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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tag: Zadie Smith

White Teeth, de Zadie Smith

white-teethFamília, identidade e cultura: essas três palavras podem definir os livros de Zadie Smith. NW é uma trama que, sob o ponto de vista de quatro personagens que cresceram no mesmo bairro, mostra como eles se tornaram pessoas diferentes, com dramas próprios, mas unidos todos pela mesma geografia. Swing Time, seu livro mais recente, gira em torno do deslocamento de sua narradora, uma mulher com mãe negra e pai branco, que sente não pertencer a lugar nenhum, ligada a uma amiga que tem o mesmo background que o seu, mas que fez escolhas na vida e tem uma visão de mundo diferente do dela. As três palavras estão nessas tramas: o lugar em que cresceram, o lugar em que pertencem – ou querem pertencer –, as culturas de que se alimentam suas personagens. E tudo isso começou com White Teeth.

O primeiro romance de Zadie Smith não poderia começar de maneira mais depressiva: na manhã de Ano Novo, Archie Jones está trancado dentro de seu carro, os vidros fechados quase totalmente, não fosse por uma mangueira presa na janela e ligada ao escapamento do veículo. Após anos de casado, sua esposa o abandonou. Archie não está desconsolado pelo fim do relacionamento, e sim porque gastou todos esses anos da sua vida com uma mulher insossa e um emprego sem ambições. A morte seria preferível a uma vida sem graça. Mas os planos de Archie são frustrados por comerciantes muçulmanos, donos do estabelecimento onde ele estacionou para morrer. Archie toma a interferência como um sinal de que precisa continuar. Levado pelo destino, termina a manhã numa “Festa do Fim do Mundo” onde conhece Clara Bowden, uma jovem negra, filha de jamaicanos, Testemunha de Jeová e que está sem os dentes da frente. Archie tem quase 50 anos, Clara tem 18. E a partir do momento em que se veem, sabem que vão terminar juntos.

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Swing Time, de Zadie Smith

swing-timeDuas meninas se conhecem nas aulinhas de dança do bairro. Duas meninas pardas, filhas de pais brancos e negros. Uma delas, Tracey, demonstra um talento singular logo de início. A mãe, branca e espalhafatosa, mima a garota com o que ela quer, e Tracey tem uma liberdade que nenhuma outra criança do bairro tem. O pai, negro, está preso – mas para a pequena Tracey ele está em turnê com Michael Jackson. A outra menina, que vem a ser a narradora de Swing Time, romance mais recente de Zadie Smith, não tem o mesmo talento, mas é apaixonada por musicais – com todas as suas canções e danças. Sua mãe, descendente de jamaicanos, é uma dona de casa mergulhada em leituras que tenta passar à filha um senso de identidade. O pai, branco, trabalha nos correios e, apesar de apaixonado pela esposa, sente que é deixado de lado pelo seu autodidatismo. Tracey e a narradora são duas crianças com muito em comum, mas também guardam diferenças gigantescas.

Swing Time começa com a narradora já em seus trinta e poucos anos, voltando para Londres após ser demitida de seu emprego como assistente pessoal de uma cantora pop australiana mundialmente famosa – algo tipo uma Madonna. Não sabemos o motivo da demissão e nem por que a narradora está recebendo tantas mensagens raivosas em seu celular, trancada num quarto de hotel sem contato com a família ou amigos. Mas ao passear pela cidade ela começa a revelar sua história, e essa amiga de infância, Tracey, tem papel fundamental nela. Read more

NW, de Zadie Smith

nwTenho uma predileção por livros em que, aparentemente, nada acontece. São só personagens andando para lá ou para cá, às vezes nem isso. Um livro pode se passar inteiramente em uma sala, em um sofá, em uma cama – como a história da literatura já mostrou várias vezes –, só se alimentando do caos da mente humana. Quem fica muito tempo parado reconhece isso. Não é fácil lidar com os próprios pensamentos, às vezes. A sensação de que “nada acontece” é só isso, uma sensação. A verdade é que tudo acontece, de forma desordenada e sem sentido. NW, o último romance de Zadie Smith, passa essa sensação em vários momentos. Suas personagens quase não ultrapassam os limites do bairro de Kilburn, na região North West de Londres (daí o título, NW), e suas vidas se cruzam a todo o instante, mas de uma forma tão corriqueira, usual, que não parece que algo realmente vai acontecer.

Neste livro Zadie Smith concentra a narrativa em quatro personagens: Leah Hanwell, Natalie Blake, Felix Cooper e Nathan Bogle. Mas podemos dizer mesmo que as principais são Leah e Natalie, melhores amigas desde a infância, em quem Zadie concentra a maior parte do livro. Nathan cresceu no mesmo conjunto habitacional e estudou na mesma escola que as duas, e Leah sentia um queda por ele quando tinha 10 anos de idade. E Felix é só mais um morador da região que cruza com os três de maneiras distintas. Apesar de terem crescido no mesmo lugar, os quatro construíram vidas muito diferentes, e é isso o que todo o romance mostra: pessoas destoantes se cruzando em algum momento, passando pelo mesmo desafio de sobreviver em uma cidade que às vezes parece acolhedora, outras vezes estranha, construindo suas identidades ou tentando escapar delas.

Leia a resenha completa no Posfácio.