é adicionado a essa reunião de jovens mentes inteligentes, como eles se consideravam: Adrian, um garoto isolado, sério e que pareceu ser bem mais superior em inteligência e sagacidade que seus colegas. Essa primeira parte narra uma gostosa trama escolar em que a amizade é um forte elo que liga esses garotos inseguros do que encontrarão na vida, que aguardam ansiosos pelas responsabilidades dos adultos, suas aventuras, dilemas e problemas, mal vendo a hora de conseguirem uma namorada, ir para festas, viver a vida como se ela fosse um dos livros que leem.

Mas “o que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu” (p. 9), diz Tony. Da escola para a faculdade, eles nem tinham ideia de que o que faziam naquele tempo já determinaria o que seriam no futuro. Os amigos vão para diferentes universidades, Adrian consegue entrar para Cambridge, Tony arruma uma namorada, Veronica, e esporadicamente os amigos se reencontram, cada vez menos, se tornando mais diferentes e afastados. Até Adrian se suicidar, e o grupo de quatro voltar a ser três, e os três se dispersarem – o namoro com Veronica acaba, a vida segue em frente com o trabalho, uma nova mulher, uma filha e pronto, chega ao ponto em que ele é um velho contando sua história.

A segunda parte concentra-se num reencontro inusitado com esse passado. Uma herança inesperada que envolve a vida de Adrian, Tony e Veronica, e que na verdade é o estopim para esse monólogo do narrador – pois o texto se constrói não como uma narrativa normal, com início, meio e fim, ou não é assim que parece ao leitor. A impressão é estar ouvindo um velho contar sua história a quem quiser ouvir, mas colocando no meio dela suas teorias, sua filosofia, aquelas discutidas por ele e seus amigos na juventude, enquanto tenta desenrolar os fios que ainda o prendem a Veronica, sua família e ao amigo suicida. E, nesse monólogo, evoca a reação do tempo na sua vida, nas suas lembranças, tão desconexas e inexatas, impossíveis de serem confirmadas ou corrigidas pelos outros envolvidos – pois ou todos já se foram, ou estão esquecidos. Sem documentos para comprovar o que conta, nada além de sua própria memória debilitada. E como Adrian sentenciou em uma antiga aula, essa história se torna uma “certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação.”

O que se confirma no fim é que Tony não é um narrador confiável. A única certeza que o leitor tem é do que ele se tornou: um homem confortável com sua solidão, ciente de que não fez da sua vida nem metade do que esperava que ela fosse em sua juventude. Um homem que tem uma ideia de como a vida funciona e o que se faz dela:

Você aposta num relacionamento, ele fracassa; você passa para outro relacionamento, ele fracassa também; e, talvez, o que você perca não sejam duas simples somas de números negativos, mas a multiplicação do que você apostou. Pelo menos, é essa a impressão que dá. A vida não é feita só de adição e subtração. Tem também a acumulação, a multiplicação de perdas, de fracassos.

A conclusão de O sentido de um fim é uma acumulação de dúvidas. De incertezas sobre o que realmente aconteceu a Tony, Adrian e Veronica. Julian Barnes trabalha com essa inexatidão da memória e implanta esses questionamentos na cabeça do leitor, que, como um historiador, fica tentado a reler tudo, a rever os documentos fornecidos pelo narrador para tentar, enfim, dar um sentido ao final do livro. E é assim que ele consegue fazer a história reverberar até que o leitor encontre sua própria teoria sobre o romance.

Duas novelas, de Bernardo Ajzenberg

duas-novelasO número dois não está apenas no título ou na quantidade de textos que compõem o livro Duas novelas, do escritor, jornalista e tradutor Bernardo Ajzenberg. A dupla, o dois, é componente importante das duas novelas reunidas neste volume. Ou melhor, a relação entre sociedades e os dramas que elas escondem é o tema central. Não poderia ter assunto mais maçante, menos interessante, que o mundo dos negócios. Mas não são rotinas de escritórios e reuniões que Ajzenberg traz para essas novelas, e sim delírios pessoais, que formam histórias sedutoras, transitando nos limites entre confiança, verdades e mentiras, realidades e invenções de uma mente mergulhada na ficção.

A primeira novela, “Goldstein & Camargo” – também a mais extensa, ocupando quase todo o livro –, apresenta ao leitor a vida da sociedade de dois advogados levados pelo seu professor e mentor a criarem um escritório e trabalharem juntos. Narrado em primeira pessoa por Paulo Viena Camargo, a história começa a partir do momento em que o escritório decide defender na justiça um amigo de infância de Márcio Goldstein. Pasquali é assassino confesso de sua mulher; para Goldstein, o episódio não passa de um caso de autodefesa, mas para Camargo o delírio mental do réu é o real motivo desse ato de desespero. Em anos de sociedade, Camargo e Goldstein nunca foram além do campo profissional, e esse caso acaba aproximando o narrador da vida de seu sócio, revelando traumas e desejos escondidos por trás da aparência organizada de Goldstein.

Leia a resenha completa no Amálgama.

A página assombrada por fantasmas, de Antônio Xerxenesky

a-pagina-assombrada-por-fantasmasQuando fui ao lançamento do livro A página assombrada por fantasmas, na metade do ano passado, já estava pensando em não resenhar seus contos. Estaria seguindo uma regra do próprio Antônio Xerxenesky publicada no blog do Michel Laub: não resenhar livro de amigos. Não que sejamos lá muito amigos, mas conhecidos sim, com certeza, e levando em conta meu medo/receio/vergonha de saber que um autor leu uma resenha minha, preferi ficar no silêncio mesmo quanto a qualquer crítica. Apenas ler, dizer que gostei – já com a certeza que iria gostar, veja bem – e nada além disso. Pois bem, demorei mais de seis meses para ler o livro, não sei dizer por que. Mesmo com o “polvo leitor” tão elegante desenhado na folha de rosto, fui adiando a leitura até que, em uma viagem para Santa Catarina, dentro do ônibus, resolvi finalmente encarar esses contos. E que arrependimento foi essa demora.

Vamos começar então falando de literatura. A página assombrada por fantasmas é um livro que fala sobre ela. Mas não com pedantismo, daquela maneira que coloca a leitura no mais alto patamar das atividades que um ser humano pode querer usufruir – e Shakespeare o autor mais nobre que poderemos ler. A literatura é abordada, até, de maneira mais cômica, como uma forma de brincar com nossos autores e obras mais estimados. Tchau glamour das letras, olá personagens meio perturbadas, meio engraçadas, às voltas com os livros. Como o leitor/fã nervoso ao ir entrevistar seu autor favorito na capital da Argentina, imaginando diferentes situações – e recusas do entrevistado – antes mesmo de botar os pés nos corredores de seu apartamento. E também Charles Makuviac, “Brasileiro, apesar do nome. Um escritor contemporâneo de grande repercussão mundial, apesar de brasileiro”, frente a uma síntese de sua obra que marca seu futuro na literatura. Read more

Melhores leituras do ano do r.izze.nhas!

Não tem como escapar das retrospectivas quando o fim do ano se aproxima. Reavaliamos tudo o que fizemos durante o ano, lembramos das conquistas e eventuais derrotas, atribuímos notas e qualidades pelos 12 últimos meses que vivemos. Como leitora, não poderia deixar de rever tudo o que li em 2010 e fazer aquela listinha dos melhores. Foram muitos livros lidos (mais de 80), um recorde não planejado, e muitas coisas novas entraram para a lista.  Por isso, resolvi colocar aqui os cinco livros que li e mais gostei esse ano. Read more

Leitura da Semana: O Livro do Cemitério

Folga de vampiros? Bem queria eu. São vários os livros que estou lendo essa semana, outros até terminados no fim da semana passada, mas não comentados aqui. Mas o principal é O Livro do Cemitério, de Neil Gaiman, que eu estava há um bom tempo querendo ler. E claro, os tais vampiros que nunca me largam, com uma leitura inesperada de Lua Nova, de Stephenie Meyer, pra acabar de vez com meu lapso de acompanhamento da saga Crepúsculo. Vamos lá, então.

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Juliet, Nua e Crua, de Nick Hornby

Nick Hornby é conhecido principalmente por Alta Fidelidade, um livro sobre um dono de loja de discos lamentando o pé-na-bunda que recebeu da namorada, adaptado para os cinemas com John Cusak estrelando o filme. É dele também O Grande Garoto, que teve o mesmo destino, mas esse com Hugh Grant de protagonista. Hornby ainda tem muitos outros livros que foram sucesso de vendas, e tem um estilo que agrada sempre a seus leitores, principalmente os aficionados por música. O autor tem claramente uma forte ligação com ela, e em seu novo livro isso não é diferente. Juliet, Nua e Crua é o meu primeiro Hornby.

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Leitura da Semana: Juliet, Nua e Crua

Na verdade, é a continuação de um livro que comecei semana passada e estou quase terminando. Estou lendo meu primeiro Nick Hornby, que é o último lançamento dele, pela editora Rocco: Juliet, Nua e Crua. Eu sei da boa fama do autor, e infelizmente não li (nem assisti) aquele que parece ser o mais famoso dele, Alta Fidelidade. Na verdade,  a minha vontade de assistir é mais pelo John Cusak. Enfim, pelas resenhas que já li, Juliet, Nua e Crua não foge do estilo de outros de seus livros, o que faz alguns pensarem que é mais do mesmo, e outros de que o cara é realmente muito bom. Como não li nada dele antes, to achando muito bom.

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Aconteceu em Blackrock, de Kevin Power

Riqueza e materialismo fazem parte da vida de alguns jovens em qualquer parte do mundo. Filhos de pessoas de respeito e com uma conta bancária recheada, são adolescentes que estudam em escolas particulares, saem quase todas as noites para festas, consomem o que querem e vivem uma vida que chamamos de fútil. Geralmente, eles tem um futuro brilhante traçado passo a passo. Porém, um ou outro às vezes joga esse futuro em um abismo, onde a riqueza até pode dar uma mão, mas não vai impedir que suas vidas fiquem marcadas pela exposição que tiveram. São jovens assim que encontramos em Aconteceu em Blackrock, do irlandês Kevin Power.

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