Às vezes eu fico pensando no futuro do mundo, em como vai ser e como eu estarei. Tempos atrás, quando eu pensava nisso, eu não conseguia ver muita coisa. Eu me imaginava um pouco melhor, mas o mundo não estaria melhor. Hoje já me imagino com um futuro confortável, mas o mundo ainda estaria uma merda. Não consigo ser esperançosa quando penso no futuro da humanidade, porque a humanidade hoje não me dá muitas esperanças. Sei que não sou a única que pensa ou acha isso, mas mesmo assim fiquei contente em encontrar um livro que coloca essa discussão em pauta. 

Quando a vida está uma merda, a gente faz escolhas bostas. Um exemplo disso é o livro Luxúria, de Raven Leilani (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe). Edie, a protagonista, está naquela fase da vida em que nada é garantido. Funcionária em uma editora de Nova York, está entediada com o trabalho e se sentindo ameaçada por uma nova contratada, uma jovem negra como ela em um ambiente majoritariamente branco. Como se não houvesse lugar para mais de uma pessoa negra na editora. Ainda mais quando a “concorrente” age para agradar a todos, enquanto Edie não faz questão nenhuma disso. 

Eu já falei várias vezes que é muito difícil falar dos livros que eu amo. Parece que nada do que será dito ou escrito fará jus ao que a leitura foi. É como se eu não conseguisse identificar com objetividade o que aquela história tem para me fazer gostar tanto dela. Por isso demorei tanto tempo para escrever essa resenha, não conseguia pensar no que dizer sobre Expiração, de Ted Chiang (Intrínseca, tradução de Braulio Tavares), além de: apenas leiam, é maravilhoso.

Todo mundo adora falar de liberdades individuais — alô, liberais —, mas quando o assunto é a morte e a sua saúde, todo mundo gosta de se meter na sua liberdade individual de desejar, quiçá, querer morrer antes que uma doença o torne incapaz de viver sozinho. Eu penso nessa questão às vezes: ao descobrir uma doença, será que eu teria esperança de que um milagre pudesse acontecer? Acredito que não. Pessoalmente, acho a eutanásia a maneira mais elegante de deixar esse mundo quando seu corpo começa a falhar. Mas esse é aquele tipo de debate que ainda causa discussões fervorosas a favor da vida. O que você está enfrentando, de Sigrid Nunez (Editora Instante, tradução de Carla Fortino), é uma leitura que apresenta essa questão muito bem. 

Amar não é para todos. Talvez essa frase seja realidade para quem tem dificuldade em lidar com pessoas. De estar em volta delas, ouvindo suas histórias, seus problemas, vendo fotos não solicitadas dos seus filhos. Para quem gostaria de viver o máximo possível longe da maioria dos seres humanos. Para uma pessoa que seria considerada antissocial, grosseira, egoísta. Mas o que as pessoas não veem, que está além da grosseria, é que essas pessoas amam. Só que é um amor escondido, direcionado a pouquíssimas pessoas. 

No começo do ano, postei uma pilha de livros que eu gostaria de ler em 2021. Tinha Joan Didion, Svetlana Aleksiévtich, Audre Lorde, clássicos como Mrs. Dalloway, Eu sou um gato e O grande Gatsby – como não leio muitos clássicos, queria dar mais tempo para eles. Ontem retornei a essa foto e postei ela novamente no Instagram apenas para dizer: é, não rolou. Nenhum daqueles livros foram lidos. Ainda quero ler? Óbvio, claro. Mas eu falhei totalmente em fazer isso nesse ano.

Terror não é dos gêneros que mais leio, apesar de gostar muito. Ele remete a um tempo que não existe mais, quando eu era uma adolescente deslumbrada com as coisas macabras da vida — gótica suave que fala. Eu li uma cota de Stephen King (Saco de ossos é meu favorito), Edgar Allan Poe, Marion Zimmer Bradley, Anne Rice. E aí passou essa obsessão pelo oculto, apesar de ainda ver muitos vídeos de fantasmas no YouTube. Mas então chegou Nossa parte de noite, de Mariana Enriquez (Intrínseca, tradução de Elisa Menezes), e gente, como é bom ler uma boa história de terror. 

A pessoa quando deprimida não vê esperança e sentido em nada. A vida pessoal parece estagnada — e se não estagnada, em constante decadência. A crença no trabalho acaba, a pessoa duvida de suas capacidades e até da utilidade da sua existência. E é difícil identificar qual a razão dessa depressão. É uma tristeza que invade sua mente e seu corpo, e aos poucos vai se alastrando como um vírus, impossível de ser contido pelos nossos anticorpos — as frases motivacionais, os objetivos a serem alcançados, as pessoas que amamos. Antônio Xerxenesky escreveu em Uma tristeza infinita (Companhia das Letras) uma história que retrata muito bem essa sensação de que nada mais vale a pena e tudo vai desmoronar. 

Num dia você encontra o amor da sua vida. No outro começa a notar comportamentos estranhos na pessoa, um tom agressivo, uma fala grossa. Um relacionamento abusivo se constrói devagar, com o abusador aos poucos cercando a vítima e a isolando do mundo. Nem todo mundo percebe os sinais. Muitos não percebem os sinais. E quando percebem, já é tarde: as coisas estão muito piores e tendem a só piorar. O relato que Carmen Maria Machado fez sobre o relacionamento abusivo que sofreu deixa isso bem claro. 

Lembro da descrença que as pessoas tiveram pelo Big Brother Brasil quando ele estreou lá em 2002. Qual a graça de ficar vendo pessoas desconhecidas presas dentro de uma casa? A experiência com a Casa dos Artistas, programa pioneiro no país e seu grande “rival”, foi um sucesso, mas como o próprio nome diz, haviam pessoas conhecidas lá. Certamente você estaria curioso para observar a intimidade do Supla. Bem, mais chamativo do que ver desconhecidos, né? O que a gente não esperava era que gostássemos tanto de ver a vida do outro pela telinha. Ficamos viciados nisso. Eu sou viciada nisso. Então, pra mim, o enredo que Samanta Schweblin apresenta em Kentukis (Fósforo, tradução de Livia Deorsola) não é nada fora da realidade.