Para mim é difícil separar a obra de Domenico Starnone da de Elena Ferrante. Mesmo que os boatos de que os dois autores italianos sejam casados seja apenas isso, boatos, é inegável que seus livros conversam, e muito. Como Laços Dias de abandono, em que um parece ser o contraponto do outro. Durante a leitura de Segredos, seu mais recente romance lançado no Brasil (Todavia, tradução de Maurício Santana Dias), vi elementos de Ferrantes em vários momentos da história. Mas as semelhanças que, no começo do livro, me faziam lembrar Nino e Lila da tetralogia napolitana logo se desfizeram.  

Vocês devem ter percebido que as leituras de não ficção andam frequentes por aqui. Ando dando mais atenção a elas, seja por me interessar pelo assunto ou por querer conhecer mais sobre algo específico. Falso espelho (Todavia, tradução de Carol Bensimon) é um desses livros que mais aguardei a leitura. Jia Tolentino apresenta uma série de ensaios que refletem sobre a autoimagem, a internet, o discurso e tudo o que envolve nos expor e consumir conteúdos online. Além disso, traz boas questões sobre como enxergamos as mulheres nessas e em outras plataformas – como a literatura.

Não há melhor momento para ler um livro como Dez drogas, de Thomas Hager (Todavia, tradução de Antônio Xerxenesky), do que este. Estamos a toda hora vendo notícias sobre a pandemia, aguardando por uma vacina, pelo momento de poder sair de casa. E o livro de Hager, além de ser uma leitura ótima para os naturalmente curiosos, faz um bom retrato de como a humanidade e a medicina se desenvolveram com a descoberta dos remédios.

Computadores certamente nos ajudaram muito a melhorar. Facilita o trabalho, os processos, deixa tudo mais rápido e menos complicado. Mas eles por si só são complicados, e nossa falta de conhecimento sobre o funcionamento das máquinas pode nos deixar à mercê delas. Conhecê-las e entende-las é o aviso que James Bridle nos deixa em A nova idade das trevas (Todavia, tradução de Érico Assis), um alerta sobre a obscuridade nos tempos da informação.

Não há explicação para a perturbação que aflige Yeonghye. Depois de ter um sonho cheio de sangue e morte, essa pacata sul-coreana decide parar de comer carne. Ela sempre foi boa cozinheira e nunca antes demonstrou sinais de que gostaria de ser vegetariana. Sua transição para uma vida sem carne não foi gradual, não foi planejada. O sonho que tanto a perturbou a fez tomar essa decisão brusca, e no dia seguinte já aboliu qualquer alimento de origem animal da sua dieta. Mas a decisão de Yeonghye não a afetou apenas individualmente. Toda a sua família sentiu os efeitos de sua nova vida vegetariana.  

Em 1985, um parque está prestes a inaugurar no coração da floresta Amazônica. Tupinilândia é a exaltação da cultura brasileira: Artur Arara recebe de asas abertas o público adulto e infantil que poderá se encantar com montanhas-russas, carrosséis, réplicas de dinossauros, encontrar antigos personagens queridos da ficção e da realidade, tudo regado ao melhor da produção nacional. Tupinilândia não é só um parque de diversões, mas também uma cidade milimetricamente planejada. Como o município mais perto fica a dezenas de quilômetros de distância, os funcionários do empreendimento vivem dentro do complexo, contando com uma estrutura bem abastecida para atender a todas as suas necessidades. Tupinilândia é um sonho que está se tornando realidade. Ou quase.

É difícil ler Laços sem pensar em Dias de abandono. Mesmo que você tente ignorar os rumores sobre a real identidade de Elena Ferrante – Domenico Starnone é casado com Anita Raja, que apontam como a pessoa por trás do pseudônimo –, os paralelos entre os dois livros são muitos. Mas calma, cada livro se sustenta muito bem sozinho. Em Dias de abandono, acompanhamos o drama de uma mulher deixada pelo marido, sua amargura por ter sido trocada por alguém bem mais jovem, o sentimento de não ser mais bonita, desejada, e com o peso da responsabilidade pelos filhos todo em cima dela. Em Laços, começamos pelo mesmo lugar: Starnone nos apresenta cartas que Vanda, a esposa abandonada, manda para o marido Aldo, alternando momentos de compreensão com ataques de fúria.

Às vezes personagens extraordinários se perdem na história. Muita gente já passou por esse mundo, poucas foram responsáveis por feitos notáveis, mas mesmo assim é um número considerável de gente que merece ser lembrada pelo que viveu, pelas dificuldades que enfrentou. Pena que esquecemos fácil. Nossa memória é incrível, mas não é das melhores. Seja por silenciamento premeditado ou pela passagem do tempo, nós esquecemos.