Terror não é dos gêneros que mais leio, apesar de gostar muito. Ele remete a um tempo que não existe mais, quando eu era uma adolescente deslumbrada com as coisas macabras da vida — gótica suave que fala. Eu li uma cota de Stephen King (Saco de ossos é meu favorito), Edgar Allan Poe, Marion Zimmer Bradley, Anne Rice. E aí passou essa obsessão pelo oculto, apesar de ainda ver muitos vídeos de fantasmas no YouTube. Mas então chegou Nossa parte de noite, de Mariana Enriquez (Intrínseca, tradução de Elisa Menezes), e gente, como é bom ler uma boa história de terror. 

A pessoa quando deprimida não vê esperança e sentido em nada. A vida pessoal parece estagnada — e se não estagnada, em constante decadência. A crença no trabalho acaba, a pessoa duvida de suas capacidades e até da utilidade da sua existência. E é difícil identificar qual a razão dessa depressão. É uma tristeza que invade sua mente e seu corpo, e aos poucos vai se alastrando como um vírus, impossível de ser contido pelos nossos anticorpos — as frases motivacionais, os objetivos a serem alcançados, as pessoas que amamos. Antônio Xerxenesky escreveu em Uma tristeza infinita (Companhia das Letras) uma história que retrata muito bem essa sensação de que nada mais vale a pena e tudo vai desmoronar. 

Num dia você encontra o amor da sua vida. No outro começa a notar comportamentos estranhos na pessoa, um tom agressivo, uma fala grossa. Um relacionamento abusivo se constrói devagar, com o abusador aos poucos cercando a vítima e a isolando do mundo. Nem todo mundo percebe os sinais. Muitos não percebem os sinais. E quando percebem, já é tarde: as coisas estão muito piores e tendem a só piorar. O relato que Carmen Maria Machado fez sobre o relacionamento abusivo que sofreu deixa isso bem claro. 

Lembro da descrença que as pessoas tiveram pelo Big Brother Brasil quando ele estreou lá em 2002. Qual a graça de ficar vendo pessoas desconhecidas presas dentro de uma casa? A experiência com a Casa dos Artistas, programa pioneiro no país e seu grande “rival”, foi um sucesso, mas como o próprio nome diz, haviam pessoas conhecidas lá. Certamente você estaria curioso para observar a intimidade do Supla. Bem, mais chamativo do que ver desconhecidos, né? O que a gente não esperava era que gostássemos tanto de ver a vida do outro pela telinha. Ficamos viciados nisso. Eu sou viciada nisso. Então, pra mim, o enredo que Samanta Schweblin apresenta em Kentukis (Fósforo, tradução de Livia Deorsola) não é nada fora da realidade. 

Há semanas tem uma pergunta no meu Curious Cat que deixei lá sem resposta. “Qual o melhor livro que já leu?”

É uma pergunta que qualquer pessoa que lê vai receber um dia. Se é alguém que lê e está na internet, vai receber umas 5 vezes por ano, para chutar baixo. 

Durante um tempo havia uma resposta que eu usava sempre, e muita gente também: essa é uma pergunta impossível. São muitos os livros, cada um bom na sua proposta. Cada um me tocou de uma forma diferente. 

Nada como uma tragédia familiar para te fazer ficar presa em um livro. Sou da opinião de que todo leitor de ficção é um grande fofoqueiro, então essas histórias são perfeitas para a sede de fofoca que habita em nós. Histórias de gente que podemos imaginar como sendo nossos vizinhos, fuxicando uns com os outros sobre a vida alheia e seus segredos. Foi com isso em mente que li Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, um sucesso literário dos anos 1950 que ganhou nova edição pela Companhia das Letras. 

Muita gente recomendou que eu lesse Copo vazio, de Natalia Timerman (Todavia) por causa do podcast PPKANSADA. Caso você não saiba, sim, participo de um podcast com esse nome. Um dos episódios foi uma conversa sobre ghosting, a prática de sumir sem dizer nada e deixar a outra pessoa lá só divagando o que pode ter acontecido. Odeio sofrer ghosting, mas não vou mentir dizendo que nunca dei um. Todo mundo passa por isso em algum momento da vida, principalmente se a pessoa em questão foi um match do Tinder. Com a protagonista de Copo vazio não foi diferente. 

Uma das coisas que contribuem para a falta de vontade de viver, para mim, é quando a minha casa está desarrumada. Não sou a pessoa mais organizada, nem a mais limpinha, mas se eu deixo a casa chegar a um estado de quase abandono, meu humor só piora. A irritação aumenta conforme cresce a poeira em cima dos móveis. Limpar a casa acaba sendo, então, uma forma de terapia. Ver o chão limpo, as coisas no seu lugar, a louça lavada… Isso traz uma paz de espírito. Lendo Os tais caquinhos, de Natércia Pontes (Companhia das Letras), reafirmei isso para mim mesma: minha casa reflete meu (des)equilíbrio mental.