É ridículo que, ainda em 2019, as pessoas viram a cara ou dão um a risadinha vergonhosa quando falamos de literatura erótica. Acho que já estamos em um tempo em que o fato de as pessoas transarem – e de gostarem disso – não deveria ser motivo para tanta comoção. É claro que, na literatura, temos muitos exemplos de cenas sexuais pobremente narradas, outras totalmente constrangedoras, outras tão obscenas que é até ok dar aquela corada. Desde sempre se escreveu sobre sexo, de forma explícita ou não, então isso não é nenhuma novidade. A novidade é quando é bem escrito, sem tocar no assunto como algo vergonhoso ou escrachado.

Segundo Silvia Federici, “o ponto zero é tanto um local de perda completa quanto um local de possibilidades, pois só quando todas as posses e ilusões foram perdidas é que somos levados a encontrar, inventar, lutar por novas formas de vida e reprodução”. No contexto de O ponto zero da revolução, o segundo livro da autora de Calibã e a bruxa publicado pela Editora Elefante (tradução do Coletivo Sycorax), isso significa reconhecer a realidade em que vivemos e fazer um chamado para uma política em que as mulheres sejam reconhecidas como os principais sujeitos da reprodução de sua comunidade.

Identidade é aquela coisa que sempre estamos desenvolvendo, ou que estamos buscando descobrir qual é. É mais fácil quando sua família toda cresceu no mesmo lugar, com as mesmas referências sobre quem se é e onde vive bem claras e definidas. Para o protagonista de Meu pequeno país, romance de Gaël Faye (Rádio Londres, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto), a identidade e o lugar em que pertence não é uma questão tão clara assim.

Existe uma coisa com histórias de vida inteligente fora da Terra retratarem uma possível ameaça, ou naves gigantescas entrando no nosso espaço aéreo. Histórias bem cinematográficas, com imagens impactantes, sejam elas descritas em um livro ou criadas com grandes efeitos especiais nos filmes. Os “visitantes” podem ser ameaçadores e quererem destruir o mundo e escravizar os humanos. Ou podem ser seres tão confusos quanto a gente, que apenas querem se comunicar, mas não sabem como. Essas histórias mexem com nossos medos e esperanças, nos colocam naquele lugar de pensar: o que eu faria se isso fosse verdade?

Poucas coisas são tão desejadas pelo adulto moderno quanto horas ininterruptas do sono. Ao dormir, é como se todas as preocupações da vida evaporassem ao fechar dos olhos: trabalho, boletos, relacionamentos que deram errado, carreiras estagnadas. Um sono sem sonhos é o ápice do conforto e bem-estar. Queria eu dormir e acordar daqui a um ano, seja para ver as coisas melhorarem ou para ver o mundo pegar fogo. Mas pelo menos teria um ano inteiro de descanso extremo. Ou, como coloca a protagonista do segundo romance de Ottessa Moshfegh, um ano inteiro de descanso e relaxamento.

Os contos de fadas e filmes de terror estabeleceram a imagem da bruxa em nosso imaginário. Mulheres velhas, narigudas, com verrugas, que andam em vassouras e participam de cultos ao diabo em volta de fogueiras. Comem criancinhas e realizam outros sacrifícios. Jogam pragas e fazem feitiços. Crescemos com essa concepção de bruxa, e ela é, talvez, ainda a primeira coisa que vem na nossa mente quando ouvimos essa palavra.

“Faltava pouco para as oito da manhã quando o conselheiro titular Yákov Pietróvitch Golyádkin despertou de um longo sono, bocejou, espreguiçou-se e por fim abriu inteiramente os olhos. Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo, se tudo o que está acontecendo é de fato real ou uma continuação de seus desordenados devaneios.”

“Quando vê um cadáver, um tralfamadoriano pensa apenas que a pessoa morta não está em boas condições naquele momento específico, mas que em diversos outros momentos essa mesma pessoa está muito bem. Agora, quando fico sabendo que alguém morreu, dou de ombros e digo a mesma coisa que os tralfamadorianos dizem sobre os mortos, que é o seguinte: ‘é assim mesmo’.”